Morte ao Natal

Um banco no meio do campo.
Uma menina.
E sentada no banco ela sorria.

(I found myself in pieces )

E o banco era branco
O mato balançava verde
O vento insistia
E ela sorria

( I found myself dead )

E de repente, alguém do nada surgiu
E ela no seu íntimo
Depois de fechar os olhos pediu

( pediu que fosse aquele alguém )

Mas em uma noite fria e silenciosa a Lua brilha sozinha. As estrelas a abandonam no céu negro. Não conseguimos enxergar nada, pois nossos olhos estão cegos de falsidade. Na Véspera é tudo alegria,vestidos  bonitos e ternos, comida e abraços, mas logo tudo é esquecido. As dores voltam e a rotina é normal. As contestações farão parte novamente e as promessas são mais que esquecidas. São enterradas em um baú em baixo da Terra que um dia glorificamos. Nós olhávamos para ela e costumávamos dizer que ela era boa para plantar e dar de comer...Mas hoje ela é feita de concreto e o baú está mais que enterrado, ele está soterrado em cimento frio.

Mas a menina lutou contra  a força maligna que parecia exaurir de seu corpo frágil; insistiu em sorrir. De nada valeu. Ninguém veio. De repente, uma estrela cadente rasgou o céu enegrecido e escondido pela Lua majestosa. E a garota não negou as crenças. Fechou os olhos mais uma vez e fez seu pedido. Eu quero que... Eu quero que... Ah, apenas esteja comigo hoje.

A estrela continuou seu caminho. As horas se passaram. O ventou foi e voltou. As árvores protuberantes a sua frente em vão tentaram ficar imóveis. O céu pareceu ficar mais escuro...mas eram apenas trevas. Apenas trevas, garota. 

E ela...depois de finalmente desistir e chegar à conclusão de ninguém viria se levantou do banco branco. Olhou para a floresta guardando atrás das lágrimas uma última esperança.

Mas ninguém veio. Ninguém foi. Exceto a garota que tivera uma Véspera mais que triste, mais que dolorosa.  Ficara esperando, em vão, durante muito tempo. Tivera uma véspera sozinha sim. 

Desde então, deixara de acreditar em finais felizes e promessas de Natal. Deixara de acreditar em estrelas cadentes e pedidos a forças superiores.  A véspera fora sozinha, e o Natal haveria de ser solitário... como o restante de seus dias.







Sobre a ausência

O que encontro é Ausência. Perdida e desconsolada. Uma ausência de mim mesma. Pouco compreendo a seu respeito, mas ... Respeito. Admiro. A ausência não é falta, mas sim presença. Um paradoxo perfeito, visto que ela se perde em mim, mas é nela que me encontro. Ao saber que algo falta busco-o incessantemente. Mesmo sem de fato encontrar... satisfaço-me, pois... sei que busquei e, por algum momento minha deplorável pessoa teve uma razão...Motivo.
Entristeço-me ao saber, porém, que perdi algo... Os algos que costumo perder em geral voltam...Em pensamentos dolorosos de martírio. Infelizmente é somente dessa forma que voltam.

A ausência de meu ser é o algo mais angustiado que cheguei a perder. O espelho é uma arma mortal. O tempo é uma arma fatal. Eu tento ininterruptamente entender a razão de como cheguei aqui, sem saber quem sou nem porque sou. Uma vez que permito meu descanso,sorrio, mas é em vão. A ausência mostra-se presente novamente. Por fim, depreendo que é essa bucólica razão que faz de mim... eu mesma.



"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."
- Carlos Drummond de Andrade

Não lastimo a ausência, até mesmo porque não haveria lastimas suficientes. Por isso, acolho-a nesse momento mórbido e sorrio junto dela. Ausência. Fazes parte de mim e por ter-te como minha que consigo resistir. A que não sei, contra quem desconheço.Sendo eu herege recuso-me a admitir que um dia fez-me chorar. Um dia que tem por sinônimos ontem e hoje. E ausência ? Lembre-se, "ninguém a rouba mais de mim " eu te cravei na minha pele, no escarro do meu coração, te pintei na minha própria razão. Ausência ?
Ausência ? Aonde você foi ?

Ode I

Não quero estar aqui nem lá, pois onde quer que eu vá essa dor e  pensamentos irão me acompanhar.
Tento em vão, não chorar, mas todas as vezes que eu impedi as lágrimas de caírem , por fim decidiram se voltar contra mim...todas de uma vez.
Cada coisa que faço perde o sentido quando as lembranças fazem-se presentes e meu ser morre novamente quando penso nos erros...tantos erros. O que mais machuca é pensar que jamais poderei redimi-los e esse jamais tem seu sentido mais amplo e maior, concreto e duro, triste e amargo. É doloroso.
Meu único pedido: tire essa dor de mim! Mas você não pode, ninguém pode e isso me mata. Esse simples fato acaba com qualquer esperança que um dia eu vislumbrei de ficar realmente bem. Eu quero arrancar de meu peito esse coração, não porque ele sente, mas porque ele mantém esse meu corpo corrupto e vergonhoso vivo.
Através da escrita tento matar essas angústias, passar os pensamentos para um papel qualquer...Mas não dá, não dá! Que coisa horrível é essa. Deve ser sua vingança, mas dói tanto dói tanto. No entanto, quando penso na dor que sentistes... a minha é mero furo de agulha. Me perdoe, me perdoe! Eu queria acreditar algo, em algo que fosse capaz de me curar como eu fui incapaz de fazer com você. Oh, eu queria ter algo em que me firmar. Mas não tenho. Você tinha, por tempos teve a mim, mas eu falhei com você e você teve que procurar outros enquanto eu estava lá...esquecendo você. Isso dói tanto. Pensar, pensar, pensar! Porque insisto nisso ? Quero arrancar meu cérebro, quero massacrá-lo com minhas mãos.
Toda a dor que você sentiu por tanto tempo está se voltando contra mim e mesmo assim ainda não é o bastante. Sou de Trevas e elas deverão me consumir, fazer-me sofrer como você sofreu. E no fim, morrerei sozinha como você, me perdoe, me perdoe, me perdoe! Eu sei que mereço, mas agora estou mais sozinha ainda, pois ninguém compreende o que estou sentindo! 
Espere! Com você também era assim não ? Sim, sim, sim! Que coisa horrível que eu sou.Não mereço nenhuma respiração ou misericórdia. Só mereço a dor que causei. E ainda causo.
Peço um castigo definitivo, mas não o terei, nem isso eu mereço! Sou um monstro, eu matei você...Eu matei você!!! Eu a deixei ir, sem dizer adeus, sozinha, sem amor...sem mim!




Jolly
13.04.13

PS: apesar do texto ser dedicado a Jolly, o sentimento doloroso que ele expressa se aplica muito aos dias de hoje, não apenas na dor da perda, mas da completa dor que faz parte de meu atual ser. Não consigo exumá-la de mim e isso é ... horrível.

Lunar Monologue

Um dos poemas que mais gostei. De fato, levei três dias para terminá-lo e não canso-me de reler. Para mim, ele diz muita coisa. Consegui dizer muito do que me transtornava nos últimos dias. Enfim, sei que nem todo mundo entende, tão pouco irá apreciar o poema como eu, porém eu gostei, adorei e no fim é isso que importa.

Ó Lua, nova e cheia
Torturas-me, Vermelha
Cravo-te na veia

Meu corpo mórbido e adstrito
Clama por ti, obsecra  ali
Estou aflito, estou perdido

Ó Lua,  cá encontro-me novamente
Taciturno e sem saída, e perco-me em ti
e dessa forma continuo atro e sombrio aqui

E a moléstia que me dizima o corpo
Devasta-me a alma,e mata a célula
Pergunto-me quanto tempo resta,
Para contemplar-te, ó Bela

Mas a sombra mirrada paira sobre mim
E uma vez que caminho perco-me sem ti
Lua, quem és tu para tratar-me assim ?

O distúrbio ao qual fui condenado
Lembra-me a teu respeito, Lua, de que para ti
nada valho
E assim tento aceitar minha soturna ventura
Tu escarras em minha face, Lua,como se eu
tivesse abertura

Digo-te o quanto quero, e desejo ser-te teu
Ó minguante ser, majestoso astro da noite
A decrepitude de minha pessoa não é o bastante
Para causar-lhe remorso ou compaixão
Pergunto-me, então
Por quem bastes teu coração ?

