26 de março de 2014

Ode aos Anjos

[mais um, eu acho... ]

Logo abaixo dessa tosca caixa torácica
pulsa um simplório e sórdido miocárdio
como e porque bate não sei, operário
E essa forma insólita, sem cor e ácida

através dessa casca velha que é o corpo
não sei como o mantenho sem beber do poço
esse envoltório sombrio transporta meus fluidos
mas não há razão, pois há muito foi esquecido

o mastigar que meus pútridos dentes fazem
de nada valem, pois a comida é serragem
o vinho que lava minha ressecada artéria
não tem gosto, pois como eu é sem matéria

vês ? sou filha do carbono também
mas sou uma sombra sem ninguém
meu corpo subsiste, mas sem energia está
o operário está famélico, e não irei lhe negar

jazo agora sem esperança, feto desgraçado
sou uma má formação da natureza
fui na época de rutilância, a certeza
de que o mal existia e eu era o fim consagrado.

[ Augusto dos Anjos, poeta parnasiano, mas considerado pré-modernista também devido aos poemas que criticavam a sociedade. Suas poesias em geral abordavam temáticas ligadas à morte e à podridão. Nada além de matéria. Enfim, gênio.]
Leia Mais ►

7 de março de 2014

Fênix

Ao que parece, pequeno ser, voaste perto demais do sol e agora estás queimado.
     Estranho. Curioso.
"Mas essas alegrias violentas têm fins violentos (...) como fogo e pólvora que em um beijo se consomem."

     De fato. Pequeno ser... Já paraste para pensar onde queres chegar ? Digo, não pareces a tu complicado demais esse caminho das pedras ? Quero dizer, olhe quantas pedras! Não bastasse os trilhos escabrosos ainda há seres malignos a cercarem a estrada. Vez por outra os seres jogam-te pedras ainda maiores. Quão doloroso e difícil é o trilho pelo qual escolhestes andar. Não compreendo, confesso.
    No entanto, com um pouco de esforço, pequeno ser, até que algo faz sentido em minha cabeça idosa. Reflitas comigo, sim ? As escadas não são tão rápidas quanto os elevadores, mas de fato elas deixam tuas pernas mais fortes. Compreendes ? Pois então. Não sei o que passa nesta tua cabecinha, mas não irei julgar-te.
   Agora, pequeno ser, limpas tuas penas sujas de fuligem, limpas sim. E ergue-te das cinzas, como a fênix! Tu sabes que no fundo és tu quem estais certo e não eles. Portanto, prepare-te para um novo voo e não pare até que tenhas chegado à Lua. "Sonhe alto e mire mais alto ainda, pois mesmo que venhas a cair cairás entre as estrelas." E como sei que já estais acostumado às quedas, pequeno ser, seis que esse tombo não te feres. Deixa-te forte, sim.
   Prestais atenção, pequeno ser, prestais muita atenção. O mundo é feito de sombras, muitas sombras mesmo, porém, aprende que necessitas delas para reconheceres a luz. Uma vez que tenhas vivido sob um mundo de trevas de certo saberá quando entrares em um mundo de luz. O que temo, porém, pequeno ser, neste momento o qual te digo estas palavras é ... é complicado dizer, e triste também, e o pior... temo ser verdade. O que temo, minha pombinha, é que há muito tu tenhas virado corvo e agora pertences à escuridão.

- Mas isso não é de todo ruim, velho. - disse uma voz, esganiçada e baixa, ao fundo do quarto onde se encontravam o idoso e a criança.
-Oras, como não ? É sim de todo ruim, pois é. A escuridão é um caminho sem volta e muitas vezes perigoso. - retorquiu o velho concordando consigo mesmo.
-Sim, de certo é. No entanto, uma vez que saibas andar sem nada ver de certo saberás qualquer caminho, seja ele fácil ou difícil. E uma vez que não há volta não podes te permitir arrependimento algum de suas ações ao longo do trajeto.
-Tens razão. Quem és tu, estranho ?
- Eu ? Eu não sou nada nem ninguém. Sou o que fui, mas hoje não sou. Sou o que serei, mas hoje não posso mais ver. Sou o que sou sem nem ao menos ser. - e desapareceu tão rápido quanto havia surgido no quarto.
- Vovô, acho que errei em tudo. - disse a pequena abaixando a cabeça.
-Não erraste, pequeno ser. As pessoas ao teu redor querem que penses assim, mas não acredites nelas. Em nenhuma delas. - disse o idoso antes de acariciar a cabeça da criança que pousava-a em seu colo.
-Oras, mas então em quem devo acreditar ? - disse, limpando as lágrimas e virando-se para encarar o avô.
- Apenas em ti mesmo, pequeno ser. Apenas em ti mesmo.



PS: Creio ser o primeiro texto de caráter 'não trágico' que fiz em toda minha vida, pelo contrário, tem caráter motivacional rs
Leia Mais ►

Evoluir dói

não sei ao certo como começar esse texto. espero que um dia acorde como eu. é doloroso, parece que seus olhos vão se afogar nas próprias lá...