Coração Coxo




O que seria eu ?
O que restou de mim ?
Dei-me e agora sou seu
E para mim restou o fim

O que eu sou ?
O que restou do corpo ?
Sou tudo o que você errou
Meu respirar é um fosso

O que você é ?
Você é desejo
Desejo da vitória
Mas eu sou apenas escória

Sentia um remorso marcante
Seu peito, ficava palpitante
Era um remorso dificultoso
Seu peito, estava coxo
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Sou um verme maltratado
Verme.Palavra que define minha pessoa
Um lixo descartado várias vezes
Um esquecido desmerecedor de compaixão
Estou cega.Ou deveria estar
Estou muda. Ou deveria ficar
Estou surda. Ou deveria estar.
Cuspo veneno. Sou uma víbora
Sou o verme de uma víbora
Sou cega e não meço a dor
Eu sou a dor. A dor do mundo.

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" Um fogo devora um outro fogo. Uma dor de angústia cura-se com outra"
                                                                                                                        Romeu e Julieta



Dead Mind



I was sad
And dead
I was lost inside
My own head

My mind is full
I even can think
I'm tired and angry
And now I can't see

I'm the wrong one
I hate everyone
I'm the wrong one
I can't be with someone




This is the way the world ends
Not with a bang but with a whimper.
T.S Eliot


I was a dead rose with a lot of thorn around me

Jolly ( 23.01.00 - 13.04.13 )


"Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas* que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo." ( Dom Casmurro - Machado de Assis )



Quando cheguei no último sábado (13.4.13) em casa à noite, pouco tempo depois fui ver minha cachorrinha que há tempos estava doente. Com a pouca iluminação do quintal, apenas a observei deitada em sua casinha, não fiz nada e fiquei olhando, com receio de fazer carinho e acordá-la. Quando, segundos depois,  minha mãe chegou e disse para eu não ir ali agora, e eu perguntei Por que Por que, minha mãe apenas balançava a cabeça em negativa pedindo-me para entrar. Foi quando caiu a ficha que minha cachorrinha
( Jolly ) havia morrido. E eu chorei como nunca havia chorado antes, sentada perto dela perguntando a meus pais por que não  disseram-me antes, eu gritava, eu chorava...Eu morria. Disseram que não havia motivos para dizer, que eu nada poderia fazer, que eu só iria entristecer-me mais cedo, e disseram-me que foi à tarde quando voltaram da rua ela já estava morta.

12 anos.

Ela tinha 13 anos e há 12 estava comigo. Há uma semana que ela mal nos reconhecia, mal comia, mal se mexia. No sábado, chorei ao ver que minha mãe tinha que dar comida na seringa para ela, e ela com muito esforço engolia e regurgitava um pouco. Quietinha na sua casinha, nos deixava tocá-la e pegá-la, coisa que antes não fazia por ser de natureza brava. E agora ela só dormia ou ao menos, tentava.

A dor que eu senti e ainda sinto é indescritível .

 A amiga que me ouviu quando eu era criança e ainda adolescente não mais está aqui. A amiga que dividiu comigo momentos alegres e tristes, não mais está aqui. Ainda lembro-me de quando ela chegou em casa. Das nossas brincadeiras. Ainda lembro-me de seu latido ao ouvir estranhos na casa, dos saltos que dava sob o portão quando sentia cheiro de comida, de sua briga com a vassoura e de suas brincadeiras com papel e pano. Lembro-me de levá-la para passear e ela adorava. No 'barrancão', corria e corria, pulava e pulava, atrás de nós e conosco. Alegre, jovem, feliz. E de uns tempos para cá tornou-se tão triste, idosa e doente. E eu não pude fazer nada. Nada. A angústia que eu senti ao vê-la naquele estado só não é pior do que a que sinto agora que ela se foi. Ela estava tão doente que a morte talvez tenha sido um descanso e alívio para ela, mas não para mim. Não para mim.