Ò Lua, que fazes solitária no céu à noite
Por que recusas-me, venha comigo
e farei
A felicidade ter um sentido
Ò Lua, que fazes junto do Sol
Por que recusas-me? Venha junto de mim
E tempos bons não terão fim

Lunar sou e nada temo, exceto minha prematura morte
Rogo-te, Lua, perdão e clemência; tento ser forte
Porém, tu nada tentas, e abandonas-me à sorte
Tu não escutas-me, não queres ser consorte

Arrasto-me através dos escombros de algo que jaz
Um corpo acabado, jogado ao léu, não deixo nada
para trás
A dor que dilacera meu espírito é maior que dois mundos
Estou lançado no dissabor preso em dois poços fundos

Lua, pela última vez pergunto-te o que desejas
E Lua, suplico-te que penses bem no que queiras
Pois as suas palavras muito significam
E até mesmo teu silêncio
É para mim um grande martírio


Vocabulário:
Adstrito: apertado, dependente, ligado
Obsecra: obsecrar = pedir em nome do que mais se venera; suplicar
Atro: negro, escuro, funesto, lúgubre
Mirrada: seca, definhada,magro, carcomido
Ventura: sorte, destino
Escarras: escarrar= cuspir
Dissabor: desprazer


Início: 3 de dezembro de 2013 Término: 6 de dezembro de 2013
Pedir em nome do que mais se venera; suplicar.

"obsecrar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/obsecrar [consultado em 06-12-2013].v
1. Apertado.

2. Dependente, ligado.

"adstrito", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/adstrito [consultado em 06-12-2013].
1. Apertado.

2. Dependente, ligado.

"adstrito", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/adstrito [consultado em 06-12-2013].




  

Sobre os escombros

Rastejo-me pelos escombros de mim mesma. O que restou de algo que um dia viveu.

Caminho através das lápides que foram formadas em minha mente, suja e sem ideias, minha mão que nada constrói roça cada uma delas, são frias como mármore, são frias como eu.

E meu corpo, sujo e sem esforço que eu incito a levantar; a rastejar através do que restou do mundo.

E eu, solitária ergo a mão clamando por ajuda, imploro por perdão,mas o que recebo são pedras; prontas para se infiltrarem em meu corpo frágil, machucado pelo tempo.

Em meu estômago algo se revira e não são borboletas, são escaravelhos negros, cujos olhos emitem a luz da Morte. Eu regurgito tudo o que ousa me ferir, mas é em vão, pois o que me fere tem nome.Coisas nomeadas são mais difíceis de destruir, pois sabem que tem valor e querem lutar.

E os nomes que insistem em perguntar. Esperam que eu cuspa as nomenclaturas do destino, mas eu não posso, pois minha boca está seca de algo amargo; jogaram sal na minha ferida e agora eu grito a minha dor.
A minha face está coberta por um cabelo que não é meu, foi um dia, mas hoje está molhado com meu sangue, o sangue eu forcei a sair do meu corpo, pois nem ele suportava o lugar. 

A chuva que cai é ácida e não me lava, nem queima, ela derrete-se sob a minha pessoa, mas não porque sou forte e sim porque ela tem consciência da ruindade que faz parte de meu ser, logo ela se rende e prefere morrer em mim.

Como todos , como eu, como os solitários juncos onde pisei. E as flores do mal que eu cultivei estão na minha varanda esperando para serem regadas, com minhas lágrimas... com minhas lágrimas.


Por fim olho-me no espelho trincado na esperança de que sua deformação me faça mais bela e por um momento eu enxergo algo bom, mas ele não resiste e termina por acabar em pedaços. Como eu.



Volta súbita e reflexões de rede

De fato, a escrita é algo intrínseco a mim. Não importa o quanto eu me questione a respeito da mesma, nunca a abandonarei.

Não devem se contabilizar trinta dias desde o dia da ''desativação'' do blog. Percebi nesse pouco tempo que ler e escrever são duas ações as quais não consigo viver sem. Mesmo sem o blog eu escrevia em papeis soltos, em cadernos esquecidos, escrevia na minha mente solitária que vagava em mundos distantes.



E entre provas e trabalhos da faculdade eu encontrava um tempinho para ler livros que não me eram pedidos, para estudar coisas que não eram obrigatórias, digo obrigatórias no sentido - grade curricular - ,pois não vejo a faculdade como uma obrigação, mas sim como um lugar incrível onde tenho a oportunidade de aprender muito de variadas formas.

Enfim,decidi que com ou seu blog eu sempre irei escrever. De fato, dediquei algumas horas à formatação de meu livro -coisa que vez por outra não encontra tempo-, bem como ao acréscimo de outras palavras e trechos ao mesmo.

A diferença entre desativar ou não o blog é que poucos ou nenhum iriam ler o que escrevi. Como gosto de ouvir a opinião das pessoas a respeito do que coloco no papel cheguei à conclusão que desativar não era exatamente a solução, eu precisava apenas aceitar a mim mesma como escritora, aprender a gostar do que escrevo independente da opinião alheia, aceitar que existem diferentes estilos de escrita e escritores. Muito já me foi dito a respeito dessa reflexão, acontece que escritor, poeta, artista é cheio disso, concorda ? Crises e crises...

                                                                                  X

As redes sociais hoje podem ser vistas através de dois ângulos bem óbvios: um primeiro, ruim, péssimo, faz os jovens e crianças ficarem mais idiotas, uma vez que esquecem da vida e dos estudos entre tantos outros motivos que as pessoas sensatas encontram para criticar as redes. E um segundo, bom, ótimo o qual especialmente nós artistas ( no meu caso, escritora ) podemos divulgar nosso trabalho de uma forma que há vinte anos seria impossível. Nós podemos ter contato direto com o leito e saber de sua opinião, adquirimos experiência e conhecimento através disso.

Um dos motivos da desativação do blog, tumblr, twitter e facebook foi uma tentativa de desintoxicação das redes. Na verdade, essa ideia pairava em minha cabeça há um certo tempo, de modo que eu precisava tomar uma atitude e a quase exclusão de tudo foi a solução prévia que encontrei. No entanto, cheguei mais uma vez à conclusão que eu não preciso me desintoxicar de nada, não preciso ser igual a ninguém seja real ou fictício. Preciso ser eu apenas, do meu jeito. Sim, às vezes sinto que perco tempo demais na internet, porém, é algo que mudou e espero que continue assim.


Enfim, enfim e mais enfim. Falei sobre isso e aquilo e resumindo é: o blog está de volta, o face também, o twitter também e o tumblr também. O email nunca saiu, acho que vou criar um instagram e tenho whatsapp no pc, mas na minha cabeça isso não faz de mim uma ''pessoa das redes'' desde que eu não resuma minha vida a elas. E no final das contas o que tem que contar é minha visão, opinião de mim mesma e não a dos outros a respeito de mim! Demorei, mas finalmente aceitei esse fato!

Desativando o Blog










                      O Blog estará desativado por um tempo. Não acho que tenha essa opção no Blogger, digo, seleção de sumir com a página como a gente pode fazer com perfis de twitter e facebook, por exemplo. Então é apenas um aviso de que não haverá postagens novas tão cedo.

Poesias Mortas

Mel e fel
sou doce e sou
amarga
Antes eu fosse
apenas Prata

Fel e Mel
não sou prata
nem sou amarga
Eu não sou doce
Sou apenas um nada

                                                                                  डी
Sou menina moça
que ainda não é
mulher
Sei o que quero sem
quase nunca saber o que
quer
Sou moça boneca que
sorri para o
espelho
Nego o mundo, mas
escondo o
desejo
Sou mulher e menina e
posso ser grande, mas também
sou pequenina.

                                                                                                                                                14.10.13

                                                                                 डी
Suja e corrupta, a cova como eu
Meu único erro foi aceitar o breu
No entanto, sim, o suplício é real
Meu interior manchado lhe é fatal

Atarando minha mente meu corpo está
Entumecido de horror,sempre, aqui e lá
Putrefatas mãos que nada constrói
Extenuante estou diante do que corroí

Mas não deve chorar, pois é assim que é
Sempre indecisa, sempre errada e sem
Nunca saber o que quer
E sempre desejando o que não tem

A pureza e a docilidade jamais
alcançará
É de sua natureza vil aos outros
massacrar

Porém, mais do que aos outros em
seu próprio ouvido canta
O que os outros disseram,
O que os outros afirmaram
Sinistra, sozinha, suja e corrupta
Não vale à pena a labuta.
           06.11.13




Silício

E de que vale o esforço em manter-se jovem
Quando a pele é fria e corpo e mente morrem ?

E de que vale o esforço em manter-se são
Quando já não sabe  porque bate o 'coração' ?

