Sobre a efemeridade

Era uma vez ...


O tempo zomba de minha sórdida pessoa diante dessa passagem mal feita. Ele sabe que não resistirei, ou qualquer um de nós, logo, seu sorriso é escarlate e seus olhos estão completamente negros como um demônio à espreita na madrugada.

Há uma penumbra na janela de meu quarto, o sol faz menção de entrar no ambiente, mas incrivelmente de uma forma estranha e maluca a sombra se faz maior e o impede de iluminar minha casa, portanto, mantenho-me presa à cama.

Fitando o teto branco manchado de meus antigos olhares  marejados pela dor que eu mesma causei, pergunto-me quanto tempo resta-me agora. Há tantos papeis jogados no chão de meu quarto com escritos tão antigos que nem sei por onde começar a citar. Lembro-me exatamente do dia em que aqui cheguei e de como, inocente, pensei que algo mudaria de fato. Desde então tanta coisa aconteceu, mas a única mudança que vi foram os dias... se passando.

A verdadeira metamorfose é o espelho. Insisto em encará-lo todos os dias com um sorriso mal formado no rosto na esperança de que esse objeto mágico faça-me diferente quando eu, incapaz, não consigo. O ser humano se consola todos os dias em que falha alegando que sempre terá o amanhã para fazer diferente, e confesso que nos últimos dias esse consolo foi meu mantra. No entanto, não consigo lhe dizer um dia sequer em que eu tenha feito algo diferente. E não podemos negar que logo o consolo do dia seguinte não mais será possível, visto que o mesmo pode não mais chegar...

O travesseiro tem sido minha casa. E se me perguntar o motivo de tanta melancolia minha resposta será simplória... eu não sei. E de fato desconheço a razão de tal angústia estar  presa a meu ser agora. Fazia tanto tempo que eu não encarava a dor dessa forma que já havia me esquecido como é se sentir solitária, triste e abandonada. Mas então você se pergunta ... como é que ela pode dizer isso quando tanto aconteceu ? Pois eu me faço essa mesma pergunta, caro leitor.

Tudo será esquecido, e apagado da memória dos sobreviventes. Mesmo que risque centenas de papeis não há garantias de que alguém os lerá e se o fizer quem garante que os entenderá ? Sua dor só pode ser sentida por você. Não importa quantas rosas despedace a fim de mostrar que os espinhos não te ferem mais, o sangue já está no chão.

SORTEIO - SEGUIDORES DO ESTRANHO

Hoje dia 28 de Dezembro de 2014 encerro as inscrições para o primeiro sorteio do Blog.

Fiquei muito feliz com a participação e apoio de todos, viu !

Espero poder fazer mais sorteios ano que vem.

O resultado sai dia 30 de dezembro.

Beijos
e até mais, Estranhos!



"Não existe outra causa para o fracasso humano senão a falta de fé do homem em seu verdadeiro ser."
   - William James


Failure

"You build up hope
But failure's all you've knonw"
- Linkin Park 



Quantas vezes olhou para o espelho e sorriu esperando que o reflexo fizesse sentido ?
Não sabe, não é?
Pois eu compreendo. Vez por outra desejamos que a alegria que impomos aos nossos lábios antes de sair de casa em busca de uma razão nas ruas fosse verdadeira, de fato. Aquele pedaço de vidro que reflete não apenas sua imagem distorcida, mas também sua alma envelhecida. O espelho é cruel, pois vez por outra nos força a encarar a realidade. A nossa realidade. Interior. Exterior. Espiritual... Isto é, se é que nossa casca possui algo mais que ossos e fluídos.

Não me obrigue a falar de outro objeto. Aquele pedaço de madeira trabalhado onde você colocou um objeto macio para que à noite pudesse tentar descansar. Sua mente. Seu corpo. Seu espirito. Aquela coisa chamada cama, mais conhecida como lugar de repouso para quando nós não temos mais forças para absolutamente nada. Esse pedaço de madeira retangular, na maioria das vezes, porém, é simplesmente o seu refúgio. Não negue, pois sei que o sono que deveria te embalar nas madrugadas faz parte de seus dias mais sombrios, e assim ele não te embala, mas te acolhe. Ajuda-te a fugir de seus medos. Fracasso. Não negue. Eu sei que tenta o esconder por debaixo das cobertas.

Seu guarda-roupas está todo aberto. As roupas jogadas dentro dele, pois no fim sabe que não importa qual máscara use e qual vestimenta procure colocar nisso que chama de corpo, quando na verdade é apenas um envoltório que transporta um ser que crê, erroneamente, que tem uma função nessa coisa chamada Terra. Logo, qualquer peça que cubra a vergonha serve nesse novo dia com motivos velhos.

A sábia Ciência fez progresso. Você tem à disposição milhares de coisinhas pequeninas que engole e em minutos ela faz efeito. Coloca um sorriso na sua face. Coloca força na perna. Coloca um alerta no cérebro. Mas é efêmero, é claro. Mesmo que em uso constante, uma hora seu sistema entra em pane e diz: calma, não aguento mais! O problema não é físico, colega! Vê se entende isso! E então você conclui: o problema não é físico. A Ciência evoluiu, sim, mas ainda não inventou um comprimido capaz de reprogramar um cérebro por completo. Capaz de fazer renascer algo que anda, mas está morto.
Todos evoluímos. Mas falta descobrir como evoluir algo que parou no tempo.

Como você faz viver algo que nunca esteve vivo?


Beating

Eu sei que sua boca já beijou outras senão a minha
e sei que seus olhos já procuraram outros senão os meus
e sei que sua mão já pegou outras senão minha
Sei que seu corpo já tocou outros senão meu
Mas foi pelo meu coração que seu o bateu

E esse bater é o que me basta
que te consome e 
jamais me afasta

Foi por você que meu corpo deixou de ser de ferro
que meus ossos deixaram de ser de vidro
e que meu coração deixou de ser frio








O Coveiro - Parte I

Segundo conto do blog de caráter romântico.  Não sei se ficou tão bom quanto o primeiro, pode ser que surjam algumas mudanças antes de eu começar a parte dois e tal, depois de ouvir a opinião das pessoas quem sabe. Eu tive a ideia em algum momento quanto voltava pra casa um dia desses, o título veio na minha cabeça e logo a história estava pronta, bastava eu sentar e escrever, mas demorei uns três dias pra terminar essa parte, de alguma forma eu sentia que não estava ainda como eu queria... até agora. Enfim, espero que gostem !




