Narcóticos

     Um baile que dançava sozinho. O ralo do banheiro era a porta de saída de um ser desconhecido. Um ser que habitava minha mente solitária. Esse ser eu nunca cheguei a conhecer, pois o expulsava a cada novo banho. Era um ser que vivia somente na minha cabeça, mas ao chorar eu o mandava embora. E era um baile, pois dançava sozinha a música do meu furor. A música da minha armagura. Ociosamente eu cantava, tentava entender meus próprios pensamentos. Na música, pensava eu ser capaz de exumar a solidão que abarcava em um lugar dentro de mim de vez em quando.

         Mas não foi nos arranjos perfeitos de notas chorosas do piano que encontrei essa compreensão. Foi nas tintas mal pintadas, dos cadernos mal feitos de minha vida. Nos meus próprios rabiscos chamuscados de dor que encontrei a razão. Os papéis vez por outra eram encontrados jogados no chão limpo, mas sujo de palavras esquecidas de minha casa. Os papéis voavam. Fugiam de mim, pois eu os feria com minhas palavras.

       O narcótico. O cheiro do livro novo ou mesmo do arcaico encostado na minha estante. Minha velha estante de lembranças. Lembranças que eu recusava esconder no baú de madeira que um dia eu almejei. O baú de madeira ocre, com uma fechadura proporcional e digna de uma chave branca que eu haveria de pintar com minhas lágrimas salgadas e doces ao mesmo tempo. Doces, pois muitas delas eu impedi de cair.

         E eu haveria de viver assim. Escrevendo, marcando o tempo com palavras. Pois era isso que eu sabia fazer. Marcar o tempo. Não aceitava que ele passasse sem ser ferido. Se ele me feria, eu tinha o direito de feri-lo com meu lápis quase no fim, no meu caderno amarelo, na minha mente distorcida.
                                                                    

 

Eremitar-se

Eremitar-se : do meu vocabulário: ato de isolar-se, abandonar o lugar de convívio, deixar para trás tudo o que um dia pensou que fazia sentido.

O melhor mesmo seria isso, não ? Abandonar esse mundo louco e cheio de pessoas insanas. Afinal, não faz sentido, ou faz ? Acho que não. Caminhas solitária de qualquer forma e quando encontra algo que supostamente deveria livrar-lhe do martírio, veja só... Ficas triste.

Eremitar.

Sozinha em uma ilha onde ninguém haveria de lhe soturnar. Deixaria para trás tudo o que viveu e construiu ? Oras, mas todos iremos. A morte leva tudo. Nos nadifica. Que diferença faria se permitíssemos nossa mente mesma fazê-lo ?

Eremitar

Quem sabe. Quem sabe. São tantos 'Ses'. Onde está seu livro agora ? Não seria onde está seu Deus ? Pois é o mesmo O meu livro a meu ver, nem ele foi capaz de salvar-me. Ao menos, contra essa eremitês ele parece-me incapaz. Onde está...Chega de perguntas. Vou retirar-me. Para onde tão pouco sei. Acho que por hora, retirar-me-ei de meus pensamentos. Meus lúgubres e mórbidos pensamentos.

Eremitar.


Destruídos pelas bombas da própria nação



                                           

"De tanto ver triunfar a maldade,
De tanto ver crescer as injustiças,
De tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos homens,
O homem chega desanimar-se da virtude,
A rir-se da honra
e ter vergonha de ser honesto."
                               Rui Barbosa



Hoje milhares de pessoas estão nas ruas. Nas capitais do país estão protestando. Contra vinte centavos. Vinte centavos ? É sério ? Não ria desses vinte centavos. Há muito mais revolta por trás deles do que você pensa.

Estou aqui hoje para me revoltar. Não como os que estão lá fora brigando, gritando enfim, protestando nas ruas. Eu me revolto através das palavras, que como já disse minha Rainha J.K Rowling - "Palavras são, na minha não tão humilde opinião, nossa inesgotável fonte de magia."

Eu entendo a revolta da população. Entendo mesmo. Há uma inversão de prioridades ocorrendo. A alegria da Copa ser sediada no país verde e amarelo passa a dar lugar a uma cólera que tem como razão o uso do dinheiro público para ''melhorias'' em coisas que até então eram irrelevantes para os Supremos. Foi preciso um evento mundial para que decidissem tomar alguma atitude. Isso tira qualquer um do sério. No entanto, eu há muito perdi as esperanças.

