Lupus - Parte IV

Você pode ler as Partes I, II e III e AQUI, AQUI e AQUI

Depois de se recuperar do soco bem levado no lado esquerdo da face, Henry ajeitou as roupas, limpou-as e parou para sentir o cheiro de Jonas.  Nada. Tentou sentir o cheiro de um dos lobisomens da Grande Matilha. Nada. Tentou sentir o cheiro de Nina.
Nada.

Propósito

Um pedaço de papel amassado
eu era o caco de vidro quebrado
nem cristal
nem porcelana
eu era a maldita grama

A caneta sem tinta e o lápis sem grafite
eu sou aquele que não resiste
de longe algo completo
de lado
algo quebrado

Como a poção de amor que não deu certo
eu sou o verme rastejante no deserto
Em busca de água, em busca de vida
eu sou o livro com páginas jamais lidas 
[O lençol manchado pelas lágrimas do fracasso]

Eu sou o rascunho que fazem
o papel velho rabiscado
eu sou a dor dos cães que latem 
o sonho esquecido e apagado 

não há mais aquele brilho
aquele valor
tudo o que há 
é somente dor

eu não sou nem mesmo o prato
sou o resto do que restou
do que um dia alguém usou




serviu o seu propósito, verme
pode voltar para o buraco!




My Name is Klaus - Parte V - O Final

Decidi postar. Estava pronto há milênios.  cá está para os leitores que acompanharam.

Você pode ler as parte I, II, III e IV AQUI AQUI AQUI e AQUI.







