A menininha

                Havia algo de triste na chuva. Ela não lavava apenas as ruas como sempre fez, mas simplória e silenciosa desviava seu curso natural e pairava nas casas quietas. Casas que estavam preenchidas pelas vidas inócuas de pessoas sem vontade. A chuva descansava de sua viagem do céu nos telhados, nas janelas, nos jardins... Nos vidros.
    Havia algo de triste no cair das gotas, como se não bastasse molhar os vários guarda-chuvas abertos, ela queria mantê-los junto dela, de modo que não caia com rudez, mas era leve como uma pluma.O céu estava triste e a chuva desejava pintar as calçadas imundas com novas cores, cores das lágrimas dele.
   
No entanto, uma garotinha sorria atrás do vidro da janela de sua casa velha. O nariz encostado na vitrine gelada, as mãos pousadas na mesma e os dentes - alguns para nascer - coloriam a vista de quem olhava do lado de fora. Ela não queria deixar seu lugar no sofá bege, um pouco desgastado, mas ainda confortável. De pé no lugar de sempre, ela ficaria ali até que o último pingar escorresse diante dela mesma, no vidro tão gelado quanto os dias nebulosos. Dias estes em que a neve branca mescla-se ao asfalto negro, formando massas cinzentas e finas na cidade perdida em que ela morava, porém, para seu coração quente e sua mais nova descoberta desde que veio ao mundo, o frio não era tão medonho. Não a afetava como a seus familiares e o restante das pessoas daquela simples cidade.
   
Mas a chuva não cessou tão cedo,de modo que ela adormeceu e quando acordou o dia estava nublado, cinza e ... Triste, pois seu sorriso fora embora da janela. Fora embora cedo demais.

25 de Julho - Dia do Escritor

  "Quando os escritores morrem, eles se transformam nos seus livros. O que, pensando bem, não deixa de ser uma forma interessante de reencarnação." Jorge Luis Borges  

           "As palavras são na minha humilde opinião nossa maior fonte de magia" J.K Rowling

     Não é a primeira vez que cito essa frase que a Rainha disse por meio de nosso amado Dumbledore, mas pensei que mais uma vez ela seria totalmente adequada. Hoje, dia 25 de Julho é o Dia do Escritor e qual a melhor maneira para uma pessoa como eu ( aspirante escritora) prestar homenagem a todos os Escritores senão escrevendo ? Então, vamos lá!

"Não se é escritor por ter escolhido dizer certas coisas, mas sim pela forma como as dizemos." Jean-Paul Sartre

     Meu querido e sábio Sartre mais uma vez disse as palavras certas. Quantas e quantas vezes perdi-me nos livros, nas palavras de outras pessoas e em mundos criados por outros ? Quantas  vezes ao ler determinado trecho chorei, ri, cantei e aventurei-me ? Quantos poemas já não expressaram exatamente aquilo que eu sentia ou mesmo queria dizer, mas no momento não pude ou mesmo não consegui demonstrar em palavras ? Quantos livros encaminharam-me para um universo totalmente diferente e novo, um universo mágico do qual eu jamais quis sair ? Perde-se a conta, de fato. Os escritores nos apresentam outra realidade, nos ajudam a fugir da nossa. 

    Porém, falar dos escritores e dos livros para mim é como uma mãe fala do filho. Poderia ficar dias elogiando sempre com um sorriso no rosto. Os livros para mim são mais que preciosos, tão mais que não encontro palavras para descrever o sentimento que tenho por eles.  A arte de escrever é ... é mais que mágica. Saber juntar as palavras de modo que... de modo que o leitor ao passar os olhos fique vislumbrado é...Nossa, é incrível. A arte de criar um personagem o qual criamos afeto ou qualquer sentimento seja bom ou ruim é admirável. Transformar-se em outra pessoa é fenomenal.  Os escritores são os profissionais mais brilhantes do mundo, pois podem ser o que quiserem e quando quiserem. Cada escritor tem seu estilo e é exatamente esse estilo único que os fazem ser...Singulares. 