Não falemos de amor, falemos de dor e de saberes
Não sabemos mais, perdemos, matamos os dizeres

Não compreendem que é tudo em vão ?
Essas tentativas em mantermos-nos bons ?

Estamos deteriorando e logo seremos pó
Estamos secos e sem vida, somos isso e só

De nada vale isso, tão pouco o silício se ele nada retarda
Sei nada e nada sou, do silício, porém não estou farta



PS: essa poesia está  guardada há meses, logo, não sei ao certo a data correta em que a fiz.







Outuvembro

"Outubro 
como sangue
rubro
Outubro
como eu
obscuro"

"Que venha Novembro
e que seja lento
como o mar
pois o rio corre
o mar não sobe
ele escorre
Que venha Novembro
e que seja denso
como eu
sereno
Novembro
precede o tempo
final 
e doloroso
Novembro
que seja lento"

-Neil Harris Lockbant



Sobre a felicidade




É bem mais fácil ser triste. Tentar ser feliz o tempo exige muito esforço de nós. 

Deixar a tristeza te domar é tão mais prático, uma vez que ela chega silenciosa e toma conta do seu corpo e mente de uma forma tão simples. Ao contrário da felicidade que insiste em se esconder de nós, nos força a correr atrás dela. E quando a encontramos ela parece não querer parar na nossa mão, fica oscilando entre ir e ficar. Ela nos poda, nos cansa ao invés de nos extasiar. Felicidade que de feliz nada tem. 

O curioso é : justamente a Felicidade que é muitas vezes o motivo de tantos desprazes na vida do ser humano. A sociedade criou os parâmetros da felicidade e os humanos ingênuos insistem em segui-los. Logo, era de se esperar que cedo ou tarde tantas angústias seriam o final de antes começos inocentes em busca da vangloriada felicidade. 

E não adianta tentar ser o melhor dizendo que é feliz de verdade. Acredito que ninguém é, de fato. 
E eu não compreendo como conseguimos dar continuidade a tudo dessa forma. Nos enganando, nos iludindo. A desculpa que usam é a de que a felicidade é relativa e defini-la é complicado demais e talvez até impossível. Besteira. O fato é, não querem encarar a verdade de que essa tal de felicidade foi inventada para que as tristezas da vida pudessem ser amenizadas, digo, mascaradas.

É bem mais fácil ser triste. Muitas vezes... bem mais bonito. Gente feliz não é bonito. Ao menos, não para quem olha de fora. A tristeza pode não ser bela em sua essência, mas de alguma forma ela é... curiosa, ela é ... instigante, sabe ? A tristeza te força a querer saber o motivo dela. Ao menos, para quem está de fora. 

Entende o que estou querendo dizer ? A incoerência que há entre esses dois opostos simples ? Feliz é aquele que sabe a hora de ser triste. Logo, a todo momento. Não acho certo procurarmos formas de colorir o mundo quando ele nasceu cinza e cresceu preto.

A felicidade é tão egoísta e mesquinha. Ela não se permite doar, ela não aceita ser dos outros. E é tão arrogante e autosuficiente, além de ser egocêntrica ao se achar tão importante e tão mais que os outros que não se deixa fazer parte da vida de ninguém, pois nos julga inferiores. 

A tristeza não. A tristeza é simples, solidária e amarga, mas se deixa provar. Ela é doável, se permite fazer parte de nossas vidas sem contestar nada. Sem hesitar ela gosta de entrar. A tristeza não se diz superior a nada, de modo que ela aceita qualquer um. Ela não é autosuficiente, pois precisa de nós. A tristeza não é arrogante, acolhe a todos sem parcialidade.

Ou seja, a tristeza é simples demais para competir com a felicidade, a felicidade é complicada demais para se deixar domar. Logo, ser feliz é cansativo.








Desaniversário*


Comemoração! Balões! Vivas e Alegrias! Mas quem disse que há jovialidades ? 
O Bolo é gorduroso, os livros não bastam, a pele está se deteriorando e os órgãos estão cansados. Lembram-se apenas em um dia, porém, isso não importa. O que queria é o Nunca. 
Queria  a sua Terra.
Os Presentes não param (n)o tempo, tão pouco o retardam, os ensejos estão tão distantes, uma vez que também não satisfazem. Não são tantos para saciar sua sede de Eterna.

Um Dia Como Outro Qualquer!

Não fosse certa contagem. Quantos números ainda restam ? O Imortal, somente o papel de ferro que ei de encontrar. Tinta permanente! Mas sai com o tempo. Tudo sai, tudo morre, tudo pode ser lavado pela água da vida, pelo cristal do tempo. O cravar com cera quente, no entanto...quem sabe, poderia ser a solução e nada mais, nada mais.

Um Dia Como Outro Qualquer!

Mas não é, tão assustador é, porém, que chega a sentir o coração acelerar no momento, impetuoso instante, que o relógio Se marca em sua metade de Doze.
Os olhos abrem-se, mas não têm para onde olhar, não querem se encarar. Negam-se a ver o rosto que morre, o corpo que não levanta. 

Um Dia Como Outro Qualquer!

Medo e desespero, quantos números ainda restam ? E quantos (des)aniversários valerão à pena  ?  Alguém que queria sorrir. Espere, no entanto, eternamente por ele... Ou não.

Um Dia Como Outro Qualquer!

* Esse neologismo foi por Lewis Carroll em seu romance Alice no País das Maravilhas. O Desaniversário é algo comemorado em qualquer dia do ano que não seja o dia do seu aniversário. Obviamente não fiz o uso correto, mas eu não vejo porque comemorar aniversários, o desaniversário é bem melhor e faz muito mais sentido quando o comemorar não tem um marco de idade ou passagem do tempo como tema, então quis adotar como título, tema e inspiração para o texto.

Morte Serena


"Pensei grande
Falei pequeno
Sonhei gigante
Morri sereno"
Poeta da Dor





Poética

"De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando."

                    -Vinicius de Moraes

Sem cor

                 

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento,
Que em suas fronteiras células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento
                         (...)
                 [ANJOS, Augusto dos. O martírio do Artista ]

                    Perco o número de vezes em que recorri aos livros, aos autores e seus escritos. Perco a conta de quando as palavras de outros fizeram-se minhas diante da minha incapacidade em escolher as melhores palavras.
                    A arte de escrever, de pintar o papel de negro quando a dor é presente e quem sabe um pouco de amarelo, pinceladas de amarelo quando um pouco de alegria surge, porém pincela-se no papel vermelho, vermelho do sangue escorrido da rosa.
                    A rosa que foi despedaçada, rasgada pelos escritos da minha mão tosca que eu forço a colorir minha inútil vida através do papel pardo e do lápis usado.
                    O lápis gasto que encontro no fundo oco de meu 'pseudocoração', minha mente perturbada, no entanto, recusa-se a pensar, mas eu a forço novamente a me deixar sonhar.
                   Mais uma vez, porém, o espelho quebra diante de minha imagem corrupta, mas eu me desenho da melhor forma através dos escritos...através dos escritos.
                   Mas  forma alguma , alguém enxerga.
                   Sou invisível a todos os olhos, os bons e os ruins. O que veem eu não vejo e o que vejo não entendem. Não tenho cor ou espírito, sou um nada pintado de branco, sou um nada pintado de branco, mas ei de ser treva e eles verão minha escuridão. Eu os farei ver.
                   Ainda clamarão e lastimarão, o estandarte caiu, mas eu o ergui novamente, o fiz bandeira da minha cova, mas ela é sua também.

31 de Julho - Feliz Aniversário J.K e Harry !

Queria eu poder encontrar uma fênix e pedir a ela que chorasse em meu coração e dessa forma curasse a dor que ainda sinto por saber que não mais terei livros do Harry Potter. Não ouso dizer que choro porque acabou, pois bem sabemos nós que nunca acabará, cada Potterhead é uma horcruxex e enquanto houver potterheads HARRY POTTER estará vivo. Mas choramos pelo tempo que passamos juntos e sabemos que nunca voltará. Choramos por ter a certeza de que nosso amado Harry cumpriu a missão e pode seguir com sua vida, mas nós ficamos à merce do sofrimento e da angústia de não poder seguir com ele.

Mesmo que toda essa dor faça parte de mim dia após dia, estou aqui para homenagear duas importantes pessoas: J.K Rowling - mãe fora dos livros de Harry Potter -, e o próprio Harry.

Completam hoje (31.07.13) 47 e 33 anos e quem diria que o tempo passava tão rápido. Sei que como ela disse, sempre poderei retornar à Hogwarts e que essa estará a minha espera, mas ainda sinto um pesar por saber que os livros chegaram ao seu último escrito. No entanto, agradeço a Jo por ter criado esse universo, por ter me dado a chance de conhecê-lo e fazer parte da sua vida. Fazer parte da  vida dela.

