Deixe o rio seguir

Se eu flor
tu és
meu ser
e nós floreseremos

Se tu amas
m(eu) amor
tu és meu (a)mar
e nós nos amaremos
até nos (a)fogar

E a Lua
            sou
E o Sol
           você
tu és também
o doce caminhar

à noite somos
    o Luar
e à tarde brindamos
o nosso próprio
     amar

O chalé é aconchegante
a lareira nos aquece
as árvores dançam com vento
que desce
e não choram com a chuva
que derrete
a vitrola toca o disco; o livro é lido
o café está quente
a casa é sua, meu bem
deixe-me amar-te eternamente?

Farewell Letter

Eu era a Lua
e você era meu Lar
juntos nós éramos
o mais belo Luar


***

"Eu era a pedra no meio do caminho"
a dor do ferido em desatino
eu era a ferida sem corte
eu era o azar que havia na sorte

eu era a mão que joga a pedra
o sangue escorrendo na testa
eu era o fluído que arde e não se estanca
eu era a dança jamais vista, a pele que se arranca

não havia cicatriz no corpo
pois o machucado jamais se curava
não havia sorriso no rosto
pois ela percebeu que ele não a amava

a questão nunca fora o amor
e sim, era sempre a dor
a questão nunca fora amar,
e sim, ser incapaz de perdoar

eu era os olhos do defunto infeliz
eu era a o mal sem raiz
eu não dormia, não comia
eu não podia continuar viva


Eclipse



Se eu fosse Sol
tu serias um Verbo*
E juntos seríamos 
um lindo Solstício de Inverno 

Mas somos mais que isso
Somos o mais belo Eclipse
a mais incrível arte.

E assim eu sigo
nessa deliciosa aventura 
de apenas saber amar-te















O verbo aqui se refere à etimologia da palavra Solstício que vem da junção das palavras Sol + Verbo Latino Sistere que significa sem movimento. Durantes os Solstícios, a trajetória do Sol para Norte ou Sul parece suspender, como se ''parasse''. 


Sobre Camões




A dor é água que cai sem se ver
é aflição que chega, mas nunca vai
é uma agonia que entra e não sai
é um machucado que se pode ler.


É querer correr e não poder andar
é uma caminhada solitária entre o eu
é nunca estar bem de fato para continuar
é a angústia do que nunca foi meu


É tentar fugir mas continuar preso
na própria mente que lhe atormenta
é a dor que desatina em excesso
no corpo cansado, mas que não acalenta


"Mas como causar pode seu favor"
na vida ferida chegar e que faz sofrer
se tão contrária é a si mesma a dor de viver?


















Paráfrase que fiz sobre o poema de Camões. Esse é um poema sobre a depressão, sobre dor e sobre luta.

Decadence

Costumávamos ser um quadro muito bonito. Ainda somos, mas agora manchados. É como o vidro que quebra. Você pode conserta-lo, mas ele sempre apresentará as rachaduras. Elas são impossíveis de serem apagadas. Assim como o quadro. A beleza dele continua, mas há uma marca que bloqueia todo o resto. É impossível não prestar atenção à mancha, pois ela evidencia a decadência.

***
















Um dia..termino esse texto... Ou não

...

" A dor precisa ser sentida. "

- O que você tem?
- Dor.
- Tomou algum remédio?
- Acho que não inventaram remédio para esse tipo de dor.
- Explica.
- Não sei explicar.
- Tenta.
- Não dá. Uma tristeza sem motivo, um desânimo contínuo, um aborrecimento desatino, uma dor eterna.
- Entendi.
- Não, você não entendeu. Ninguém entende. A depressão é uma língua compreensível apenas para aqueles que a sentem. Impossível de traduzir...

(...)

- E o que vai fazer a respeito?
- Não há algo a se fazer.
- Sempre há algo a se fazer.
- Se houvesse... Todos nós teríamos tentado, mas aparentemente a única solução é a mais cruel e inaceitável para a sociedade.
- Sim. Não escolha essa solução.
- Eu a escolho todos os dias, mas volto atrás quando coloco a cabeça no travesseiro.
- E o que vai fazer agora?
- O que sempre fazemos. Colocamos um sorriso no rosto e dizemos: bem obrigada, e você?
- Vou bem também. Aliás, ótimo.
- Que bom, fico feliz.
- Que bom que está melhor.
- Sim. Estou...

(...)

- Você já tentou explicar para alguém o que sente?
- Claro
- E?
- E nada. Cada ser humano sente as coisas de uma forma, e por mais que escolhamos as palavras certas traduzir sentimentos é coisa de poeta, e nem sempre eles são bem sucedidos na profissão.
- Ninguém foi capaz de lhe entender?
- Não. Sou uma pessoa horrível, complicada e ... não quero mais julgamentos.
- Entendi.
- De novo. Não entendeu.

(...)

Love song

" I love you like a love song, baby "



Todo ser humano é passível de engano. Portanto, eu, ainda que na categoria dos demônios errantes da Terra, enganei-me certa vez ao pensar ter encontrado um anjo que fosse capaz de amar um ser da Trevas. Enganei-me ao crer, erroneamente, que esse anjo fosse detentor da capacidade de perdoar. Mesmo que fosse, o ato foi tardio.

Uma vez que me  vi livre das amarras e correntes que esse anjo uma vez me pusera  encontrei -me temerosa em permitir que, novamente, um ser dos Céus e de Luz entrasse e minha vida. No entanto, "we were born to die" e pareceu-me sensato dar uma nova chance, a um novo anjo, o mais brilhante de todos. Pois esse era O anjo, e mesmo assim abandonou sua parte demônio, logo, me compreendia, me acolheu, me amou. Com verdade, e com o verdadeiro amor ainda que esse sentimento seja questionável quando se tratando de seres das Trevas como eu.

De Trevas e Luz nós éramos feitos, e essa mistura perfeita foi o que nos permitiu seguir juntos.
Como a mixagem do som que antes era incompreensível, uma vez ao nosso redor tornou-se a mais bela canção. Com vozes grossas a nos receber no Grande Salão da Vida, e outras tantas guturais para nos dizer adeus. Combinamos a nosso modo. Ao nosso jeito. O que de Escuridão lhe faltava eu pude preencher, e você com toda sua luminosidade pode tornar-me cheia de Luz.