Destiny passou a frequentar o cemitério muito mais do que um dia ela pensou que faria. De fato, ela ia ao funesto lugar com mais frequência que a maioria das pessoas normais faria, mesmo aquelas pessoas com vários túmulos para visita, em vista de que ela tinha apenas um.
Destiny era normal, sua vida é que deixara de ser no momento em que seu namorado faleceu devido a um acidente de avião. Dentre as 210 vidas que se perderam naquela sexta-feira 13 de outubro, a vida de Lucius era uma delas.
Eles estavam namorando há quase cinco anos e tinham planos para o casamento, é claro. Mesmo sem data marcada Destiny sabia exatamente como aconteceria tudo, ou pelos menos quase tudo. Haveria de ter um piano branco no palco e depois de entrar acompanhada de seu pai e antes de dar início a cerimônia de fato, o pianista tocaria uma de suas músicas favoritas: Noturno nº2 de Chopin em Ré menor.
Em seguida, ela se juntaria a Lucius no altar. Se ajoelhariam e  ouviram as palavras do padre, diriam seus votos, colocariam as alianças, se beijariam e depois que ela fizesse o tradicional ato de jogar o buquê para a próxima noiva eles partiriam para a festa. É claro que muito mais coisas aconteceriam, coisas que normalmente acontecem em casamentos, mas ela sempre sonhava com esse momento em particular, entrar, tocar piano e dizer Eu Aceito. As duas palavras mais importantes na vida de um casal apaixonado. Duas palavras que nunca fariam parte da vida de Destiny e ... Lucius.
Todo esse sonho morreu há exatos três anos. Desde então, toda sexta-feira ela ia ao cemitério onde seu amor fora enterrado, sentava-se ao lado da lápide que continha o nome dele gravado, sua data de nascimento e morte prematura. Por que ele tinha que fazer aquela viagem? Destiny se perguntava sempre, mesmo sabendo a resposta. Era necessário. O exército americano era necessário. Talvez não tanto quanto ela gostaria, mas era a profissão dele. E ser um dos mais renomados fuzileiros requer responsabilidades, dentre elas aceitarem quando se é chamado para representar o país.
A vida de Destiny perdera o sentido. Passaram-se meses até que ela voltou a comer normalmente e a anos até que ela voltasse a se socializar. Cada vez que saía de casa e caminhava solitária pelas ruas de Nova York casais apaixonados a faziam retornar. Perdeu o emprego um tempo depois da morte de Lucius, mas sobrevivera um tempo com ajuda do governo. À medida que sua depressão melhorara ela criou coragem para buscar um novo meio de se manter. Sem família direta para se apoiar, Destiny sentiu que onde quer que Lucius estivesse, se é que estava em algum lugar ele não iria gostar de vê-la assim. Demorou, demorou muito, mas Destiny voltou a viver.
No entanto, jamais abandonou a rotina de ir ao cemitério toda sexta-feira. No final da tarde, ela se sentava perto de lápide de Lucius e lia seu livro em silêncio, antes de ir embora conversava com ele, se é que pode chamar de conversa já que ele, obviamente, não respondia. Essa conversa-monólogo foi o que ajudou Destiny a seguir em frente. Nunca mais se apaixonou, claro, nunca mais se permitiu aproximar de outro homem, e assim tem sido os últimos anos de sua vida.
Em uma sexta-feira como outra qualquer, Destiny saíra do trabalho mais cedo, passara em casa, tomou um banho quente e colocou suas roupas. Não se preocupou em olhar no espelho como há muito não fazia, uma ajeitada no cabelo e um batom levemente rosado eram  suficientes. Pegou sua bolsa que continha nada mais que seu livro e carteira e seguiu para o cemitério que ficava há quatro quadras de sua casa.
A caminhada ajudava a relaxar depois de um dia cansativo na empresa de telefonia. Andava com um olhar cabisbaixo, aliás, baixo até mais. Sempre que passava perto de alguém abaixava a cabeça e caminhava olhando para o chão. E quando sentia que alguém estava a se aproximar ela acelerava o passo. Os portões de ferro trabalhado a fizeram sorrir, algo que fazia a grande maioria das pessoas pensar que ela devia ter algum problema. Nunca a questionavam, pois há muito aprenderam que ela é agora uma mulher solitária. Esse não questionamento dava brechas para boatos de que ela talvez fosse uma bruxa ou coisa do tipo. É claro que Destiny pouco se importava, mas vez por outra se pegava pensando nas pessoas ao seu redor e se questionava se não devia parar de ir ao cemitério.
Nunca tomou tal decisão.
Uma vez dentro do cemitério, sentiu o vento roçar seu rosto e o cheiro de pinheiro novo penetrou em seus pulmões. Continuou andando até encontrar a lápide.
- Olá, Lucius.
Até que algo surpreendente aconteceu depois que ela disse o nome dele. Algo que nunca havia acontecido antes. Algo impossível.
Houve uma resposta.
- Olá.
Destiny se virou tão subitamente em direção ao som que quase se desequilibrou o que fez a pessoa de quem a voz pertencia sorrir um pouco, mas percebendo o assombro de Destiny o homem se conteve, e largando sua pá aproximou-se dela. Mas Destiny se afastou ainda mais rápido e com os olhos arregalados e a voz trêmula tomou coragem para dizer algo :
- Q-quem é você ? E-e que tipo de brincadeira é-é essa ? - disse, mostrando com a mão que o homem devia se manter afastado.
- Do que você está falando ? Não há brincadeira nenhuma aqui, moça.
- Oras, como não ? Você me respondeu, sendo que ... sendo que . Bom, todo mundo me acha doida porque eu venho aqui.
- Poxa,me desculpe se não faço parte desse pessoal. Mas eu respondi porque você disse meu nome, oras. Achei que seria falta de educação, mas pelo jeito você não estava falando comigo. - ele disse essas últimas palavras arqueando as sobrancelhas e se afastando devagar, mas com um sorriso que dizia que ele a achava na verdade uma maluca.
- S-seu nome é Lucius ?
- Sim, e você ´é ?
- Nesse caso, me desculpe. Sou a Destiny. E bom, eu não estava falando com você mesmo.
- É, percebo agora. Falava com quem então?
Ela não respondeu, apenas mostrou a lápide de Lucius.
- Ah, sim.
- E agora você pensa que eu sou doida.
- Não, não penso. É totalmente compreensivo. - disse ele se abaixando para pegar a pá.
- Entendo. E o que faz aqui a essa hora? E com isso? - ela apontou para a pá.
- Oras, sou o coveiro.
Destiny riu levemente. Mas percebeu que ele falava sério.
- Desculpa, é só que ... você não é muito novo pra ser coveiro?
- Ora, ora, ora. Perdoe-me, senhora. Eu não sabia que havia idade mínima para essa profissão. - disse ele sorrindo.
-Não é só que...  - ele a interrompeu.
- Calma, estou brincando. Eu sei que parece estranho, mas é o que faço.
- Entendo. Bom, acho que já vou indo então. - Destiny sorriu e antes de girar os calcanhares para ir embora ...
- Mas seu namorado não vai ficar triste se você não conversar com ele ?
- O que ? Ah, é claro. Não, hoje ele não vai ficar, não. Até mais. - disse, fazendo um pequeno gesto de adeus com a mão.
- Até mais, Destiny. - Lucius disse o nome dela como quem saboreia uma fruta doce recém colhida e a observou seguir o caminho de volta aos portões de saída do cemitério com um largo sorriso no rosto. Em seguida, voltou para seu trabalho. Naquele dia tinha mais três covas para cavar.
Destiny não queria, mas se virou para trás para olhar Lucius. Não Lucius seu antigo namorado. Lucius, o coveiro. Não entendia o que estava acontecendo, mas depois de anos de tristeza pela primeira vez alguém a fizera sorrir. Sorrir de verdade. No entanto, Destiny não se permitiu tal sentimento, não poderia trair Lucius dessa maneira. Converso com ele em casa, pensou ela no caminho de volta.
Na sexta-feria seguinte Destiny voltou ao cemitério, quase esquecera de Lucius, o coveiro, mas inconscientemente arrumou-se um pouco mais que de costume. Tinha um leve lápis preto nos olhos castanhos escuros e o cabelo preto caía de um jeito diferente nos ombros, quase como se tivessem sido lavados duas vezes com creme hidratante e shampoo e depois secados com a ajuda de uma escova. Em sua boca um batom rosa mais escuro que o de antes e nas orelhas dois pequenos brincos de pérola. Sua bolsa de mão com seu livro e carteira. Caminhou normalmente até seu destino.
Chegando no cemitério não notou nada diferente, talvez três ou quatro covas a mais ao longe no horizonte, e talvez alguns crisântemos aqui e ali. Perto da sepultura de Lucius o buquê que ela trouxera semana passada morria de modo que elas os pegou e jogou fora antes de colocar um novo buquê de rosas vermelhas. Tirou um pouco da poeira da lápide e sentou-se ao lado da mesma. Começou a conversar como sempre fazia, mas vez por outra seu olhar se perdia no cemitério, buscava alguém sim, mas ela mesma se recusava a admitir isso.
Depois de alguns minutos "conversando" com Lucius, depois de contar como fora seu dia e sua semana, de como o trabalho parece estar melhorando e que ela pensa em comprar um carro, depois de contar que finalmente terminou de ler aquele livro que há um mês dormia em sua cabeceira, depois de suspirar três vezes, o coveiro surgiu atrás da lápide de Lucius.
- Você voltou.
- Oi.
- Achei que não te veria mais. - disse ele tirando algumas folhas de carvalho do caminho.
- Eu venho toda sexta-feira.
- Entendo. É o dia em que ele morreu ?
- É sim.
- Faz muito tempo ?
- Três anos e meio sexta-feira que vem.
- Sinto muito. - disse Lucius com o olhar baixo.
- Tudo bem.
- Você está diferente hoje. - ele disse abrindo um sorriso instantâneo.
- Sério ? - disse ela sorrindo envergonhada.
- Não sei o que é, mas algo mudou desde a semana passada. - ele se aproximou dela. Ainda estava de pé, mas agora podia encará-la de uma certa distância.
- Como é que eu nunca te vi antes aqui ?
- Não tenho ideia. Você vêm aqui desde a morte dele ?
- Sim. Foi o modo que encontrei de superar, digo, não superar, mas de seguir com a vida.
- Entendo. E sobre o que vocês conversam ?
- Ah, sabe... sobre tudo.
- Sei. Se importa se eu me sentar um pouco ?
- Claro que não. - disse Destiny apontando um lugar entre ela e a lápide.
- Então, o que você faz ?
- Eu trabalho em uma empresa de telefonia.
- Interessante. Qual é o campo ?
- Basicamente tudo, mas minha área é anotar pedidos das empresas que são sócias da nossa empresa.
- Isso parece legal.
Destiny evitava o olhar de Lucius, mas sabe-se lá porque em dado segundo olhou para ele. Bem nos olhos e assustou-se muito, pois por um milésimo de segundo eles pareciam ser o de Lucius, seu antigo namorado. Pretos como pérolas negras sobrepostos pelas sobrancelhas grossas e naturalmente delineadas. E os olhos de Destiny pairaram na boca dele, uma boca que logo mostrou os dentes brancos e corretos, dentes que sorriam para ela como alguém que ama. O cabelo de Lucius estava caído para o lado, mas só a parte da frente, pois o restante tinha um corte perfeito ao redor da cabeça dele. Ele não estava vestindo o uniforme de coveiro usual, isto é, um macacão preto-cinza com o emblema da prefeitura da cidade. Isso é muito estranho, pensou ela, quando se deu conta de que ele vestia uma camiseta toda preta exatamente como a de Lucius um dia antes de partir em sua missão do exército. A calça jeans caía na cintura e nos pés, coturnos. Coturnos! Lucius adorava coturnos.
Destiny levantou-se de súbito. O que fez com que Lucius se assustasse.
- O que acontece ?
- É - é . Nada. Lembrei que tenho uma coisa pra fazer. - disse, exasperada e se aprontando para voltar. Correr. Sair dali.
- Tudo bem, mas você volta semana que vem ?
- Claro, claro. Tchau.
- Tchau.

Destiny não queria,  mas antes de virar para o caminho do portão olhou para trás. O sol batia de leve no rosto de Lucius, a calça jeans marcava a sua cintura esculpida e os músculos de seus braços se encaixavam perfeitamente na camiseta,  o vento fez sua franja cair em seus olhos que piscaram instintivamente. Ele sorria e acenava um adeus, mas ela naquele momento achou que estava ficando maluca de verdade, pois ela não vira Lucius, o coveiro, mas sim Lucius, seu ex-namorado.

Grades

É uma grade
que agride
a pele do
corpo vivo

É uma similitude
que difere
do ser que não é
aquilo ou isto

Traduzo-me no papel
sem ser possível escrever
basta olhar o branco como véu
e sei que é nele que posso crer

Sem letras não há equações
e mesmo que verbais elas sendo
creio que vejo um mar sereno
mas perdido em meio às minhas facções

Distribuída estou entre o ir e ficar
pois nunca vou sem me deixar
e nunca fico sem me levar
é no papel chamuscado que me marco
é nele que em partes me parto

[...]


PS: Não é o texto completo, mas um dia eu posto ele todo rs 




Estações

" Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear ... "
- Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa


Nesses seus olhos marejados de amor
eu me perco e desliso em meio à dor
Por que martiriza a minha pessoa?
e em meu ouvido um adeus ecoa

Como pode o ócio acordar-me assim?
ele antes que embalava-me para dormir
não compreendo de onde provém a agitação
sei apenas que não posso permitir a negação

Ao marcar-me com a pena do sentimento
deixou mais que uma cicatriz
tirou-me de minha casca sem consentimento
mas confesso, que era o que sempre quis

Como a flor que desabrocha na primavera
eu sou a semente que um dia ela também era
e com suas lágrimas você me rega e me faz crescer
e ao final da estação eu sei que bela posso ser

Mas então chega o frio inverno
e eu morro com a escuridão
sem o seu calor, o forte sol é em vão

E ainda há uma sombra a me perseguir
sem ter para onde correr, estou presa a você
mas você foge e me deixa aqui, sem ter para onde ir

E transformo-me em uma fria pedra
com ossos de gelo e um coração de vidro
versos antigos novamente fazem sentido
E todos sabem que uma pedra não se rega

Mas ainda guardo a esperança de que ela;
a pedra que me acolhe permita uma flor a nascer
e que ela mesmo solitária consiga enfim viver
em meios aos obstáculos de deixar de ser semente
ela vai por fim me fazer contente.