Joanne apesar de todas as dificuldades que teve ao longo de sua vida nunca desistiu do sonho de ser escritora e uma vez alcançado nunca deixou de ser a pessoa incrível que ela sempre foi: humilde, honesta e caridosa. Ela é uma inspiração para mim em tudo.


Harry Potter.
Toda vez que ouço esse nome lembranças e mais lembranças dançam na minha mente e eu sorrio internamente por saber que faço parte da sua Geração . É como se ele estivesse gravado na minha pele, por dentro e por fora. Como se eu sentisse que fossemos conhecidos de longas eras. Cheguei a memorizar todos os feitiços e ingredientes de poções e suas respectivas propriedades. Eu sabia todos os Animais Fantásticos e todos os nomes de todos os professores e lugares de Hogwarts. Eu vivi com ele e seus amigos. Eu chorei, eu ri eu cantei. É isso que faz de Jo uma escritora incrível. Capaz de nos fazer sonhar acordados toda vez que lemos Harry Potter ou o vemos na TV. Ela foi e é capaz de nos fazer crer em algo mágico.

Enfim, essa minha homenagem ainda não está como eu gostaria que estivesse, tanto que estou postando à meia-noite e quarenta dois, pois à tarde não tive a inspiração certa. Mas é isso. Jo ,Harry, Parabéns. E obrigada por fazer da minha vida algo diferente.

A menininha

                Havia algo de triste na chuva. Ela não lavava apenas as ruas como sempre fez, mas simplória e silenciosa desviava seu curso natural e pairava nas casas quietas. Casas que estavam preenchidas pelas vidas inócuas de pessoas sem vontade. A chuva descansava de sua viagem do céu nos telhados, nas janelas, nos jardins... Nos vidros.
    Havia algo de triste no cair das gotas, como se não bastasse molhar os vários guarda-chuvas abertos, ela queria mantê-los junto dela, de modo que não caia com rudez, mas era leve como uma pluma.O céu estava triste e a chuva desejava pintar as calçadas imundas com novas cores, cores das lágrimas dele.
   
No entanto, uma garotinha sorria atrás do vidro da janela de sua casa velha. O nariz encostado na vitrine gelada, as mãos pousadas na mesma e os dentes - alguns para nascer - coloriam a vista de quem olhava do lado de fora. Ela não queria deixar seu lugar no sofá bege, um pouco desgastado, mas ainda confortável. De pé no lugar de sempre, ela ficaria ali até que o último pingar escorresse diante dela mesma, no vidro tão gelado quanto os dias nebulosos. Dias estes em que a neve branca mescla-se ao asfalto negro, formando massas cinzentas e finas na cidade perdida em que ela morava, porém, para seu coração quente e sua mais nova descoberta desde que veio ao mundo, o frio não era tão medonho. Não a afetava como a seus familiares e o restante das pessoas daquela simples cidade.
   
Mas a chuva não cessou tão cedo,de modo que ela adormeceu e quando acordou o dia estava nublado, cinza e ... Triste, pois seu sorriso fora embora da janela. Fora embora cedo demais.

25 de Julho - Dia do Escritor

  "Quando os escritores morrem, eles se transformam nos seus livros. O que, pensando bem, não deixa de ser uma forma interessante de reencarnação." Jorge Luis Borges  

           "As palavras são na minha humilde opinião nossa maior fonte de magia" J.K Rowling

     Não é a primeira vez que cito essa frase que a Rainha disse por meio de nosso amado Dumbledore, mas pensei que mais uma vez ela seria totalmente adequada. Hoje, dia 25 de Julho é o Dia do Escritor e qual a melhor maneira para uma pessoa como eu ( aspirante escritora) prestar homenagem a todos os Escritores senão escrevendo ? Então, vamos lá!

"Não se é escritor por ter escolhido dizer certas coisas, mas sim pela forma como as dizemos." Jean-Paul Sartre

     Meu querido e sábio Sartre mais uma vez disse as palavras certas. Quantas e quantas vezes perdi-me nos livros, nas palavras de outras pessoas e em mundos criados por outros ? Quantas  vezes ao ler determinado trecho chorei, ri, cantei e aventurei-me ? Quantos poemas já não expressaram exatamente aquilo que eu sentia ou mesmo queria dizer, mas no momento não pude ou mesmo não consegui demonstrar em palavras ? Quantos livros encaminharam-me para um universo totalmente diferente e novo, um universo mágico do qual eu jamais quis sair ? Perde-se a conta, de fato. Os escritores nos apresentam outra realidade, nos ajudam a fugir da nossa. 

    Porém, falar dos escritores e dos livros para mim é como uma mãe fala do filho. Poderia ficar dias elogiando sempre com um sorriso no rosto. Os livros para mim são mais que preciosos, tão mais que não encontro palavras para descrever o sentimento que tenho por eles.  A arte de escrever é ... é mais que mágica. Saber juntar as palavras de modo que... de modo que o leitor ao passar os olhos fique vislumbrado é...Nossa, é incrível. A arte de criar um personagem o qual criamos afeto ou qualquer sentimento seja bom ou ruim é admirável. Transformar-se em outra pessoa é fenomenal.  Os escritores são os profissionais mais brilhantes do mundo, pois podem ser o que quiserem e quando quiserem. Cada escritor tem seu estilo e é exatamente esse estilo único que os fazem ser...Singulares. 

   Ser Escritor é mais que sentar em frente ao computador ou com um caderno na mão e escrever qualquer coisa, qualquer palavra ou qualquer frase. Ser escritor é ter a  necessidade mais que súbita e mais que natural de pintar palavras  no papel aquilo que não pode-se deixar a boca cantar. Ser escritor é conseguir vez por outra colorir a vida daqueles que ousam entrar em seus mundos impressos, em seus mundos imaginados e uma vez sonhados transportados para a folha. E porque não admitir que muitas vezes os Escritores desafiam-nos quando colocam em palavras aquilo que temos medo ou vergonha de dizer ? Os escritores não têm medo, pois foram agraciados com a arte de matar qualquer temor, eles possuem a a arma mais poderosa, capaz de calar até o mais indômito Homem-Ditador : a escrita, a palavra.

    A todos os escritores que já passaram pela minha vida um mais que sincero Obrigada. À J.K Rowling em especial, é claro. Uma vez que ela não  é somente  uma inspiração de vida e continuará sendo para mim, mas também obrigada por me salvar tantas vezes na infância e na adolescência. 



  
  

Prólogo do livro - Joe Lowis e o chamado da meia-noite

 Esse é o prólogo do meu livro mais precioso. Será uma quadrilogia e agora percebi que o primeiro livro está quase pronto. Pois é, fiquei tanto tempo focada no começo, meio e no clímax da história que nem me dei conta de que já posso finalizá-lo. Mas ainda tem muita coisa pra acontecer, dentro do livro e fora dele. Portanto, ainda que esteja quase pronto ele não está quase pronto. Complicado, mas acabei tendo outras ideias e com a faculdade voltando no segundo semestre terei pouco tempo para me dedicar , ao menos tanto quanto eu queria. Enfim, J.K Rowling levou 7 anos para escrever Harry Potter e a Pedra Filosofal, e J.R.R Tolkien 12 para escrever a obra completa SDA, logo tenho 4 anos a meu favor seguindo a Rainha ( Ao menos para o primeiro livro rs ) e 9 seguindo Tolkien ( para os outros quatro rs ) 

X


 "Era uma dor incapaz de ser sentida por humanos ou qualquer criatura que não fosse... Como ele. Era algo que subia e descia desde as costas até sua cabeça. Em seguida essa mesma dor transformava-se em algo quente como brasa que transpassava seu peito. Joe não fazia ideia do que era aquilo. Tentou gritar seus pais ou seu irmão, entretanto sua boca abria, mas som algum saia. A dor era tanta que ele pensou que ali mesmo, em seu quarto morreria. Mas subitamente a agonia começou a ceder. Vagarosamente Joe deixou de se contorcer. Num momento mórbido sentido ou visto apenas em seus pensamentos tudo o que lhe machucara nos últimos cinco minutos desaparecera. Ele abrira os olhos fitando o teto branco de seu quarto, piscou três vezes para ter certeza de que não estava sonhando. Contudo, não conseguira se levantar, seu corpo estava demasiadamente pesado.  Ficara ali, até cair no sono por volta das três da manha, e mais tarde ser obrigado a se levantar não pelo alarme do celular, não pelos gritos de sua mãe, mas por uma visita que nem ele nem ninguém em sua casa estava esperando."

