É assim que acaba o mundo*

eu poderia admirar seu sorriso
o dia todo
sem compromisso

e tocar seu peito
beijar seu pescoço
e encostar no seu rosto
o meu

sentir seu cheiro e suas mãos
que dançam em mim
e fazem tremer o coração

me joga na cama
e tira sua roupa
não nega o fogo que lança
e assim me deixa louca

o nosso ritmo é perfeito
nossa música é um gemido
seu prazer, eu leio
e eu termino, com um suspiro



* referência ao poema de T.S. Eliot


Fade Away

Como um corpo que apodrece ao entrar em contato com a água após algum tempo em baixo da terra
Como um ferro que se desfaz ao ser tocado pelo vento após algum tempo em baixo da água

" you were the shadow to my light"

Como uma lágrima que escorre no rosto soturno
Como o sangue que sai da mão que soca a parede

" I'm faded"

Todos os meus motivos são errôneos e eu não compreendo como é possível caber tanto desespero em um corpo tão pequeno. Todas as tentativas são falhas, elas já começam caindo. E meu flácido e desvanecido envoltório que pede um descanso eterno que sempre lhe é negado devido ao egoísmo alheio agora jaz nesse objeto feito de madeira, mas que me parece ser feito de prego, uma vez que minha cabeça não repousa nele.

Os outros que são apenas outros me olham, mas não enxergam. E julgam... E dizem coisas, que eu encaro com uma gargalhada, mas que dentro a alma chora e clama, mas não pode ser ouvida, visto que no inferno interior que carrego em meu peito estraçalhado som algum é permitido sair. E assim sigo nessa luta diária, comigo mesma? Não sei, porém, luto e canso, e levanto e caio, e até tento permanecer no chão, não por cansaço, mas por desistência. Eu já desisti há muito tempo, de fato.

O que faço aqui, então? O egoísmo alheio. 

A nadificação da vida faz mais sentido em minha mente desprovida da capacidade de reflexão nesse momento, estou sóbria, acredite, mas meu espírito está embebedado de uma paixão que desconheço o nome.

A cada dia que amanhece, cada luz diferenciada que adentra pela janela de meu quarto, não compreendo como estou onde estou e como cheguei a esse ponto, no entanto, após levantar-me, com esforço, chego à conclusão: "somos responsáveis por nós mesmos" dizia Sartre, e não culpo ninguém, nem deus, nem diabo, nem natureza, nem universo senão a mim mesma. Cada decisão e cada ação, e estando aqui diante deste incenso que numa tentativa falha de me trazer paz acaba por encher de cólera, digo apenas: como lidar com essa culpa? 

O tempo.

São tantos anos, mas nenhum vivido. Talvez um. 

Por que fazemos isso? 

Por que estou aqui? Assim?

A decomposição de meu pútrido corpo que jaz no quarto escuro é a resposta. Eu tentei, e no fim, eu estava certa.

Acabei como profetizei. 






Blut - Parte III

Você pode ler as partes I e II AQUI e AQUI

***

Alessa trajava sua vestimenta comum: um espartilho preto e roxo que delineava sua já desenhada cintura. Uma calça de couro preta que dava ainda mais forma às suas coxas grossas e quadril levemente largo. Um coturno com três fivelas que se transpassavam entre si. Como sua natureza não lhe permitia sentir frio, ela não colocou nenhum casaco ainda que lá fora o vento cortasse suas bochechas. Em seus olhos negro lápis preto e muito rímel. Na boca carnuda, um batom vermelho. Na cintura um largo cinto onde colocou uma arma de cada lado, mas dentro delas as balas eram hora prata hora fluorescentes. Ela estava séria quando trancou a porta de seu quarto na grande Mansão. Estava com raiva, furiosa, mas iria descontar todo o sentimento nos responsáveis pelo sequestro de Kira.

Ela só precisava descobrir quem eram.

- Onde a senhorita pensa que vai? - perguntou Pio - o até então comandante, rei, imperador ou qualquer outra coisa que queira chamar o dententor das regras na Grande Mansão - em seu tom de voz calmo e sereno, como sempre. Ele brincava com um fio de cabelo de uma vampira loira que sentava à sua frente. Sem olhar para Alessa, ele falava com ela como se ela fosse uma simples vampira e não uma forte e antiga sugadora de sangue e talvez a próxima rainha do clã.

- Não é do seu interesse, Pio.
- Talvez seja. Talvez eu até possa lhe ajudar.
- Como é que poderia me ajudar? Você mal sai desta casa.
- E talvez por não sair eu saiba de coisas que você não sabe.
- Isso não faz o menor sentido. Pare de me atrasar. Não tenho tempo a perder.
- Vai atrás de seu Kira? Será que ele aguenta até você chegar?