   Ser Escritor é mais que sentar em frente ao computador ou com um caderno na mão e escrever qualquer coisa, qualquer palavra ou qualquer frase. Ser escritor é ter a  necessidade mais que súbita e mais que natural de pintar palavras  no papel aquilo que não pode-se deixar a boca cantar. Ser escritor é conseguir vez por outra colorir a vida daqueles que ousam entrar em seus mundos impressos, em seus mundos imaginados e uma vez sonhados transportados para a folha. E porque não admitir que muitas vezes os Escritores desafiam-nos quando colocam em palavras aquilo que temos medo ou vergonha de dizer ? Os escritores não têm medo, pois foram agraciados com a arte de matar qualquer temor, eles possuem a a arma mais poderosa, capaz de calar até o mais indômito Homem-Ditador : a escrita, a palavra.

    A todos os escritores que já passaram pela minha vida um mais que sincero Obrigada. À J.K Rowling em especial, é claro. Uma vez que ela não  é somente  uma inspiração de vida e continuará sendo para mim, mas também obrigada por me salvar tantas vezes na infância e na adolescência. 



  
  

Prólogo do livro - Joe Lowis e o chamado da meia-noite

 Esse é o prólogo do meu livro mais precioso. Será uma quadrilogia e agora percebi que o primeiro livro está quase pronto. Pois é, fiquei tanto tempo focada no começo, meio e no clímax da história que nem me dei conta de que já posso finalizá-lo. Mas ainda tem muita coisa pra acontecer, dentro do livro e fora dele. Portanto, ainda que esteja quase pronto ele não está quase pronto. Complicado, mas acabei tendo outras ideias e com a faculdade voltando no segundo semestre terei pouco tempo para me dedicar , ao menos tanto quanto eu queria. Enfim, J.K Rowling levou 7 anos para escrever Harry Potter e a Pedra Filosofal, e J.R.R Tolkien 12 para escrever a obra completa SDA, logo tenho 4 anos a meu favor seguindo a Rainha ( Ao menos para o primeiro livro rs ) e 9 seguindo Tolkien ( para os outros quatro rs ) 

X


 "Era uma dor incapaz de ser sentida por humanos ou qualquer criatura que não fosse... Como ele. Era algo que subia e descia desde as costas até sua cabeça. Em seguida essa mesma dor transformava-se em algo quente como brasa que transpassava seu peito. Joe não fazia ideia do que era aquilo. Tentou gritar seus pais ou seu irmão, entretanto sua boca abria, mas som algum saia. A dor era tanta que ele pensou que ali mesmo, em seu quarto morreria. Mas subitamente a agonia começou a ceder. Vagarosamente Joe deixou de se contorcer. Num momento mórbido sentido ou visto apenas em seus pensamentos tudo o que lhe machucara nos últimos cinco minutos desaparecera. Ele abrira os olhos fitando o teto branco de seu quarto, piscou três vezes para ter certeza de que não estava sonhando. Contudo, não conseguira se levantar, seu corpo estava demasiadamente pesado.  Ficara ali, até cair no sono por volta das três da manha, e mais tarde ser obrigado a se levantar não pelo alarme do celular, não pelos gritos de sua mãe, mas por uma visita que nem ele nem ninguém em sua casa estava esperando."

A criatura Parte III



 Texto feito em parceria com Exorcist-a. Você pode ler a Parte I e Parte II Aqui Aqui 