Phoebe acordou de súbito. Sem saber onde estava. O que tinha acontecido. O que fazer. Sua respiração arfante mostrava o que seu corpo realmente estava pedindo: sangue.
Droga! Klaus me transformou.
De fato. Klaus a matara horas antes. Sugou todo o sangue de seu corpo. Não deixou uma gota sequer. Mas Phoebe sabia que seu grande amor não a mataria assim. Uma morte era necessária para que a vida pudesse acontecer. Em seu bolso encontrou o que ela sabia que Klaus deixaria: um pequeno tubo com o sangue dele. Ela bebeu. Não hesitou um segundo sequer. Destampou o objeto e jogou o líquido viscoso, vermelho quase preto na boca e o sentiu descer pela garganta como se fosse a água muito desejada por alguém que caminha no deserto há dias.
Mesmo que o tubo fosse largo ainda não era o bastante. Ela teve o suficiente para não sofrer a segunda morte, mas seu corpo ansiava por mais sangue. E não poderia ser qualquer sangue. Um humano vivo, com o sangue quente nas veias, vivo. Era disso que ela precisava. As presas logo apareceram quando ela mandou o sinal ao cérebro de que em breve atacaria. Precisava apenas sair da floresta, limpar-se um pouco e escolher a vítima.
Depois de caminhar bastante Phoebe encontrou o bar onde ela e Klaus haviam ficado. Alguns minutos de vampira não eram o suficiente para que ela, sozinha, pudesse voar até a janela do andar de cima que era onde os quartos costumavam ficar, logo, ela bateu à porta. O velho dono do bar atendeu.
- Minha jovem! O que aconteceu?
- Uns...Uns forasteiros me atacaram ainda pouco, senhor. Por favor, eu poderia me trocar, to-tomar um banho?
- Mas é claro, minha jovem. Vamos. – disse o velho corcunda indicando que ela deveria entrar. Com as mãos nas costas de Phoebe ele sentiu que ela estava fria. Fria demais para uma pessoa viva. Mas não disse nada. Apenas a encaminhou para o primeiro quarto. – Pode vestir as roupas que estão no armário. Eram de uma empregada que foi embora há dias e não voltou mais. O banheiro fica à direita.
- Muito obrigada, senhor. – disse Phoebe, sorrindo alegremente e agradecida. Mal sabia ele que o desejo dela era, na verdade, simplesmente arrancar a garganta dele e beber todo o sangue.
Porém, o tempo que teve com Klaus foi muito útil. Ela aprendeu que não somente deve matar com cautela, mas também com prazer. Portanto, não poderia simplesmente atacar o velho ali. No entanto, o bar estava cheio, inclusive, de algumas prostitutas que não se importariam de ter o pescoço beijado por uma mulher.
Depois de se trocar e arrumar-se frente ao espelho, Phoebe sorriu. Suas belas presas recém-nascidas eram visíveis. Até demais.
Preciso trabalhar nisso. Agora.
Esforçou-se um pouco mais e conseguiu sorrir de um modo que as presas não ficassem tão visíveis. Ajeitou o cabelo para trás. Desamassou o vestido e desceu. De cara avistou a vítima. Uma moça solitária na mesa do canto. Com uma grande garrafa de vinho ao lado. Uma das mãos apoiada na bochecha esquerda. A outra, no momento, colocava mais vinho no copo. Ela era bonita. Morena dos cabelos enrolados. Os olhos pequeninos escondidos sob uma densa camada de maquiagem. A boca era naturalmente vermelha. Carnuda. E as mãos eram delicadas. Como as de uma bonequinha de porcelana. Phoebe foi rápida. Não queria que o velho notasse que saíra do quarto.
Poucos segundos depois estava sentada na cadeira em frente à moça. Sorriu para ela. A moça sorriu de volta. Ofereceu vinho, mas Phoebe pulou para o seu lado e insinuou que a desejava. A moça, desesperada por dinheiro, cedeu. Mas Phoebe estava faminta. Necessitada de sangue. Não perdeu tempo. Não se demorou. As presas cresceram e em segundos estavam no simplório pescoço da moça. A  mão de Phoebe tapou a boca dela, abafou o grito enquanto ela se deleitava com sua primeira refeição pós-morte, mas também pré-vida. Uma nova vida. A vida que ela vinha pedindo a Klaus desde o momento que o conhecera, mas gostava demais da sensação que ele lhe dava toda vez que a mordia e lhe sugava um pouco de sangue.
Minutos depois a moça estava morta. E sem sangue de vampiro no organismo ela não voltaria à vida. Phoebe estava satisfeita. Por enquanto. Limpou com as costas da mão o sangue que escorreu na boca, no pescoço... Algumas gotas no vestido. Partiu em busca de Klaus. Desde o momento que acordara ela sabia que Margot o levara, porém, sabia também que ela não faria nada antes que a Lua de Sangue atingisse o ápice.
A Lua de Sangue era talvez a única coisa capaz de enfraquecer Klaus. Nem bruxas nem lobisomens. A natureza em sua mais simplória forma. A natureza apenas seguindo seu ciclo. E vez por outra a Lua de Sangue subia ao Céus, enfraquecendo Klaus na Terra. Desde o momento que Phoebe e Klaus toparam com os lobos e mais tarde com Margot se passaram poucas horas. À meia-noite a Lua de Sangue estaria no seu auge. Então, Margot prenderia Klaus em uma estaca, cortaria seus pulsos e coletaria seu sangue. Com ele, uma poção seria feita junto dos pelos dos lobos. De todos que acreditavam que a Maldição da Lua seria quebrada.
Phoebe estava sem tempo agora. Faltava uma hora e meia para a meia-noite. Onde você está, Klaus? Ele não havia deixado pista nenhuma. Tudo o que tinha no seu bolso era o compartimento com o sangue dele. Nada mais.
Nada mais. Vamos, Phoebe. Pense. Se você fosse uma bruxa maluca pra onde você levaria o suposto amor da sua vida?
Cemitério.
Mas é claro! Quer lugar mais doido que um Cemitério? E de acordo com Klaus, Cemitério é solo sagrado pra essas bruxas idiotas.
Phoebe descobrira o local para onde Margot teria levado Klaus. O único cemitério da cidade ficava relativamente longe de onde ela estava, mas sua velocidade vampiresca seria o suficiente para leva-la até lá a tempo. Obrigada, Klaus! Por me transformar.