No momento que o nome Kira passou pelos lábios manchados de sangue de Pio, Alessa se virou subitamente e em dois segundos estava ao lado do mestre, com uma das mãos pronta para agarrar o pescoço frio do vampiro, mas ela se conteve e apenas disse:

- O que você sabe sobre o desaparecimento dele?
- Sei de algumas coisas.
- Me diga.
- Assim? Fácil? - nesse momento Pio deu um leve tapa na cabeça da vampira de modo que ela entendesse a ordem: sair. Assim, quando a moça não estava mais presente na sala, e Pio e Alessa estavam completamente sozinhos ele continuou:
- Minha querida, você é muito boa em tudo que faz... - ele fez a pausa, para forçar Alessa a se lembrar das noites de prazer que ele deu a ela, não fazia muito tempo. Ela entendeu a indireta, mas Pio era algo que não fazia mais parte de sua vida e tudo que ela queria era informações.
- Anda logo, Pio.
- Você me conhece. E pode ser boa em qualquer coisa, mas sabe que não dou informações de graça.
- O que é que você quer?

Pio se virou lentamente e seus olhos azuis encontraram os de Alessa. Ele sorriu e a puxou mais perto de si, ela tentou se desvencilhar,  mas não foi forte o bastante.

- Até parece.  - disse Alessa ao entender que Pio estava exigindo muito mais que um simples beijo, talvez.
- Você entendeu errado. Você sabe que em breve teremos votação para o novo Mestre da Grande Mansão.
- E daí?
-  Retire sua candidatura.
- Eu nem me candidatei, seu vampiro louco.
- Não, mas as pessoas te querem como rainha.
- As pessoas desta casa me odeiam.
- Mas odeiam ainda mais a mim.
- Isso é problema seu.
- Você quer salvar seu humano ou não, minha cara? - disse Pio soltando a cintura de Alessa e se voltando para a garrafa de whisky que se encontrava aberta e pela metade no carrinho de bebidas ao lado do sofá veludo preto, mas manchado de sangue em diversas partes.

Alessa pensou por dois segundos, mas sabia que não tinha escolha. Pio podia ser um completo babaca, mas se ele falava que tinha informações ele tinha.

- Combinado. Me diga o que sabe e eu garanto não fazer parte das próximas eleições.
- Combinado, então, minha cara. Vamos lá. - Pio bebeu uma dose do whisky que havia colocado para si, sentou-se na beirada do sofá, ajeitou os cabelos negros atrás das orelhas e limpou seu sobretudo preto. - Você sabia que Kira namorou uma moça, certo?
- Sim, uma ruiva. O conheci no dia que ela terminou tudo de vez.
- Ache essa moça e então achará Kira.
- Como assim? Ela é uma simples humana e bem menor que Kira, não seria capaz de sequestra-lo ou fazer nada contra sua vontade.
- Concordo com a parte do ''contra sua vontade'', mas ela não é uma simples humana, pelo menos, não tem sido nos últimos meses. - disse Pio escondendo nos lábios o sorriso sarcástico, mas que demonstrava sua satisfação,

O coração gelado de Alessa parou. Alguém havia transformado a ex namorada de Kira. Alguém que sabia que ela estava, de certa forma, namorando um humano, bebendo de seu sangue todos os dias, mas sem transforma-lo, jamais. Alguém tinha interesse na sua relação, e a única pessoa que ela conseguia pensar era justamente Pio, mas ele não iria contar tão facilmente o que acabara de contar se ele mesmo tivesse transformado a garota.

- Quem a transformou? E quando? E por que? - exclamou Alessa, seu tom de voz escondia o desespero que claro, Pio notou, mas era mais ainda perceptível a raiva que ela sentia.
- Essas são informações que podem exigir um pouco mais, Alessa.
- Só me diga o que quer, droga.
- Ainda não sei,  portanto, te direi o que sei e quando eu pensar no que quero lhe aviso.
- Que seja. Fale logo.

***

Um casebre mal cuidado escondido sob os escombros na mais remota parte da floresta que havia na saída da cidade um homem jazia no canto direito do único cômodo do estabelecimento. Suas mãos amrradas à beirada da cama, e seu tronco encostado na mesma. Sua camisa branca suja de sangue, barro e folhas secas. Os pés descalços e os sapatos jogados no outro lado do quarto. O homem respirava com dificuldade,  mas estava vivo, afinal.

Kira acordou de súbito. Quando finalmente seus olhos se acostumaram à luz do ambiente ele tentou descobrir onde estava. Forçou um grito, mas sua garganta seca mal permitiu que algum som saísse. Tossiu.

- Olha quem acordou! - uma voz feminina e aguda surgiu do breu que agora cobria a casa, a lua estava saindo.
- Quem es-tá... aí? - perguntou Kira, com dificuldade.
- Não reconhece minha voz, amor? - disse Sam ( ex-namorada de Kira)
- Sam? Sam é você?