    Fazia tempo que eu não fazia um poema assim, em minutos ... mas gostei.



Marcas

São como impressões digitais. Os livros. Quero dizer, são como aquelas almofadinhas de tinta preta onde colocamos nosso dedo antes de imprimi-lo em algum papel. Os livros são as almofadinhas, pois sempre que os leio deixo um pouco de mim dentro deles e retiro deles um pouco, marcando-me.

E mais que impressões digitais são como tatuagens, pois é irremovível o que sugo deles para dentro do meu corpo por completo, não apenas para minha mente. E eles são tão poderosos que até seu cheiro fica impregnado . São como fotografias que exalam lembranças, basta sentir seu odor e memórias me veem à cabeça. Sei exatamente onde estava quando os li pela primeira vez, com quem estava, o que fazia antes de me entregar a eles, antes de me permitir viajar através de seu mundo.

Tocá-los transmite o mesmo sentimento que uma mãe sente ao segurar o filho pela primeira vez. Fica sorrindo bobamente para a pequena criatura em seus braços, e o mesmo se sucede com meus vários filhos. Estou sempre adotando novas crianças e cuidando para que quando, no futuro, eu as tocar novamente elas retribuam o cuidado por me permitir viajar novamente. Retribuem por me permitir sentir seu cheiro único, sua espessura diferenciada e mais importante, me permitem ler suas maravilhosas palavras.

Os livros são assim. Objetos sem vida, porém, tão viventes quanto nós. A meu ver, são tão importantes quanto nosso oxigênio, uma vez que os livros é que muitas vezes me dão vida.

Meus pequenos objetos imprimíveis. Minhas agulhas que marcam com tinta.



Horas Sombrias - Antologia - Livros Chegaram !

Hey, hey, hey, meus caros leitores! Pensem numa pessoa que está hiper ultra mega power feliz, multiplica por mil e terão uma ideia da felicidade a qual se encontra minha pessoa.

Os livros da Antologia Horas Sombrias onde se encontram meu conto O Pianista chegaram hoje ! Sim, sim. Eu ainda estou pirando. Quando desembrulhei a caixa e os vi esperando para serem retirados eu estava morrendo de alegria!!!

Quando recebi o e-mail que falava que meu conto foi escolhido para ser publicado na antologia eu gritei e pulei tanto que minha prima achou que tinha um bicho doido no meu quarto. É, foi bem assim. Algum tempo depois, conversa foi e tal, e por fim meu texto depois de revisado e editado estava pronto para sair junto com os outros. Infelizmente não pude ir ao evento Livros em Pauta o qual o Horas Sombrias e outras antologias da Andross foram lançadas, mas a alegria não foi diferente. Fiquei imaginando os outros autores lá, tão felizes quanto eu aqui.

Pois bem, hoje dia primeiro de setembro eu pude sentir, cheirar, tocar e abraçar os livros e cá estou contando para vocês a realização de um SONHO. Minha primeira publicação; e para quem sonha em ser escritor reconhecido isso significa muito, afinal de contas, todos começam de um lugar. Quem me conhece há um certo tempo sabe que isso não é hobbie nem fase, quem me conhece sabe que é isso que quero pra minha vida: escrever, escrever e escrever.

Então, antes de finalizar gostaria de agradecer mais uma vez a Editora Andross por me proporcionar essa ''pequena'' primeira alegria , aos organizadores de tudo. Agradecer a minha família por me apoiar e me ouvir, aos meus amigos por acreditarem em mim e ao meu namorado mais que maravilhoso por me apoiar e e acreditar em mim sempre, desde o começo !

Ah, gente, é isso. Não tem muito o que falar até porque eu não consigo descrever como é ótima essa sensação, sabe. Só que sente a mesma que pode dizer, e só que já realizou algo que há muito tem sonhado sabe como é.

Por fim, quem quiser adquirir um exemplar pode entrar em contato pelo e-mail : thaysmp14@hotmail.com e no assunto digitar Horas Sombrias. O livro está saindo a preço de custo de 25,00 , se for de Belo Horizonte posso entregar pessoalmente, mas pessoas de fora tem que ser por correio então acrescenta-se um adicional de 5,00 !





O fingimento do tempo

[ Meus vinte anos de boy ... that's over, baby ... ]
 Zé Ramalho - Chão de Giz 

It's just another day like every day else 

Faz de conta que acordar no meio da noite
não te deixa tão assustado
pois sua mãe ainda vem te acudir
E faz de conta que sonhar acordado
ainda promete um futuro que vale seguir

Faz de conta que o café da manhã é às nove e meia
e que a vida tem uma razão
faz de conta que o fim da tarde é brincadeira
e que ninguém ainda domina seu coração

Faz de conta que o Natal é só presentes
e que a comida nem faz tanta diferença
reunir-se com os primos e não se fazerem ausentes

Faz de conta que as flores nascem e você as colhe
e as planta num vaso e as vê crescer com paciência
faz de conta que dança na chuva
sem se importar que se molhe

Faz de conta que vê filmes por diversão
e não para fugir de um estresse sem razão
Faz de conta que fazer o próprio café
é sinal de uma aprovação que faz porque quer

Faz de conta que ainda há planos de encontrar com os amigos
xadrez, baralho, damas e tabuleiro são jogos ainda queridos
e faz de conta que são jogos mesmo e não apenas uma distração
faz de conta que são formas de se divertir e não uma suposta solução

Faz de conta que levanta cedo para ver televisão
e que pode comer bolacha recheada até cansar
faz de conta que gosta de se empaturrar
e que doces e salgados são os pratos que come de "montão"

Faz de conta que sua atividade física é correr na rua descalço
e que sua dieta é não comer bala no final de semana
faz de conta que seus estudos é ler livro de fantasia
e faz de conta que sonha, sonha tudo o que gostaria

Por fim, faz de conta que ainda é menina
e que faz arte como faria um artista
faz de conta que se olha no espelho
e gosta de olhar, pois não se sente feio

Seus olhos ainda brilham com o sol depois da chuva
Seu corpo nada muda, mantem-se puro como a Lua
Seu sorriso ainda sorri depois de um choro
e sua voz é doce e acalma até mesmo o tolo

Faz de conta que os vinte anos nunca chegaram
pois ainda estão longe como um dia de fato estavam
e faz de conta que ainda crê em tudo que lhe falaram

Faz de conta que nunca virara moça-mulher
e que ainda sem forças faz o que quer
faz de conta que a Terra do Nunca existe
e que é pra lá que seu caminho persiste.

Happy Birthday, Thays.






Passe

E que esse impasse
passe
num passe

de mágica ? Não
força, ''coração'' !
e que passe logo
é já que volto

E que essa dor
torne-se
amor
e não deixe mais
nada

Que meus olhos chorem
de alegria
e que meu corpo
anime-se
como você faria

E que esse impasse
passe
num passe

Poema que está nos rascunhos há alguns meses. Infelizmente esqueci de anotar a data de quando comecei a fazer. Hoje fiz duas pequenas alterações ... 

Happy Birthday, J.K Rowling e Harry Potter



 "Afinal, aquilo que amamos sempre será parte de nós. "

Parabéns, minha rainha ! Nem tenho palavras para descrever o quanto sou feliz e grata por você fazer parte da minha vida bem como seu filho, Harry.

Cessar fogo

O que te faz sorrir não é o mesmo motivo para o outro. Tudo bem, tudo bem. Estamos cansados de ouvir isso. E daí ? Fez alguma diferença ? Claro que não. Nunca faz. Nunca fez.

Sempre feita de começos, mas nenhum deles chegou a um final real. Nem mesmo um desenlace digno. São tantas palavras, tantos dizeres, as afirmações vociferadas contra tantos foram tantas que um dia eu cheguei a acreditar genuinamente que seria capaz de mudar. Tudo. Nada.

Um toque.

De nada vale, pois o que me toca tem nome... antigamente era chamado de revés. E por tempos eu tentei entender qual era a fixação dele para com a minha pessoa... Hoje sei que não é ele e sim eu mesma. Não era ele o obcecado, e sim eu o seu reflexo.

E por tempos tentei mudar isso, esse fato triste. Sempre que falhava eu  me consolava dizendo para mim que amanhã é um novo dia e poderia recomeçar, tentar de novo, fazer diferente. E de fato, eu recomeçava, tentava, fazia. Por fim percebi que não adiantava o dia ser novo se eu continuava velha. Por dentro. Por fora.

Deve ser por isso que sempre procuro os outros. Escondo-me. Porque no final admito que não vale a pena um autoreconhecimento. Não há o que reconhecer.

É um representação tão distinta do que se passa na minha mente que me pergunto como é possível.
Como isso é possível ?!

Não sei. Nunca soube. Jamais saberei.







Sentimento ao contrário

  [ créditos da imagem na imagem rs ]

em busca de uma cura
para a enfermidade
e me leva à loucura
a própria insanidade

é um câncer que se alastra
dentro do peito
faz bater mais forte o órgão
e o destrói com efeito

é a mitose de minha vida
uma aflição sofrida
mas eu a aprecio como mel
pois me fortalece, me leva ao céu

bifurca meu corpo essa sensação
e não entendo como pulsa
meu singelo coração

que força ela tem
essa doença que busquei
que garra ela tem
essa coisa que me entretém

mas no final faz sentido
no final compreendo
eu sinto
eu tento

é a moléstia que faz minha seiva circular
nas veias pestilentas de um corpo sem vida
e um sussurro fraco a me alegrar
vê! o carbônico é meu próprio pesticida

é um padecimento carregado de incompreensão
mas não hostilizo, jamais! não há razão
não haveria de ter
posso apenas crer

 que meus olhos roídos não podem ver
mas meu coração moído quer sentir e ter

E depois do beijo que ganhei do Anjo
senti a vida nesse corpo sem arranjo
e pra você que ainda não compreende
digo-te, apenas: tudo isso é Amor...
simplesmente.



