Ensejos.





E lâminas, e dor, e lâminas e cortes.




    E fui idiota ao pensar que haveria de ter passado aquele tempo. O qual eu silenciosamente aliviava minha angústia de outra forma que não fosse escrever.
   Não sabem que as palavras vociferadas machucam. Não sabem como penso nem o que quero. Mal sabem que eles me ferem. Todos. Todos vocês. Não que se importem, mas são poucos que irei revidar.
   Como gostaria eu, de ser boa e capaz. Como gostaria eu, de conseguir. E sonhar e crer e realizar. Mas não, não sou assim. Ninguém, contudo há aqueles que algo alcançam, pequeno mas sim alcançam.
   Foram-se os tempos de glória. Ensejo um leito para pousar minha cabeça e corpo pesado. Ensejo um leito, negro com forro roxo, de mármore e quente. Ensejo uma paz. De tudo, de todos, de mim.

A pureza



                            A pureza é a capacidade de contemplar a mácula. Simone Weil

         Ela era tão pura e tão bela. Tão centrada e tão moralmente correta. E todos a admiravam, e a amavam. Sim, ela só era o símbolo da perfeição. Ainda que em cada sorriso escondesse uma lágrima, ou que internamente quisesse fugir, ela era a melhor. Tão cativada, tão esperta, construiu para si um mundo paralelo, e fez deste seu castelo. Livros, música, filmes. Esses eram seus passatempos, ou melhor suas razões de vida.
        Ela era tão pura e tão bela. Tão centrada e tão moralmente correta. Cada passo seu era uma escrita nas calçadas, cada palavra sua era uma batida nas músicas da cidade. E cada respiração, um alivio para aquele mundo vil. O nosso mundo vil.
        Ela era tão pura e tão bela. Que era quase impossível descrever tamanha grandeza em um ser tão jovem. Era como se ela fosse a sementinha de uma rosa vermelha, esta fora plantada em um jardim secreto, havia uma cerca ao seu redor, para que ela não se misturasse com as outras flores e com o resto da grama. Ela havia de crescer naquele espaço. Contudo, quando ela cresceu demais, ela decidiu se mostrar para o mundo, mas a seu modo. Nunca foi de chamar atenção para si, ela só queria conhecer o mundo, não fazer parte dele. Então permaneceu na sua cerca, com seus livros, música e filmes.
       Ela era tão pura e tão bela. Tão centrada e tão moralmente correta. Sua alma não fora corrompida e nem haveria de ser, ela já tinha seus objetivos e desde pequena não se deixou levar.Só havia um problema...
Ela...não era Eu.

O Cão


E aquele pobre animal agonizara por três dias.
   
A barriga do pastor alemão inchara de uma hora para outra. O veterinário disse que era um tumor, ou câncer. No fim, não fez diferença. A moça, dona do cão, não suportou sequer olhar para o animal. A agonia deste a entenebrecia, deixava-a soturna como nunca antes chegara a ficar. Na área de sua casa, o cão ficou na posição em que o marido o deixou: deitado com a barriga para cima.
   
Colocaram um pote com leite ao lado, ele com dificuldade cheirou, mas não conseguiu beber. Deram carne moída, e era possível perceber que ele queria comer, mas era incapaz de tal feito. O que mais machucava a moça, era que um dia antes apenas foi como se o pastor alemão tentasse se despedir. Ficou o dia todo atrás dela, pedindo carinho, chorando. E ela amargamente o rejeitou. Não que ela não o amasse, mas tinha um filho pequeno e precisava dar atenção a este.
   
O cão vez por outra naquele dia foi em sua direção, e ela, jogou-lhe água e xingou. Mas ela se arrependeu. O seu amigo, que estivera com ela por mais de seis anos, estava à beira da morte. Deitado na área de sua casa, sofrendo. E não havia nada que ela pudesse fazer. Não tinha dinheiro para cirurgia e já tinha gastado com remédios.
   
Então, ela se sentou ao seu lado, segurando com todas as forças as lágrimas no rosto. Pegou um livro e começou a ler para ele. Leu até que não suportou, e viu gotas molharem as páginas brancas de seu livro. Acariciou o pelo macio de seu cão, este olhou de volta, levantou levemente a cabeça, soltou um som bem baixinho e ela pode ver a vida lhe deixar o corpo. Pode ver nos olhos negros daquele seu amigo, o que ele tentou dizer, mas por natureza não conseguia. Dizer que a amava, e que fora muito bom os tempos que com ela passou. Por fim agradeceu, e morreu.

(Inspiração de um café da tarde- Homenagem a uma colega de trabalho- )

Meu Ser


A precípua parte de meu ser, nesse momento, como em tantos outros, sucumbiu à morte.