A criatura Parte III



 Texto feito em parceria com Exorcist-a. Você pode ler a Parte I e Parte II Aqui Aqui 

  O anjo-demônio sorriu e abriu os braços. Abriu as asas enquanto a moça mantinha-se parada. A criatura caminhou lenta e graciosamente.Mas ela não se mexia. O que aconteceu com sua força? Talvez, a escuridão de trevas da noite não a tivesse permitido olhar de perto o deus que se encontrava ali. A compreensão de onde toda a beleza do mundo haveria de ter saído. Mas ela agora sabia que amor nenhum podia existir no peito daquela criatura. Tudo o que ele queria era simplesmente o corpo dela. Não promiscuamente, mas sim para o sacrifício. Uma vez que o anjo-demônio de sentimentos angelicais nada tinha, o sacrifício de um ser humano com uma descendência de necromante o faria ser um demônio completo não apenas um anjo caído, condenado ao inferno. Afinal de contas, nada como algo maligno para aumentar um pouco a adrenalina na mais nova vida da criatura. Ele gostava do proibido. Gostava de brincar com as pessoas. E aquela moça… Era o sacrifício que ele procurou por tanto tempo.
    Ela nem teve tempo de pensar em correr. Ele a agarrou com os braços e mãos fortes e voou. O garoto correu, chorando, arrependido. Mas era tarde. A criatura já havia partido.
   O medo dominava o corpo da ruiva, enquanto o arrependimento destruía-lhe a mente. Nunca deveria ter aberto as portas do inferno. E agora, mais do que nunca sabia exatamente qual o seu objetivo, embora ainda não soubesse os meios. O anjo parou diante de um galpão abandonado de tamanho médio não muito alto próximo à entrada da cidade, onde não havia nada nem ninguém, apenas ruas desertas e encostas tomadas pelo mato seco. Jogou-a no chão de terra e cascalho.
__Levante-se e entre.__ Mandou o anjo com a voz mais áspera do que de costume, dando-lhe as costas apressado a fazer alguma coisa.
   Foi então que ela notou a lua cheia tão clara quanto fogo no céu, e pela posição já deveria ser por volta de meia noite. Ela tentaria fugir, mas do que adiantaria um rato se esconder do falcão faminto? Contra sua vontade, adentrou o local que mesmo sem nenhuma iluminação elétrica via-se seu interior com certa nitidez devido às pequenas janelas de vidro quebrados situadas no alto de cada parede. O espaço era amplo e sujo de poeira  resumidos em meros lastros de abandono. Observando melhor o que ele fazia, reconheceu de imediato o preparativo: Um pacto. Provavelmente com o Deus do Submundo. Ele era um dos únicos anjos que não fora banido, e sim deixou o céu para viver com as mulheres gerando descendentes que logo foram excomungados, por conhecerem a magia e ficarem conhecidos de necromantes. E a troca que a criatura procurava só poderia ser feita na sua vinda à Terra, para fazer um pacto como qualquer outra pessoa, mas este exclusivamente pedia por um sacrifício maior, de que a alma de um dos descendentes do Deus Infernal retornasse para o inferno.
    Já fantasiado com o manto negro preso apenas na altura do ombro com capuz cobrindo a testa, ele preparava os instrumentos. Na parede mais interna havia uma pequena mesinha de madeira pura da altura de exatos um metro e meio e em cima dela uma agulha, taça, velas (preta e vermelha) e tigela de barro virgens, um pedaço de papiro e caneta nunca antes usados, caixa de fósforos novos, algumas folhas da bíblia arrancadas, giz branco, adaga ritualística, um relógio. No centro do galpão um mastro de madeira com cordas.
__Você já sabe o que veio fazer aqui não é mesmo?__ falou por fim, ironicamente. Ainda de costas para ela, concentrado no santuário improvisado. Ela abaixou a cabeça consentindo em resposta, embora não aceitasse o seu destino. Destino o qual ela traçou quando era mais jovem, dois ou três anos atrás. Com o desejo de ser normal, ter alguém, construir uma família; nada disto estava ao seu alcance pelo fato de ser diferente dos demais.
    Um dia nos seus estudos sobre a arte das trevas encontrou a figura da criatura mais bonita que ela tinha visto em toda sua vida: desnudo, longas asas, cabelos negros, montado num lobo enorme. Embaixo havia uma inscrição com letras marcantes ‘Astaroth’. Tão rápido foi o transe quanto a paixão que a atingira, e estupefata permaneceu, leu tudo o que pode sobre como conjurá-lo.
   A lua naquela noite estava tão clara quanto hoje. Assim ela o fez, chamou a criatura das profundezas de Sheol, abrindo os portões, esperava incansavelmente que saltasse de lá um ser perfeito imune da morte, que entenderia suas dores, curasse sua solidão e a obedecesse cegamente. Para sua frustração, saíra num lastro de fogo misterioso que vinha de suas asas, e pousou dignamente sobre ela, com adrenalina saltando das narinas e ódio pulsando em suas veias. Ao colocar os olhos na jovem, iludida e inexperiente necromante que o chamara (ainda não sabendo que ela era parte vital na execução de sua procura de poder e vingança) logo colocou um sorriso débil nos lábios e indagou:__Obrigado.__ Depois de tê-lo dito, voou em uma velocidade imperceptível aos olhos comuns, os olhos da garota apenas conseguiam acompanhar o momento em que ele passou pelo teto.Desde então nunca mais o viu.
    Com seus sentimentos frustrados e permitindo que um dos duques do inferno escapasse, não pode deixar de confessar a uma autoridade maior conhecedora em magia o que acontecera. Então foi aconselhada em se proteger o máximo que pudesse, ficando dentro do círculo de rosas e crisântemos durante a noite, pois Ele voltaria.
   Assim foi feito, e naquela noite eles estavam exatamente como ela sempre previu. Ele a amarrou em pé de modo com que seus braços ficassem para trás no mastro e a garota não se opôs em momento nenhum. O ponteiro do relógio marcou exatamente meia noite; com o giz fez dois círculos, um dentro do outro e em seguida uma estrela invertida.Usando os fósforos acendeu as velas vermelhas dispostas no circulo menor, e recitou a oração de trás para frente. Com a caneta escreveu seu pedido no papiro, furou seu dedo usando a agulha e assinou.
   Sua voz estrondosa doeu aos ouvidos da garota que se contorcia de medo e arrependimento, ele leu sua parte no pacto em voz alta e colocou o papel dentro da tigela de barro que já se encontrava no centro do círculo e o depositou virado.
   Virou-se para ela com a adaga em uma das mãos e a taça na outra. Ao ficarem próximos, olhos nos olhos, todo seu espírito de luta e apego à vida se dissipou e aos poucos aceitou o que ele faria. O silêncio permaneceu até que ele ergueu um dos braços e fez com que a lâmina percorresse seu pescoço levemente e um fio de sangue se escorria para dentro da taça até que a enchesse. Ao colher a quantidade necessária, cravou a adaga no rumo de seu coração acelerando sua morte e sua viagem para o inferno.
   Brandiu algumas palavras em seu idioma genuíno em direção ao altar estendendo a taça para o alto. Em seguida despejou seu conteúdo em cima do verso do papiro, instantaneamente as velas negras situadas no circulo maior se ascenderam. No papiro, começavam a se formar letras que ele perfeitamente compreendia. Algo como: “O sacrifício foi recusado, mesmo sendo minha descendente ela ainda tem algo humano, uma coisa inútil chamada amor, mais inútil ainda: é amor por um demônio." Escrito isso, a superfície começou a pegar fogo, mas um fogo mais ardente e vermelho do que o comum e alastrou-se para a tigela, para a mesa, chegando na parede e tomando proporções cada vez maiores.
   A ira do anjo caído se explodiu em um grito tão alto que quase apagou as chamas do lugar, mas antes que isso de fato acontecesse ele jurou que voltaria, fazendo quantas vítimas fossem necessárias para completar sua ambição. Abriu suas assas enormes voou sem direção, à procura de um novo sacrifício.

A criatura - parte II

   

  Texto feito em parceria com Exorcist-a . Você pode ler a Parte I Aqui .