PS: Como sabem é raro eu fazer poemas que falem de amor, mas acho que esse ficou bem no meu estilo, não rs ? 





5 Anos sem o Rei do Pop

Pensar que eu jamais terei a chance de ir a um show do Michael é motivo suficiente para me deixar na cama por dias. Hoje, em seu aniversário de morte de cinco anos meu ''coração'' está mais pesado e triste que nunca. Não irei falar de coisas comuns do tipo infância de Michael ou sua vida depois da fama.   Não vou falar as mudanças que Michael sofreu ao longo da vida ( pele, nariz, corpo ) nem como ele tratava seus filhos  em público ( com máscaras  ) essas coisas que a mídia já fez há cinco anos. Tenho minha opinião a respeito de cada um desses assuntos e outros.

Esse texto é pra mim e pra quem é fã e sente o mesmo que eu hoje ainda mais que ontem:  Saudade.



Michael Jackson não foi um simples cantor, ator,dançarino e compositor. Michael foi uma pessoa incrível, especial, bondosa que apesar de tudo o que passou continuou fazendo o que ama da melhor maneira possível. Michael Jackson era um ''anjo'' . Nosso Peter Pan. Estou triste demais de modo que não estou conseguindo escrever da forma como gostaria de me expressar a respeito dele, digo tudo o que sinto quando se trata de Michael Jackson.

Sei apenas que jamais irei esquecer o dia que vi a notícia na televisão de sua morte. Eu estava saindo para um compromisso importante, logo não pude deitar a cabeça no travesseiro e chorar como uma criança que perde a mãe além de pedir com todas as forças que aquilo não fosse verdade. Eu li e ouvi a notícia em silêncio. Mas por dentro eu gritava e chorava. Não podia estar acontecendo.

É diferente de outros ídolos que hoje não mais vivem, mas que eu admiro e gosto, pois estes morreram muito tempo antes de eu nascer ou mesmo de eu vir a conhecê-los. Michael Jackson fez parte da minha infância e eu presenciei a notícia de seu adeus. É algo muito ruim. Perder uma pessoa que, tudo bem, não fazia ideia da minha existência, mas os fãs conhecem esse meu sentimento. Era como se nós conhecemos Michael, e no fim tínhamos a esperança de um dia de fato conhecê-lo pessoalmente, digo, ir a um show e admirar sua arte de perto.

De qualquer forma eu quis morrer naquele dia. A semana seguinte foi ainda pior. Parece que as pessoas conheceram mais de Michael depois de sua morte. era notícia pra todo lado. Mas em geral eram notícias polêmicas de sua vida. Como se não bastasse as calúnias ditas quando ele estava vivo muito ainda foi dito depois do anúncio de sua morte.

O funeral. Teria sido ainda mais lindo se o corpo que estivessem velando não fosse do Rei do Pop.

Quando penso em tudo o que aconteceu com ele ao longo de sua breve vida eu fico triste. Foram tantas injustiças para com uma pessoa tão boa como ele! Gente, não faz sentido isso pra mim ! Como as pessoas podem ser ruins e interesseiras. E eu ainda me lembro que sonhava em ir para Neverland. Sempre me identifiquei com o Michael, pois assim como ele gostava ( e ainda gosto ) demais do Peter Pan. Era algo que eu gostava de dizer que tinha em comum com ele.

E nossa! É até difícil expressar de forma clara o que sinto quando penso em Michael Jackson. Quantas e quantas vezes eu fiquei triste e com raiva e bastou uma ou duas músicas dele, ouvir sua voz, ver seus vídeos e ouvir sua risada para que eu ficasse bem de novo ! Já perdi a conta.

Não há um dia sequer que eu não pense nele. Pode ser que eu não fique falando para as pessoas sobre ele, ou fique ouvindo suas músicas 24horas por dia, mas sempre, em algum momento do dia o nome Michael Jackson vem à minha cabeça. É então que fico indecisa entre sorrir ou chorar. Sorrir por pensar na pessoa incrível que ele foi em todos os sentidos ou chorar por pensar que ele não mais vive, não mais traz alegria a esse mundo vil.

Esse é um texto bem pessoal mesmo, percebe-se, e sei lá, não estou conseguindo escrever direito, não encontro as melhores palavras. Posso estar sorrindo nesse dia ''comum'' , mas eu garanto que a noite será difícil. E garanto que por dentro meu ''coração'' está em pedaços. Fico acompanhando as postagens dos fãs, suas homenagens e penso: Cara, tem gente como eu nesse mundo! E fico momentaneamente feliz, pois sinto que posso dividir minha dor.

Gente, só quem é fã de verdade mesmo entedenrá esse texto. Muitos lerão e dirão que sou idiota por chorar por uma pessoa que nunca soube quem sou, por ficar triste por um cara como ele ( na visão de muitos um pedófilo entre outras coisas ) idiota quem é dessa opinião !

É como perder um amigo ou parente distante, mas que você se comunicava todos os dias, pois era isso que acontecia com nós os fãs. A cada dia que ouvíamos uma música, víamos um vídeo, assistimos a entrevistas e esperávamos por uma turnê ou show. Nós conversávamos com Michael todos os dias. E agora tudo o que nos restam são lembranças. Tudo o que resta são tristezas.

As homenagens nos fazem lembrar hoje mais do que nos outros dias, mas os fãs sabem a dor de todo dia que é pensar que ele se foi há cinco anos!

Às vezes, me pego pensando como muitos ... que ele está vivo escondido por aí, penso como os 'Believes' que é como são chamados. Mas aí eu penso, mas por que, Michael ? Você faria isso concosco ? Nos abandonar assim ? Por que não volta logo e nos permite sonhar novamente ?

Michael Jackson pode ter dito adeus há cinco anos, mas sua arte viverá para sempre e isso faz dele a Lenda. Nós jamais vamos esquecer e jamais existirá alguém tão talentoso como ele, tão especial como ele foi. Será o nosso eterno Peter Pan. O nosso eterno Rei do Pop

É isso.


O Pessoal da Escola - parte II

  



Pra você que não leu a parte I, você pode lê-la  AQUI

 
    O vento fazia  meu cabelo voar. Voar até demais, vamos combinar. Ainda bem que eu estava na garupa ( não poderia estar em outro lugar, óbvio ) mas o que quis dizer é que dessa forma ele não seria capaz de perceber a bagunça que meu cabelo estava mesmo com o capacete. Meus braços estavam ao redor da cintura dele e meu corpo encostado nas suas costas. Eram quentes, como todo o resto do corpo dele. Eu sabia disso porque antes de Rick soltar minha mão quando chegamos perto da moto ( o único momento em que  a soltou ) ele me ajudou a subir e eu toquei em seu braço pra me apoiar, mas sendo meio lesada quase caí então ele me segurou.
   Entre sair da praça e ir à moto ele não disse nada e eu também não, obviamente. O que eu poderia dizer?  Mas assim que ele colocou o capacete em mim, colocou o dele, se sentou na minha frente e ligou a moto ele disse :

- Não está com medo, está, Mariah? - rindo.
- Medo?  É claro que não. - respondi, com um sorriso acanhado, confesso.
       Eu estava morrendo de medo.

    O som ensurdecedor do motor da moto fez todo mundo olhar. Digo, aqueles que já não estavam olhando. A professora abriu a boca pra falar alguma coisa, mas quando algo saiu de sua boca nós já tínhamos virado a esquina. Durante boa parte da corrida tentei não me mexer, quero dizer, as pernas na moto e os braços em volta dele. Mas vez por outra eu tentava me ajeitar e percebia que ele se movia, como se tentasse me ajudar a ficar mais confortável, mas não havia muito o que fazer a 160 por hora.
   Às vezes, eu via que ele tentava virar o rosto pra mim, mas tinha que manter a atenção na estrada, que mesmo vazia àquela hora, ainda podia apresentar algum risco. Cerca de quinze minutos depois a cidade começou a desaparecer, e mais árvores começaram a tomar conta da paisagem. Eram muitas árvores, do tipo uma floresta que até então eu desconhecia. Nunca fui de fazer trilha ou mesmo de passeios ao ar livre, mas acho que eu deveria saber da existência de tantas árvores na saída da minha cidade. De qualquer forma ele começou a diminuir a velocidade quando um horizonte de terra aos poucos surgia à nossa frente.
   De repente, ele estacionava a moto no meio de um grande nada. Foi como se tivéssemos sido transportados para o Texas, em especial, nas áreas desérticas.
Nunca tinha ido àquela parte da cidade.
    Ele tirou o capacete e seu cabelo loiro ficou um pouco bagunçado, mas diferente do meu não fazia com que o rosto dele ficasse mais idiota. Ele mexeu no cabelo; passou os dedos em um movimento para trás e sorriu pra mim, pois eu ainda estava com meu capacete. Ele com certeza pensou que eu era tonta demais pra tirar sozinha, mas na verdade não queria que ele visse a bagunça do meu cabelo, então ele deixou o capacete dele no seu lugar de assento  e me ajudou a tirar o meu.

- Parece que seu cabelo tá um pouco bagunçado. - disse rindo, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele se aproximou e começou a ajeitar meu cabelo, como se tentasse pentear com as mãos. As mãos macias dele. Eu baixei a cabeça, pois morri de vergonha, é claro. Mas ele a levantou de volta, só que não foi assim só levantar, não. Ele pegou meu queixo, levantou meu rosto, olhou em meus olhos e em seguida levantou o dedo, me repreendendo:

- O que eu já disse sobre baixar a cabeça, hein?
- Hum...
- Tem que parar com isso, Mariah. - os olhos azuis dele estavam me encarando, mas eu estava concentrada em seu sorriso. - Vem. Vou te mostrar o que eu queria te mostrar. - e me ajudou a descer da moto, caso contrário eu poderia cair de novo, presumi.

Ele segurou minha mão e à medida que andávamos percebi que havia, na verdade, um grande precipício. Como um abismo. Enorme. Percebi assim que nos aproximamos o suficiente. Levei um susto. Acho que quando vi realmente, meu coração disparou tanto quanto no momento em que Rick se sentou do meu lado na praça.