  Nunca havia eu de ter andado com tanta diligência. Contudo, não consigo enxergar onde foi o erro. Como, e mais importante por quê. Por quê sou assim ? Poderia mudar ? Transformar ?
   Metamorfizar ? De fato, se  pudesse, já o teria feito.
  Essa minha condição é inerente à minha dor. Não compreendo, não sei, tenho medo e falharei. São tantas palavras, tantos sermões. É muita pressão. Querem minha glória ? Não, não querem. Apenas fingem querer. Fingem. E isso me enoja. Acabrunhada eu me sento. Soturna eu caio. Inativa estou.
      Tempos obsoletos. Sim, ensejaria eu vivê-los.
  E agora o que irei fazer ? Mal sabem que não faço ideia. Decidi há um certo tempo o meu futuro, mas não compreendem que não sou capaz de alcançá-lo. Não por falta de vontade, mas sim, incapacidade. É como se eu estivesse morta por dentro, morta há um certo tempo.
  Sempre que estou caminhando, sempre que creio enganosamente que estou na estrada certa de alguma forma essa digressão corrupta me invade o espírito. Isso é claro, se eu tenho alma. E incessantemente eu me levanto, e tento uma, duas e três vezes ou mais. Sempre na crença de que um dia vencerei. Mas quando é que vou admitir, que perdedores e fracos não vencem ? Que sempre haverá, os fortes e os melhores. Usar de subterfúgios não adianta. Os moralmente corretos são por natureza complacentes e dessa forma não são devassos é claro e isso faz deles, os escolhidos.
  Meus escritos inauditos só me servem de refúgio desse mundo sem glória. Uma fuga das pessoas esquecidas da vida, de mim e delas próprias.


Canção da Angústia




Minha terra tem corruptos
Que só pensam em roubar
As pessoas que aqui vivem
Não querem mais lutar.

Nosso céu tem mais prédios
Nossas várzeas tem mais poluição
Nossos bosques não existem mais
Nossa vida é só destruição.

Em cismar, sozinha, à noite
Mais tristeza encontro cá
Minha terra tem corruptos
Que só pensam em roubar.

Minha terra traz-me dores
Que tais não sei como cessar
Em cismar, sozinha à noite
Mais tristeza encontro eu cá
Minha terra tem corruptos
Que só pensam em roubar.

Não permita povo que eu morra
Sem que eu consiga meios para vencer
Sem que eu desfrute de um país limpo
Onde com justiça possamos viver
Onde os corruptos hão de sucumbir
E de uma vez por todas parem de nos destruir.


O garotinho.

          Havia um menininho.Bem pequenino.E ele tinha todas as dores do mundo dentro de seus olhos. Eu vi. Eu enxerguei as dores naqueles olhos pretos e grandes. Tão pretos quanto à escuridão nas noites sem lua. E ele olhou para mim como alguém que secretamente pede ajuda. E eu vi não somente o seu pedido, mas o de todos os escolhidos. 
    E no final todos éramos escolhidos, pois todos vivíamos em um mundo de trevas. Ele olhou para mim; eu internamente assustei-me. E ele olhou de novo, mas pestanejou em seguida, depois virou-se para o encontro de seu pai.
    E seu pai, os olhos azuis destacavam-se no rosto cansado do trabalho, um rosto moreno e velho. Ele chamara o menininho, este fora ao encontro sem contestar, é claro. Correu e antes de ir embora de uma vez por todas, voltou o corpo em um giro completo e olhou nos meus olhos uma última vez. E eu pude ver ainda mais claramente, não apenas a sua dor, mas todas as dores do mundo dentro de seus olhos.

Refúgio.

São nestes versos que me refugio. Sabe-se lá do que. Das angústias que me perseguem, dessa força que me traz ao chão e que me prende não me deixando respirar. É no ato de escrever que minha dor cessa.

Súplica

       

                E aquela dor voltara. Mas como ?  E de onde surgira ? Enganei-me ao pensar que a havia enterrado. Soterrado as lágrimas junto às mágoas. Mas não, ela está de volta e parece estar mais forte.
               Puxa-me para teu buraco negro, suga-me as poucas forças que me restam. E o que irei de fazer ? Lutarei ? Mas para quê afinal ? Não sei o meu rumo, o tomei sem reflexão.
               Não sei como ainda perduro aqui. Meu corpo, ele há muito desfaleceu. E minha mente, ó ela esta repleta de pensamentos malignos e vis. Minha mente não me deixa progredir, não sei o que há de errado.
               E como irei lutar contra algo que não posso ver ? Responda-me alguém, tem alguém aí ? Ah, mas é claro que não. Ninguém me escutaria afinal. Por quê se importariam.
              Tanto faz se alcanço objetivos ou se morro no fracasso. Mas...ó esse corpo pútrido internamente força-me a levantar todos os dias, por quê relutas tanto ?
               Seria muito mais fácil jazer em um leito assim como já o fizera há tempos. Lembra-se disso não ? É claro que sim, não há como apagar esse passado.
               Aliás, todos os meus arrependimentos visitam-me ao longo das horas desses meus dias sem glória.