Sou tachada como pessimista, mas na verdade sou apenas uma pessoa realista que não gosta que mascarem a realidade apenas porque ela lhes desagrada. Logo, eu não luto nas ruas e não coloco minha vida em risco por coisa que em pouco tempo será esquecida, mas há pessoas que ainda acreditam que o mundo, que as pessoas - que o nosso amado país tem salvação. Eu não vou julgar vocês. Dou razão e concordo com seus motivos, mas para mim, foram-se os tempos de glória. A corrupção ensinou o Brasil a andar, está intrínseca em nossa história bem sabemos nós. Logo, eu duvido muito que agora ela irá deixar o filho depois de centenas de anos cuidando dele.

Claro que, por trás desses meros vinte centavos há a revolta da educação, da saúde, do transporte, dos preços e dos impostos enfim, há a revolta contra o sistema do nosso maravilhoso país que só é bonito em épocas importantes e é claro, para os inocentes estrangeiros que de vez em quando passam por aqui. O Brasil deve ser o único lugar no mundo em que o povo que aqui vive é menosprezado por seus governantes. Quando é preciso que um evento de larga escala ocorra em território nacional para que as mudanças sociais aconteçam, fica claro a verdadeira preocupação dos nossos queridos políticos ou como gosto de chamá-los - os Supremos - é nada mais que fazer bonito para inglês entre outros ver, além é claro de deixar seus cofres nos bancos com uma conta um pouquinho mais alta.

Eu cansei de reclamar para as pessoas do país e do mundo. Cansei de dizer que a tendência é piorar e que logo, não vale a pena tanto desgaste.Cansei. Ninguém escuta, todos preferem continuar se enganando. Pensando que algo irá mesmo melhorar. Não vai. Para cada coisa boa que acontece, cada conquista há  dezenas de coisas ruins e atrocidades para tirar o sorriso do seu rosto. No ano oficial da Copa, tudo isso será esquecido. A Copa irá ocorrer, iremos torcer, iremos elogiar as melhorias e iremos nos fazer de bobos. Hipócritas. Como uma amiga me disse, porém, não basta chamá-los de hipócritas. Não irá resolver nada. Aliás, o que irá resolver ? Eu não sei, na verdade...até sei. Mas minha opinião ainda é descrita como ingênua. Uma grande bomba no mundo ainda não é bem vista pelas pessoas.

Vinte centavos. Se bastassem para mudar de fato. Mas não bastam. No final quem perde somos nós. Os policias são julgados por fazerem seu trabalho e os manifestantes são julgados como selvagens por simplesmente quererem a mudança. Enquanto os Supremos, em seus jatinhos particulares riem de vocês.

A maioria dos manifestantes é estudante, mas sabemos que há outras pessoas lá. Pessoas que acreditam em algo e que no momento dessa euforia se sentem motivadas a lutar pelo que acreditam. Há pessoas que necessitam do ônibus para trabalhar e precisam de uma boa educação para os filhos, há pessoas que precisam de um bom plano de saúde para cuidar dos parentes mais velhos. Essas pessoas também estão no meio dos estudantes.

Esse meu texto não é manifestante, tão pouco estou defendendo algo como poderiam pensar - a Globo ou qualquer partido político. Não. Não defendo nada. Não apoio nada. Nem um nem outro. Nem ''bom'' nem ''ruim''.

Estou aqui apenas para - como fazem lá fora - mostrar minha opinião. Se irão conseguir a redução do preço da passagem, a melhoria da educação e da saúde, um ajuste nos impostos...Não sei. Mas garanto que não tenho a fé que eles têm. O ser humano tem a essência ruim. Ele é mal e fadado ao fracasso. A ciência avança, mas o homem continua parado no tempo da desgraça.

Podemos, no entanto, pensar que mesmo que nada mude...Algumas pessoas mudam. Como na ditadura as coisas ficaram mais claras depois da manifestação, quem sabe depois de toda essa bagunça algo se clareie. Quem sabe os Supremos não brinquem tanto. Quem sabe, não ? Você acredita nisso não acredita ? Engraçado, nem nisso estou acreditando mais.

De qualquer forma, eu desiludi há muito tempo. O que antes na minha inocente infância eu admirava, hoje me causa repulsa e vergonha. Meu próprio país me causa vergonha. Infelizmente, nosso amigo Barbosa tem razão - nosso pais ri da honestidade e não tem honra. Eu não espero nada de pessoas que na maioria das vezes fazem tudo errado e quando lhes é oportuno decidem que é hora de lutar. Mas se você espera, vá lá e me mostre que há uma salvação.

