Serragem

             

 A comida parecia serragem em sua boca. A água era um veneno. Descia, mas queimava. Vai ver, era veneno. Ele desejou que fosse.
   Negou-se a qualquer prazer. Qualquer distração. O martírio era sua única solução.Facas, navalhas, lâminas. Outras soluções mais satisfatórias.
   Seu olfato não despertaria desejo por alimento tão cedo. Era uma promessa. A audição permitiria apenas a músicas do seu próprio circo de horror. E seu peito...Um tiro de 38 transpassaria. Ao menos assim, ele desejaria.
   A sua boca maldita, seu corpo ferido e mal-amado por si, suas mãos destruidoras de esperanças. Asas da rendição. Não as veria. Não existiam. Asas da morte. O anjo negro o visitaria. Ao menos assim, ele desejaria.
  Caminhava pelo cemitério - onde as terras dos mortos levantavam a poeira do remorso - os mortos choravam por ele. Pois nem ali era bem-vindo. Os mortos o expulsaram. Nem o Inferno iria o querer. Isso é claro, se existisse algum Inferno maior que sua própria vida desprovida de essência.
              A comida parecia serragem em sua boca. O chá cáustico. Perdido em sua desgraça ele se rendeu. Lâminas. Sonhou que uma delas transpassava seu pescoço, o sangue é que rasgava sua pele. Logo aquilo se tornaria sua realidade. Ao menos assim, ele desejaria.
   Um, dois, três. Bebeu de uma vez. O veneno. Seu sangue. Tornou-se um canibal. Um autocanibal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fale comigo, estranho!