   O garoto estava aterrorizado. Era possível enxergar o medo emanar de seus olhos grandes e castanhos. A criatura não disse nada até o momento em que o garoto saiu de sua posição e virou-se para o ser monstruoso, mas estonteantemente belo que se encontrava à frente.__Você. __ sussurrou o ser, abaixando as asas e se agachando para ficar na altura dos olhos do garoto agora ajoelhado.__S-sim. __ disse o garoto evitando contato visual. Por mais brilhantes que os olhos negros da criatura fossem, era horrível olhar para eles. Como se toda a sua dor explodisse dentro de si ao fixar-se naqueles olhos perolados.
__Preciso de sua lealdade.__ retorquiu a criatura. Levantou-se e puxou o garoto pelos cabelos. Arrastou-o e o jogou na cama. A seda vermelha se desmanchou. O garoto estava para sucumbir ao próprio medo.
__C-c-claro. O que quer que eu faça?__ gaguejou mais uma vez.
__Preciso de um sacrifício. E você irá encontrar a pessoa certa para isso. Entendeu? __disse a criatura cuja voz era gutural e angelical, agradável e ao mesmo tempo assombrosa. A criatura parecia apreciar o som da própria voz, pois sempre que terminava uma frase seu sorriso maldoso era desenhado em seus lábios vermelhos.
__T-tudo bem. Quem é?
__Não é qualquer sacrifício. Aproxime-se. __ disse o monstro estendendo os braços para o garoto amuado no canto do quarto. __ Venha, vou lhe mostrar como essa pessoa deve ser. __ Em seguida abraçou o garoto, um abraço forte, apertado e quente.
O monstro era anjo e demônio, o monstro era um deus.
   O garoto relutante se levantou e caminhou em direção aos braços da criatura que sorria, e sorria com gosto,sabia que tinha o total controle. Uma vez que o menino estava em seus braços ele os fechou em volta do mesmo e juntos voaram para fora da casa. O telhado do quarto foi estraçalhado, as asas negras do monstro pintavam o céu da noite de lua cheia, algumas horas antes da meia noite. Os morcegos assustados escondiam-se. Os ventos mudavam de direção devido à pressão das asas, as pessoas na rua nada enxergavam, pois ele voava muito alto. Voou durante alguns minutos até que parou no alto de um prédio em construção no final de uma rua deserta. O garoto reconheceu a rua. Era a antiga casa de seus pais. A criatura soltou o garoto que se desequilibrou um pouco, mas ficou firme depois de se segurar involuntariamente na perna do monstro que estava ereto ao seu lado. A criatura olhou com desdém quando o garoto segurou em sua perna e em seguida voltou seu olhar para a casa enquanto o garoto se arrependia de ter encostado no ser.
__Ali. __ disse a criatura apontando para uma casa cuja janela estava aberta e uma luz que provavelmente seria da televisão podia ser vista. __ Naquela casa mora uma mulher. Você irá chamá-la de modo que ela saia do portão para fora e quando ela fizer isso… Eu farei o resto. __ disse, sorrindo.
__ T-t-tudo bem. __ o garoto estava tremendo, mas não se moveu.
__Ora. Vamos logo. __ em seguida empurrou o garoto do prédio.


    Ouviu-se um som abafado confirmando que o garoto havia caído em sacos de lixo negros, conforme a criatura calculara. Ou não. Ainda atordoado com tudo o que tinha acontecido organizou seus pensamentos e caminhou até a rua no lugar onde lhe fora mandado. ‘Porque será que estou fazendo isso?’ pensou consigo mesmo. Não sabia, mas fez. Não tinha escolha, afinal.
     O aspecto da casa era antigo, embora fosse bem cuidada com um jardim impecável que intercalava em camadas de crisântemos brancos e de rosas que na soturnez da noite cintilavam vermelhas. Com exceção da janela aberta (que revelou não ser a TV ligada, mas sim diversas velas acesas), seu interior estava afogado na mais mórbida da escuridão. Tocou a campainha que se escondia num canto do muro no interior do portão de barras de ferro, bem pontiagudo que na parte superior se encontrava ensanguentado, o garoto cogitou a possibilidade de ter ferido a asa da criatura.
    Ao gritar da campainha não tardou uma luz pequena e solitária do primeiro cômodo surgir de imediato, assim como se um alarme tivesse soado na presença de um intruso. Seu coração palpitou ainda mais forte, a respiração ficou irregular e com cautela lembrou-se do plano.
   A porta da frente se abriu revelando uma jovem figura feminina de cabelos ruivos desgrenhados com um moletom simples segurando em uma das mãos uma vela. Sua expressão, antes tensa se tranquilizou.
__O que quer? __ Gritou uma voz suave e doce que abalou suas certezas.
__Apenas uma informação. Porque não vem até aqui, assim podemos conversar melhor.
O garoto mentiu desajeitado procurando ao máximo ser convincente e querendo executar logo a missão de trazê-la para fora. Mas recuou um passo para trás meio aturdido assim que a porta atrás dela se fechou sozinha quando fez menção de se distanciar da casa.
   Mecanicamente seu corpo gelou. Enquanto pensava no que dizer, ela vinha caminhando em sua direção passando pelo jardim. Seus olhos eram de um azul tão claro que conseguiam iluminar até seus pensamentos, e por um instante quis correr e desaparecer tão repentinamente quanto aparecera, mas também se lembrou que havia uma criatura que poderia matá-lo.
__O que quer saber? __ Perguntou ela meio confusa e um pouco cansada, notava-se pelo bocejar que vez por outra ela fazia.
__Na verdade, eu preciso de ajuda, meu gato foi atropelado. __ Pensou melhor e decidiu mudar o pedido.
__Porque não disse logo, onde ele está? __ Ela sentiu um dever enorme em ajudar alguém, até mesmo porque ela detinha conhecimentos inestimáveis de bom...quase tudo que poderia ser de grande valia, mesmo com receio de sair do círculo à noite.
  O garoto indicou com o dedo para a rua de cima, onde Ele estava à espreita. A jovem abriu o portão que silenciosamente cedeu. Apressou o passo para onde o garoto havia anunciado quando viu a silhueta de um homem com asas enormes vindo calmamente em sua direção convicto de que sua presa dali não escaparia. Eram as mesmas asas que haviam ficado presas no seu feitiço de proteção. Eufórica, nem olhou para trás à procura do menino. Fez menção de correr, mas era tarde demais, já tinha caído nos encantos sombrios do errôneo demônio.
   Uma lágrima correu pela face gelada da garota, suas mãos tremiam até que vacilou deixando a vela cair no chão, suas pupilas azuis sequer moviam diante tanta beleza. Não era um feitiço como os vários que ela fizera para se livrar dele, e sim uma atração natural que a presa tem de seu predador.

15 de julho - Dois Anos Sem Harry Potter

Hoje dia 15 de julho de 2013 fazem exatos dois anos desde que Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte II foi lançado nos cinemas. Fazem dois anos que os corações dos Potterheads choram a dor de não poder esperar mais nenhum filme, mesmo sabendo que não haverá mais nenhum livro sobre o nosso bruxo  desde 2007. No dia 21 de julho  de 2007 Harry Potter e as Relíquias da Morte - livro - estaria sendo lançado, logo em 2013 fazem seis anos desde que o menino que sobreviveu cumpriu sua missão, de fato.

Lembro-me exatamente do dia em que enxerguei o exemplar de Harry Potter e a Pedra Filosofal na estante da minha tia em Belo Horizonte. Eu estava passando férias lá - tinha 10 anos-, e estava à procura de algo para ler e passando o dedo pequeno pelos livros grandes eu vi o livro que eu ganharia de presente dela. Eu já conhecia o filme, mas como morava em uma cidade pequena adquirir qualquer livro era um pouco mais complicado que hoje onde a internet faz seu papel. Naquela época viajar para cidades maiores em busca de livrarias exigia um pouco mais que apenas vontade. De qualquer forma eu puxei o livro. Manuseei com cuidado. Abri. Sorrindo a todo momento. Li a dedicatória da autora que viria a se tornar a minha mais admirada e querida escritora no mundo. Apaixonei logo nas primeiras páginas em que passeis os olhos grandes e pude ver Harry Potter nelas. Eu queria lê-lo ali, naquele quarto pequeno em que eu dormia. Queria adentrar no mundo que eu só conhecia pelas telas da televisão, mas eu também queria que o livro fosse meu. Apenas meu. Portanto, inocente comentei com minha tia, ela sabia um pouco da minha paixão por Harry Potter - pelos filmes, inicialmente- , mas ela não hesitou em pegar a caneta e fazer uma dedicatória no livro para mim.

