Outuvembro

"Outubro 
como sangue
rubro
Outubro
como eu
obscuro"

"Que venha Novembro
e que seja lento
como o mar
pois o rio corre
o mar não sobe
ele escorre
Que venha Novembro
e que seja denso
como eu
sereno
Novembro
precede o tempo
final 
e doloroso
Novembro
que seja lento"

-Neil Harris Lockbant



Sobre a felicidade




É bem mais fácil ser triste. Tentar ser feliz o tempo exige muito esforço de nós. 

Deixar a tristeza te domar é tão mais prático, uma vez que ela chega silenciosa e toma conta do seu corpo e mente de uma forma tão simples. Ao contrário da felicidade que insiste em se esconder de nós, nos força a correr atrás dela. E quando a encontramos ela parece não querer parar na nossa mão, fica oscilando entre ir e ficar. Ela nos poda, nos cansa ao invés de nos extasiar. Felicidade que de feliz nada tem. 

O curioso é : justamente a Felicidade que é muitas vezes o motivo de tantos desprazes na vida do ser humano. A sociedade criou os parâmetros da felicidade e os humanos ingênuos insistem em segui-los. Logo, era de se esperar que cedo ou tarde tantas angústias seriam o final de antes começos inocentes em busca da vangloriada felicidade. 

E não adianta tentar ser o melhor dizendo que é feliz de verdade. Acredito que ninguém é, de fato. 
E eu não compreendo como conseguimos dar continuidade a tudo dessa forma. Nos enganando, nos iludindo. A desculpa que usam é a de que a felicidade é relativa e defini-la é complicado demais e talvez até impossível. Besteira. O fato é, não querem encarar a verdade de que essa tal de felicidade foi inventada para que as tristezas da vida pudessem ser amenizadas, digo, mascaradas.

É bem mais fácil ser triste. Muitas vezes... bem mais bonito. Gente feliz não é bonito. Ao menos, não para quem olha de fora. A tristeza pode não ser bela em sua essência, mas de alguma forma ela é... curiosa, ela é ... instigante, sabe ? A tristeza te força a querer saber o motivo dela. Ao menos, para quem está de fora. 

Entende o que estou querendo dizer ? A incoerência que há entre esses dois opostos simples ? Feliz é aquele que sabe a hora de ser triste. Logo, a todo momento. Não acho certo procurarmos formas de colorir o mundo quando ele nasceu cinza e cresceu preto.

A felicidade é tão egoísta e mesquinha. Ela não se permite doar, ela não aceita ser dos outros. E é tão arrogante e autosuficiente, além de ser egocêntrica ao se achar tão importante e tão mais que os outros que não se deixa fazer parte da vida de ninguém, pois nos julga inferiores. 

A tristeza não. A tristeza é simples, solidária e amarga, mas se deixa provar. Ela é doável, se permite fazer parte de nossas vidas sem contestar nada. Sem hesitar ela gosta de entrar. A tristeza não se diz superior a nada, de modo que ela aceita qualquer um. Ela não é autosuficiente, pois precisa de nós. A tristeza não é arrogante, acolhe a todos sem parcialidade.

Ou seja, a tristeza é simples demais para competir com a felicidade, a felicidade é complicada demais para se deixar domar. Logo, ser feliz é cansativo.








Desaniversário*


Comemoração! Balões! Vivas e Alegrias! Mas quem disse que há jovialidades ? 
O Bolo é gorduroso, os livros não bastam, a pele está se deteriorando e os órgãos estão cansados. Lembram-se apenas em um dia, porém, isso não importa. O que queria é o Nunca. 
Queria  a sua Terra.
Os Presentes não param (n)o tempo, tão pouco o retardam, os ensejos estão tão distantes, uma vez que também não satisfazem. Não são tantos para saciar sua sede de Eterna.

Um Dia Como Outro Qualquer!

Não fosse certa contagem. Quantos números ainda restam ? O Imortal, somente o papel de ferro que ei de encontrar. Tinta permanente! Mas sai com o tempo. Tudo sai, tudo morre, tudo pode ser lavado pela água da vida, pelo cristal do tempo. O cravar com cera quente, no entanto...quem sabe, poderia ser a solução e nada mais, nada mais.

Um Dia Como Outro Qualquer!

Mas não é, tão assustador é, porém, que chega a sentir o coração acelerar no momento, impetuoso instante, que o relógio Se marca em sua metade de Doze.
Os olhos abrem-se, mas não têm para onde olhar, não querem se encarar. Negam-se a ver o rosto que morre, o corpo que não levanta. 

Um Dia Como Outro Qualquer!

Medo e desespero, quantos números ainda restam ? E quantos (des)aniversários valerão à pena  ?  Alguém que queria sorrir. Espere, no entanto, eternamente por ele... Ou não.

Um Dia Como Outro Qualquer!

* Esse neologismo foi por Lewis Carroll em seu romance Alice no País das Maravilhas. O Desaniversário é algo comemorado em qualquer dia do ano que não seja o dia do seu aniversário. Obviamente não fiz o uso correto, mas eu não vejo porque comemorar aniversários, o desaniversário é bem melhor e faz muito mais sentido quando o comemorar não tem um marco de idade ou passagem do tempo como tema, então quis adotar como título, tema e inspiração para o texto.

Morte Serena


"Pensei grande
Falei pequeno
Sonhei gigante
Morri sereno"
Poeta da Dor





Poética

"De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando."

                    -Vinicius de Moraes

Moça

Moça, de corpo esculpido
De mente aberta e feliz
Moça, bonita e perfeita
não faz nenhuma desfeita
E sorri
A moça que eu vi
mais bonita não há

Com longas madeixas
negras, como as inscrições
no seu corpo branco
Moça, de olhos verdes
e boca pequena

A mão move lenta
a página do livro
faz virar, o que  faz viver
Moça, tão linda e perfeita
que eu nunca quis ser.