Morte ao Natal

Um banco no meio do campo.
Uma menina.
E sentada no banco ela sorria.

(I found myself in pieces )

E o banco era branco
O mato balançava verde
O vento insistia
E ela sorria

( I found myself dead )

E de repente, alguém do nada surgiu
E ela no seu íntimo
Depois de fechar os olhos pediu

( pediu que fosse aquele alguém )

Mas em uma noite fria e silenciosa a Lua brilha sozinha. As estrelas a abandonam no céu negro. Não conseguimos enxergar nada, pois nossos olhos estão cegos de falsidade. Na Véspera é tudo alegria,vestidos  bonitos e ternos, comida e abraços, mas logo tudo é esquecido. As dores voltam e a rotina é normal. As contestações farão parte novamente e as promessas são mais que esquecidas. São enterradas em um baú em baixo da Terra que um dia glorificamos. Nós olhávamos para ela e costumávamos dizer que ela era boa para plantar e dar de comer...Mas hoje ela é feita de concreto e o baú está mais que enterrado, ele está soterrado em cimento frio.

Mas a menina lutou contra  a força maligna que parecia exaurir de seu corpo frágil; insistiu em sorrir. De nada valeu. Ninguém veio. De repente, uma estrela cadente rasgou o céu enegrecido e escondido pela Lua majestosa. E a garota não negou as crenças. Fechou os olhos mais uma vez e fez seu pedido. Eu quero que... Eu quero que... Ah, apenas esteja comigo hoje.

A estrela continuou seu caminho. As horas se passaram. O ventou foi e voltou. As árvores protuberantes a sua frente em vão tentaram ficar imóveis. O céu pareceu ficar mais escuro...mas eram apenas trevas. Apenas trevas, garota. 

E ela...depois de finalmente desistir e chegar à conclusão de ninguém viria se levantou do banco branco. Olhou para a floresta guardando atrás das lágrimas uma última esperança.

Mas ninguém veio. Ninguém foi. Exceto a garota que tivera uma Véspera mais que triste, mais que dolorosa.  Ficara esperando, em vão, durante muito tempo. Tivera uma véspera sozinha sim. 

Desde então, deixara de acreditar em finais felizes e promessas de Natal. Deixara de acreditar em estrelas cadentes e pedidos a forças superiores.  A véspera fora sozinha, e o Natal haveria de ser solitário... como o restante de seus dias.







Sobre a ausência

O que encontro é Ausência. Perdida e desconsolada. Uma ausência de mim mesma. Pouco compreendo a seu respeito, mas ... Respeito. Admiro. A ausência não é falta, mas sim presença. Um paradoxo perfeito, visto que ela se perde em mim, mas é nela que me encontro. Ao saber que algo falta busco-o incessantemente. Mesmo sem de fato encontrar... satisfaço-me, pois... sei que busquei e, por algum momento minha deplorável pessoa teve uma razão...Motivo.
Entristeço-me ao saber, porém, que perdi algo... Os algos que costumo perder em geral voltam...Em pensamentos dolorosos de martírio. Infelizmente é somente dessa forma que voltam.

A ausência de meu ser é o algo mais angustiado que cheguei a perder. O espelho é uma arma mortal. O tempo é uma arma fatal. Eu tento ininterruptamente entender a razão de como cheguei aqui, sem saber quem sou nem porque sou. Uma vez que permito meu descanso,sorrio, mas é em vão. A ausência mostra-se presente novamente. Por fim, depreendo que é essa bucólica razão que faz de mim... eu mesma.



"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."
- Carlos Drummond de Andrade

Não lastimo a ausência, até mesmo porque não haveria lastimas suficientes. Por isso, acolho-a nesse momento mórbido e sorrio junto dela. Ausência. Fazes parte de mim e por ter-te como minha que consigo resistir. A que não sei, contra quem desconheço.Sendo eu herege recuso-me a admitir que um dia fez-me chorar. Um dia que tem por sinônimos ontem e hoje. E ausência ? Lembre-se, "ninguém a rouba mais de mim " eu te cravei na minha pele, no escarro do meu coração, te pintei na minha própria razão. Ausência ?
Ausência ? Aonde você foi ?