  O anjo-demônio sorriu e abriu os braços. Abriu as asas enquanto a moça mantinha-se parada. A criatura caminhou lenta e graciosamente.Mas ela não se mexia. O que aconteceu com sua força? Talvez, a escuridão de trevas da noite não a tivesse permitido olhar de perto o deus que se encontrava ali. A compreensão de onde toda a beleza do mundo haveria de ter saído. Mas ela agora sabia que amor nenhum podia existir no peito daquela criatura. Tudo o que ele queria era simplesmente o corpo dela. Não promiscuamente, mas sim para o sacrifício. Uma vez que o anjo-demônio de sentimentos angelicais nada tinha, o sacrifício de um ser humano com uma descendência de necromante o faria ser um demônio completo não apenas um anjo caído, condenado ao inferno. Afinal de contas, nada como algo maligno para aumentar um pouco a adrenalina na mais nova vida da criatura. Ele gostava do proibido. Gostava de brincar com as pessoas. E aquela moça… Era o sacrifício que ele procurou por tanto tempo.
    Ela nem teve tempo de pensar em correr. Ele a agarrou com os braços e mãos fortes e voou. O garoto correu, chorando, arrependido. Mas era tarde. A criatura já havia partido.
   O medo dominava o corpo da ruiva, enquanto o arrependimento destruía-lhe a mente. Nunca deveria ter aberto as portas do inferno. E agora, mais do que nunca sabia exatamente qual o seu objetivo, embora ainda não soubesse os meios. O anjo parou diante de um galpão abandonado de tamanho médio não muito alto próximo à entrada da cidade, onde não havia nada nem ninguém, apenas ruas desertas e encostas tomadas pelo mato seco. Jogou-a no chão de terra e cascalho.
__Levante-se e entre.__ Mandou o anjo com a voz mais áspera do que de costume, dando-lhe as costas apressado a fazer alguma coisa.
   Foi então que ela notou a lua cheia tão clara quanto fogo no céu, e pela posição já deveria ser por volta de meia noite. Ela tentaria fugir, mas do que adiantaria um rato se esconder do falcão faminto? Contra sua vontade, adentrou o local que mesmo sem nenhuma iluminação elétrica via-se seu interior com certa nitidez devido às pequenas janelas de vidro quebrados situadas no alto de cada parede. O espaço era amplo e sujo de poeira  resumidos em meros lastros de abandono. Observando melhor o que ele fazia, reconheceu de imediato o preparativo: Um pacto. Provavelmente com o Deus do Submundo. Ele era um dos únicos anjos que não fora banido, e sim deixou o céu para viver com as mulheres gerando descendentes que logo foram excomungados, por conhecerem a magia e ficarem conhecidos de necromantes. E a troca que a criatura procurava só poderia ser feita na sua vinda à Terra, para fazer um pacto como qualquer outra pessoa, mas este exclusivamente pedia por um sacrifício maior, de que a alma de um dos descendentes do Deus Infernal retornasse para o inferno.
    Já fantasiado com o manto negro preso apenas na altura do ombro com capuz cobrindo a testa, ele preparava os instrumentos. Na parede mais interna havia uma pequena mesinha de madeira pura da altura de exatos um metro e meio e em cima dela uma agulha, taça, velas (preta e vermelha) e tigela de barro virgens, um pedaço de papiro e caneta nunca antes usados, caixa de fósforos novos, algumas folhas da bíblia arrancadas, giz branco, adaga ritualística, um relógio. No centro do galpão um mastro de madeira com cordas.
__Você já sabe o que veio fazer aqui não é mesmo?__ falou por fim, ironicamente. Ainda de costas para ela, concentrado no santuário improvisado. Ela abaixou a cabeça consentindo em resposta, embora não aceitasse o seu destino. Destino o qual ela traçou quando era mais jovem, dois ou três anos atrás. Com o desejo de ser normal, ter alguém, construir uma família; nada disto estava ao seu alcance pelo fato de ser diferente dos demais.
    Um dia nos seus estudos sobre a arte das trevas encontrou a figura da criatura mais bonita que ela tinha visto em toda sua vida: desnudo, longas asas, cabelos negros, montado num lobo enorme. Embaixo havia uma inscrição com letras marcantes ‘Astaroth’. Tão rápido foi o transe quanto a paixão que a atingira, e estupefata permaneceu, leu tudo o que pode sobre como conjurá-lo.
