O Pessoal da Escola - parte II

  




Pra você que não leu a parte I, você pode lê-la  AQUI

 
    O vento fazia  meu cabelo voar. Voar até demais, vamos combinar. Ainda bem que eu estava na garupa ( não poderia estar em outro lugar, óbvio ) mas o que quis dizer é que dessa forma ele não seria capaz de perceber a bagunça que meu cabelo estava mesmo com o capacete. Meus braços estavam ao redor da cintura dele e meu corpo encostado nas suas costas. Eram quentes, como todo o resto do corpo dele. Eu sabia disso porque antes de Rick soltar minha mão quando chegamos perto da moto ( o único momento em que  a soltou ) ele me ajudou a subir e eu toquei em seu braço pra me apoiar, mas sendo meio lesada quase caí então ele me segurou.
   Entre sair da praça e ir à moto ele não disse nada e eu também não, obviamente. O que eu poderia dizer?  Mas assim que ele colocou o capacete em mim, colocou o dele, se sentou na minha frente e ligou a moto ele disse :

- Não está com medo, está, Mariah? - rindo.
- Medo?  É claro que não. - respondi, com um sorriso acanhado, confesso.
       Eu estava morrendo de medo.

    O som ensurdecedor do motor da moto fez todo mundo olhar. Digo, aqueles que já não estavam olhando. A professora abriu a boca pra falar alguma coisa, mas quando algo saiu de sua boca nós já tínhamos virado a esquina. Durante boa parte da corrida tentei não me mexer, quero dizer, as pernas na moto e os braços em volta dele. Mas vez por outra eu tentava me ajeitar e percebia que ele se movia, como se tentasse me ajudar a ficar mais confortável, mas não havia muito o que fazer a 160 por hora.
   Às vezes, eu via que ele tentava virar o rosto pra mim, mas tinha que manter a atenção na estrada, que mesmo vazia àquela hora, ainda podia apresentar algum risco. Cerca de quinze minutos depois a cidade começou a desaparecer, e mais árvores começaram a tomar conta da paisagem. Eram muitas árvores, do tipo uma floresta que até então eu desconhecia. Nunca fui de fazer trilha ou mesmo de passeios ao ar livre, mas acho que eu deveria saber da existência de tantas árvores na saída da minha cidade. De qualquer forma ele começou a diminuir a velocidade quando um horizonte de terra aos poucos surgia à nossa frente.
   De repente, ele estacionava a moto no meio de um grande nada. Foi como se tivéssemos sido transportados para o Texas, em especial, nas áreas desérticas.
Nunca tinha ido àquela parte da cidade.
    Ele tirou o capacete e seu cabelo loiro ficou um pouco bagunçado, mas diferente do meu não fazia com que o rosto dele ficasse mais idiota. Ele mexeu no cabelo; passou os dedos em um movimento para trás e sorriu pra mim, pois eu ainda estava com meu capacete. Ele com certeza pensou que eu era tonta demais pra tirar sozinha, mas na verdade não queria que ele visse a bagunça do meu cabelo, então ele deixou o capacete dele no seu lugar de assento  e me ajudou a tirar o meu.

- Parece que seu cabelo tá um pouco bagunçado. - disse rindo, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele se aproximou e começou a ajeitar meu cabelo, como se tentasse pentear com as mãos. As mãos macias dele. Eu baixei a cabeça, pois morri de vergonha, é claro. Mas ele a levantou de volta, só que não foi assim só levantar, não. Ele pegou meu queixo, levantou meu rosto, olhou em meus olhos e em seguida levantou o dedo, me repreendendo:

- O que eu já disse sobre baixar a cabeça, hein?
- Hum...
- Tem que parar com isso, Mariah. - os olhos azuis dele estavam me encarando, mas eu estava concentrada em seu sorriso. - Vem. Vou te mostrar o que eu queria te mostrar. - e me ajudou a descer da moto, caso contrário eu poderia cair de novo, presumi.

Ele segurou minha mão e à medida que andávamos percebi que havia, na verdade, um grande precipício. Como um abismo. Enorme. Percebi assim que nos aproximamos o suficiente. Levei um susto. Acho que quando vi realmente, meu coração disparou tanto quanto no momento em que Rick se sentou do meu lado na praça.

- Assustada?
- Um pouco.
- Tudo bem. Não vou te jogar lá. - apontou para o abismo.
- Sério? Porque eu já estava me preparando pra correr. - eu disse rindo e ele riu também.
- Acredite. Se eu quisesse você lá em baixo você já estaria há tempos e se você corresse eu te alcançaria antes mesmo de você perceber.
- Ora,ora, ora. Um desafio? - eu disse mesmo isso? É, eu disse.
- Não agora. Depois. Vem cá. - ele me mostrou um caminho, não um caminho exatamente, nós só nos afastamos do abismo maligno e nos sentamos numa pedra gigante que tinha do outro lado.