O mundo ficou sem cor. O mundo ficou sem vida. O mundo ficou sem Jolly.

O que será agora, quando eu voltar para casa e ela não estiver mais lá ? As lembranças ão de vagar em minha mente para sempre. As boas e as recentes ruins.

Toda vez em que eu sorrir por algum motivo, ei de lembrar-me dela e sentir-me-ei triste por estar sorrindo quando fiz tão pouco por ela nos últimos tempos. Sentir-me-ei triste por ela ter ido embora, sozinha.. Eu não estava com ela em seu momento de agonia, no momento em que ela disse adeus. Sozinha.
 ELA ESTAVA SOZINHA!!!
E agora eu estou sozinha, nessa minha dor, nesse meu arrependimento, nessa minha angústia severa que insiste em martirizar-me.

No entanto, esforço-me para pensar nas palavras que uma amiga disse:

"Os animais são anjos que vêm à Terra para cuidar de nós, e quando eles morrem voltam para o céu para cuidar de nós lá de cima."

Mas, nada do que disser irá amenizar o que estou sentindo. Nada. É uma dor horrível que eu não desejaria ao meu inimigo.
O corpo dela frio e duro. Eu tive de enterrar. E o fiz. Em um lugar que ela gostava de ir e brincar. Um lugar bonito, com grama verde e terra fofa e levemente molhada.

Ah Jolly!  Já sentia sua falta e agora sinto ainda mais. Se antes eu nada podia fazer, o fato de que agora definitivamente não posso, é ainda mais horrível. Ainda mais doloroso e ... Não há palavras para descrever. Nem todas as lágrimas do mundo seriam o bastante. Nem toda a dor do mundo é o bastante. Mas estou próxima dela. As imagens de seu corpo frágil rente à realidade que a castigava agora castiga minha mente. Foi tão triste olhar para você naquele momento. E agora continua sendo minha amiga. Queria que pudesse me ouvir. Queria que pudesse estar aqui, bem de novo como no dia em que você chegou em minha vida. Mas você não está. Não mais. E isso é muito ruim de aceitar.

Prometo nunca esquecer de você minha velha amiga. Nunca.

Tudo morre. As árvores morrem, as plantas morrem, as pessoas morrem, os animais morrem. As únicas coisas que não morrem são a dor, o arrependimento e a tristeza.


"With a friend to call my own
I'll never be alone
And you, my friend will see
You've got a friend in me
(You've got a friend in me)"
__ Ben - Michael Jackson


 PS: Logo haverá um vídeo da música Goodbye tema do filme Sempre ao Seu Lado, irei gravar no piano e postarei aqui, em homenagem a Jolly .

* Machado diz pessoas, mas eu usei a frase com o sentido valendo para animais também. Sem Jolly algo me falta e faltando isso não sou eu mesma.

O cravo e rosa






"Cortem-lhe a cabeça"
Está fazendo tudo errado
Deveria estar feliz
Mas seu coração bate zangado

Os seus infortúnios
Impendo-no de a ela sorrir
Soturno e falso estás
Não acredita o que ela pode pedir

Ele se esconde e não compreende
Ele corre e machuca friamente
Ele cospe palavras amargas
Ele não sabe o que disso ela está farta

Tem sido perverso contra a Inocência
Não a permitiu pedir clemência
Ela estava sozinha e ele pisou
Ele virou as costas e só julgou

Sozinha, sentiu-se infeliz por estar ali
E mais uma vez clamou pelo seu fim
Ela não merecia, mas pediu mesmo assim.

A rosa cortou-lhe a cabeça
O cravo ficou cheio de espinhos
E a rosa morreu no próprio ninho.
                 7.4.13

Verões


Sentado ao pé do fogo eu penso
em tudo o que já vi
flores do prado e borboletas
verões que já vivi

__O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel , pág 295


E sentada ao pé da escada eu imagino
em tudo que não fiz
tempo esquecido e perdido
deixei-me e me perdi.