   A lua naquela noite estava tão clara quanto hoje. Assim ela o fez, chamou a criatura das profundezas de Sheol, abrindo os portões, esperava incansavelmente que saltasse de lá um ser perfeito imune da morte, que entenderia suas dores, curasse sua solidão e a obedecesse cegamente. Para sua frustração, saíra num lastro de fogo misterioso que vinha de suas asas, e pousou dignamente sobre ela, com adrenalina saltando das narinas e ódio pulsando em suas veias. Ao colocar os olhos na jovem, iludida e inexperiente necromante que o chamara (ainda não sabendo que ela era parte vital na execução de sua procura de poder e vingança) logo colocou um sorriso débil nos lábios e indagou:__Obrigado.__ Depois de tê-lo dito, voou em uma velocidade imperceptível aos olhos comuns, os olhos da garota apenas conseguiam acompanhar o momento em que ele passou pelo teto.Desde então nunca mais o viu.
    Com seus sentimentos frustrados e permitindo que um dos duques do inferno escapasse, não pode deixar de confessar a uma autoridade maior conhecedora em magia o que acontecera. Então foi aconselhada em se proteger o máximo que pudesse, ficando dentro do círculo de rosas e crisântemos durante a noite, pois Ele voltaria.
   Assim foi feito, e naquela noite eles estavam exatamente como ela sempre previu. Ele a amarrou em pé de modo com que seus braços ficassem para trás no mastro e a garota não se opôs em momento nenhum. O ponteiro do relógio marcou exatamente meia noite; com o giz fez dois círculos, um dentro do outro e em seguida uma estrela invertida.Usando os fósforos acendeu as velas vermelhas dispostas no circulo menor, e recitou a oração de trás para frente. Com a caneta escreveu seu pedido no papiro, furou seu dedo usando a agulha e assinou.
   Sua voz estrondosa doeu aos ouvidos da garota que se contorcia de medo e arrependimento, ele leu sua parte no pacto em voz alta e colocou o papel dentro da tigela de barro que já se encontrava no centro do círculo e o depositou virado.
   Virou-se para ela com a adaga em uma das mãos e a taça na outra. Ao ficarem próximos, olhos nos olhos, todo seu espírito de luta e apego à vida se dissipou e aos poucos aceitou o que ele faria. O silêncio permaneceu até que ele ergueu um dos braços e fez com que a lâmina percorresse seu pescoço levemente e um fio de sangue se escorria para dentro da taça até que a enchesse. Ao colher a quantidade necessária, cravou a adaga no rumo de seu coração acelerando sua morte e sua viagem para o inferno.
   Brandiu algumas palavras em seu idioma genuíno em direção ao altar estendendo a taça para o alto. Em seguida despejou seu conteúdo em cima do verso do papiro, instantaneamente as velas negras situadas no circulo maior se ascenderam. No papiro, começavam a se formar letras que ele perfeitamente compreendia. Algo como: “O sacrifício foi recusado, mesmo sendo minha descendente ela ainda tem algo humano, uma coisa inútil chamada amor, mais inútil ainda: é amor por um demônio." Escrito isso, a superfície começou a pegar fogo, mas um fogo mais ardente e vermelho do que o comum e alastrou-se para a tigela, para a mesa, chegando na parede e tomando proporções cada vez maiores.
   A ira do anjo caído se explodiu em um grito tão alto que quase apagou as chamas do lugar, mas antes que isso de fato acontecesse ele jurou que voltaria, fazendo quantas vítimas fossem necessárias para completar sua ambição. Abriu suas assas enormes voou sem direção, à procura de um novo sacrifício.