"As verdadeiras conquistas, as únicas de que nunca nos arrependemos, são aquelas que fazemos contra a ignorância."                          Napoleão Bonaparte


Esse nosso outro amigo, Bonaparte, também tem razão. Essa luta é pra que ? Para o mundo ver ou ela de fato quer acabar com ignorância que rege nosso maravilhoso pais ? Deixo apenas uma questão que além de eu me recusar em procurar a resposta, faz menção aos vinte centavos tão falados: Até quando a ganância dos Supremos irá ser custeada pelo sofrimento do povo ? Até quando ?

De que valeu ?

"Um vitória não apaga mil fracassos."



Escritos de outras eras, ainda refletem a dor e o  desespero, o fracasso e a frustração. Quem diria que depois de tanta luta, eu voltaria para o chão ? Sempre as mesmas palavras, não se cansa disso ? Hein ? Responda, ou já não pode mais ouvir  ?

Nunca irião entender. É uma lei essa afirmação. Vencemos ? Quem te disse isso ? Aqueles ? Os outros  ? Você mesmo ? Acredita nisso que diz ? Que há motivo e tudo mais ? É mentira, amigo. É mentira. Não há. Você perdeu, nós perdemos. Fomos estraçalhados. Jogados no mar de tubarões.

O seu lugar não é aqui, ainda não entende isso ? Tempo ? Quem disse que você tem tempo ? Está morrendo como todos os outros. A diferença é que você morre sem razões. Os outros. Ah, os outros. Sempre serão...Os outros.

Quando é que vai colocar na sua cabeça que não adianta se esforçar tanto, quando o que quer de verdade nunca poderá ser alcançado porque outros já fizeram isso ?
Pare de querer encontrar desculpas para seus infortúnios, pare de querer encontrar algo para culpar, alguém para blasfemar, e vários outros para destruir. Você é a destruição.A angústia de seu próprio ser. Você perdeu, de novo. Irônico, não ?

É uma existência incontrolável, apenas...Sobrevive. O tempo deixa sua boca amarga, a cada dia torna-te mais negra. Seu corpo, é sujo e vil, sua mente é desgraçada, ingênua e sem restrições. O que tenta é algo inútil para qualquer um e o que tentou, há muito deixou de valer.

Chore, pode chorar. Pode gritar e pode matar. Mate essa coisa que te destrói, que te força a levantar quando sabemos que não irá adiantar. Mate essa coisa. Mate...Você.



Monstro

"O terrível era isto: que das profundezas daquele lodo parecessem ecoar vozes e gritos, que a poeira amorfa se movimentasse e pecasse, que o que estava morto e não possuía corpo usurpasse a forma da vida."
                                                                                   Robert L. Stevenson, O Médico e o Monstro

E  sozinha novamente, me pergunto se seria eu um corpo que usurpa a vida. 

Olhares

"Tenho em mim, todas as dores do mundo." *


    Pelos campos verdes caminhava sozinha. De vez em quando esbarrava em uma flor. Roçava a mão no chão de grama e inspirava o ar calmamente. Os olhares a olhavam, mas ela não era vista. Jamais.
    A cada respiração, uma perdição. Foi-se o tempo. Foi-se a vida. Foi-se o mundo. Não havia solução, mas continuavam a caminhada como se houvesse alguma esperança. Mas não havia.
    A incapacidade. O desprezo. O remorso. A frustração. Formavam a poção mais poderosa do mundo. Capaz de derrubar até mesmo ela, que um dia se julgou forte.
    De que valiam tantos sorrisos no rosto se sozinha - e sempre procurava ficar não por martírio, não por drama, mas pelo prazer da companhia, sua garganta doía e sua mente não a permitia prosseguir? De que valiam?
    De todas as dores do mundo, a que mais feria era a única que nem os ''anjos'' - se fossem reais - seriam capazes de curar.
    E procurava razões e tentações. Motivos e certezas, para alcançar aquilo que nunca teria. O orgulho de si. Sempre haveria outros. E outros. E outros mais.
    Os mortos cantavam para seus ouvidos. A canção do abandono. Ela abandonara a si mesma no abismo vermelho de seu mundo negro. O chão estava frio, pois seus restos mortais jaziam ali há certo tempo.
    E foi assim que se compreendeu e admitiu que jamais teria o que todos querem. E o que ela queria era ter. Um motivo. Simples assim. Tão simples quanto provar uma verdade absoluta.


* Referência ao trecho de Fernando Pessoa