Finalmente, entregou-me o livro e eu fui para a sala de estar cujo sofá confortável serviria-me de assento pelos próximos dois dias em que eu continuaria a conhecer minha paixão através das palavras de J.K Rowling. Sentei-me e lá fiquei  o restante da tarde. Lembro-me também que uma amiga dela havia a visitado naquela tarde e mesmo que a pessoa fosse minha amiga também eu não soltei o livro para ficar conversando. Ao final da tarde eu estava somando os pontos das casas para a Copa das Casas e orgulhei-me ao ver que Grifinória havia ganhado com 482 pontos. Eu queria a Câmara Secreta. Por sorte minha tia na época era do tipo que faria meus caprichoso se ela pudesse. E de fato fez. Fomos ao Shopping no dia seguinte e eu sai de lá com meu exemplar de Harry Potter e a Câmara Secreta nas mãos. Foi um dos melhores dias da minha infância. No dia seguinte eu havia terminado de lê-lo. Com o tempo essa mesma tia foi comprando os outros livros. Alguns eu ganhei em ocasiões tristes as quais eu não acho valer a pena contar aqui. Conto apenas que nesses momentos tristes e dolorosos de minha vida a aventura de Harry Potter  no torneio Tribuxo foi o que me salvou da depressão e quem sabe da loucura. A tristeza de perder Sirius foi minha tristeza e quando eu vi Dumbledore morrer diante de meus olhos, ali , assassinado por Snape - fato que me faria o odiar por algum tempo -, eu chorei. Chorei com Harry, Hermione, Rony e todos os estudantes e professores de Hogwarts.

O que estou tentando dizer hoje é que ainda 16 anos depois e no meu caso 10 em que estou com Harry Potter eu não esqueci e nunca farei isso. A história que nossa Rainha criou é mais que apenas varinha e feitiços. É amor, é coragem, é misericórdia e bondade. É Amizade. Harry Potter não conquistou apenas números - e números grandes -, mas também corações, mentes, vidas. Ainda hoje eu releio os livros e os abraço como a um amigo. Eu vejo os filmes não como eu via as primeiras vezes ou seja, não com a alegria de poder esperar mais um. Hoje, muitas vezes ao ver os primeiros filmes sinto vontade de chorar quieta no quarto, pois sei que acabou...Em partes. Como já disseram ''Cada potterhead é uma horcruxe e isso faz com que Harry Potter viva em cada um de nós de modo que ele jamais morrerá'' , mas não posso negar que às vezes sinto um pesar por saber que não mais teremos Harry Potter retornando à Hogwarts. Retornando como eu tanto pedi que acontecesse comigo. Sei que nossas cartas de Hogwarts são na verdade nossos primeiros exemplares de Harry Potter e a Pedra Filosofal, mas eu pedi muito para minha carta chegar e sei que muitos também o fizeram.

Harry Potter sempre será parte de minha vida. Eu sempre amarei e J.K Rowling sempre será minha escritora preferida. A história dela é inspiração para mim que quero ser escritora também. Muitas foram as vezes em que recorri à história dessa pessoa incrível para me inspirar em momentos que pensei em desistir de seguir esse sonho.

É isso por hoje. Aos Potterheads minhas palavras de consolo, pois saibam que Harry Potter não acabou no dia 15 de julho tão pouco no 21 de julho. Harry Potter estará conosco até o fim dos tempos e mesmo depois disso ele continuará a viver. Nós somos a Geração Harry Potter e é com orgulho que digo isso.Ao contrário da legenda no poster, Tudo Não Acaba Aqui. Isso só serviu para mostrar o quanto Harry Potter é grande e sua legião de fãs e amigos maior ainda. Harry Potter é eterno. À nossa Rainha J.K Rowling um sincero muitíssimo obrigada por ter sido minha infância, adolescência e fase adulta e ainda o que será minha velhice.





Obsoleta



Havia uma idosa sentada na varanda de sua velha casa. Uma casa pintada há anos por um homem hoje esquecido, bem como as cores da casa propriamente dita. O branco das paredes há muito tornara-se amarelo ou algo semelhante a um marrom, um marrom podre e sem vida.

Ela balançava em sua cadeira. A cadeira forjada pelas mãos de seu filho,morto em guerra, mas antes morto na mente da idosa, uma vez que ela tão pouco se lembrava de sua fisionomia desde que partira para cumprir seu suposto dever patriota. Para frente e para trás ela balançava na esperança de que um embalo a levasse a outro mundo. Desconhecido e novo. O mundo dos sonhos.

Mas seu corpo cansado e fastio de idade não colaboravam e ela ficava a maior parte do tempo imóvel, da mesma forma que o restante de sua vida. Vivia linearmente, como se tivesse outro ofício que não o balançar parado de sua cadeira, metáfora suja de sua vida. De súbito, levantou-se e foi em direção ao quarto, o último cômodo da casa, ao lado da porta que dava para o quintal. Um quintal pintado das folhas secas de outonos passados. Muitos outonos.

Ela deitou a cabeça no travesseiro sem fronha, pois ela o tirara há tempos. Não queria que cobrissem as lágrimas, não gostava de representações das cicatrizes de sua triste vida monótona. Uma vez deitada de bruços na cama decrépita, não permitiu mais lágrimas a verter, porém forçou o rosto contra o travesseiro, não que tivesse tanta força, mas o peso de sua mente contribuiu para que não mais levantasse a cabeça grisalha. Seus olhos lúgubres tardariam a ver outra luz, não que desejasse, no entanto, seu espírito desmazelado haveria de ver somente uma coisa antes de permitir que sua respiração uma última vez estertorada…Cessasse.

A morte para ela não seria surpresa nenhuma, poderia ser em qualquer lugar, a qualquer momento e de qualquer jeito. Em sua idade já não teria mais o privilégio de sentir medo dela, pois das visitas, era a mais esperada.

Seus olhos cansados percorreram pelo cômodo vazio e arrimaram nas lembranças presas em fotografias que jaziam nas paredes, de pessoas que jaziam no cemitério, pessoas estas que em sua jovialidade prometiam serem eternas. Mesmo que o gosto deixados por eles fosse doce, a solidão o fazia amargo e triste. O desprazer de ser a vivência derradeira dentre os seus, era visível em cada ruga do rosto pequeno e murcho. Sua existência estava comprovada em objetos frios, cartas amareladas, calendários de vinte anos atrás, relógios parados e outras bugigangas lacônicas guardadas em caixas prontas para serem esquecidas.

De insônia não sofria, embora o sono da morte nunca quis fechar-lhe as pálpebras. Comia pouco, e nem se lembrava que tomava remédios. Sua única paixão ainda vivia: as flores. Felicidade remanescente que ainda podia tocar, pequenos prazeres que brotavam nas janelas. Se alegrava ao vê-las, contudo se lastimava quando morriam, mas também não gostava da atitude egoísta de prendê-las para si condenando-as sobre telhados, a cada dia um minuto a menos. A vida a fazia ver mortes. Não deixava saudades em ninguém, pois ela nunca se fora.

Levantou-se lentamente de onde pensara ser seu último leito, e com certa dificuldade arrastou-se para a sala quando se lembrou de que regar as plantas era necessário, ao contrário dela, as flores precisavam de alguém. Passou pelo o quarto e o corredor se esquivando dos móveis apodrecidos, ao chegar na sala uma dor no peito a fez sucumbir ao chão. Não gritava, pois desaprendera a falar ou grunhir há anos, mesmo o rombo no peito sendo quase insuportável.

Lembrando-se de seu convite soturno, não deixou de imaginar uma penumbra de manto negro a encarando pela janela sob as flores. Em seu delírio, a palavra ‘entre’ se formou na boca gélida isenta de lábios. Calmamente a força e dor foram abandonando seu corpo inerte quando tudo se arrefeceu em um eterno silêncio.

Meses depois a família ausente encontrou o cadáver com um sorriso sereno no rosto.Suas coisas adormeciam em caixas de papelão, como deixara; mobílias comidas pelas traças e colchoes sem lençóis. Não havia testamento somente dinheiro que pagaria seu funeral em cima do criado mudo. Ninguém se importou em regar mais as flores.

Texto feito em Parceria com Exorcist-a

Narcóticos

     Um baile que dançava sozinho. O ralo do banheiro era a porta de saída de um ser desconhecido. Um ser que habitava minha mente solitária. Esse ser eu nunca cheguei a conhecer, pois o expulsava a cada novo banho. Era um ser que vivia somente na minha cabeça, mas ao chorar eu o mandava embora. E era um baile, pois dançava sozinha a música do meu furor. A música da minha armagura. Ociosamente eu cantava, tentava entender meus próprios pensamentos. Na música, pensava eu ser capaz de exumar a solidão que abarcava em um lugar dentro de mim de vez em quando.