A criatura - parte II

   

  Texto feito em parceria com Exorcist-a . Você pode ler a Parte I Aqui .

   O garoto estava aterrorizado. Era possível enxergar o medo emanar de seus olhos grandes e castanhos. A criatura não disse nada até o momento em que o garoto saiu de sua posição e virou-se para o ser monstruoso, mas estonteantemente belo que se encontrava à frente.__Você. __ sussurrou o ser, abaixando as asas e se agachando para ficar na altura dos olhos do garoto agora ajoelhado.__S-sim. __ disse o garoto evitando contato visual. Por mais brilhantes que os olhos negros da criatura fossem, era horrível olhar para eles. Como se toda a sua dor explodisse dentro de si ao fixar-se naqueles olhos perolados.
__Preciso de sua lealdade.__ retorquiu a criatura. Levantou-se e puxou o garoto pelos cabelos. Arrastou-o e o jogou na cama. A seda vermelha se desmanchou. O garoto estava para sucumbir ao próprio medo.
__C-c-claro. O que quer que eu faça?__ gaguejou mais uma vez.
__Preciso de um sacrifício. E você irá encontrar a pessoa certa para isso. Entendeu? __disse a criatura cuja voz era gutural e angelical, agradável e ao mesmo tempo assombrosa. A criatura parecia apreciar o som da própria voz, pois sempre que terminava uma frase seu sorriso maldoso era desenhado em seus lábios vermelhos.
__T-tudo bem. Quem é?
__Não é qualquer sacrifício. Aproxime-se. __ disse o monstro estendendo os braços para o garoto amuado no canto do quarto. __ Venha, vou lhe mostrar como essa pessoa deve ser. __ Em seguida abraçou o garoto, um abraço forte, apertado e quente.
O monstro era anjo e demônio, o monstro era um deus.
   O garoto relutante se levantou e caminhou em direção aos braços da criatura que sorria, e sorria com gosto,sabia que tinha o total controle. Uma vez que o menino estava em seus braços ele os fechou em volta do mesmo e juntos voaram para fora da casa. O telhado do quarto foi estraçalhado, as asas negras do monstro pintavam o céu da noite de lua cheia, algumas horas antes da meia noite. Os morcegos assustados escondiam-se. Os ventos mudavam de direção devido à pressão das asas, as pessoas na rua nada enxergavam, pois ele voava muito alto. Voou durante alguns minutos até que parou no alto de um prédio em construção no final de uma rua deserta. O garoto reconheceu a rua. Era a antiga casa de seus pais. A criatura soltou o garoto que se desequilibrou um pouco, mas ficou firme depois de se segurar involuntariamente na perna do monstro que estava ereto ao seu lado. A criatura olhou com desdém quando o garoto segurou em sua perna e em seguida voltou seu olhar para a casa enquanto o garoto se arrependia de ter encostado no ser.
__Ali. __ disse a criatura apontando para uma casa cuja janela estava aberta e uma luz que provavelmente seria da televisão podia ser vista. __ Naquela casa mora uma mulher. Você irá chamá-la de modo que ela saia do portão para fora e quando ela fizer isso… Eu farei o resto. __ disse, sorrindo.
__ T-t-tudo bem. __ o garoto estava tremendo, mas não se moveu.
__Ora. Vamos logo. __ em seguida empurrou o garoto do prédio.