- Então. Se não vai me jogar do abismo o que vai fazer? - estranho. Eu estava mesmo conversando normalmente com ele. Meu coração parecia que ia sair pela boca, tanto que fiquei com medo dele ouvir, afinal, estávamos um do lado do outro. Nossos ombros se tocando, nossas pernas se tocando. Até que... ele pegou minha mão e colocou em cima da mão dele que tava em cima da sua perna. Depois ele cobriu minha mão com sua outra mão.

Coisa de doido que foi, mas achei que ia morrer, ou ter um infarto. Como assim? Rick Goldmin fazendo o tipo sentimental? O Rick que foi pego fumando na escola duas vezes, conhecido por assustar os calouros com sua pose de valentão? O Rick que nunca ficava com uma mesma menina por mais de três semanas? O Rick Goldmin que nunca disse que amava uma garota? O mundo estava acabando, ou renascendo, não soube dizer.
  Não foi só o fato de ele colocar minha mão entre as dele que me disse que ele não era o badboy que todos diziam que ele era ou mesmo o cara que ele queria que as pessoas achassem que era. Foi quando ele me disse:

- Olha lá ! - apontou para o horizonte e eu vi uma coisa linda: O sol estava se pondo de uma forma mais que maravilhosa. De uma forma como eu nunca tinha visto. Descia lentamente e eu simplesmente não conseguia parar de olhar e sorrir. - Lindo, não é?
- É-é... maravilhoso. - sei que o pôr-do-sol não parece grande coisa, mas quando se mora em uma metrópole cheia de prédios onde raramente o sol é visto, do tipo visto direito, uma cena dessas com um cara desses ao seu lado acaba por se tornar algo especial. - Nossa, Rick. Que coisa linda!
- Eu sei. Sempre que dá eu venho aqui pra ver. - ele disse ainda olhando para o sol.
 Eu não tirei os olhos do horizonte enquanto o sol não tinha sumido por completo.
Por fim, o sol foi embora e Rick olhou pra mim:
- Gostou?
- Adorei.
- Eu disse que era legal.
- É. E é tão diferente... digo, de você. Quero dizer - ele me interrompeu.
- Eu sei. Não era o que você estava esperando, certo?
- Não mesmo.
- Mas me conta. Quando descobriu que meu plano não era te jogar lá em baixo o que você pensou que eu faria?
- Não pensei nada. Mas ver o pôr-do-sol com certeza é a última coisa que eu pensaria. - disse, rindo. Ele havia se levantando da pedra e me ajudado a sair ( percebi que qualquer coisa que eu tivesse que fazer alguns centímetros acima do chão eu precisava da ajuda dele, ou ele percebeu isso, não é? .
Nós caminhamos um pouco e depois de volta para o lugar onde ele havia estacionado a motocicleta.

- Então. O que quer fazer agora?
- Não sei. O que você faz depois de olhar o sol?
- Na verdade, nada. Vou pra casa.
- Então vamos pra casa.
- Pra quem não queria sair do banco da praça, emprestar o caderno ''mágico da poesia'' ou mesmo conversar comigo você está se arriscando demais, hein, Mariah. - ele riu. De verdade.
Pegou na minha mão novamente.
- Ei. Não tire sarro do meu caderno. - brinquei - É só que... sei lá. Agora, está... diferente. Mas... não sei.
- Não sabe se deve ir pra casa de um maluco que todo mundo acha que não quer nada da vida e que não dá a mínima pra qualquer regra?
- Não é bem isso - eu ri pra disfarçar, em parte era bem aquilo, mas depois daquela tarde eu estava duvidando de que ele fosse realmente o cara que as pessoas diziam ser.
- O que é, então?
Nesse momento nós estávamos perto da moto. Ele se virou e se apoiou nela. Eu estava de frente pra ele quando ele me puxou para perto, pela cintura e meu coração decidiu que seria legal bater fortemente mais rápido e nós estávamos tão próximos que achei que ele ouviria de novo e perguntaria se há algo errado comigo, digo, algo muito mais errado que o normal, e depois disso pensei que a qualquer momento ele fosse me beijar.

