Espelhos.





É o fogo que começa sem faísca
Faz queimar o quarto sem saída
Traduz as palavras do antigo ódio
Nas paredes de um solitário mundo sórdido

Respira e tenta engolir a culpa
Não consegue, sabe que não há desculpa
Atira amargor por trás dos livros
Não compreende, perdeu-se nos escritos

O corpo está cansado da luta invisível
Mas há uma guerra de derrota irreversível
Perdeu tantas batalhas contra si mesmo
Que não consegue olhar no espelho sem desprezo.


Semente



E morre lentamente
De volta à condição de semente
De onde nunca deveria ter saído
Um, dois...Deu seu último suspiro.

Canalização


Eu canalizei meus demônios
Em uma poça de sangue
Eu os canalizei no meu esplendor
Eu andei no inferno
O inferno que eu construí
E eu me deixei ferir
Na dor do meu próprio sentir
Eu andei nas chamas da dor
Do meu ardor e do meu rancor
Eu canalizei meus demônios
Em uma poça de sangue
O sangue que eu fiz jorrar
Das veias do meu corpo
Do meu solitário e insano corpo
Era o inferno que eu cacei
Eu tornei santa a palavra Forte
Eu era água da vida e da morte
Eles disseram-me a palavra mágica
Cortem-lhe a garganta e deixe escorrer
Oh, sim mataram-me mas esqueceram
Que eu já tinha começado a morrer.

Não havia nada

Havia somente choro e pranto
Era dor e tudo era espanto
Não havia suspiro nem sopro
Era morte em todo seu dorso

Não havia saída nem teto
Eram facas e nada certo
Língua bifurcada de amargor
Era tudo espanto e dor

O sangue estava sujo e preto
Escorria nas mãos e no esqueleto
TUM! e tum, seu coração
Foi arrancado e jogado no chão

Os olhos eram podres de lágrimas
Desciam no rosto de falácias
Mas era lívido e agora verdadeiro
A agonia lhe fez de pisoteio

O novo paraíso foi queimado
Chamas do inferno pisoteado
Árvores da angústia cresceram
Seus corpos chamuscados morreram

O sol congelou e a chuva reinou
Uma pedra de mármore estuporou
Era a angústia suprema da vida
Ser abandonada, odiada e sucumbida.

Manifesto poético






Shiiiiu!
Dois podem guardar um segredo
Se um deles estiver morto
Enegrece sua vista, faça um apelo
Um silêncio, um suspiro torto

Por fora uma pedra de mármore
Mas por dentro batia um ''coração''
Silêncio sagrado, sem válvula de escape
Era assim agora, um caminho sem direção

Os mortos cantam na sua cabeça
Sofria quieto sem descaso, oh sim
Psiu! Estava chorando ? Oh com certeza
Mas não ouviram, era o silêncio do fim

Um, dois...Mate um e viva depois
Três, zero...Não lamente é o certo
Ninguém escutará já foram dois
Seu sorriso manifesto, é um dois e zero.

A chuva

 

 A chuva havia começado e eu nem tinha percebido, o que é estranho, pois normalmente sinto cheiro da chuva antes mesmo de ela chegar. O som não estava tão alto dessa vez e minha atenção estava focada em outra coisa, talvez seja esse o motivo de minha não percepção da chuva.
      De qualquer forma, ela caia e caia, forte e majestosa. Limpava a rua e a mente das pessoas. Livrava-as de sua rotina, tinham que parar para apreciar a chuva. Majestosa chuva. O céu não estava escuro, estava azul um azul intenso e quase mágico, e se olhássemos para cima tudo o que víamos eram vários pingos surgirem aparentemente do nada e roçarem nosso rosto e depois o chão.
     Não havia vento e parecia que o calor do sol ainda estava presente na chuva. Em cada gota que ela derramava sobre os seres inferiores ao seu poder. O calor do sol estava nela. O vento deve ter ficado com medo, pois ela chegou de repente. Sem avisar despencou sobre a vida das pessoas inócuas de toda aquela cidade. E eu me perguntava para onde a chuva gostaria de ir a cada nova viagem.
   Majestosa chuva, caía lá fora enquanto eu na proteção de minha casa suspirava em temê-la, bem como toda a natureza. 

Falácia


E ela era tempestade
Forte e sem piedade
Arrastava para si a desgraça
Ela era, uma suja taça

E ela era um enorme trovão
Dava-lhe dor e tirava-lhe a pulsação
E era um rosto de lágrimas
Adormecida em águas plácidas

E ela era um raio de prata
Caminhou entre a falácia
De seu próprio 'eu' ser
E era uma morte que insistia
Em não morrer.

A porta



E eu era um caminho sem volta
A dor do desconhecido sem glória
Eu era um fogo apagado
Desejoso de vida, mas não vangloriado
Era uma flor morta
Era a passagem, mas sem porta
E eu era algo que já valeu
Ninguém queria, o todo já morreu
Ninguém lutou, eu não valia
E eu era um caminho sem volta
Perdida nas trevas, fechou-se a comporta.