    Ouviu-se um som abafado confirmando que o garoto havia caído em sacos de lixo negros, conforme a criatura calculara. Ou não. Ainda atordoado com tudo o que tinha acontecido organizou seus pensamentos e caminhou até a rua no lugar onde lhe fora mandado. ‘Porque será que estou fazendo isso?’ pensou consigo mesmo. Não sabia, mas fez. Não tinha escolha, afinal.
     O aspecto da casa era antigo, embora fosse bem cuidada com um jardim impecável que intercalava em camadas de crisântemos brancos e de rosas que na soturnez da noite cintilavam vermelhas. Com exceção da janela aberta (que revelou não ser a TV ligada, mas sim diversas velas acesas), seu interior estava afogado na mais mórbida da escuridão. Tocou a campainha que se escondia num canto do muro no interior do portão de barras de ferro, bem pontiagudo que na parte superior se encontrava ensanguentado, o garoto cogitou a possibilidade de ter ferido a asa da criatura.
    Ao gritar da campainha não tardou uma luz pequena e solitária do primeiro cômodo surgir de imediato, assim como se um alarme tivesse soado na presença de um intruso. Seu coração palpitou ainda mais forte, a respiração ficou irregular e com cautela lembrou-se do plano.
   A porta da frente se abriu revelando uma jovem figura feminina de cabelos ruivos desgrenhados com um moletom simples segurando em uma das mãos uma vela. Sua expressão, antes tensa se tranquilizou.
__O que quer? __ Gritou uma voz suave e doce que abalou suas certezas.
__Apenas uma informação. Porque não vem até aqui, assim podemos conversar melhor.
O garoto mentiu desajeitado procurando ao máximo ser convincente e querendo executar logo a missão de trazê-la para fora. Mas recuou um passo para trás meio aturdido assim que a porta atrás dela se fechou sozinha quando fez menção de se distanciar da casa.
   Mecanicamente seu corpo gelou. Enquanto pensava no que dizer, ela vinha caminhando em sua direção passando pelo jardim. Seus olhos eram de um azul tão claro que conseguiam iluminar até seus pensamentos, e por um instante quis correr e desaparecer tão repentinamente quanto aparecera, mas também se lembrou que havia uma criatura que poderia matá-lo.
__O que quer saber? __ Perguntou ela meio confusa e um pouco cansada, notava-se pelo bocejar que vez por outra ela fazia.
__Na verdade, eu preciso de ajuda, meu gato foi atropelado. __ Pensou melhor e decidiu mudar o pedido.
__Porque não disse logo, onde ele está? __ Ela sentiu um dever enorme em ajudar alguém, até mesmo porque ela detinha conhecimentos inestimáveis de bom...quase tudo que poderia ser de grande valia, mesmo com receio de sair do círculo à noite.
  O garoto indicou com o dedo para a rua de cima, onde Ele estava à espreita. A jovem abriu o portão que silenciosamente cedeu. Apressou o passo para onde o garoto havia anunciado quando viu a silhueta de um homem com asas enormes vindo calmamente em sua direção convicto de que sua presa dali não escaparia. Eram as mesmas asas que haviam ficado presas no seu feitiço de proteção. Eufórica, nem olhou para trás à procura do menino. Fez menção de correr, mas era tarde demais, já tinha caído nos encantos sombrios do errôneo demônio.
   Uma lágrima correu pela face gelada da garota, suas mãos tremiam até que vacilou deixando a vela cair no chão, suas pupilas azuis sequer moviam diante tanta beleza. Não era um feitiço como os vários que ela fizera para se livrar dele, e sim uma atração natural que a presa tem de seu predador.

15 de julho - Dois Anos Sem Harry Potter

Hoje dia 15 de julho de 2013 fazem exatos dois anos desde que Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte II foi lançado nos cinemas. Fazem dois anos que os corações dos Potterheads choram a dor de não poder esperar mais nenhum filme, mesmo sabendo que não haverá mais nenhum livro sobre o nosso bruxo  desde 2007. No dia 21 de julho  de 2007 Harry Potter e as Relíquias da Morte - livro - estaria sendo lançado, logo em 2013 fazem seis anos desde que o menino que sobreviveu cumpriu sua missão, de fato.

Lembro-me exatamente do dia em que enxerguei o exemplar de Harry Potter e a Pedra Filosofal na estante da minha tia em Belo Horizonte. Eu estava passando férias lá - tinha 10 anos-, e estava à procura de algo para ler e passando o dedo pequeno pelos livros grandes eu vi o livro que eu ganharia de presente dela. Eu já conhecia o filme, mas como morava em uma cidade pequena adquirir qualquer livro era um pouco mais complicado que hoje onde a internet faz seu papel. Naquela época viajar para cidades maiores em busca de livrarias exigia um pouco mais que apenas vontade. De qualquer forma eu puxei o livro. Manuseei com cuidado. Abri. Sorrindo a todo momento. Li a dedicatória da autora que viria a se tornar a minha mais admirada e querida escritora no mundo. Apaixonei logo nas primeiras páginas em que passeis os olhos grandes e pude ver Harry Potter nelas. Eu queria lê-lo ali, naquele quarto pequeno em que eu dormia. Queria adentrar no mundo que eu só conhecia pelas telas da televisão, mas eu também queria que o livro fosse meu. Apenas meu. Portanto, inocente comentei com minha tia, ela sabia um pouco da minha paixão por Harry Potter - pelos filmes, inicialmente- , mas ela não hesitou em pegar a caneta e fazer uma dedicatória no livro para mim.

