O Cão


E aquele pobre animal agonizara por três dias.
   
A barriga do pastor alemão inchara de uma hora para outra. O veterinário disse que era um tumor, ou câncer. No fim, não fez diferença. A moça, dona do cão, não suportou sequer olhar para o animal. A agonia deste a entenebrecia, deixava-a soturna como nunca antes chegara a ficar. Na área de sua casa, o cão ficou na posição em que o marido o deixou: deitado com a barriga para cima.
   
Colocaram um pote com leite ao lado, ele com dificuldade cheirou, mas não conseguiu beber. Deram carne moída, e era possível perceber que ele queria comer, mas era incapaz de tal feito. O que mais machucava a moça, era que um dia antes apenas foi como se o pastor alemão tentasse se despedir. Ficou o dia todo atrás dela, pedindo carinho, chorando. E ela amargamente o rejeitou. Não que ela não o amasse, mas tinha um filho pequeno e precisava dar atenção a este.
   
O cão vez por outra naquele dia foi em sua direção, e ela, jogou-lhe água e xingou. Mas ela se arrependeu. O seu amigo, que estivera com ela por mais de seis anos, estava à beira da morte. Deitado na área de sua casa, sofrendo. E não havia nada que ela pudesse fazer. Não tinha dinheiro para cirurgia e já tinha gastado com remédios.
   
Então, ela se sentou ao seu lado, segurando com todas as forças as lágrimas no rosto. Pegou um livro e começou a ler para ele. Leu até que não suportou, e viu gotas molharem as páginas brancas de seu livro. Acariciou o pelo macio de seu cão, este olhou de volta, levantou levemente a cabeça, soltou um som bem baixinho e ela pode ver a vida lhe deixar o corpo. Pode ver nos olhos negros daquele seu amigo, o que ele tentou dizer, mas por natureza não conseguia. Dizer que a amava, e que fora muito bom os tempos que com ela passou. Por fim agradeceu, e morreu.

(Inspiração de um café da tarde- Homenagem a uma colega de trabalho- )

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