A criatura - parte II

   

  Texto feito em parceria com Exorcist-a . Você pode ler a Parte I Aqui .

   O garoto estava aterrorizado. Era possível enxergar o medo emanar de seus olhos grandes e castanhos. A criatura não disse nada até o momento em que o garoto saiu de sua posição e virou-se para o ser monstruoso, mas estonteantemente belo que se encontrava à frente.__Você. __ sussurrou o ser, abaixando as asas e se agachando para ficar na altura dos olhos do garoto agora ajoelhado.__S-sim. __ disse o garoto evitando contato visual. Por mais brilhantes que os olhos negros da criatura fossem, era horrível olhar para eles. Como se toda a sua dor explodisse dentro de si ao fixar-se naqueles olhos perolados.
__Preciso de sua lealdade.__ retorquiu a criatura. Levantou-se e puxou o garoto pelos cabelos. Arrastou-o e o jogou na cama. A seda vermelha se desmanchou. O garoto estava para sucumbir ao próprio medo.
__C-c-claro. O que quer que eu faça?__ gaguejou mais uma vez.
__Preciso de um sacrifício. E você irá encontrar a pessoa certa para isso. Entendeu? __disse a criatura cuja voz era gutural e angelical, agradável e ao mesmo tempo assombrosa. A criatura parecia apreciar o som da própria voz, pois sempre que terminava uma frase seu sorriso maldoso era desenhado em seus lábios vermelhos.
__T-tudo bem. Quem é?
__Não é qualquer sacrifício. Aproxime-se. __ disse o monstro estendendo os braços para o garoto amuado no canto do quarto. __ Venha, vou lhe mostrar como essa pessoa deve ser. __ Em seguida abraçou o garoto, um abraço forte, apertado e quente.
O monstro era anjo e demônio, o monstro era um deus.
   O garoto relutante se levantou e caminhou em direção aos braços da criatura que sorria, e sorria com gosto,sabia que tinha o total controle. Uma vez que o menino estava em seus braços ele os fechou em volta do mesmo e juntos voaram para fora da casa. O telhado do quarto foi estraçalhado, as asas negras do monstro pintavam o céu da noite de lua cheia, algumas horas antes da meia noite. Os morcegos assustados escondiam-se. Os ventos mudavam de direção devido à pressão das asas, as pessoas na rua nada enxergavam, pois ele voava muito alto. Voou durante alguns minutos até que parou no alto de um prédio em construção no final de uma rua deserta. O garoto reconheceu a rua. Era a antiga casa de seus pais. A criatura soltou o garoto que se desequilibrou um pouco, mas ficou firme depois de se segurar involuntariamente na perna do monstro que estava ereto ao seu lado. A criatura olhou com desdém quando o garoto segurou em sua perna e em seguida voltou seu olhar para a casa enquanto o garoto se arrependia de ter encostado no ser.
__Ali. __ disse a criatura apontando para uma casa cuja janela estava aberta e uma luz que provavelmente seria da televisão podia ser vista. __ Naquela casa mora uma mulher. Você irá chamá-la de modo que ela saia do portão para fora e quando ela fizer isso… Eu farei o resto. __ disse, sorrindo.
__ T-t-tudo bem. __ o garoto estava tremendo, mas não se moveu.
__Ora. Vamos logo. __ em seguida empurrou o garoto do prédio.


    Ouviu-se um som abafado confirmando que o garoto havia caído em sacos de lixo negros, conforme a criatura calculara. Ou não. Ainda atordoado com tudo o que tinha acontecido organizou seus pensamentos e caminhou até a rua no lugar onde lhe fora mandado. ‘Porque será que estou fazendo isso?’ pensou consigo mesmo. Não sabia, mas fez. Não tinha escolha, afinal.
     O aspecto da casa era antigo, embora fosse bem cuidada com um jardim impecável que intercalava em camadas de crisântemos brancos e de rosas que na soturnez da noite cintilavam vermelhas. Com exceção da janela aberta (que revelou não ser a TV ligada, mas sim diversas velas acesas), seu interior estava afogado na mais mórbida da escuridão. Tocou a campainha que se escondia num canto do muro no interior do portão de barras de ferro, bem pontiagudo que na parte superior se encontrava ensanguentado, o garoto cogitou a possibilidade de ter ferido a asa da criatura.
    Ao gritar da campainha não tardou uma luz pequena e solitária do primeiro cômodo surgir de imediato, assim como se um alarme tivesse soado na presença de um intruso. Seu coração palpitou ainda mais forte, a respiração ficou irregular e com cautela lembrou-se do plano.
   A porta da frente se abriu revelando uma jovem figura feminina de cabelos ruivos desgrenhados com um moletom simples segurando em uma das mãos uma vela. Sua expressão, antes tensa se tranquilizou.
__O que quer? __ Gritou uma voz suave e doce que abalou suas certezas.
__Apenas uma informação. Porque não vem até aqui, assim podemos conversar melhor.
O garoto mentiu desajeitado procurando ao máximo ser convincente e querendo executar logo a missão de trazê-la para fora. Mas recuou um passo para trás meio aturdido assim que a porta atrás dela se fechou sozinha quando fez menção de se distanciar da casa.
   Mecanicamente seu corpo gelou. Enquanto pensava no que dizer, ela vinha caminhando em sua direção passando pelo jardim. Seus olhos eram de um azul tão claro que conseguiam iluminar até seus pensamentos, e por um instante quis correr e desaparecer tão repentinamente quanto aparecera, mas também se lembrou que havia uma criatura que poderia matá-lo.
__O que quer saber? __ Perguntou ela meio confusa e um pouco cansada, notava-se pelo bocejar que vez por outra ela fazia.
__Na verdade, eu preciso de ajuda, meu gato foi atropelado. __ Pensou melhor e decidiu mudar o pedido.
__Porque não disse logo, onde ele está? __ Ela sentiu um dever enorme em ajudar alguém, até mesmo porque ela detinha conhecimentos inestimáveis de bom...quase tudo que poderia ser de grande valia, mesmo com receio de sair do círculo à noite.
  O garoto indicou com o dedo para a rua de cima, onde Ele estava à espreita. A jovem abriu o portão que silenciosamente cedeu. Apressou o passo para onde o garoto havia anunciado quando viu a silhueta de um homem com asas enormes vindo calmamente em sua direção convicto de que sua presa dali não escaparia. Eram as mesmas asas que haviam ficado presas no seu feitiço de proteção. Eufórica, nem olhou para trás à procura do menino. Fez menção de correr, mas era tarde demais, já tinha caído nos encantos sombrios do errôneo demônio.
   Uma lágrima correu pela face gelada da garota, suas mãos tremiam até que vacilou deixando a vela cair no chão, suas pupilas azuis sequer moviam diante tanta beleza. Não era um feitiço como os vários que ela fizera para se livrar dele, e sim uma atração natural que a presa tem de seu predador.

Um comentário:

  1. Li a parte dois e dps a um, (sou louca KK)
    Mas gostei bastante, n sei pq me lembrei de a guerra dos tronos xD

    http://nossoblogsecreto.blogspot.com.br/

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