A criatura Parte III



 Texto feito em parceria com Exorcist-a. Você pode ler a Parte I e Parte II Aqui Aqui 

  O anjo-demônio sorriu e abriu os braços. Abriu as asas enquanto a moça mantinha-se parada. A criatura caminhou lenta e graciosamente.Mas ela não se mexia. O que aconteceu com sua força? Talvez, a escuridão de trevas da noite não a tivesse permitido olhar de perto o deus que se encontrava ali. A compreensão de onde toda a beleza do mundo haveria de ter saído. Mas ela agora sabia que amor nenhum podia existir no peito daquela criatura. Tudo o que ele queria era simplesmente o corpo dela. Não promiscuamente, mas sim para o sacrifício. Uma vez que o anjo-demônio de sentimentos angelicais nada tinha, o sacrifício de um ser humano com uma descendência de necromante o faria ser um demônio completo não apenas um anjo caído, condenado ao inferno. Afinal de contas, nada como algo maligno para aumentar um pouco a adrenalina na mais nova vida da criatura. Ele gostava do proibido. Gostava de brincar com as pessoas. E aquela moça… Era o sacrifício que ele procurou por tanto tempo.
    Ela nem teve tempo de pensar em correr. Ele a agarrou com os braços e mãos fortes e voou. O garoto correu, chorando, arrependido. Mas era tarde. A criatura já havia partido.
   O medo dominava o corpo da ruiva, enquanto o arrependimento destruía-lhe a mente. Nunca deveria ter aberto as portas do inferno. E agora, mais do que nunca sabia exatamente qual o seu objetivo, embora ainda não soubesse os meios. O anjo parou diante de um galpão abandonado de tamanho médio não muito alto próximo à entrada da cidade, onde não havia nada nem ninguém, apenas ruas desertas e encostas tomadas pelo mato seco. Jogou-a no chão de terra e cascalho.
__Levante-se e entre.__ Mandou o anjo com a voz mais áspera do que de costume, dando-lhe as costas apressado a fazer alguma coisa.
   Foi então que ela notou a lua cheia tão clara quanto fogo no céu, e pela posição já deveria ser por volta de meia noite. Ela tentaria fugir, mas do que adiantaria um rato se esconder do falcão faminto? Contra sua vontade, adentrou o local que mesmo sem nenhuma iluminação elétrica via-se seu interior com certa nitidez devido às pequenas janelas de vidro quebrados situadas no alto de cada parede. O espaço era amplo e sujo de poeira  resumidos em meros lastros de abandono. Observando melhor o que ele fazia, reconheceu de imediato o preparativo: Um pacto. Provavelmente com o Deus do Submundo. Ele era um dos únicos anjos que não fora banido, e sim deixou o céu para viver com as mulheres gerando descendentes que logo foram excomungados, por conhecerem a magia e ficarem conhecidos de necromantes. E a troca que a criatura procurava só poderia ser feita na sua vinda à Terra, para fazer um pacto como qualquer outra pessoa, mas este exclusivamente pedia por um sacrifício maior, de que a alma de um dos descendentes do Deus Infernal retornasse para o inferno.
    Já fantasiado com o manto negro preso apenas na altura do ombro com capuz cobrindo a testa, ele preparava os instrumentos. Na parede mais interna havia uma pequena mesinha de madeira pura da altura de exatos um metro e meio e em cima dela uma agulha, taça, velas (preta e vermelha) e tigela de barro virgens, um pedaço de papiro e caneta nunca antes usados, caixa de fósforos novos, algumas folhas da bíblia arrancadas, giz branco, adaga ritualística, um relógio. No centro do galpão um mastro de madeira com cordas.
__Você já sabe o que veio fazer aqui não é mesmo?__ falou por fim, ironicamente. Ainda de costas para ela, concentrado no santuário improvisado. Ela abaixou a cabeça consentindo em resposta, embora não aceitasse o seu destino. Destino o qual ela traçou quando era mais jovem, dois ou três anos atrás. Com o desejo de ser normal, ter alguém, construir uma família; nada disto estava ao seu alcance pelo fato de ser diferente dos demais.
    Um dia nos seus estudos sobre a arte das trevas encontrou a figura da criatura mais bonita que ela tinha visto em toda sua vida: desnudo, longas asas, cabelos negros, montado num lobo enorme. Embaixo havia uma inscrição com letras marcantes ‘Astaroth’. Tão rápido foi o transe quanto a paixão que a atingira, e estupefata permaneceu, leu tudo o que pode sobre como conjurá-lo.
