Ensaio sobre a cegueira*

De escuridão era feito o seu mundo.

   Caminhava solitário, a bengala a tatear o chão e qualquer obstáculo. Quando só no ônibus, dependia do cobrador a lhe avisar a parada correta. Ninguém nunca o enganou, mas ele sempre entrava no veículo com esse receio.
    Certo dia, ao descer do ônibus tropeçou em uma depressão do passeio malcuidado. Quase caiu, porém sua percepção aguçada o fez manter-se de pé. E é claro, a fiel bengala devolveu-lhe o equilíbrio. Ficou ali, parado...Aguardando. De súbito um homem apareceu, tocou-lhe o braço e ele sorriu. Sorriu como se tudo em sua vida fosse perfeito. O homem o ajudou a atravessar a rua e a entrar no prédio onde trabalhava. E conversando no caminho ele sorria. O tempo todo.



    A mulher pediu ajuda ao cobrador. Disse o ponto em que queria descer e pediu que a avisassem. Quando íamos chegando ao último ponto o cobrador me pediu que a ajudasse. Eu concordei. Desci do ônibus e ela estava lá esperando. Toquei seu braço e disse " Vamos ?" E ela sorridente, e ainda que de olhos entreabertos, parecia os usar para sorrir também, disse: Claro, vamos vamos. Para o Letras está bem.    

   Durante todo o percurso até a faculdade ela me contou de como ingressou ali, dos trotes que não participou, de como negou-se a ser pintada com a tintas que ''saiam'', mas que ela sabia que não saiam nada ( gargalhando ela me contava), porém pediu não um, mas dois picolés. Isso ela fez questão de repetir. Sempre que havia um obstáculo no caminho, eu senti que não precisava avisá-la. O fiz mesmo assim.

     Quando chegamos à faculdade perguntei se ela ia de escada ou elevador e ela respondeu elevador, perguntou o que eu usava e eu disse escada, ela disse que poderíamos ir de escada se eu quisesses. Mas eu disse que estava tudo bem. Por fim, no elevador ela me contava toda alegre sobre a amiga que não andava no elevador por medo. Mas que ela não, ela não tinha medo. Quando finalmente chegamos ao andar corresponde, encontramos uma de suas amigas e eu a entreguei. Ela virando-se aleatoriamente me agradeceu. Sorrindo. Agradeceu de novo e eu continuei meu caminho. Pensando depois em como aquela mulher - cega- estava feliz em estudar. Só isso. Feliz. Como o homem do ônibus.

    Acho que não é preciso nem uma explicação para essa postagem. Qualquer um pode enxergar...Irônico não ? Enxergar a lição de moral.

* Titulo do livro Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago

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