Insônia


''Não durmo,jazo, cadáver acordado, sentindo,

E o meu sentimento é um pensamento vazio.

Passam por mim, transtornadas coisas que me sucederam,

__Todas aquelas de que me arrependo e culpo;

Passam por mim, transtornadas,

coisas que me não sucederam

__Todas aquelas de que me arrependo e culpo;

Passam por mim, transtornadas ,coisas que não são nada,

E até dessas me arrependo,

me culpo, e não durmo.''

                                Álvaro de Campos ( heterônimo de Fernando Pessoa )

Why ?





     Por quê ? Eu me pergunto por quê e nada mais. Como eu fui me tornar isso ?
Isso ?
É, isso. Não sou um ser, sou apenas isso.
     Eu sou cruel e inútil. Eu deveria ter partido quando a Morte me visitava todos os dias naquele leito de hospital infernal. Mas eu quis lutar horas, pra quê hein ? Pra chegar hoje e ferir mais do que fui ferida. Como eu odeio essas mãos, essa boca que só diz o que não presta. E eu, ah, eu acabarei sozinha, da mesma forma que já me senti e estive por tanto tempo. A diferença é que vou estar sozinha por que ninguém vai querer estar comigo. O ódio perfura minha pele, rasga e estraçalha. A dor, ela transpassa meus ossos. A agonia, eu respiro como se...como se já estivesse morta. Eu não consigo, não consigo. Não sei, não sei. Eu não quero, pois sei que vou falhar com...Todos. E eu tenho medo de machucar de novo. Eu não consigo mais suportar esses sofrimentos. Sofrimentos que eu causo. Ninguém tem coragem de me dizer, mas a verdade é que todos desejam a minha partida. E bem, eu posso ajudar, eu preciso apenas de um pouco de...



I can't remember the day i wrote this.

A estrada.







            De longe o fim da estrada parecia tenebroso. Dava um medo começar a caminhada. Mas ela respirou fundo, apertou  o livro que segurava contra o peito e lentamente começou andar. Olhava para os lados e não havia ninguém. Estava sozinha. Sozinha naquela caminhada sem destino aparente, sozinha nas decisões iminentes e sozinha...Sozinha consigo mesma. De repente ouviu-se um ruído, era como algo se emaranhando pelos arbustos que acompanhavam a rua, ela parou receosa do que poderia sair de lá. O coração palpitava e aos poucos acelerava-se...Ainda mais. E quando  menos esperou um gato. Um gato preto surgiu dos arbustos e galhos quebrados e ela se acalmou. Enfim, ao menos uma companhia pensou a jovem. Se aproximou do animal para afagar-lhe os pelos, mas ele correu. E estava correndo em direção ao fim da estrada.
           Medo. Sozinha novamente ela sentiu medo. De continuar. Temia falhar. E ali, no exato espaço que dividia a rua em metades ela parou. Sentou-se e abraçou o livro. Sua companhia durante os tempos de solidão. Sua companhia durante...todo o tempo. O vento cantava nos seus ouvidos, vento frio e que ao roçar suas bochechas dava a impressão de querer dizer que devia continuar. Era preciso, o final da estrada a aguardava e ela podia não saber o que a esperava, mas ele estava lá, esperando por ela...
           Levantou-se. Pestanejou e continuou, continuou a caminhada que não sabia quando teria fim, mas continuou. Era preciso. Era preciso.



    Afinal não é isso que se resume a vida ? Caminhamos em direção ao fim da estrada que esconde coisas, que nos atemoriza, que nos dá esperança, conversamos sozinhos nessa caminhada, mas no fim temos de continuar caso contrário não há sentido nenhum na vida.

Inner Vision: Inexistência

Inner Vision: Inexistência: Então você olha para trás e vê que nada construiu, nem uma lembrança. Você percebe que, em algum tempo, ninguém pensará em você, ningué...

Somos feitos de que ?



Somos feitos de Medo. Vivemos construindo fracassos. Andamos lamentando o passado. Somos feitos de dor. Vivemos angustiando o futuro. Não sabemos o que vale no presente. Somos feitos de insatisfações das quais não fazemos ideia de onde surgiram. Vivemos sem rumo numa direção errada. Andamos traçando caminhos banhados em desespero. Somos seres que não sabem o que é viver, morrer, existir, sobreviver e nem a diferença disso tudo.


11 months ago.

Inner Vision: O Absurdo

Inner Vision: O Absurdo:            É que então vem  o cansaço. Um tédio de morte em um ar abafado.          É que então um peso enorme me acomete, como se sustentas...