Finalmente, entregou-me o livro e eu fui para a sala de estar cujo sofá confortável serviria-me de assento pelos próximos dois dias em que eu continuaria a conhecer minha paixão através das palavras de J.K Rowling. Sentei-me e lá fiquei  o restante da tarde. Lembro-me também que uma amiga dela havia a visitado naquela tarde e mesmo que a pessoa fosse minha amiga também eu não soltei o livro para ficar conversando. Ao final da tarde eu estava somando os pontos das casas para a Copa das Casas e orgulhei-me ao ver que Grifinória havia ganhado com 482 pontos. Eu queria a Câmara Secreta. Por sorte minha tia na época era do tipo que faria meus caprichoso se ela pudesse. E de fato fez. Fomos ao Shopping no dia seguinte e eu sai de lá com meu exemplar de Harry Potter e a Câmara Secreta nas mãos. Foi um dos melhores dias da minha infância. No dia seguinte eu havia terminado de lê-lo. Com o tempo essa mesma tia foi comprando os outros livros. Alguns eu ganhei em ocasiões tristes as quais eu não acho valer a pena contar aqui. Conto apenas que nesses momentos tristes e dolorosos de minha vida a aventura de Harry Potter  no torneio Tribuxo foi o que me salvou da depressão e quem sabe da loucura. A tristeza de perder Sirius foi minha tristeza e quando eu vi Dumbledore morrer diante de meus olhos, ali , assassinado por Snape - fato que me faria o odiar por algum tempo -, eu chorei. Chorei com Harry, Hermione, Rony e todos os estudantes e professores de Hogwarts.

O que estou tentando dizer hoje é que ainda 16 anos depois e no meu caso 10 em que estou com Harry Potter eu não esqueci e nunca farei isso. A história que nossa Rainha criou é mais que apenas varinha e feitiços. É amor, é coragem, é misericórdia e bondade. É Amizade. Harry Potter não conquistou apenas números - e números grandes -, mas também corações, mentes, vidas. Ainda hoje eu releio os livros e os abraço como a um amigo. Eu vejo os filmes não como eu via as primeiras vezes ou seja, não com a alegria de poder esperar mais um. Hoje, muitas vezes ao ver os primeiros filmes sinto vontade de chorar quieta no quarto, pois sei que acabou...Em partes. Como já disseram ''Cada potterhead é uma horcruxe e isso faz com que Harry Potter viva em cada um de nós de modo que ele jamais morrerá'' , mas não posso negar que às vezes sinto um pesar por saber que não mais teremos Harry Potter retornando à Hogwarts. Retornando como eu tanto pedi que acontecesse comigo. Sei que nossas cartas de Hogwarts são na verdade nossos primeiros exemplares de Harry Potter e a Pedra Filosofal, mas eu pedi muito para minha carta chegar e sei que muitos também o fizeram.

Harry Potter sempre será parte de minha vida. Eu sempre amarei e J.K Rowling sempre será minha escritora preferida. A história dela é inspiração para mim que quero ser escritora também. Muitas foram as vezes em que recorri à história dessa pessoa incrível para me inspirar em momentos que pensei em desistir de seguir esse sonho.

É isso por hoje. Aos Potterheads minhas palavras de consolo, pois saibam que Harry Potter não acabou no dia 15 de julho tão pouco no 21 de julho. Harry Potter estará conosco até o fim dos tempos e mesmo depois disso ele continuará a viver. Nós somos a Geração Harry Potter e é com orgulho que digo isso.Ao contrário da legenda no poster, Tudo Não Acaba Aqui. Isso só serviu para mostrar o quanto Harry Potter é grande e sua legião de fãs e amigos maior ainda. Harry Potter é eterno. À nossa Rainha J.K Rowling um sincero muitíssimo obrigada por ter sido minha infância, adolescência e fase adulta e ainda o que será minha velhice.