Mas não.
Ele não fez nada. Ficou com as mãos na minha cintura, e eu estava no meio, digo, de frente pra ele, mas não tão próxima. Havia uma distância de mais ou menos três palmos entre nós. E eu abri a boca pra falar no momento seguinte, mas não consegui dizer nada.
- O que foi? - ele disse, rindo. E ele conseguia ficar lindamente maravilhoso rindo que eu desejei poder ficar olhando o sorriso dele o restante da tarde.
- Não, é só que ... bom, eu não sei como dizer.
- Só diga.
- Tá - concordei, como se fosse fácil. - Bom, eu tinha uma outra visão de você, em parte era a visão que todo mundo diz sobre você. Sabe... garoto revoltado que não respeita nada nem ninguém, fica com todas as meninas que quiser e não quer saber de nada da vida, e me desculpa é sério, é só que - eu comecei a falar rápido demais e às vezes a tropeçar nas palavras, era o que acontecia quando eu ficava muito nervosa - , eu não te conhecia , nunca poderia, não é? Digo , digo - ele me interrompeu. Seus dedos anelar e médio selaram minha boca.
- Tá tudo bem. Eu entendo. - ele olhou pro lado, sorrindo, e voltou-se pra mim para terminar de falar. - Não tem problema, Mariah. Eu imaginei que fosse essa a sua visão de mim, me surpreendi quando aceitou meu convite, mas fiquei feliz por ter me dado a chance. Então tratei de fazer bem o serviço. Você gostou de hoje, não?
- Sim, adorei. - abaixei a cabeça para sorrir, mas ele a levantou, como sempre.
- Pois é. Que bom. Espero que a gente possa fazer esse tipo de coisa mais vezes.
- É. O que? - A ficha caiu. Ele realmente queria passar mais tempo comigo.
- Se você quiser, é claro.
- Eu quero, é só ... estou surpresa.
- Com o que?
- Não é normal isso, quero dizer, você, eu, nós .
- Não é normal por que? Porque sou um revoltado da cidade que decidiu criar coragem pra falar com uma menina linda e inteligente? E que ainda está pulando por dentro por ela ter aceitado o convite maluco de subir na minha garupa e me deixar levá-la para um lugar até então desconhecido? - ele deu uma risada e me puxou pra mais perto. Colocou uma mexa do meu cabelo atrás da minha orelha esquerda - Você é incrível, Mariah e quando perguntei pra um colega se você estava saindo com alguém e ele disse que não eu sabia que tinha que tentar.
- Mas... eu não sou, quero dizer, sou só ... eu, boba e estranha, estranha demais, aliás. - é claro que eu não estava saindo com ninguém, ele não precisava perguntar pra colega nenhum, oras...
- Você não é estranha. - ele ficou sério, mas olhou pra mim de volta com um sorriso quando viu que não acreditei. - Tá bom. Você é estranha, mas um estranho bom. Maravilhoso, aliás. Você é diferente. A maioria das meninas que ficaram comigo era a mesma coisa. Sempre. Se não eram superficiais não estavam interessadas de verdade.
- E você estava? - tive de perguntar.
- Bom, não. Mas não é a questão. Quero dizer. - ele bufou. Pela primeira vez estava sem palavras. - Eu nunca encontrei alguém que valesse a pena. Sei que nunca dei motivos pra alguém querer algo de verdade comigo e beleza! Isso nunca foi meu foco, mas aí eu comecei a observar você. Sempre lendo e escrevendo, você falava com poucas pessoas, nunca tinha a turminha idiota de sempre e tão linda. Ah, Mariah! Quando eu cheguei perto o bastante para olhar você! Eu achei que tinha algo errado comigo. Eu precisava... precisava...
- O que? - perguntei encarando-o. Minhas mãos roçaram o braço dele, e digo minhas mãos, pois foi meio que um movimento involuntário, sei lá, não consegui pensar direito enquanto ele falava aquilo tudo, porque aquilo tudo era surreal demais  pra mim.
- Eu precisava conhecer você e estar com você. Eu venho te observando há dias e há dias que venho pensando na melhor abordagem, pra você não se assustar ou coisa do tipo. Morri de medo de você me dar um fora sem nem me dar uma chance.
- É sério isso?
- É sim! Tá vendo? É coisa de doido! Eu nunca tive problemas pra falar com uma menina, sempre foi:  chegar, falar um oi e pronto, em dois minutos estávamos  conversando e depois... bom, você sabe.
- É, eu sei.
- Mas com você não foi bem assim. Quando vi já estava do seu lado e quando vi que estava receosa eu quis sair correndo. Mas fui homem o bastante haha - ele riu de novo - e fiquei lá. Não tinha nada a perder, certo?
- É. - eu ri.
- Seu sorriso é tão lindo.- ele mexeu no meu cabelo. E nossa, eu devia ter sido transportada pra outro plano. Aquilo não podia estar acontecendo.
- É... obrigada. - eu ri de novo, mas sem querer rir porque fiquei com vergonha pelo o que ele tinha falado.
- E então. Vamos ver um filme agora ou nada?
- Vamos, oras.
- Certo. Vem. Te ajudo a subir. - é claro que ele tinha que me ajudar a subir.