Ode I

Não quero estar aqui nem lá, pois onde quer que eu vá essa dor e  pensamentos irão me acompanhar.
Tento em vão, não chorar, mas todas as vezes que eu impedi as lágrimas de caírem , por fim decidiram se voltar contra mim...todas de uma vez.
Cada coisa que faço perde o sentido quando as lembranças fazem-se presentes e meu ser morre novamente quando penso nos erros...tantos erros. O que mais machuca é pensar que jamais poderei redimi-los e esse jamais tem seu sentido mais amplo e maior, concreto e duro, triste e amargo. É doloroso.
Meu único pedido: tire essa dor de mim! Mas você não pode, ninguém pode e isso me mata. Esse simples fato acaba com qualquer esperança que um dia eu vislumbrei de ficar realmente bem. Eu quero arrancar de meu peito esse coração, não porque ele sente, mas porque ele mantém esse meu corpo corrupto e vergonhoso vivo.
Através da escrita tento matar essas angústias, passar os pensamentos para um papel qualquer...Mas não dá, não dá! Que coisa horrível é essa. Deve ser sua vingança, mas dói tanto dói tanto. No entanto, quando penso na dor que sentistes... a minha é mero furo de agulha. Me perdoe, me perdoe! Eu queria acreditar algo, em algo que fosse capaz de me curar como eu fui incapaz de fazer com você. Oh, eu queria ter algo em que me firmar. Mas não tenho. Você tinha, por tempos teve a mim, mas eu falhei com você e você teve que procurar outros enquanto eu estava lá...esquecendo você. Isso dói tanto. Pensar, pensar, pensar! Porque insisto nisso ? Quero arrancar meu cérebro, quero massacrá-lo com minhas mãos.
Toda a dor que você sentiu por tanto tempo está se voltando contra mim e mesmo assim ainda não é o bastante. Sou de Trevas e elas deverão me consumir, fazer-me sofrer como você sofreu. E no fim, morrerei sozinha como você, me perdoe, me perdoe, me perdoe! Eu sei que mereço, mas agora estou mais sozinha ainda, pois ninguém compreende o que estou sentindo! 
Espere! Com você também era assim não ? Sim, sim, sim! Que coisa horrível que eu sou.Não mereço nenhuma respiração ou misericórdia. Só mereço a dor que causei. E ainda causo.
Peço um castigo definitivo, mas não o terei, nem isso eu mereço! Sou um monstro, eu matei você...Eu matei você!!! Eu a deixei ir, sem dizer adeus, sozinha, sem amor...sem mim!




Jolly
13.04.13

PS: apesar do texto ser dedicado a Jolly, o sentimento doloroso que ele expressa se aplica muito aos dias de hoje, não apenas na dor da perda, mas da completa dor que faz parte de meu atual ser. Não consigo exumá-la de mim e isso é ... horrível.

Lunar Monologue

Um dos poemas que mais gostei. De fato, levei três dias para terminá-lo e não canso-me de reler. Para mim, ele diz muita coisa. Consegui dizer muito do que me transtornava nos últimos dias. Enfim, sei que nem todo mundo entende, tão pouco irá apreciar o poema como eu, porém eu gostei, adorei e no fim é isso que importa.

Ó Lua, nova e cheia
Torturas-me, Vermelha
Cravo-te na veia

Meu corpo mórbido e adstrito
Clama por ti, obsecra  ali
Estou aflito, estou perdido

Ó Lua,  cá encontro-me novamente
Taciturno e sem saída, e perco-me em ti
e dessa forma continuo atro e sombrio aqui

E a moléstia que me dizima o corpo
Devasta-me a alma,e mata a célula
Pergunto-me quanto tempo resta,
Para contemplar-te, ó Bela

Mas a sombra mirrada paira sobre mim
E uma vez que caminho perco-me sem ti
Lua, quem és tu para tratar-me assim ?

O distúrbio ao qual fui condenado
Lembra-me a teu respeito, Lua, de que para ti
nada valho
E assim tento aceitar minha soturna ventura
Tu escarras em minha face, Lua,como se eu
tivesse abertura

Digo-te o quanto quero, e desejo ser-te teu
Ó minguante ser, majestoso astro da noite
A decrepitude de minha pessoa não é o bastante
Para causar-lhe remorso ou compaixão
Pergunto-me, então
Por quem bastes teu coração ?

Ò Lua, que fazes solitária no céu à noite
Por que recusas-me, venha comigo
e farei
A felicidade ter um sentido
Ò Lua, que fazes junto do Sol
Por que recusas-me? Venha junto de mim
E tempos bons não terão fim

Lunar sou e nada temo, exceto minha prematura morte
Rogo-te, Lua, perdão e clemência; tento ser forte
Porém, tu nada tentas, e abandonas-me à sorte
Tu não escutas-me, não queres ser consorte

Arrasto-me através dos escombros de algo que jaz
Um corpo acabado, jogado ao léu, não deixo nada
para trás
A dor que dilacera meu espírito é maior que dois mundos
Estou lançado no dissabor preso em dois poços fundos

Lua, pela última vez pergunto-te o que desejas
E Lua, suplico-te que penses bem no que queiras
Pois as suas palavras muito significam
E até mesmo teu silêncio
É para mim um grande martírio


Vocabulário:
Adstrito: apertado, dependente, ligado
Obsecra: obsecrar = pedir em nome do que mais se venera; suplicar
Atro: negro, escuro, funesto, lúgubre
Mirrada: seca, definhada,magro, carcomido
Ventura: sorte, destino
Escarras: escarrar= cuspir
Dissabor: desprazer


Início: 3 de dezembro de 2013 Término: 6 de dezembro de 2013
Pedir em nome do que mais se venera; suplicar.

"obsecrar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/obsecrar [consultado em 06-12-2013].v
1. Apertado.

2. Dependente, ligado.

"adstrito", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/adstrito [consultado em 06-12-2013].
1. Apertado.

2. Dependente, ligado.

"adstrito", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/DLPO/adstrito [consultado em 06-12-2013].