Paradise ?






__ Mas como fazem essas crianças sem livros de histórias ? __perguntou Naftali
E Reb Zebulum respondeu:
__Elas têm que se conformar. Livros de histórias não são como pão. Pode-se viver sem eles.
__Eu não poderia viver sem eles. __ disse Naftali.
                        Isaac B. Singer, Naftali
                              o contador de histórias, e seu cavalo Sus

Grama




                           "É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade". Sartre

    O vento cortava as folhas. As fazia balançar... Suavemente.
Um feixe de luz solar pairou sob meu rosto. Franzindo a testa, virei-me para o outro lado, mas não por abominar o Sol, e sim para deixá-lo tocar o restante de meu corpo. Uma folha desprendeu-se da árvore à frente e pousou no chão de grama. As formigas continuavam seu trabalho, os outros animais continuavam a sua vida. E as pessoas à minha volta ...Tentavam entender. O céu azul mesclado de nuvens brancas transportava paz.
    As folhas há tempos caídas não resistiam ao vento que as levava de um lugar ao outro como se fossem passageiras de várias viagens.
A grama roçava meu braço naquele momento, não hesitei em movê-lo, mas desejaria ser uma simples grama.
    Uma simples grama verde quando tem vida, e uma folha marrom, uma vez morta. O ser humano é tão complicado...Tão complicado.

Ensaio sobre a cegueira*

De escuridão era feito o seu mundo.

   Caminhava solitário, a bengala a tatear o chão e qualquer obstáculo. Quando só no ônibus, dependia do cobrador a lhe avisar a parada correta. Ninguém nunca o enganou, mas ele sempre entrava no veículo com esse receio.
    Certo dia, ao descer do ônibus tropeçou em uma depressão do passeio malcuidado. Quase caiu, porém sua percepção aguçada o fez manter-se de pé. E é claro, a fiel bengala devolveu-lhe o equilíbrio. Ficou ali, parado...Aguardando. De súbito um homem apareceu, tocou-lhe o braço e ele sorriu. Sorriu como se tudo em sua vida fosse perfeito. O homem o ajudou a atravessar a rua e a entrar no prédio onde trabalhava. E conversando no caminho ele sorria. O tempo todo.



    A mulher pediu ajuda ao cobrador. Disse o ponto em que queria descer e pediu que a avisassem. Quando íamos chegando ao último ponto o cobrador me pediu que a ajudasse. Eu concordei. Desci do ônibus e ela estava lá esperando. Toquei seu braço e disse " Vamos ?" E ela sorridente, e ainda que de olhos entreabertos, parecia os usar para sorrir também, disse: Claro, vamos vamos. Para o Letras está bem.    

   Durante todo o percurso até a faculdade ela me contou de como ingressou ali, dos trotes que não participou, de como negou-se a ser pintada com a tintas que ''saiam'', mas que ela sabia que não saiam nada ( gargalhando ela me contava), porém pediu não um, mas dois picolés. Isso ela fez questão de repetir. Sempre que havia um obstáculo no caminho, eu senti que não precisava avisá-la. O fiz mesmo assim.

     Quando chegamos à faculdade perguntei se ela ia de escada ou elevador e ela respondeu elevador, perguntou o que eu usava e eu disse escada, ela disse que poderíamos ir de escada se eu quisesses. Mas eu disse que estava tudo bem. Por fim, no elevador ela me contava toda alegre sobre a amiga que não andava no elevador por medo. Mas que ela não, ela não tinha medo. Quando finalmente chegamos ao andar corresponde, encontramos uma de suas amigas e eu a entreguei. Ela virando-se aleatoriamente me agradeceu. Sorrindo. Agradeceu de novo e eu continuei meu caminho. Pensando depois em como aquela mulher - cega- estava feliz em estudar. Só isso. Feliz. Como o homem do ônibus.

    Acho que não é preciso nem uma explicação para essa postagem. Qualquer um pode enxergar...Irônico não ? Enxergar a lição de moral.

