O Coveiro - Parte I

Segundo conto do blog de caráter romântico.  Não sei se ficou tão bom quanto o primeiro, pode ser que surjam algumas mudanças antes de eu começar a parte dois e tal, depois de ouvir a opinião das pessoas quem sabe. Eu tive a ideia em algum momento quanto voltava pra casa um dia desses, o título veio na minha cabeça e logo a história estava pronta, bastava eu sentar e escrever, mas demorei uns três dias pra terminar essa parte, de alguma forma eu sentia que não estava ainda como eu queria... até agora. Enfim, espero que gostem !




Destiny passou a frequentar o cemitério muito mais do que um dia ela pensou que faria. De fato, ela ia ao funesto lugar com mais frequência que a maioria das pessoas normais faria, mesmo aquelas pessoas com vários túmulos para visita, em vista de que ela tinha apenas um.
Destiny era normal, sua vida é que deixara de ser no momento em que seu namorado faleceu devido a um acidente de avião. Dentre as 210 vidas que se perderam naquela sexta-feira 13 de outubro, a vida de Lucius era uma delas.
Eles estavam namorando há quase cinco anos e tinham planos para o casamento, é claro. Mesmo sem data marcada Destiny sabia exatamente como aconteceria tudo, ou pelos menos quase tudo. Haveria de ter um piano branco no palco e depois de entrar acompanhada de seu pai e antes de dar início a cerimônia de fato, o pianista tocaria uma de suas músicas favoritas: Noturno nº2 de Chopin em Ré menor.
Em seguida, ela se juntaria a Lucius no altar. Se ajoelhariam e  ouviram as palavras do padre, diriam seus votos, colocariam as alianças, se beijariam e depois que ela fizesse o tradicional ato de jogar o buquê para a próxima noiva eles partiriam para a festa. É claro que muito mais coisas aconteceriam, coisas que normalmente acontecem em casamentos, mas ela sempre sonhava com esse momento em particular, entrar, tocar piano e dizer Eu Aceito. As duas palavras mais importantes na vida de um casal apaixonado. Duas palavras que nunca fariam parte da vida de Destiny e ... Lucius.
Todo esse sonho morreu há exatos três anos. Desde então, toda sexta-feira ela ia ao cemitério onde seu amor fora enterrado, sentava-se ao lado da lápide que continha o nome dele gravado, sua data de nascimento e morte prematura. Por que ele tinha que fazer aquela viagem? Destiny se perguntava sempre, mesmo sabendo a resposta. Era necessário. O exército americano era necessário. Talvez não tanto quanto ela gostaria, mas era a profissão dele. E ser um dos mais renomados fuzileiros requer responsabilidades, dentre elas aceitarem quando se é chamado para representar o país.
A vida de Destiny perdera o sentido. Passaram-se meses até que ela voltou a comer normalmente e a anos até que ela voltasse a se socializar. Cada vez que saía de casa e caminhava solitária pelas ruas de Nova York casais apaixonados a faziam retornar. Perdeu o emprego um tempo depois da morte de Lucius, mas sobrevivera um tempo com ajuda do governo. À medida que sua depressão melhorara ela criou coragem para buscar um novo meio de se manter. Sem família direta para se apoiar, Destiny sentiu que onde quer que Lucius estivesse, se é que estava em algum lugar ele não iria gostar de vê-la assim. Demorou, demorou muito, mas Destiny voltou a viver.
No entanto, jamais abandonou a rotina de ir ao cemitério toda sexta-feira. No final da tarde, ela se sentava perto de lápide de Lucius e lia seu livro em silêncio, antes de ir embora conversava com ele, se é que pode chamar de conversa já que ele, obviamente, não respondia. Essa conversa-monólogo foi o que ajudou Destiny a seguir em frente. Nunca mais se apaixonou, claro, nunca mais se permitiu aproximar de outro homem, e assim tem sido os últimos anos de sua vida.
Em uma sexta-feira como outra qualquer, Destiny saíra do trabalho mais cedo, passara em casa, tomou um banho quente e colocou suas roupas. Não se preocupou em olhar no espelho como há muito não fazia, uma ajeitada no cabelo e um batom levemente rosado eram  suficientes. Pegou sua bolsa que continha nada mais que seu livro e carteira e seguiu para o cemitério que ficava há quatro quadras de sua casa.
