O sonho





   Ela estava dormindo, de repente acordou em um cemitério. Havia corvos nas árvores e ela caminhava sozinha. As árvores pareciam ter sido queimadas, mas não havia cheiro de fogo. Estavam pretas de trevas. O céu, no entanto, estava claro e belo. Ela continuou a caminhada até que parou assustada. Havia uma lápide com seu nome nela. De súbito a tumba se abriu, e um caixão preto agora estava em cima desta. Ele abriu-se sozinho e uma moça de vestido branco jazia morta ali. Era ela mesma, e isso a assustou ainda mais. 
    Mas ela fitou o corpo depois de acalmar-se, achou instigante observar-se morta. De repente, pombas surgiram e pássaros negros diferentes dos corvos passaram a se aproximar, ela os afugentou, não queria que devorassem seu corpo.
   
Fechou o caixão e coloco-o de volta na tumba. Enterrou a si mesma.

PS: Essa descrição foi um sonho que tive há algum tempo, foi interessante e achei ainda mais ter que registrá-lo, não é a primeira vez tão pouco será a última que sonho com a morte, seja ela de minha pessoa seja de outras.

Reflexão ou qualquer outra coisa.

    É sabido que somos seres faltantes. Ou seja, sempre buscaremos algo que nos faça feliz. E esse '' algo'' é sempre efêmero. Isso quer dizer que em determinada época que encontramos o algo, logo em seguida ele não nos satisfaz mais, e passamos a buscar outros 'algos'.
    Ainda assim, da mesma forma que somos seres faltantes somos seres angustiados, ou como diria o filósofo Sartre, nós somos a angústia. Acompanhada ou inerente à angústia está a tristeza. Quando de fato não conseguimos o algo que tanto batalhamos a tristeza torna-se maior. Na verdade, nem precisamos estar buscando alguma coisa, a melancolia está intrínseca ao que podemos chamar de natureza humana. Isso devido ao fato de os seres humanos vivenciarem a realidade tal qual ela é. Em suma, nossa vida é  agonia. É um pensamento ruim, mas real.

   O trabalho como forma de dignidade ou construção da vida do homem é tão antigo quanto a existência do mesmo.  O mundo hoje é capitalista, logo o trabalho está sob um pedestal. Se tens um trabalho és um ser digno, caso contrário és um ser deplorável. A questão no entanto, é que o trabalho paga as dividas e não as tristezas. Mas, dentro dessa mesma questão encontramos outra: Como pode um ser angustiado e tristemente   miserável trabalhar ? Vemos claramente hoje o que acontece. Depressão. O mundo está doente, as pessoas estão. Logo, há divergências quanto ao esforço físico para conseguir dinheiro. Para que você quer esse dinheiro ? Para encontrar o seu ''algo'' ? Para distrair ? Para fugir ? Enfim, qual o seu buscar ? O trabalho vem como solução de todas essas perguntas. Da mesma forma que responde à afirmação de tristezas não pagam dividas. Mas, as alegrias também não. Portanto, não importa o seu trabalho, por que trabalha, você está fadado a tristeza como todos. A tristeza de nenhuma das pessoas salvou-as de uma ''divida''. A não ser um escritor que escreve um poema ou texto sobre sua tristeza e esses vendem muito e assim ele paga as dividas. Mas, normalmente as pessoas se reergueram do momento mórbido e trabalhou. Logo depois voltou-se para a melancolia é claro. Ou seja, os seres humanos são condenados, cabe contudo, a cada um decidir como irá cumprir uma certa sentença. Nenhuma é reconfortante, mas podemos decidir quando sucumbir de certa forma às dividas geradas pelo sistema consumista e capitalista.



( Este texto foi um pedido de redação da aula de filosofia em cima do tema ''Tristezas não pagam dívidas, o trabalho paga'', eu sei que ficou bem filosófico ou não sei se fugiu do tema, mas foi o que escrevi.)

The Master Pain






    Imagine-se em um quarto branco e fechado. Você abre os olhos e vê o teto manchado. Manchado de olhares que passaram por ele, não uma ou duas, mas várias vezes. Em seguida você vira seu pescoço para o lado com muito esforço, é claro, e vê sua mãe sentada em uma cadeira desconfortável, e não pode ver o rosto dela, pois ela o apoia nas mãos enquanto chora silenciosamente para não te acordar.
   
Você retorna a posição de dormência e fecha os olhos, não por estar com sono, mas por estar cansado de mantê-los abertos. Teme que os feche e nunca mais os abra, contudo fica indeciso entre ser algo bom ou ruim. As dores, todas elas terão um fim, mas a agonia e desespero daqueles que o amam e o acompanharam até o presente momento terão o seu auge assim que der seu ultimo suspiro.
   
Não, você não diz adeus, pelo menos não naquela hora. Você respira, sim, com dificuldade, mas com muita força solta um gemido para mostrar que ainda está vivo. Sua mãe se levanta e enxuga as lágrimas, olha para você e diz: Que bom que você acordou.

Plenilúnio





      Eu estava olhando a lua cheia quando subitamente ela desapareceu. Como em um passe de mágica. E logo, eu pensei: Como ? Como isso aconteceu ? De repente, o céu por completo estava negro, sem estrelas, sem lua. Eu estava na sacada, e um frio descomunal tomou conta do ambiente, do mundo por completo. E finalmente compreendi, que a lua cheia não havia desaparecido, o céu é que havia entenebrecido. Foi então que me dei conta, de que o frio era a vida morrendo. A vida de todos ao meu redor, assim como a minha vida, minha alma havia se perdido nas trevas há tanto tempo. E sem ação, como sempre, eu contemplei o céu de trevas. E foi bom, pois pude depreender a razão de todo o resto.