- Assustada?
- Um pouco.
- Tudo bem. Não vou te jogar lá. - apontou para o abismo.
- Sério? Porque eu já estava me preparando pra correr. - eu disse rindo e ele riu também.
- Acredite. Se eu quisesse você lá em baixo você já estaria há tempos e se você corresse eu te alcançaria antes mesmo de você perceber.
- Ora,ora, ora. Um desafio? - eu disse mesmo isso? É, eu disse.
- Não agora. Depois. Vem cá. - ele me mostrou um caminho, não um caminho exatamente, nós só nos afastamos do abismo maligno e nos sentamos numa pedra gigante que tinha do outro lado.

- Então. Se não vai me jogar do abismo o que vai fazer? - estranho. Eu estava mesmo conversando normalmente com ele. Meu coração parecia que ia sair pela boca, tanto que fiquei com medo dele ouvir, afinal, estávamos um do lado do outro. Nossos ombros se tocando, nossas pernas se tocando. Até que... ele pegou minha mão e colocou em cima da mão dele que tava em cima da sua perna. Depois ele cobriu minha mão com sua outra mão.

Coisa de doido que foi, mas achei que ia morrer, ou ter um infarto. Como assim? Rick Goldmin fazendo o tipo sentimental? O Rick que foi pego fumando na escola duas vezes, conhecido por assustar os calouros com sua pose de valentão? O Rick que nunca ficava com uma mesma menina por mais de três semanas? O Rick Goldmin que nunca disse que amava uma garota? O mundo estava acabando, ou renascendo, não soube dizer.
  Não foi só o fato de ele colocar minha mão entre as dele que me disse que ele não era o badboy que todos diziam que ele era ou mesmo o cara que ele queria que as pessoas achassem que era. Foi quando ele me disse:

- Olha lá ! - apontou para o horizonte e eu vi uma coisa linda: O sol estava se pondo de uma forma mais que maravilhosa. De uma forma como eu nunca tinha visto. Descia lentamente e eu simplesmente não conseguia parar de olhar e sorrir. - Lindo, não é?
- É-é... maravilhoso. - sei que o pôr-do-sol não parece grande coisa, mas quando se mora em uma metrópole cheia de prédios onde raramente o sol é visto, do tipo visto direito, uma cena dessas com um cara desses ao seu lado acaba por se tornar algo especial. - Nossa, Rick. Que coisa linda!
- Eu sei. Sempre que dá eu venho aqui pra ver. - ele disse ainda olhando para o sol.
 Eu não tirei os olhos do horizonte enquanto o sol não tinha sumido por completo.
Por fim, o sol foi embora e Rick olhou pra mim:
- Gostou?
- Adorei.
- Eu disse que era legal.
- É. E é tão diferente... digo, de você. Quero dizer - ele me interrompeu.
- Eu sei. Não era o que você estava esperando, certo?
- Não mesmo.
- Mas me conta. Quando descobriu que meu plano não era te jogar lá em baixo o que você pensou que eu faria?
- Não pensei nada. Mas ver o pôr-do-sol com certeza é a última coisa que eu pensaria. - disse, rindo. Ele havia se levantando da pedra e me ajudado a sair ( percebi que qualquer coisa que eu tivesse que fazer alguns centímetros acima do chão eu precisava da ajuda dele, ou ele percebeu isso, não é? .
Nós caminhamos um pouco e depois de volta para o lugar onde ele havia estacionado a motocicleta.

- Então. O que quer fazer agora?
- Não sei. O que você faz depois de olhar o sol?
- Na verdade, nada. Vou pra casa.
- Então vamos pra casa.
- Pra quem não queria sair do banco da praça, emprestar o caderno ''mágico da poesia'' ou mesmo conversar comigo você está se arriscando demais, hein, Mariah. - ele riu. De verdade.
Pegou na minha mão novamente.
- Ei. Não tire sarro do meu caderno. - brinquei - É só que... sei lá. Agora, está... diferente. Mas... não sei.
- Não sabe se deve ir pra casa de um maluco que todo mundo acha que não quer nada da vida e que não dá a mínima pra qualquer regra?
- Não é bem isso - eu ri pra disfarçar, em parte era bem aquilo, mas depois daquela tarde eu estava duvidando de que ele fosse realmente o cara que as pessoas diziam ser.
- O que é, então?
Nesse momento nós estávamos perto da moto. Ele se virou e se apoiou nela. Eu estava de frente pra ele quando ele me puxou para perto, pela cintura e meu coração decidiu que seria legal bater fortemente mais rápido e nós estávamos tão próximos que achei que ele ouviria de novo e perguntaria se há algo errado comigo, digo, algo muito mais errado que o normal, e depois disso pensei que a qualquer momento ele fosse me beijar.

Mas não.
Ele não fez nada. Ficou com as mãos na minha cintura, e eu estava no meio, digo, de frente pra ele, mas não tão próxima. Havia uma distância de mais ou menos três palmos entre nós. E eu abri a boca pra falar no momento seguinte, mas não consegui dizer nada.
- O que foi? - ele disse, rindo. E ele conseguia ficar lindamente maravilhoso rindo que eu desejei poder ficar olhando o sorriso dele o restante da tarde.
- Não, é só que ... bom, eu não sei como dizer.
- Só diga.
- Tá - concordei, como se fosse fácil. - Bom, eu tinha uma outra visão de você, em parte era a visão que todo mundo diz sobre você. Sabe... garoto revoltado que não respeita nada nem ninguém, fica com todas as meninas que quiser e não quer saber de nada da vida, e me desculpa é sério, é só que - eu comecei a falar rápido demais e às vezes a tropeçar nas palavras, era o que acontecia quando eu ficava muito nervosa - , eu não te conhecia , nunca poderia, não é? Digo , digo - ele me interrompeu. Seus dedos anelar e médio selaram minha boca.
- Tá tudo bem. Eu entendo. - ele olhou pro lado, sorrindo, e voltou-se pra mim para terminar de falar. - Não tem problema, Mariah. Eu imaginei que fosse essa a sua visão de mim, me surpreendi quando aceitou meu convite, mas fiquei feliz por ter me dado a chance. Então tratei de fazer bem o serviço. Você gostou de hoje, não?
- Sim, adorei. - abaixei a cabeça para sorrir, mas ele a levantou, como sempre.
- Pois é. Que bom. Espero que a gente possa fazer esse tipo de coisa mais vezes.
- É. O que? - A ficha caiu. Ele realmente queria passar mais tempo comigo.
- Se você quiser, é claro.
- Eu quero, é só ... estou surpresa.
- Com o que?
- Não é normal isso, quero dizer, você, eu, nós .
- Não é normal por que? Porque sou um revoltado da cidade que decidiu criar coragem pra falar com uma menina linda e inteligente? E que ainda está pulando por dentro por ela ter aceitado o convite maluco de subir na minha garupa e me deixar levá-la para um lugar até então desconhecido? - ele deu uma risada e me puxou pra mais perto. Colocou uma mexa do meu cabelo atrás da minha orelha esquerda - Você é incrível, Mariah e quando perguntei pra um colega se você estava saindo com alguém e ele disse que não eu sabia que tinha que tentar.
- Mas... eu não sou, quero dizer, sou só ... eu, boba e estranha, estranha demais, aliás. - é claro que eu não estava saindo com ninguém, ele não precisava perguntar pra colega nenhum, oras...
- Você não é estranha. - ele ficou sério, mas olhou pra mim de volta com um sorriso quando viu que não acreditei. - Tá bom. Você é estranha, mas um estranho bom. Maravilhoso, aliás. Você é diferente. A maioria das meninas que ficaram comigo era a mesma coisa. Sempre. Se não eram superficiais não estavam interessadas de verdade.
- E você estava? - tive de perguntar.
- Bom, não. Mas não é a questão. Quero dizer. - ele bufou. Pela primeira vez estava sem palavras. - Eu nunca encontrei alguém que valesse a pena. Sei que nunca dei motivos pra alguém querer algo de verdade comigo e beleza! Isso nunca foi meu foco, mas aí eu comecei a observar você. Sempre lendo e escrevendo, você falava com poucas pessoas, nunca tinha a turminha idiota de sempre e tão linda. Ah, Mariah! Quando eu cheguei perto o bastante para olhar você! Eu achei que tinha algo errado comigo. Eu precisava... precisava...
- O que? - perguntei encarando-o. Minhas mãos roçaram o braço dele, e digo minhas mãos, pois foi meio que um movimento involuntário, sei lá, não consegui pensar direito enquanto ele falava aquilo tudo, porque aquilo tudo era surreal demais  pra mim.
- Eu precisava conhecer você e estar com você. Eu venho te observando há dias e há dias que venho pensando na melhor abordagem, pra você não se assustar ou coisa do tipo. Morri de medo de você me dar um fora sem nem me dar uma chance.
- É sério isso?
- É sim! Tá vendo? É coisa de doido! Eu nunca tive problemas pra falar com uma menina, sempre foi:  chegar, falar um oi e pronto, em dois minutos estávamos  conversando e depois... bom, você sabe.
- É, eu sei.
- Mas com você não foi bem assim. Quando vi já estava do seu lado e quando vi que estava receosa eu quis sair correndo. Mas fui homem o bastante haha - ele riu de novo - e fiquei lá. Não tinha nada a perder, certo?
- É. - eu ri.
- Seu sorriso é tão lindo.- ele mexeu no meu cabelo. E nossa, eu devia ter sido transportada pra outro plano. Aquilo não podia estar acontecendo.
- É... obrigada. - eu ri de novo, mas sem querer rir porque fiquei com vergonha pelo o que ele tinha falado.
- E então. Vamos ver um filme agora ou nada?
- Vamos, oras.
- Certo. Vem. Te ajudo a subir. - é claro que ele tinha que me ajudar a subir.

***

Quando nós estávamos na moto, prontos para partir ele ligou o motor e corremos na direção oposta. Em poucos minutos estávamos na cidade e ele fez a primeira curva antes de seguir o caminho oposto daquele que fizemos quando saímos da praça onde o pessoal da escola provavelmente não mais estaria agora. Ele não corria como fez antes e eu estava me sentindo bem, no entanto, um pensamento ruim tomou conta da minha mente alguns minutos antes dele estacionar em frente a sua casa.