A caminhada ajudava a relaxar depois de um dia cansativo na empresa de telefonia. Andava com um olhar cabisbaixo, aliás, baixo até mais. Sempre que passava perto de alguém abaixava a cabeça e caminhava olhando para o chão. E quando sentia que alguém estava a se aproximar ela acelerava o passo. Os portões de ferro trabalhado a fizeram sorrir, algo que fazia a grande maioria das pessoas pensar que ela devia ter algum problema. Nunca a questionavam, pois há muito aprenderam que ela é agora uma mulher solitária. Esse não questionamento dava brechas para boatos de que ela talvez fosse uma bruxa ou coisa do tipo. É claro que Destiny pouco se importava, mas vez por outra se pegava pensando nas pessoas ao seu redor e se questionava se não devia parar de ir ao cemitério.
Nunca tomou tal decisão.
Uma vez dentro do cemitério, sentiu o vento roçar seu rosto e o cheiro de pinheiro novo penetrou em seus pulmões. Continuou andando até encontrar a lápide.
- Olá, Lucius.
Até que algo surpreendente aconteceu depois que ela disse o nome dele. Algo que nunca havia acontecido antes. Algo impossível.
Houve uma resposta.
- Olá.
Destiny se virou tão subitamente em direção ao som que quase se desequilibrou o que fez a pessoa de quem a voz pertencia sorrir um pouco, mas percebendo o assombro de Destiny o homem se conteve, e largando sua pá aproximou-se dela. Mas Destiny se afastou ainda mais rápido e com os olhos arregalados e a voz trêmula tomou coragem para dizer algo :
- Q-quem é você ? E-e que tipo de brincadeira é-é essa ? - disse, mostrando com a mão que o homem devia se manter afastado.
- Do que você está falando ? Não há brincadeira nenhuma aqui, moça.
- Oras, como não ? Você me respondeu, sendo que ... sendo que . Bom, todo mundo me acha doida porque eu venho aqui.
- Poxa,me desculpe se não faço parte desse pessoal. Mas eu respondi porque você disse meu nome, oras. Achei que seria falta de educação, mas pelo jeito você não estava falando comigo. - ele disse essas últimas palavras arqueando as sobrancelhas e se afastando devagar, mas com um sorriso que dizia que ele a achava na verdade uma maluca.
- S-seu nome é Lucius ?
- Sim, e você ´é ?
- Nesse caso, me desculpe. Sou a Destiny. E bom, eu não estava falando com você mesmo.
- É, percebo agora. Falava com quem então?
Ela não respondeu, apenas mostrou a lápide de Lucius.
- Ah, sim.
- E agora você pensa que eu sou doida.
- Não, não penso. É totalmente compreensivo. - disse ele se abaixando para pegar a pá.
- Entendo. E o que faz aqui a essa hora? E com isso? - ela apontou para a pá.
- Oras, sou o coveiro.
Destiny riu levemente. Mas percebeu que ele falava sério.
- Desculpa, é só que ... você não é muito novo pra ser coveiro?
- Ora, ora, ora. Perdoe-me, senhora. Eu não sabia que havia idade mínima para essa profissão. - disse ele sorrindo.
-Não é só que...  - ele a interrompeu.
- Calma, estou brincando. Eu sei que parece estranho, mas é o que faço.
- Entendo. Bom, acho que já vou indo então. - Destiny sorriu e antes de girar os calcanhares para ir embora ...
- Mas seu namorado não vai ficar triste se você não conversar com ele ?
- O que ? Ah, é claro. Não, hoje ele não vai ficar, não. Até mais. - disse, fazendo um pequeno gesto de adeus com a mão.
- Até mais, Destiny. - Lucius disse o nome dela como quem saboreia uma fruta doce recém colhida e a observou seguir o caminho de volta aos portões de saída do cemitério com um largo sorriso no rosto. Em seguida, voltou para seu trabalho. Naquele dia tinha mais três covas para cavar.
Destiny não queria, mas se virou para trás para olhar Lucius. Não Lucius seu antigo namorado. Lucius, o coveiro. Não entendia o que estava acontecendo, mas depois de anos de tristeza pela primeira vez alguém a fizera sorrir. Sorrir de verdade. No entanto, Destiny não se permitiu tal sentimento, não poderia trair Lucius dessa maneira. Converso com ele em casa, pensou ela no caminho de volta.
Na sexta-feria seguinte Destiny voltou ao cemitério, quase esquecera de Lucius, o coveiro, mas inconscientemente arrumou-se um pouco mais que de costume. Tinha um leve lápis preto nos olhos castanhos escuros e o cabelo preto caía de um jeito diferente nos ombros, quase como se tivessem sido lavados duas vezes com creme hidratante e shampoo e depois secados com a ajuda de uma escova. Em sua boca um batom rosa mais escuro que o de antes e nas orelhas dois pequenos brincos de pérola. Sua bolsa de mão com seu livro e carteira. Caminhou normalmente até seu destino.