***

Quando nós estávamos na moto, prontos para partir ele ligou o motor e corremos na direção oposta. Em poucos minutos estávamos na cidade e ele fez a primeira curva antes de seguir o caminho oposto daquele que fizemos quando saímos da praça onde o pessoal da escola provavelmente não mais estaria agora. Ele não corria como fez antes e eu estava me sentindo bem, no entanto, um pensamento ruim tomou conta da minha mente alguns minutos antes dele estacionar em frente a sua casa.

A casa era grande, digo, a mansão era. Tinha dois andares e deveria cobrir um perímetro de três casas médias sem contar o jardim da frente. As paredes de fora eram da cor vinho, um vinho bem forte e as janelas eram arredondadas com detalhes de madeira envelhecida nas bordas. Havia um grande jardim na frente e os portões cinza estavam fechados. Uma grande árvore tomava conta do jardim antes de dar lugar à vista da porta dupla que era a entrada principal da casa. No andar de cima tinha uma varanda e uma rede laranja estava postada em frente à janela do quarto, que estava aberta e eu pude quase enxergar alguma coisa, ou alguém se mexendo, pensei rapidamente. Não soube dizer, pois ele desligou o motor e desceu para me ajudar a sair também.

- Então, é aqui que você mora? - é, eu fiz essa pergunta idiota e ainda tentei disfarçar olhando para a casa ao lado como se eu pensasse : talvez ele só guarde a moto aqui e more na casa ao lado.
- Na verdade - ele se virou para a casa - , essa casa é dos meus tios.
- E seus pais?
- Ao que parece, eles não gostam muito da responsabilidade de criar um filho de vinte anos - ele riu, mas percebi que foi irônico.
- Como assim? Quer dizer que eles simplesmente te mandaram pra cá?
- Bom, foi e não foi. Eu saí de casa há um tempo e ficava dormindo na casa de amigos, até que meus tios descobriram e sei lá qual é a deles, sei apenas que foram me buscar na casa do Caleb um dia e disseram que eu poderia ficar na casa deles desde que terminasse o ensino médio e arrumasse um emprego caso não fosse pra faculdade.
- Entendo. - concordei com a cabeça - Legal da parte deles.
- Pode ser, mas acho que o fato deles se preocuparem tanto com a imagem social da família não é. O que quero dizer é que:  só aceitei a proposta porque a casa deles é legal e como eles quase nunca ficam em casa eu tenho ela só pra mim, posso tocar minha guitarra  à vontade, ligar meu som no último volume, posso ficar na televisão vendo o que eu quiser sem me preocupar com nada e no final das contas.. aqui é melhor que o ambiente da minha casa de verdade.
- Hum . - era triste no final. Pensar que o Rick que todos achavam ser o cara mais foda da cidade, o cara super de boa com tudo e o cara que estava sempre bem tinha uma vida mais complicada que o esperado.
- Ei, ei , ei. Não era pra eu estar te enchendo com essa conversa idiota agora. - ele empurrou um pouco a moto pra frente. - A gente ia ver um filme, não ia? - apertou o botão automático do portão  que começou a se abrir.
- Ah, é. Ia . - sorri e me lembrei do que tinha pensado. A verdade era que: ir pra um lugar qualquer na moto de um até então desconhecido e possível psicopata era uma coisa, mas ir pra casa dele a qual eu acabei de descobrir que poderia estar vazia era outra coisa totalmente diferente.
- Se não quiser, não tem problema. Posso te levar pra casa agora, ok?
- Não, eu quero. É só que... estou com sede.
- Ah, então vamos entrar logo. - e continuou a empurrar a moto depois de me mostrar que eu deveria ir na frente.
   Eu fui. Estava com medo, mas estava be. Quero dizer que se ele quisesse fazer alguma coisa já teria feito, certo? Certo, não é? Era o que eu dizia a mim mesma enquanto caminhava pelo caminho de pedras que ia até a grande porta da casa. Ele se desviou por um instante e foi para trás da casa onde eu imaginei ficar a garagem. Aguardei por alguns minutos enquanto observava mais de perto as coisas. Onde eu estava tinha um banco branco com detalhes na beirada e nos pés. Sentei nele e fiquei lá esperando. A grama era extremamente verde para aquela época do ano, e o cheiro que vinha quando o vento tocava-a era muito bom. Mas eu ainda estava insegura, estava com sede, mas isso foi apenas uma desculpa para eu ter mais tempo para pensar além de observar a casa por dentro e em último caso saber para onde correr.
Confesso. Eu estava com medo do Rick.

