Narcóticos

     Um baile que dançava sozinho. O ralo do banheiro era a porta de saída de um ser desconhecido. Um ser que habitava minha mente solitária. Esse ser eu nunca cheguei a conhecer, pois o expulsava a cada novo banho. Era um ser que vivia somente na minha cabeça, mas ao chorar eu o mandava embora. E era um baile, pois dançava sozinha a música do meu furor. A música da minha armagura. Ociosamente eu cantava, tentava entender meus próprios pensamentos. Na música, pensava eu ser capaz de exumar a solidão que abarcava em um lugar dentro de mim de vez em quando.

         Mas não foi nos arranjos perfeitos de notas chorosas do piano que encontrei essa compreensão. Foi nas tintas mal pintadas, dos cadernos mal feitos de minha vida. Nos meus próprios rabiscos chamuscados de dor que encontrei a razão. Os papéis vez por outra eram encontrados jogados no chão limpo, mas sujo de palavras esquecidas de minha casa. Os papéis voavam. Fugiam de mim, pois eu os feria com minhas palavras.

       O narcótico. O cheiro do livro novo ou mesmo do arcaico encostado na minha estante. Minha velha estante de lembranças. Lembranças que eu recusava esconder no baú de madeira que um dia eu almejei. O baú de madeira ocre, com uma fechadura proporcional e digna de uma chave branca que eu haveria de pintar com minhas lágrimas salgadas e doces ao mesmo tempo. Doces, pois muitas delas eu impedi de cair.

         E eu haveria de viver assim. Escrevendo, marcando o tempo com palavras. Pois era isso que eu sabia fazer. Marcar o tempo. Não aceitava que ele passasse sem ser ferido. Se ele me feria, eu tinha o direito de feri-lo com meu lápis quase no fim, no meu caderno amarelo, na minha mente distorcida.
                                                                    

 

Um comentário:

Dê-me sua opinião, ela é muito importante!!!