Chegando no cemitério não notou nada diferente, talvez três ou quatro covas a mais ao longe no horizonte, e talvez alguns crisântemos aqui e ali. Perto da sepultura de Lucius o buquê que ela trouxera semana passada morria de modo que elas os pegou e jogou fora antes de colocar um novo buquê de rosas vermelhas. Tirou um pouco da poeira da lápide e sentou-se ao lado da mesma. Começou a conversar como sempre fazia, mas vez por outra seu olhar se perdia no cemitério, buscava alguém sim, mas ela mesma se recusava a admitir isso.
Depois de alguns minutos "conversando" com Lucius, depois de contar como fora seu dia e sua semana, de como o trabalho parece estar melhorando e que ela pensa em comprar um carro, depois de contar que finalmente terminou de ler aquele livro que há um mês dormia em sua cabeceira, depois de suspirar três vezes, o coveiro surgiu atrás da lápide de Lucius.
- Você voltou.
- Oi.
- Achei que não te veria mais. - disse ele tirando algumas folhas de carvalho do caminho.
- Eu venho toda sexta-feira.
- Entendo. É o dia em que ele morreu ?
- É sim.
- Faz muito tempo ?
- Três anos e meio sexta-feira que vem.
- Sinto muito. - disse Lucius com o olhar baixo.
- Tudo bem.
- Você está diferente hoje. - ele disse abrindo um sorriso instantâneo.
- Sério ? - disse ela sorrindo envergonhada.
- Não sei o que é, mas algo mudou desde a semana passada. - ele se aproximou dela. Ainda estava de pé, mas agora podia encará-la de uma certa distância.
- Como é que eu nunca te vi antes aqui ?
- Não tenho ideia. Você vêm aqui desde a morte dele ?
- Sim. Foi o modo que encontrei de superar, digo, não superar, mas de seguir com a vida.
- Entendo. E sobre o que vocês conversam ?
- Ah, sabe... sobre tudo.
- Sei. Se importa se eu me sentar um pouco ?
- Claro que não. - disse Destiny apontando um lugar entre ela e a lápide.
- Então, o que você faz ?
- Eu trabalho em uma empresa de telefonia.
- Interessante. Qual é o campo ?
- Basicamente tudo, mas minha área é anotar pedidos das empresas que são sócias da nossa empresa.
- Isso parece legal.
Destiny evitava o olhar de Lucius, mas sabe-se lá porque em dado segundo olhou para ele. Bem nos olhos e assustou-se muito, pois por um milésimo de segundo eles pareciam ser o de Lucius, seu antigo namorado. Pretos como pérolas negras sobrepostos pelas sobrancelhas grossas e naturalmente delineadas. E os olhos de Destiny pairaram na boca dele, uma boca que logo mostrou os dentes brancos e corretos, dentes que sorriam para ela como alguém que ama. O cabelo de Lucius estava caído para o lado, mas só a parte da frente, pois o restante tinha um corte perfeito ao redor da cabeça dele. Ele não estava vestindo o uniforme de coveiro usual, isto é, um macacão preto-cinza com o emblema da prefeitura da cidade. Isso é muito estranho, pensou ela, quando se deu conta de que ele vestia uma camiseta toda preta exatamente como a de Lucius um dia antes de partir em sua missão do exército. A calça jeans caía na cintura e nos pés, coturnos. Coturnos! Lucius adorava coturnos.
Destiny levantou-se de súbito. O que fez com que Lucius se assustasse.
- O que acontece ?
- É - é . Nada. Lembrei que tenho uma coisa pra fazer. - disse, exasperada e se aprontando para voltar. Correr. Sair dali.
- Tudo bem, mas você volta semana que vem ?
- Claro, claro. Tchau.
- Tchau.

Destiny não queria,  mas antes de virar para o caminho do portão olhou para trás. O sol batia de leve no rosto de Lucius, a calça jeans marcava a sua cintura esculpida e os músculos de seus braços se encaixavam perfeitamente na camiseta,  o vento fez sua franja cair em seus olhos que piscaram instintivamente. Ele sorria e acenava um adeus, mas ela naquele momento achou que estava ficando maluca de verdade, pois ela não vira Lucius, o coveiro, mas sim Lucius, seu ex-namorado.

Grades

É uma grade
que agride
a pele do
corpo vivo

É uma similitude
que difere
do ser que não é
aquilo ou isto

Traduzo-me no papel
sem ser possível escrever
basta olhar o branco como véu
e sei que é nele que posso crer

Sem letras não há equações
e mesmo que verbais elas sendo
creio que vejo um mar sereno
mas perdido em meio às minhas facções

Distribuída estou entre o ir e ficar
pois nunca vou sem me deixar
e nunca fico sem me levar
é no papel chamuscado que me marco
é nele que em partes me parto

[...]


PS: Não é o texto completo, mas um dia eu posto ele todo rs