- Tudo pronto. Vamos? - e me mostrou que eu poderia entrar depois que ele destrancou a porta. Guardou as chaves no bolso de trás e a abriu pra mim. Devagar me aproximei e entrei. Era ainda mais incrível por dentro.

Os azulejos azuis claros eram magníficos, com desenhos abstratos. A sala era o primeiro cômodo e eu logo notei a televisão de 52 polegadas e tela plana embutida na parede do lado esquerdo. Os sofás de couro branco eram daqueles que fazem um só virar três. No chão um tapete enorme que cobria todo o perímetro da sala. Ao lado, mas ao lado do tipo duzentos metros depois ficava a cozinha, era diferente. Antes tinha uma espécie de copa e uma mureta de mármore que escondia a cozinha atrás, digo, a mureta era a divisão da sala, mas era muito bonita, não era como se alguém tivesse decidido que seria legal ter um monte de tijolo no meio da sala, era a combinação perfeita de cômodos. A geladeira era enorme e a mesa no centro era de vidro , as cadeiras de uma madeira que não sei dizer o tipo, mas davam o tom exato, ou seja, não era só porque eram parte da mesa, porque mesmo se não fossem conjunto ficariam ótimas ali. Eu devo ter ficado alguns minutos observando tudo até que ele se deu conta do tempo e disse :
- Você pode beber o que quiser ali - apontou para a cozinha - . Acho melhor a gente ver no meu quarto, caso eles cheguem, não é?
- Pode ser . - tudo bem tudo bem, isso não foi comum. O medo que eu estava antes só fez aumentar depois dessa ideia maluca dele. Por que não poderíamos ver na sala? Onde é mais perto da porta de saída? E como assim, caso eles cheguem?
   Enfim, tratei de beber minha água enquanto ele subiu as escadas que ficavam no centro, era como se elas saíssem direto da porta de entrada, mas de alguma forma desapareciam no meio da sala, mas se a gente chegasse perto o bastante as enxergava de novo. Ele subiu e eu fiquei lá. Eu deveria ter subido logo em seguida de terminar de beber minha água, e tudo bem que eu levei meia vida pra descobrir como abrir a geladeira gigante, mas não subi.
  Ouvi alguns passos vindo do andar de cima um tempo depois e presumi que era ele, óbvio, mas quando o vi apontar a cabeça na escada e sorrir pra mim como que se perguntando : o que essa maluca ainda tá fazendo na cozinha - , e o medo meio que foi embora.
   Eu queria subir e ver o quarto dele, ver o que ele tanto fez questão de me mostrar logo que o sol foi embora. É, eu esqueci de mencionar que ele ficou cerca de dez minutos falando do filme que a gente ia ver, mas sem falar o nome do filme ou mesmo sem contar o que acontecia ao certo e quando ele terminou de falar conclui que só Rick conseguiria me animar com um filme qualquer sem nem ao menos dizer o nome do filme.
- Ei, senhora poeta, você vem, ou não? - ele disse sorrindo e esticando a mão pra mim.
- Claro que sim ! - respondi e sorri de volta. Peguei em sua mão e subi as escadas na frente dele.

   A escadaria não era grande como eu esperava e logo estávamos no andar de cima. Havia um corredor e ele apontou o último quarto. O corredor era estreito, mas era relativamente longo. Caminhei um pouco e logo estava parada na porta do quarto dele, mas o que vi ...

O que vi não era algo que eu estava esperando. Era algo que eu jamais em toda a minha vida esperaria ver, e ainda mais agora no quarto de Rick, o cara que até alguns minutos atrás eu tinha esquecido  que era um badboy maluco cuja vida se resume em cigarro, bebida e encontros com meninas fora do expediente de mecânico dele. O cara que eu achei que não era quem mostrava ser...
   Mas não tive muito tempo de raciocinar qualquer coisa a respeito da imagem que meus olhos eram forçados a encarar, pois senti uma mão grande e forte empurrar minhas costas e em segundos eu estava dentro do quarto dele, porém, as luzes se apagaram em seguida e eu afundei em uma escuridão que só pensei existir em meus livros de terror.

Você pode ler a parte três AQUI

PS: Levei muito mais tempo pra terminar essa parte do que a primeira. Sério, demorei milênios. Nunca ficava como eu queria e no final mudei muita coisa. Espero não demorar tanto para fazer a parte III rs Enfim, espero que gostem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fale comigo, estranho!