Wonderland

" Está ouvindo a neve contra as vidraças, Kitty ? Soa tão agradável e suave! Como se alguém estivesse beijando a janela toda do lado de fora. Será que a neve ama as árvores e os campos que beija tão docemente ? Depois ela os agasalha sabe, com um manto branco; e talvez diga: 'Durmam, meus queridos, ate o verão voltar' . E quando eles despertam no verão, Kitty se vestem todos de verde, e dançam...onde quer que o vento sopre...oh, isso é muito lindo! (...) O que sei é que os bosques parecem sonolentos no outono, quando as folhas estão ficando castanhas."

Alice através do espelho, pág 162 

O baú

 



        Em um quarto escuro havia um baú no canto esquerdo da parede que ficava próximo à janela. Sem luz alguma o jovem aproximou-se às cegas do grande baú marrom e velho cuja fechadura estava lacrada com um cadeado proporcional. O chão de madeira rangia à medida que o jovem caminhava. Havia apenas uma cama no canto direito do quarto e um pequeno armário ao lado fato que fazia do quarto um lugar solitário.
    Chegando ao baú tateou até que encontrou o buraco onde deveria colocar a chave. Assim fez ainda agachado, abriu devagar e ao passo que assim fazia uma forte luz dourada parecia vislumbrar o interior do baú. Por fim, abriu-o por completo. Mas a luz dourada de súbito desapareceu, e o quarto se iluminou com ela, no entanto, de dentro do baú uma luz preta partiu. Feriu os olhos do jovem que instintivamente afastou-se.
   
Ao se recompor olhou ao redor do quarto iluminado onde somente o baú contrastava toda aquela beleza. O baú era maligno e emanava trevas, dor, arrependimento e tristeza.
Foi quando ao olhar novamente dentro do baú que o jovem percebeu que aquele era o seu baú. Sua mente e seu "coração". Respirou fundo, seu coração palpitando, até que concluiu: O baú era ele. E ao abri-lo depois de tanto tempo trouxe de volta tudo o que o magoara em tempos nem tão distantes assim. Mesmo ferido e humilhado o jovem continuou a olhar dentro do baú, tirou todas as mágoas de volta, todas as palavras ditas e também as guardadas para si, todos os gritos inaudíveis, as lágrimas impedidas de cair. Os cortes do alívio. Tudo. Colocou tudo na mesa e pesou. Valia à pena? Não soube dizer, pois o baú ao ser aberto depois de tanto tempo libertou também um monstro.
   
E esse monstro tomou posse do corpo do jovem e o estraçalhou. Deixando à mostra um corpo mutilado pela dor, destruído pelo arrependimento, uma mente atormentada pelos fracassos, e por fim uma vida fadada ao desespero de nunca ser correta. Uma vida sem vida destinada somente ao amargor.

Aleatórios III

Mil e seiscentos anos. Eu tinha. Eu tive antes de perecer. Mil e seiscentos anos. Eu matei. Eu mato cada dia da minha vida. Eu nasci com seiscentos e passou-se o milênio sem nada a fazer. Deitei sozinha contra meu reflexo no espelho inquebrável. Os escritos nada dizem, não fazem sentido. Mil e seiscentos anos de destruição de caminhos incertos. Não me permitiam sair do buraco. Rasguei meu corpo e no pintei de novo, o refiz pela milésima vez na esperança de fazê-lo melhor e compatível, mas em vão. Em vão.
                                                                              19.3.13



A terra estava suja e molhada. Suja de corpos e molhada de lágrimas. Naquele espaço o homem velho não conseguia andar, seus pés estavam presos à lama que ficou vermelha com seu sangue. E ele caiu, rastejou até sua amada. Sua amada mortal que caminhava na direção oposta a dele, com uma faca pingando sangue em uma das mãos e na outra segurava o seu coração.
                                                                                 26.3.13