A casa era grande, digo, a mansão era. Tinha dois andares e deveria cobrir um perímetro de três casas médias sem contar o jardim da frente. As paredes de fora eram da cor vinho, um vinho bem forte e as janelas eram arredondadas com detalhes de madeira envelhecida nas bordas. Havia um grande jardim na frente e os portões cinza estavam fechados. Uma grande árvore tomava conta do jardim antes de dar lugar à vista da porta dupla que era a entrada principal da casa. No andar de cima tinha uma varanda e uma rede laranja estava postada em frente à janela do quarto, que estava aberta e eu pude quase enxergar alguma coisa, ou alguém se mexendo, pensei rapidamente. Não soube dizer, pois ele desligou o motor e desceu para me ajudar a sair também.

- Então, é aqui que você mora? - é, eu fiz essa pergunta idiota e ainda tentei disfarçar olhando para a casa ao lado como se eu pensasse : talvez ele só guarde a moto aqui e more na casa ao lado.
- Na verdade - ele se virou para a casa - , essa casa é dos meus tios.
- E seus pais?
- Ao que parece, eles não gostam muito da responsabilidade de criar um filho de vinte anos - ele riu, mas percebi que foi irônico.
- Como assim? Quer dizer que eles simplesmente te mandaram pra cá?
- Bom, foi e não foi. Eu saí de casa há um tempo e ficava dormindo na casa de amigos, até que meus tios descobriram e sei lá qual é a deles, sei apenas que foram me buscar na casa do Caleb um dia e disseram que eu poderia ficar na casa deles desde que terminasse o ensino médio e arrumasse um emprego caso não fosse pra faculdade.
- Entendo. - concordei com a cabeça - Legal da parte deles.
- Pode ser, mas acho que o fato deles se preocuparem tanto com a imagem social da família não é. O que quero dizer é que:  só aceitei a proposta porque a casa deles é legal e como eles quase nunca ficam em casa eu tenho ela só pra mim, posso tocar minha guitarra  à vontade, ligar meu som no último volume, posso ficar na televisão vendo o que eu quiser sem me preocupar com nada e no final das contas.. aqui é melhor que o ambiente da minha casa de verdade.
- Hum . - era triste no final. Pensar que o Rick que todos achavam ser o cara mais foda da cidade, o cara super de boa com tudo e o cara que estava sempre bem tinha uma vida mais complicada que o esperado.
- Ei, ei , ei. Não era pra eu estar te enchendo com essa conversa idiota agora. - ele empurrou um pouco a moto pra frente. - A gente ia ver um filme, não ia? - apertou o botão automático do portão  que começou a se abrir.
- Ah, é. Ia . - sorri e me lembrei do que tinha pensado. A verdade era que: ir pra um lugar qualquer na moto de um até então desconhecido e possível psicopata era uma coisa, mas ir pra casa dele a qual eu acabei de descobrir que poderia estar vazia era outra coisa totalmente diferente.
- Se não quiser, não tem problema. Posso te levar pra casa agora, ok?
- Não, eu quero. É só que... estou com sede.
- Ah, então vamos entrar logo. - e continuou a empurrar a moto depois de me mostrar que eu deveria ir na frente.
   Eu fui. Estava com medo, mas estava be. Quero dizer que se ele quisesse fazer alguma coisa já teria feito, certo? Certo, não é? Era o que eu dizia a mim mesma enquanto caminhava pelo caminho de pedras que ia até a grande porta da casa. Ele se desviou por um instante e foi para trás da casa onde eu imaginei ficar a garagem. Aguardei por alguns minutos enquanto observava mais de perto as coisas. Onde eu estava tinha um banco branco com detalhes na beirada e nos pés. Sentei nele e fiquei lá esperando. A grama era extremamente verde para aquela época do ano, e o cheiro que vinha quando o vento tocava-a era muito bom. Mas eu ainda estava insegura, estava com sede, mas isso foi apenas uma desculpa para eu ter mais tempo para pensar além de observar a casa por dentro e em último caso saber para onde correr.
Confesso. Eu estava com medo do Rick.

- Tudo pronto. Vamos? - e me mostrou que eu poderia entrar depois que ele destrancou a porta. Guardou as chaves no bolso de trás e a abriu pra mim. Devagar me aproximei e entrei. Era ainda mais incrível por dentro.

Os azulejos azuis claros eram magníficos, com desenhos abstratos. A sala era o primeiro cômodo e eu logo notei a televisão de 52 polegadas e tela plana embutida na parede do lado esquerdo. Os sofás de couro branco eram daqueles que fazem um só virar três. No chão um tapete enorme que cobria todo o perímetro da sala. Ao lado, mas ao lado do tipo duzentos metros depois ficava a cozinha, era diferente. Antes tinha uma espécie de copa e uma mureta de mármore que escondia a cozinha atrás, digo, a mureta era a divisão da sala, mas era muito bonita, não era como se alguém tivesse decidido que seria legal ter um monte de tijolo no meio da sala, era a combinação perfeita de cômodos. A geladeira era enorme e a mesa no centro era de vidro , as cadeiras de uma madeira que não sei dizer o tipo, mas davam o tom exato, ou seja, não era só porque eram parte da mesa, porque mesmo se não fossem conjunto ficariam ótimas ali. Eu devo ter ficado alguns minutos observando tudo até que ele se deu conta do tempo e disse :
- Você pode beber o que quiser ali - apontou para a cozinha - . Acho melhor a gente ver no meu quarto, caso eles cheguem, não é?
- Pode ser . - tudo bem tudo bem, isso não foi comum. O medo que eu estava antes só fez aumentar depois dessa ideia maluca dele. Por que não poderíamos ver na sala? Onde é mais perto da porta de saída? E como assim, caso eles cheguem?
   Enfim, tratei de beber minha água enquanto ele subiu as escadas que ficavam no centro, era como se elas saíssem direto da porta de entrada, mas de alguma forma desapareciam no meio da sala, mas se a gente chegasse perto o bastante as enxergava de novo. Ele subiu e eu fiquei lá. Eu deveria ter subido logo em seguida de terminar de beber minha água, e tudo bem que eu levei meia vida pra descobrir como abrir a geladeira gigante, mas não subi.
  Ouvi alguns passos vindo do andar de cima um tempo depois e presumi que era ele, óbvio, mas quando o vi apontar a cabeça na escada e sorrir pra mim como que se perguntando : o que essa maluca ainda tá fazendo na cozinha - , e o medo meio que foi embora.
   Eu queria subir e ver o quarto dele, ver o que ele tanto fez questão de me mostrar logo que o sol foi embora. É, eu esqueci de mencionar que ele ficou cerca de dez minutos falando do filme que a gente ia ver, mas sem falar o nome do filme ou mesmo sem contar o que acontecia ao certo e quando ele terminou de falar conclui que só Rick conseguiria me animar com um filme qualquer sem nem ao menos dizer o nome do filme.
- Ei, senhora poeta, você vem, ou não? - ele disse sorrindo e esticando a mão pra mim.
- Claro que sim ! - respondi e sorri de volta. Peguei em sua mão e subi as escadas na frente dele.

   A escadaria não era grande como eu esperava e logo estávamos no andar de cima. Havia um corredor e ele apontou o último quarto. O corredor era estreito, mas era relativamente longo. Caminhei um pouco e logo estava parada na porta do quarto dele, mas o que vi ...

O que vi não era algo que eu estava esperando. Era algo que eu jamais em toda a minha vida esperaria ver, e ainda mais agora no quarto de Rick, o cara que até alguns minutos atrás eu tinha esquecido  que era um badboy maluco cuja vida se resume em cigarro, bebida e encontros com meninas fora do expediente de mecânico dele. O cara que eu achei que não era quem mostrava ser...
   Mas não tive muito tempo de raciocinar qualquer coisa a respeito da imagem que meus olhos eram forçados a encarar, pois senti uma mão grande e forte empurrar minhas costas e em segundos eu estava dentro do quarto dele, porém, as luzes se apagaram em seguida e eu afundei em uma escuridão que só pensei existir em meus livros de terror.

Você pode ler a parte três AQUI

PS: Levei muito mais tempo pra terminar essa parte do que a primeira. Sério, demorei milênios. Nunca ficava como eu queria e no final mudei muita coisa. Espero não demorar tanto para fazer a parte III rs Enfim, espero que gostem.

Identidade


Procuras em outros rostos o que não enxergas no teu
errôneo és, e por saberes disso insiste nesta busca
Procuras em outros corpos o que não é próprio do teu  'eu'
e por saberes disso, buscas, sem saber que isso te ofusca

Não tens uma identidade, portanto, queres a dos outros roubar
Mas nunca consegue, é claro, pois é algo intocável
No entanto, de espelhos sobrevives, e não aprende a se amar
E no final sabes o que resta, o que resta é lamentável

Todos os esforços são em vão, sim
Não adianta chorar ou gritar
Cavou uma sepultura, deu-se um fim

x

Tenho dentro de mim um alheamento tolo
E bastaria uma única descida rumo aos juncos
Para fazer-me crer que eu nasci para um desgosto
E no final não é necessário, pois meus  abismos são mais fundos

Cria eu na falácia de minha pessoa futrica
cria em uma palavra de fúria
Tão soturna e escura quanto a noite
mal sabia que eu era a causa de meu açoite

E agora nem papéis me são úteis
procuro em outros o que não vejo em mim
e já cansei dessas assertivas, são todas fúteis


No final era uma tola oposição
cansada. mutilada. solitária e sem nada
destruída pelas bombas da própria nação


Não há uma definição certa, tão pouco correta
E nessa parvoíce me perco, sem nunca ter encontrado
uma única peça


Não entendes não é ? Não há meios para tal ato
o que sei é que nada é
quanto a mim, quanto ao que fui, de fato


As mãos que nada constroem
A boca que nada diz
e quando o faz se contradiz
um corpo que não é meu
uma mente que não me descansa
as pernas que não caminham
e um coração perdido na própria dança


O que digo é apenas uma afirmação
nada do que sou me pertence
nada do que fui é real, sou toda escuridão
o que vejo é uma música que nunca foi tocada
um sono que nunca foi embalado
um olhar esquecido, uma alma jamais amada


Todos esses nunca fazem parte de mim por completo
é a perfeita disparidade
um paradoxo maravilhoso
cheia de adversidade
sou oposto do meu próprio eu
nada valeria nem se apagasse todo esse breu
e por isso nada encontro
em mim
e nos outros
e nada é
faz sentido ou foi muito pouco
a identidade que nunca foi minha
mas não bastou ser do outro.