Obsoleta



Havia uma idosa sentada na varanda de sua velha casa. Uma casa pintada há anos, com cores já tão esquecidas quanto o homem que as pintara. O branco das paredes há muito tornara-se um amarelo quase marrom, um marrom podre e sem vida.
Ela balançava em sua cadeira. A velha cadeira forjada pelas mãos de seu filho, hoje morto em guerra, mas morto antes em sua mente, que tão pouco se lembrava daquela fisionomia desde sua partida para cumprir um seu suposto dever patriota. Para frente e para trás ela balançava na esperança de que o próximo embalo a levasse para outro mundo. Desconhecido e novo. Um mundo de sonhos.
O corpo cansado e fastio pela idade não colaboravam, e ela passava todo o seu tempo imóvel, e o passaria até o último instante de sua vida. Vivia nesse marasmo, como se não houvesse outro ofício que não o balançar estático de sua cadeira, metáfora suja de sua vida.
Levantou-se de súbito. Caminhou em direção ao quarto, o último cômodo da casa, ao lado da porta que saía para o quintal. Um quintal pintado com as folhas secas dos outonos passados. E quantos outonos...
Deitou a cabeça no travesseiro sem fronha, que ela tirara há tempos. Não queria que lhe cobrissem as lágrimas, não gostava de representar as cicatrizes da monotonia de sua vida triste. Uma vez deitada, de bruços na cama decrépita, não permitiu mais às lágrimas que vertessem, forçando o rosto contra o travesseiro. Não que ainda tivesse tantas forças, mas em sua mente as coisas pesavam e ajudavam-na a não mais erguer sua cabeça grisalha.
Sua visão turva tardaria a ter outra luz. Não que a desejasse profundamente, seu espírito, no entanto, desmazelado haveria de ver uma coisa somente antes de permitir que sua respiração chiada e seus estertores, de uma vez para sempre, cessassem.
A morte não seria surpresa nenhuma para ela, poderia vir em qualquer lugar, a qualquer momento, de qualquer jeito. Em sua idade, perdera o privilégio de teme-la; ela, que era das visitas a mais esperada.
Seus olhos cansados percorreram o quarto vazio e tropeçaram nas lembranças presas em fotografias que jaziam nas paredes, de pessoas que jaziam em covas rasas, cuja jovialidade jazia longe, longe da eternidade que prometia. Ainda que o gosto por elas deixado fosse doce, a solidão que hoje a envolvia o fazia amargo e triste. O desprazer de ser a vivente derradeira era visível em cada ruga de seu rosto pequeno e murcho.
Sua existência era hoje os objetos frios, as cartas amarelecidas, os calendários de décadas passadas, os relógios parados e as outras bugigangas lacônicas que guardava em caixas pretas prontas para o esquecimento. De insônia não sofria, embora o sono da morte nunca lhe quisesse fechar as pálpebras. Comia pouco, e já nem se lembrava de tomar seus remédios.
Contudo, uma única paixão ainda vivia: as flores. Felicidade remanescente que ainda podia tocar; pequenos prazeres que brotavam nas janelas. Alegrava-a sua visão, e lamentava-se se morriam. Mas não gostava tampouco da atitude egoísta de prendê-las para si, de condená-las sob os telhados.
A cada dia um minuto a menos. A vida a fazia ver mortes. Não deixava saudades em ninguém, pois ela mesma nunca se fora. Ergueu-se lentamente de onde pensara ser seu último leito, e com dificuldade arrastou-se para a sala, quando se lembrou de que era preciso regar as plantas.
Ao contrário dela, as flores precisavam de alguém. Passou pelo quarto e pelo corredor esquivando-se dos móveis apodrecidos. Ao chegar na sala, uma dor no peito a fez sucumbir ao chão. Não gritava, pois desaprendera a falar ou mesmo grunhir há anos, por mais insuportável que lhe fosse o rombo no peito. Lembrando-se de seu convite soturno, não deixou de imaginar uma penumbra de manto negro encarando-a pela janela, sob as flores. Em seu último delírio, a palavra “entre” formou-se em sua boca gélida, sem lábios. Calmamente a força e a dor foram abandonando seu corpo inerte. E então tudo arrefeceu em um eterno silêncio.
Meses depois, a família ausente encontrou o cadáver com um sorriso sereno no rosto. Suas coisas adormeciam em caixas de papelão, como deixara. As mobílias comidas pelas traças e os colchões sem lençóis. Não havia testamento, havia somente o dinheiro para o seu funeral, sobre o criado mudo.

Ninguém se importou em regar as flores.

Texto feito em Parceria com Exorcist-a