Então a garota saiu das sombras e mostrou seu sorriso sujo com o sangue de Kira, girou para mostrar o vestido vermelho que vestia, e caminhou trincando com sua bota de salto fino. Agaichou para ficar na altura de Kira e disse:

- Mas é claro.
- Por que fez isso?
- Isso o que?
- Você terminou comigo, você não quis voltar e agora você é... você é
- Uma vampira, amor. Isso mesmo. Uma vampira.
- Mas por que? Como? Quando? Onde?
- Blablablabla, estou com muita preguiça pra explicar essas coisas, vamos ao que interessa. Você, eu... felizes para sempre. - e se levantou à medida que falava seu plano, olhando para o nada como se estivesse realmente dizendo algo que faz sentido.
- Você está louca! - esbravejou Kira e tentou desfazer os nós, mas não conseguiu, apenas apertou-os ainda mais machucando os pulsos já feridos.
- Sempre fui.
- Não! Você está louca de verdade. Estou com Alessa agora.
- Aquela coisa. Ela não te merece, Kira. Ela está usando você.
- Você ouve as coisas que fala? Me solta, Sam e vamos para com isso tudo.
- Eu não posso soltar você até que tenha se alimentado.
- Como assim me alimentado? Você não? ... Você. Sam. Você me matou?
- Mas é claro, bobinho. De que outra forma eu poderia lhe transformar em vampiro?






Perdido

Cravo minhas unhas nas costas largas
me permito ser preenchida, sem amarras
cada respiração
nova pulsão
um só ritmo
jamais compreendido

suas mãos desfilam pelo meu corpo
e minha língua passa por você todo

meu cabelo se desmancha no seu peito
e seus braços fortes me envolvem
eu me entrego sem receito
e o prazer e a paixão nos envolvem

(...)

um dia termino, quem sabe...

Rape me

O seu silêncio me estupra
sua voz não me escuta
o seu toque me machuca
pois ele não existe
e eu sigo na luta

os meus esforços são em vão
por quem bate seu coração?

estou jogada no chão
sem roupa e sem atenção
enquanto você sorri 
conseguiu, afinal, meu fim

[...]


Quem sabe um dia eu termino esse

Ao poeta

" Somebody said you've got a new friend"


Como uma estrela cadente você caiu; eu era apenas o céu sem luz aguardando você me iluminar. E durante sua passagem, que foi lenta, eu me preenchi de energia. 
Eu tentei me vestir de anjo e tentar lhe tocar, mas quando o fiz você se afastou como se pudesse sentir minha escuridão, meu medo, minha dor. 
Eu tentei entrar em  seu mundo, mas fui expulsa como o diabo foi do céu. 
Mas não tive ao meu lado demônios. 
Estava sozinha; tentando encontrar meus motivos sempre errôneos.
Foi então que meu amigo chegou e você, de certa forma, se apaixonou. 
Não questionei, segui.
Não hesitei, parti.
Ao menos, tentei.
Mas você era a onda que me puxava da areia simplória e me arrastava e me afogava no seu próprio mar.
Assim aprendi a ressuscitar. Como todo ser das trevas eu voltava, na instintiva tentativa de adentrar, no mundo da luz. 
No seu mundo, é claro.
Mas jamais haveria de conseguir, de fato.

Ao poeta resta palavras, não amor.
Ao escritor resta papeis, não cartas.
Ao poeta não resta sorriso, só dor.
Ao escritor não resta verdade, apenas falácias.

A mim, não resta nada. 






Heavy


seus dedos dedilhavam as cordas com maestria
mas melhor ainda era o dedilhado que fazia
em meu corpo nu à noite

o seu corpo desprovido de roupa, mas cheio de essência
se encaixa no meu perfeitamente e sua voz, dotada de eloquência
é a música que me embala o sono, mas também me tira o juízo
e olhar pra você é apenas o que preciso

nossos cabelos mesclados e bagunçados na cama
a respiração entrecortada, o coração bate forte, e a Chama
que sai de mim e passa pra ti e então sentimos a Brisa
que entra calma pela janela e estremeço, uma vez que
estou nua
mas envolvida no seu corpo quente, me aqueço
como se estivesse em uma Duna

Os registros de nossos momentos serão eternos
nem o tempo nem espaço
são capazes de apagar esse aconchego e calma serenos
e diante do teu sorriso me calo

não há destino, mas sabemos onde vamos estar
e longe, distante ou do seu lado
a conexão não há de se perder
há uma escrita a se fazer
e sonhos para viver

de outras vidas que te conheci
agradeço sim
a Odin
por me presentear com sua presença
a jovialidade imensa
que é poder contar contigo

o metal nos uniu
e nem fogo escaldante há de separar
e seja aqui ou lá
a música que embala nossas vidas
sempre irá tocar

e ainda falarão sobre nós dois
como tudo foi e depois
sentaremos juntos para um café
para lembrar, sorrir e refletir
sobre o que a vida realmente é


Para ele ... Obrigada