PS: Levei séculos para terminar esse poema, mas precisava terminar agora. Os primeiros versos foram fáceis de compor, mas os seguintes formavam-se na minha cabeça, mas na hora de escrever simplesmente não pareciam transmitir a mensagem que eu queria. Ainda não sei se o poema ficou como eu gostaria que ficasse, mas está aí rs















Battle of Hogwarts

Apenas um diálogo para o dia de hoje:

- After all this time ?
- Always.

Dumbledore and Snape. ( Harry Potter and the Deathly Hallows. )

[ foto retirada de uma postagem do facebook da página Sobre Sagas ]

Gueixa


Outro conto de caráter romântico rs É, mais um. Levei dias e dias pra terminar esse. Dias mesmo e ele nem ficou tão grande, acontece que ele nunca ficava do jeito que eu queria e em certos dias eu não encontrava as palavras certas. Inspirei em uma cena da série Teen Wolf. Era a mãe de Kira e seu grande amor numa época turbulenta. Quis escrever a história de uma japonesa, simples assim. Ainda não sei se escrevi o final da exata forma como eu queria que ficasse, e como o primeiro conto - O pessoal da Escola - , pode ser que eu mude algo nesse também depois de reler  pela milésima vez rs.   

O lago brilhava com a luz da lua cheia e o restante do sangue que ainda escorria da grama até a água tornava–se preto à medida que a iluminação o penetrava. Ao longe era possível enxergar as árvores balançando–se, e onde a japonesa encontrava–se sentia o vento responsável por tal ação. Estava escuro de modo que suas lágrimas eram invisíveis... O brilho da lua mais uma vez fez sua parte, no entanto, não era suficiente para acordar qualquer pessoa no Templo. Ela estava sozinha.
***
Na manhã daquele dia Yoko não acordou, pois não dormira à noite. Viu o sol nascer. Mais uma vez. Lavou o rosto e tomou seu chá forte para manter–se de pé o restante da manhã e quem sabe o dia todo. Pegou na penteadeira de mogno branco e espelho entalhado em marfim seu pente de dente de baleia. Penteou os longos cabelos lisos e negros como a noite desprovida de luar.
Fez o tradicional coque japonês e em seguida começou a se maquiar. Não que sua pele impecável precisasse de algum corretivo, mas Yoko gostava de se pintar e naquele dia precisou cobrir as olheiras que se acentuaram um pouco mais. O pó compacto deixou a pele de seu rosto um tanto mais pálido. Delineou os olhos com o lápis preto e coloriu as pálpebras com sombra escura, não muito forte, era apenas para dar um tom mais sombrio ao seus olhos negros e belos.
A sua boca levemente polpuda ficou vermelha–sangue com o batom. De quimono preto com detalhes brancos e dourados, calçou os sapatos de madeira, colocou seu anel de brilhante no dedo anelar da mão direita e foi em direção à cozinha para o desjejum junto de seu pai – O Imperador.
À medida que se aproximava do local Yoko sentia um mal estar esquisito, mas não incomum.  Era a raiva que emanava de seu corpo, pois já imaginava o que aconteceria. Discussão. Brigas. Um choro guardado. Parou para respirar fundo a um passo do grande salão onde seu pai sozinho estava à espera. Por fim chegou ao estabelecimento e assim que entrou os criados a cumprimentaram encurvando-se como é costume no país. Seu pai já estava sentado na cabeceira da mesa, e ao longe, era possível ver que em seu prato nada havia bem como no copo ao lado do mesmo.

– Bom dia, papai. – disse, fazendo a reverência costumeira e em seguida puxando a cadeira.
– Bom ? Não vejo nada de bom no dia de hoje, Yoko. – disse com o tom grave de sua voz.
– Por que diz isso, papai? – disse Yoko aproximando–se da cadeira que ficava do lado direito a do pai, onde já havia outro prato e copo, ambos vazios.
– Deixe–me explicar melhor... Acabei de receber a notícia que aquele bastardo a pediu em casamento ontem à noite. E que a senhorita disse sim.
***

Haiati treinava atrás do grande Templo do Imperador na noite anterior. Empunhava sua espada com graça como nenhum outro guerreiro no Grande Reino, nem mesmo os maiores guerreiros treinados desde a infância pela guarda militar pessoal do Imperador seriam capazes de manusear a espada como Haiati fazia. Ao longe era possível ouvir sua voz, de modo que Yoko não tardou a segui-la. 

A espada de Haiati foi certeira ao bloquear o ataque e ambos sorriram um para o outro. Continuaram a luta. Amantes que se atacavam. Era sublime olhar, pois era possível enxergar fúria nos olhos deles, mas ao mesmo tempo amor e a capacidade de discernimento de ambos. Sabiam até onde poderiam atacar. Vez por outra a expressão séria de Yoko e Haiati era trocada por belos sorrisos, demonstrações da felicidade que fazia parte daquele momento. Um momento pertencente somente a eles dois.

De repente, porém, Haiati parou de lutar. Simplesmente guardou sua espada depois de um golpe quase fatal contra Yoko. Ela estava agachada, apoiando–se nos joelhos. A espada estava bem ao seu lado, mas ela estava impossibilitada de ser mexer para pegá–la, pois a arma de Haiati estava rente ao seu pescoço, tão próximo que o simples movimento do virar de Haiati seria capaz de cortar–lhe a garganta, uma vez que o instrumento era também muito afiado. Depois de guardar a katana na bainha, Haiati estendeu a mão para Yoko e depois a abraçou. Deu–lhe um leve beijo na boca e sorriu novamente. Puxou–a pela mão até a saída do campo. Caminharam em silêncio, de mãos dadas.  Felizes.

Estavam próximos do grande Templo. Yoko nada perguntou. Haiati nada disse. Uma vez dentro do Templo, depois de fazerem as reverências adequadas e de tirarem os sapatos, Haiati disse:
– Bom, novamente você perdeu na luta. Mas tenho um desafio antes de deixar que vá para casa. – delicadamente puxou o queixo dela para junto do seu rosto e lhe deu um beijo.
– Novamente, por quê? Eu sempre ganho. – ela retribuiu o beijo e sorriu. – Vamos, qual é o desafio? – continuou, dando passos aleatórios em torno de Haiati e roçando de leve as costas dele com a parte de trás da mão.

– Sempre? – ele sorriu – Discordo. – disse, sorrindo ainda mais. Puxou–a para mais perto de si, mas não a beijou. Encostou a testa na dela e continuou. – Agora preste bem a atenção. Esse Templo é muito sagrado para nós dois, sim? – Virou–se para a estátua do antigo Imperador – o avô de Yoko, mais conhecido como um dos melhores governantes daquela Era. –  Nós teremos uma luta aqui. Essa é a sua chance de provar que é boa com a espada como diz ser. – ele dizia sorrindo, pois sabia que ela era uma das melhores espadachins do Grande Reino mesmo sendo uma quase gueixa – quase, pois sendo filha do Imperador não poderia levar a vida glamourosa de gueixa, mas era tão protegida e tão cheia de cuidados e mimos que se poderia dizer que ela era de fato uma.  Haiati gostava de provocar.

– Tudo bem, então. Vamos! –  e tirou da bainha sua espada, em seguida posicionou–se.
Uma nova luta começou, porém, foi muito rápida. Yoko mal teve tempo de recompor–se depois do primeiro ataque. Mas Haiati não pretendia ganhar a luta, então ele fez um movimento nunca visto por ela. De fato, cresceram juntos e treinaram juntos. Foram iniciados na arte com espada ao mesmo tempo e mesmo que tenham passado a infância se odiando, aos dezessete anos descobriram o amor e desde então têm praticado juntos. Mas aquele movimento. Aquele movimento ela nunca tinha visto. Em ninguém, que dirá feito por Haiati. Ele deu um salto, mas girou no ar, parecia que ele ia guardar a espada de volta à bainha no meio do movimento, pois a mão que segurava o instrumento pareceu estar dentro do bolso.
De volta ao chão, Haiati empunhou a espada não em direção ao pescoço de Yoko, mas sim até sua mão. E quando ela colocou os olhos na ponta da espada lá estava... O anel mais bonito que ela já vira em toda a sua vida. Nem todos os brilhantes que seu pai lhe dera ou todas as joias que ganhara de possíveis pretendentes conseguiriam ser mais belas que aquele pequeno anel. O círculo de prata com um pequeno diamante trabalhado em cima. Ela estava sem palavras. Queria tocar, mas tinha medo de deixar cair e perder o pequeno, porém, magnífico objeto. Somente a lua iluminava o salão do Templo, logo, seu medo era compreensível. Mas Haiati se pronunciou, tirou o anel da espada, abaixou–se e olhou nos olhos de Yoko. Pegou em sua mão e disse:
– Então, aceita se casar comigo? – disse sorrindo. Um sorriso que mostrava verdadeira alegria.
Yoko ia dizer sim, mas o sorriso surgiu primeiro, seguido de muitas lágrimas e finalmente depois de respirar fundo conseguiu dizer:
– Sim. Sim. Sim. Claro que sim!. – O abraçou e o beijou. Minutos depois o Grande Sino tocou. Era hora de ir para casa.
***

– Fala de Haiati ? Ele não é bastardo. – Enfurecia–se cada vez que o pai ousava chamar seu amado de bastardo.
– Como não? Isso pouco me interessa, Yoko. Sabe muito bem dos nossos planos de casar você com o filho do General do Exército Chinês.
– Mas eu não o amo, papai.
– Mas quem falou de amor? Os nossos interesses são negócios e poder. Esse casamento firmará uma aliança eterna se tudo der certo e eu serei lembrado como aquele que selou a paz entre nossos países. Ah sim! Serei lembrado. – concordava consigo mesmo, esfregando as mãos uma nas outras.
– Mas papai...
– Mas nada, Yoko. Não sei o que passou na sua cabeça oca em aceitar tal pedido. Agora, sinto muito, mas a única certeza é de que o bastardo filho do carpinteiro do Reino irá sofrer.
– Sofrer? O que está dizendo? – Yoko temeu sua pergunta.
– Oras! Ele tem que morrer. – O Imperador disse a frase com naturalidade, como se não significasse nada a morte de Haiati.