         Mas não foi nos arranjos perfeitos de notas chorosas do piano que encontrei essa compreensão. Foi nas tintas mal pintadas, dos cadernos mal feitos de minha vida. Nos meus próprios rabiscos chamuscados de dor que encontrei a razão. Os papéis vez por outra eram encontrados jogados no chão limpo, mas sujo de palavras esquecidas de minha casa. Os papéis voavam. Fugiam de mim, pois eu os feria com minhas palavras.

       O narcótico. O cheiro do livro novo ou mesmo do arcaico encostado na minha estante. Minha velha estante de lembranças. Lembranças que eu recusava esconder no baú de madeira que um dia eu almejei. O baú de madeira ocre, com uma fechadura proporcional e digna de uma chave branca que eu haveria de pintar com minhas lágrimas salgadas e doces ao mesmo tempo. Doces, pois muitas delas eu impedi de cair.

         E eu haveria de viver assim. Escrevendo, marcando o tempo com palavras. Pois era isso que eu sabia fazer. Marcar o tempo. Não aceitava que ele passasse sem ser ferido. Se ele me feria, eu tinha o direito de feri-lo com meu lápis quase no fim, no meu caderno amarelo, na minha mente distorcida.
                                                                    

 

Eremitar-se

Eremitar-se : do meu vocabulário: ato de isolar-se, abandonar o lugar de convívio, deixar para trás tudo o que um dia pensou que fazia sentido.

O melhor mesmo seria isso, não ? Abandonar esse mundo louco e cheio de pessoas insanas. Afinal, não faz sentido, ou faz ? Acho que não. Caminhas solitária de qualquer forma e quando encontra algo que supostamente deveria livrar-lhe do martírio, veja só... Ficas triste.

Eremitar.

Sozinha em uma ilha onde ninguém haveria de lhe soturnar. Deixaria para trás tudo o que viveu e construiu ? Oras, mas todos iremos. A morte leva tudo. Nos nadifica. Que diferença faria se permitíssemos nossa mente mesma fazê-lo ?

Eremitar

Quem sabe. Quem sabe. São tantos 'Ses'. Onde está seu livro agora ? Não seria onde está seu Deus ? Pois é o mesmo O meu livro a meu ver, nem ele foi capaz de salvar-me. Ao menos, contra essa eremitês ele parece-me incapaz. Onde está...Chega de perguntas. Vou retirar-me. Para onde tão pouco sei. Acho que por hora, retirar-me-ei de meus pensamentos. Meus lúgubres e mórbidos pensamentos.

Eremitar.


Destruídos pelas bombas da própria nação



                                           

"De tanto ver triunfar a maldade,
De tanto ver crescer as injustiças,
De tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos homens,
O homem chega desanimar-se da virtude,
A rir-se da honra
e ter vergonha de ser honesto."
                               Rui Barbosa



Hoje milhares de pessoas estão nas ruas. Nas capitais do país estão protestando. Contra vinte centavos. Vinte centavos ? É sério ? Não ria desses vinte centavos. Há muito mais revolta por trás deles do que você pensa.

Estou aqui hoje para me revoltar. Não como os que estão lá fora brigando, gritando enfim, protestando nas ruas. Eu me revolto através das palavras, que como já disse minha Rainha J.K Rowling - "Palavras são, na minha não tão humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia."

Eu entendo a revolta da população. Entendo mesmo. Há uma inversão de prioridades ocorrendo. A alegria da Copa ser sediada no país verde e amarelo passa a dar lugar a uma cólera que tem como razão o uso do dinheiro público para ''melhorias'' em coisas que até então eram irrelevantes para os Supremos. Foi preciso um evento mundial para que decidissem tomar alguma atitude. Isso tira qualquer um do sério. No entanto, eu há muito perdi as esperanças.

Sou tachada como pessimista, mas na verdade sou apenas uma pessoa realista que não gosta que mascarem a realidade apenas porque ela lhes desagrada. Logo, eu não luto nas ruas e não coloco minha vida em risco por coisa que em pouco tempo será esquecida, mas há pessoas que ainda acreditam que o mundo, que as pessoas - que o nosso amado país tem salvação. Eu não vou julgar vocês. Dou razão e concordo com seus motivos, mas para mim, foram-se os tempos de glória. A corrupção ensinou o Brasil a andar, está intrínseca em nossa história bem sabemos nós. Logo, eu duvido muito que agora ela irá deixar o filho depois de centenas de anos cuidando dele.

Claro que, por trás desses meros vinte centavos há a revolta da educação, da saúde, do transporte, dos preços e dos impostos enfim, há a revolta contra o sistema do nosso maravilhoso país que só é bonito em épocas importantes e é claro, para os inocentes estrangeiros que de vez em quando passam por aqui. O Brasil deve ser o único lugar no mundo em que o povo que aqui vive é menosprezado por seus governantes. Quando é preciso que um evento de larga escala ocorra em território nacional para que as mudanças sociais aconteçam, fica claro a verdadeira preocupação dos nossos queridos políticos ou como gosto de chamá-los - os Supremos - é nada mais que fazer bonito para inglês entre outros ver, além é claro de deixar seus cofres nos bancos com uma conta um pouquinho mais alta.

Eu cansei de reclamar para as pessoas do país e do mundo. Cansei de dizer que a tendência é piorar e que logo, não vale a pena tanto desgaste.Cansei. Ninguém escuta, todos preferem continuar se enganando. Pensando que algo irá mesmo melhorar. Não vai. Para cada coisa boa que acontece, cada conquista há  dezenas de coisas ruins e atrocidades para tirar o sorriso do seu rosto. No ano oficial da Copa, tudo isso será esquecido. A Copa irá ocorrer, iremos torcer, iremos elogiar as melhorias e iremos nos fazer de bobos. Hipócritas. Como uma amiga me disse, porém, não basta chamá-los de hipócritas. Não irá resolver nada. Aliás, o que irá resolver ? Eu não sei, na verdade...até sei. Mas minha opinião ainda é descrita como ingênua. Uma grande bomba no mundo ainda não é bem vista pelas pessoas.

Vinte centavos. Se bastassem para mudar de fato. Mas não bastam. No final quem perde somos nós. Os policias são julgados por fazerem seu trabalho e os manifestantes são julgados como selvagens por simplesmente quererem a mudança. Enquanto os Supremos, em seus jatinhos particulares riem de vocês.

A maioria dos manifestantes é estudante, mas sabemos que há outras pessoas lá. Pessoas que acreditam em algo e que no momento dessa euforia se sentem motivadas a lutar pelo que acreditam. Há pessoas que necessitam do ônibus para trabalhar e precisam de uma boa educação para os filhos, há pessoas que precisam de um bom plano de saúde para cuidar dos parentes mais velhos. Essas pessoas também estão no meio dos estudantes.

Esse meu texto não é manifestante, tão pouco estou defendendo algo como poderiam pensar - a Globo ou qualquer partido político. Não. Não defendo nada. Não apoio nada. Nem um nem outro. Nem ''bom'' nem ''ruim''.

Estou aqui apenas para - como fazem lá fora - mostrar minha opinião. Se irão conseguir a redução do preço da passagem, a melhoria da educação e da saúde, um ajuste nos impostos...Não sei. Mas garanto que não tenho a fé que eles têm. O ser humano tem a essência ruim. Ele é mal e fadado ao fracasso. A ciência avança, mas o homem continua parado no tempo da desgraça.

Podemos, no entanto, pensar que mesmo que nada mude...Algumas pessoas mudam. Como na ditadura as coisas ficaram mais claras depois da manifestação, quem sabe depois de toda essa bagunça algo se clareie. Quem sabe os Supremos não brinquem tanto. Quem sabe, não ? Você acredita nisso não acredita ? Engraçado, nem nisso estou acreditando mais.

De qualquer forma, eu desiludi há muito tempo. O que antes na minha inocente infância eu admirava, hoje me causa repulsa e vergonha. Meu próprio país me causa vergonha. Infelizmente, nosso amigo Barbosa tem razão - nosso pais ri da honestidade e não tem honra. Eu não espero nada de pessoas que na maioria das vezes fazem tudo errado e quando lhes é oportuno decidem que é hora de lutar. Mas se você espera, vá lá e me mostre que há uma salvação.

"As verdadeiras conquistas, as únicas de que nunca nos arrependemos, são aquelas que fazemos contra a ignorância."                          Napoleão Bonaparte


Esse nosso outro amigo, Bonaparte, também tem razão. Essa luta é pra que ? Para o mundo ver ou ela de fato quer acabar com ignorância que rege nosso maravilhoso pais ? Deixo apenas uma questão que além de eu me recusar em procurar a resposta, faz menção aos vinte centavos tão falados: Até quando a ganância dos Supremos irá ser custeada pelo sofrimento do povo ? Até quando ?