* Titulo do livro Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago

Verme




Um verme pisoteado por pés descalços
Eu era um verme castigado
Nada representava, era feito de pisos falsos
Eu era o corvo maltratado

A alma sombria que vagava sozinha
Eu era o monstro esquecido
Nada dizia, era a dor que te definha
Eu era o anjo perdido e caído

Às mãos incisivas e sangrentas
Eu era o corvo a crocitar
O som zumbia, matava as crenças
Eu era o morto a levantar

Tudo que o homem teme e abomina
Eu era um verme da carnificina

Nada significava, nada poderia contestar
Eu era a adaga, estava pronta para me sacrificar.

E era assim que acaba minha vida
Não com um suspiro, mas com um grito.*





* Referência ao poema Homens Ocos de T.S Eliot





Serragem

             

 A comida parecia serragem em sua boca. A água era um veneno. Descia, mas queimava. Vai ver, era veneno. Ele desejou que fosse.
   Negou-se a qualquer prazer. Qualquer distração. O martírio era sua única solução.Facas, navalhas, lâminas. Outras soluções mais satisfatórias.
   Seu olfato não despertaria desejo por alimento tão cedo. Era uma promessa. A audição permitiria apenas a músicas do seu próprio circo de horror. E seu peito...Um tiro de 38 transpassaria. Ao menos assim, ele desejaria.
   A sua boca maldita, seu corpo ferido e mal-amado por si, suas mãos destruidoras de esperanças. Asas da rendição. Não as veria. Não existiam. Asas da morte. O anjo negro o visitaria. Ao menos assim, ele desejaria.
  Caminhava pelo cemitério - onde as terras dos mortos levantavam a poeira do remorso - os mortos choravam por ele. Pois nem ali era bem-vindo. Os mortos o expulsaram. Nem o Inferno iria o querer. Isso é claro, se existisse algum Inferno maior que sua própria vida desprovida de essência.
              A comida parecia serragem em sua boca. O chá cáustico. Perdido em sua desgraça ele se rendeu. Lâminas. Sonhou que uma delas transpassava seu pescoço, o sangue é que rasgava sua pele. Logo aquilo se tornaria sua realidade. Ao menos assim, ele desejaria.
   Um, dois, três. Bebeu de uma vez. O veneno. Seu sangue. Tornou-se um canibal. Um autocanibal.

Instante


As incertezas são levianas
Ergue as dores
Ao subir as persianas

Jorra palavras diante de si
A odeia sim
Não crê, deseja o fim

Desconhece-a, não tenta
Abandonou e fugiu
Um dia já foi sua crença

Chorará sozinho talvez
Perdoarei ? Não sei
Foi a centésima vez

Não procurou, não quis
Por quê ? Não sei
Desistir, é o que farei

Não compreendem mesmo
Na solitária ficou
Não sei o que sou

Um Arcanjo o visitará
Arcanjo da morte
E me levará, se eu tiver sorte

Olhos que choram sangue
Estou aqui, sou seu último instante
   8.5.13

O homem


    Havia um homem de idade avançada prostrado sob um banquinho de madeira na beira daquele barzinho de rua. Sua pele escura parecia não sentir o sol. E sua cabeça quase sem cabelos parecia não querer levantar. Ele comia uma fruta enquanto fitava o chão. Mastigava monotonamente como o restante de sua vida. Ao lado do banquinho sua bengala encostada estava. 
    Seu olhar a meu ver,era triste, como de alguém que não tem vida. E ele comia sua fruta fitando o chão. Ao terminá-la jogou a casca no lixo e eu pensei que se levantaria para ir embora, para continuar sua vida sem razão. Mas ele abriu um largo sorriso naquele rosto cansado e tirou de uma sacola outra fruta e feliz, sorridente e como se o mundo fosse mágico ele comeu a fruta.
   
Ainda fitando o chão como antes, porém, a cada mordida parecia estar feliz. A idade e a dificuldade não o abalaram como eu, inocente, pensei. Ele estava feliz por ter o que comer. Seu corpo frágil não o impediu de se satisfazer com algo simples. Não o impediu de viver.







PS: É só uma inspiração que tive ao ver um idoso na rua comendo uma banana. Pode não significar nada para a maioria das pessoas, mas acho que para as raras pessoas que veem o mundo, que veem os outros que veem arte em tudo pode significar algo sim.