O coração de Yoko simplesmente parou. Não literalmente, mas ela sentiu algo perfurar–lhe o peito e rasgar–lhe o órgão, frágil...sensível.
– Mo–mor–rer ? Ma–mas por que, papai? – segurou as lágrimas com o pouco de força que lhe restava, sabia que seu pai odiava quando ela chorava,e não ousaria irritá–lo ainda mais.
– Yoko, sua tola! Sabe de nossas tradições! Você fez a idiotice de aceitar o pedido, logo, está comprometida e só há duas maneiras de acabar com isso: o rapaz morre ou você morre. E como acredito que os dois não consumaram o casamento antes da hora, logo, nenhum poderia cometer adultério agora. Mas não se preocupe, daremos a ele uma morte de guerreiro, afinal, ele se alistou não foi hahaha – O Imperador sorria demais à medida que fazia sinal para Yoko deixar a mesa, mas ela não conseguia se mexer.

Finalmente o criado mais velho, de cabeça branca e as costas levemente encurvadas puxou–a levemente pelo braço e mostrou a porta. Yoko se levantou e no momento que se virou em direção à saída as lágrimas verteram de seus olhos.
O senhor que a acompanhava não previu seu movimento: Yoko desvencilhou–se de seus braços fracos com facilidade, é claro, e em seguida correu passando veloz pelos guardas o que os impediu de segura–la.
Ela sempre fora rápida como uma raposa.
Correu com toda a sua força, pois precisava encontrar Haiati antes dos guardas de seu pai. Mais tarde, depois de se certificar que nenhum guarda conseguiu avista–la, Yoko bateu à porta do casebre onde morava Haiati. Era simples a casa dele, pequena, não tinha muitos móveis, mas era aconchegante, em especial a lareira que ele improvisou depois da primeira visita de Yoko em um inverno há dois anos. Ele demorou um pouco para abrir a porta o que deixou Yoko ainda mais apreensiva, pois ela sabia que logo os guardas do seu pai estariam ali. Eles sabiam onde Haiati morava.

Finalmente a porta se abriu e assim que viu Yoko Haiati abriu seu sorriso sereno e branco e à vista de Yoko os mais acalentadores do mundo.
– Vamos! Temos de ser rápidos. – disse ela empurrando Haiati para dentro da casa, nem se importando com o abraço que ele tentou dar.
– Yoko, está tudo bem? – ele temia que tivesse desistido do casamento.
– Não, Haiati, não está tudo bem. Na verdade, nunca esteve tão ruim. – ela não conseguiu se segurar, sentou na cadeira perto da lareira e pôs–se a chorar. Com as mãos tampando o rosto fungava e limpava os olhos. A maquiagem sujava sua mão pequena.
– Ei, ei, ei. – Haiati puxou outra cadeira para perto dela e passou o braço envolta de suas costas. – Conte–me o que aconteceu. Você está com medo do seu pai, é? – ele afagava as costas dela, gostaria de poder desfazer aquele coque. Ele gostava tanto de ficar mexendo nos longos cabelos de Yoko.
– Medo? Medo? – ela tentou ser sarcástica na esperança de que as lágrimas parassem de cair. – Antes fosse medo, Haiati, a minha única preocupação. Medo por mim apenas. Mas não. O que acontece é muito pior.
–Então conte-me, Yoko.
– O meu pai... Ele vai matar você! – em seguida chorou como não fazia há anos, simplesmente não conseguia segurar as lágrimas. Elas vertiam contra sua vontade, e ela sentiu seu corpo enfraquecer. Haiati não falou nada. Abraçou–a com mais força. Enquanto ela chorava desesperadamente ele tentava encontrar uma solução.
Mas não havia nada a ser feito. Uma ordem do Imperador é algo incontestável. E o pai de Yoko era um homem ambicioso disposto a qualquer coisa para atingir seu objetivo.
– Haiati? – Yoko havia parado de chorar e percebeu que Haiati caminhava de um lado para o outro na casa. – Haiati, você está bem? Desculpe–me... eu – eu ...
–Não é sua culpa, Yoko. Só estou tentando encontrar uma solução.
– Mas o que poderia ser feito? Conhece papai, ele é ... é... um monstro. – e sentiu mais lágrimas. A essa altura deduziu que seu rosto não estava mais pintado.
Haiati caminhou um pouco na sala e depois volto para a cadeira ao lado de Yoko. Foi rápido.
– Tudo bem. Irei fugir.
– O quê? – Yoko arregalou os olhos para ele.
– Fugir. – ele confirmou. E passou a mão no cabelo dela. – Se eu ficar eu morro, e se nós fugirmos juntos ele colocará o Japão inteiro à nossa procura. Não posso correr o risco de machucar você. – sentou-se ao lado dela. Tirou o palito que prendia seu cabelo. Eles deslizaram pelas costas como água, lisos, serenos, negros e belos. Ele os afagava calmamente.
– Mas... E quanto a nós? Sabe que papai me fará casar com aquele comandante.
– Eu sei, Yoko, mas é questão de tempo. Seu pai tem que seguir os costumes, certo?
– Sim. Quero dizer, aparentemente sim, mas você o conhece. Se ... – foi interrompida.
–Pense comigo. Mesmo que você se case ele não pode negar um desafio. Se eu desafiar o comandante pela sua mão nenhum pode dizer não.
– Você fala como se não conhecesse papai, Haiati. Sabe que ele dará um jeito para que as coisas saiam como ele quer. – Yoko sabia o que seu pai faria. Ele faria de Haiati não um bastardo qualquer, mas um bastardo ladrão, o que significaria morte a qualquer custo.
– O que você sugere, então? Não podemos ficar sentados esperando a solução.
– Faça o que você disse que faria, fuja. Mas não volte. Nunca mais.
– Mas Yoko...
– Não, Haiati. Não vê que é a única solução para ambos ficarmos vivos ? Saiba que sempre amarei você não importa com quem papai me case. – e afundou o rosto no peito de Haiati. Ele a abraçou. Chorou também. Silencioso, mas chorou. Sabia que era a única coisa que poderia fazer. Fugir. Como um covarde, mas um covarde vivo. Um covarde vivo que um dia talvez ainda poderia olhar o sorriso de sua amada uma vez mais.
Ainda que a boca desse sorriso estivesse longe demais para que ele a beijasse.
Yoko voltou para casa à noite. Seu pai estava à sua espera no grande portão que dava entrada para o Templo. Ao lado dele, seus mais fiéis guardas estavam prostrados. Como estátuas de ferro. Estátuas de ferro que matariam depois de um único e simples sinal.
– Onde esteve, Yoko? – o tom de voz do Imperador estava ainda mais grosso, e de fato, furioso.
– Onde o senhor pensa, papai?
– Foi avisar aquele bastardo, não foi?
– Mas é claro que fui.
– Ótimo. De nada adiantará e você sabe.
– Por que não? – Yoko se encaminhava para dentro do Templo. Mas seu pai puxou seu braço. Encarou–a.
– Porque mesmo que ele fuja sabe que mandarei meus homens, ou você acha que irei arriscar que ele volte e atrapalhe tudo?
– O quê?
– É isso mesmo. Já mandei metade dos cavaleiros para o Sul e a outra metade para o Norte, caso ele tenha saído enquanto você vinha pra cá. O restante partirá essa noite para Leste e Oeste.
– M–as ... Por que faz isso, papai? Por que?
– Porque, Yoko, eu sou o grande Imperador do Japão e ninguém atrapalha meus planos! Amanhã o filho do General chegará para pedir sua mão. Trate de jogar fora essa bijuteria que o bastardo deu a você e se arrume bem.
– M–as... – por fim, Yoko não mais contestou. Não tinha forças para mais nada. Encaminhou–se para dentro de casa, iria chorar o restante da noite ou quem sabe...
***
Algumas poucas horas depois Yoko ouviu seu pai dar a última ordem de busca a Haiati. Ela sabia que eles dificilmente o encontrariam tão cedo, uma vez que ele havia fugido pela grande floresta que se iniciava atrás dos muros do Reino e iria até a grande Muralha da China ou mais longe ainda, no entanto, sabia que se não agisse rapidamente, ao amanhecer ele poderia estar morto. Logo, ela teria tempo para colocar seu plano trágico em ação. Não havia meios de se comunicar com Haiati, portanto ele nada saberia até que a notícia tivesse se espalhado por todo o país.
Yoko vestiu seu quimono branco e calçou seus sapatos. Pintou–se novamente. Estava decidido. Se papai pensa que matar Haiati é a única solução ele está muito enganado! Não vou deixar que ele mate a única pessoa realmente importante para mim e ainda conseguir tudo o que quer às minhas custas. Não mesmo! Dizia, baixinho, enquanto o lápis preto fazia o contorno de seus olhos grandes. Yoko sussurrava sozinha antes de sair pela janela de seu quarto. Como uma verdadeira ninja desceu até o chão de grama e como a lua não mais iluminava aquele lado do castelo passou despercebida pelo guarda. Ela caminhou solitária e silenciosa até o rio. Ninguém estava esperando que ela saísse do quarto, certo? De fato, nenhum guarda se preocupou em vigia–la.

Por fim, sentou–se na beira do rio e sentiu a água molhar seus pés e lembrou–se de quando costumava ficar do mesmo jeito com o Haiati ao seu lado. De quando nadaram juntos há alguns meses e de quando deram seu primeiro beijo dois anos atrás. As lágrimas começaram a cair e como queria estar bela ao final de tudo aquilo tratou de forçar a adaga contra a barriga. Minutos depois sua mão perdeu a força e a adaga fez o trabalho final. Yoko estava caída no chão, a adaga a seu lado e na outra mão um bilhete para seu pai. Nele dizia que de nada vale a morte de Haiati para ele agora, uma vez que ela também está, logo ele não teria o que queria.

 A lua brilhava no céu, brilhava vermelha. Era uma linda lua cheia e Yoko sorriu ao pensar na ironia da Lua para com ela. Sozinha, morreu com um sorriso. Sorria irônica. Sorria triste. Matou–se por amor, sim. E se era possível encontrar alguma felicidade neste ato triste... Yoko agora sabia.


[ Tentei encontrar uma foto da mãe de Kira e o seu namorado, mas não consegui e como gostei dessa imagem resolvi deixá-la rs ]