   A lua naquela noite estava tão clara quanto hoje. Assim ela o fez, chamou a criatura das profundezas de Sheol, abrindo os portões, esperava incansavelmente que saltasse de lá um ser perfeito imune da morte, que entenderia suas dores, curasse sua solidão e a obedecesse cegamente. Para sua frustração, saíra num lastro de fogo misterioso que vinha de suas asas, e pousou dignamente sobre ela, com adrenalina saltando das narinas e ódio pulsando em suas veias. Ao colocar os olhos na jovem, iludida e inexperiente necromante que o chamara (ainda não sabendo que ela era parte vital na execução de sua procura de poder e vingança) logo colocou um sorriso débil nos lábios e indagou:__Obrigado.__ Depois de tê-lo dito, voou em uma velocidade imperceptível aos olhos comuns, os olhos da garota apenas conseguiam acompanhar o momento em que ele passou pelo teto.Desde então nunca mais o viu.
    Com seus sentimentos frustrados e permitindo que um dos duques do inferno escapasse, não pode deixar de confessar a uma autoridade maior conhecedora em magia o que acontecera. Então foi aconselhada em se proteger o máximo que pudesse, ficando dentro do círculo de rosas e crisântemos durante a noite, pois Ele voltaria.
   Assim foi feito, e naquela noite eles estavam exatamente como ela sempre previu. Ele a amarrou em pé de modo com que seus braços ficassem para trás no mastro e a garota não se opôs em momento nenhum. O ponteiro do relógio marcou exatamente meia noite; com o giz fez dois círculos, um dentro do outro e em seguida uma estrela invertida.Usando os fósforos acendeu as velas vermelhas dispostas no circulo menor, e recitou a oração de trás para frente. Com a caneta escreveu seu pedido no papiro, furou seu dedo usando a agulha e assinou.
   Sua voz estrondosa doeu aos ouvidos da garota que se contorcia de medo e arrependimento, ele leu sua parte no pacto em voz alta e colocou o papel dentro da tigela de barro que já se encontrava no centro do círculo e o depositou virado.
   Virou-se para ela com a adaga em uma das mãos e a taça na outra. Ao ficarem próximos, olhos nos olhos, todo seu espírito de luta e apego à vida se dissipou e aos poucos aceitou o que ele faria. O silêncio permaneceu até que ele ergueu um dos braços e fez com que a lâmina percorresse seu pescoço levemente e um fio de sangue se escorria para dentro da taça até que a enchesse. Ao colher a quantidade necessária, cravou a adaga no rumo de seu coração acelerando sua morte e sua viagem para o inferno.
   Brandiu algumas palavras em seu idioma genuíno em direção ao altar estendendo a taça para o alto. Em seguida despejou seu conteúdo em cima do verso do papiro, instantaneamente as velas negras situadas no circulo maior se ascenderam. No papiro, começavam a se formar letras que ele perfeitamente compreendia. Algo como: “O sacrifício foi recusado, mesmo sendo minha descendente ela ainda tem algo humano, uma coisa inútil chamada amor, mais inútil ainda: é amor por um demônio." Escrito isso, a superfície começou a pegar fogo, mas um fogo mais ardente e vermelho do que o comum e alastrou-se para a tigela, para a mesa, chegando na parede e tomando proporções cada vez maiores.
   A ira do anjo caído se explodiu em um grito tão alto que quase apagou as chamas do lugar, mas antes que isso de fato acontecesse ele jurou que voltaria, fazendo quantas vítimas fossem necessárias para completar sua ambição. Abriu suas assas enormes voou sem direção, à procura de um novo sacrifício.

Um comentário:

  1. Oi flor ^^ Tem um selinho pra vc lá no blog :) Beijos :-*

    http://bel-somostaojovens.blogspot.com.br/

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