Phoebe não andava. Corria. Como um guepardo. Como uma leoa que caça para os filhotes. Não parava por nada. Nem por carros, nem por animais nem por pessoas. Por mais sangue que quisesse, decidiu que guardaria sua fome para os lobisomens. E para Margot. Sim, Margot. Você vai morrer pelas minhas mãos! Depois de cerca de meia hora correndo sem nem ao menos ficar ofegante Phoebe começou a avisar o Cemitério dos Vivos. Pode parecer um nome paradoxo, mas ele passou a ser assim chamado quando pessoas passaram a avistar outras pessoas caminhando nele, à noite. De madrugada. O problema não era as pessoas caminhando à noite, isso podia ser feito tranquilamente. O problema era quando alguém as chamava e elas ignoravam. Não por falta de educação, mas simplesmente porque não podiam ouvir. Gritos passaram a ser ouvidos, gritos de pessoas que avistavam seus entes queridos e os chamavam, mas eles nunca respondiam. Apenas desapareciam, minutos depois.
Um enorme portão de ferro, velho, adornado com desenhos em cada barra e nas pontas finas uma leve camada de tinta prata fechava o local, mas as correntes estavam quebradas. O cadeado, destroçado.
É aqui. Esses cães sarnentos já estão aqui.
Abriu o portão com uma mãozada só. Empurrou com raiva e gritou pelo nome Klaus. Gritou de novo. Nada. Segundos depois ela ouviu. A respiração ofegante de Klaus. Sentiu seu cheiro. O dos lobisomens. De Margot.
Sentiu o cheiro de Klaus. Como de um bebê respira o ar pela primeira vez. Sentiu o cheiro dele. Seguiu o rastro. Haviam passado pelas criptas menores da frente e depois se adentraram mais pelo cemitério. Bem no fundo, perto dos mausoléus mais importantes estavam eles. Em sua seita maligna pela busca do poder. Klaus estava como ele disse que estaria. Preso em uma estaca. Os braços abertos e presos por cortas embebidas de verbena, de modo que ele queimava ao menor movimento. Nos pés correntes de prata. Sem camisa e sangrando. A cada gemido dele um lobisomem fincava-lhe uma espada de prata molhada em verbena no tórax, no peito e na barriga. As bruxas sabiam como torturar um lobisomem e os lobisomens como torturar um vampiro. Uniram seus conhecimentos e fizeram do sofrimento de Klaus algo digno de um filme de terror.
Phoebe mal pode respirar quando viu a cena de seu grande amor praticamente morto. Ela sabia que Klaus não poderia ser morto facilmente, mas tinha completa consciência da capacidade dos lobisomens de machucar alguém que dirá seu inimigo. Ela precisava salva-lo. Mas como? Não conseguia pensar em nada que pudesse usar contra tantos lobos e tantas bruxas, não estando sozinha. Mesmo sendo uma híbrida recém-nascida a força e velocidade em seu organismo não seriam suficientes contra tantos inimigos.
Norton era o chefe, logo, deveria mata-lo primeiro para que seus subordinados ficassem mais fracos, mas como ela se aproximaria dele? Pensou Phoebe. Não há saída e logo a Lua Cheia, a Lua de Sangue estará em seu auge e Margot fará o feitiço final aquele que seria capaz de tirar a vida de Klaus e dar liberdade aos lobos, assim a bruxa disse. Pense, Phoebe. Pense! O que o Klaus faria? O que um dos vampiros mais poderosos da Terra faria?
Mataria a todos. De uma vez. Em um movimento. É isso o que ele faria. Lobisomens poderiam ser fortes e rápidos, mas eles não possuíam o sangue fresco de um humano que Phoebe tinha no organismo naquele momento e esse sangue era o bastante para dar-lhe a rapidez necessária para mata-los. Com o elemento surpresa ao seu lado ela poderia fazer um massacre, rapidamente, se soubesse por onde entrar. E foi assim que ela fez.
Por detrás de tudo o que acontecia Phoebe se esgueirou pelo grande forte que as bruxas haviam construído com magia. Não estavam esperando nem vampiros nem lobisomens, logo, o forte era apenas para impedir a entrada de humanos. Nenhuma magia muito forte fora usada. Klaus continuava a gemer de dor a cada nova palavra em latim que Margot proferia. Ela estava preparando o corpo de Klaus para o Ritual da Lua, no qual ela seria capaz de drenar o sangue dele magicamente modificado e dar aos lobisomens e assim eles estariam livres da maldição da Lua, não mais se transformariam contra sua vontade em toda Lua Cheia. Phoebe esperou alguns minutos. Norton estava distraído com a dor de Klaus.
Seu mais fiel subordinado gostava de ferir o híbrido onde mais doía, perto do coração. Eram apenas dez lobos. Margot garantiu que os dez presentes estariam livres da maldição segundos após o final do ritual, mas todos os outros que viessem de fora precisariam beber do sangue de Klaus que estaria no organismo de qualquer lobo não mais preso à maldição. No entanto, ela deixou claro: os lobos deviam à ela lealdade.
É claro que eles concordaram. Norton tinha um plano de mata-la na primeira oportunidade. Evidentemente ele não conhecia a bruxa Margot. A mais letal e poderosa em séculos. Porém, ele não conhecia Phoebe. A segunda, e única, híbrida em toda a história. Mas ele estava para conhece-la.
Agora.
Norton respirou fundo depois de gargalhar terrivelmente diante da tortura que Luke, seu braço direito, infligia a Klaus e foi no intervalo entre essa respiração e risada que Phoebe agiu. Em segundos seus dentes de lobisomem estavam no pescoço exposto de Luke. Seus olhos amarelos brilhando de prazer pela dor que ela causava ao lobo.
Ele gritou, é claro, e tentou reagir, mas já era tarde demais. O choque de Margot foi o suficiente para ela parar o feitiço e encarar Phoebe de forma surpresa, irreconhecível. Phoebe não perdeu tempo, e enquanto Norton agonizava, pois a mordida de híbrido é dolorosa até mesmo para um lobisomem ela partiu para cima de Luke, quebrou seu pescoço. Arrancou os braços de mais dois lobisomens e mordeu duas das seis bruxas que estavam em torno de Klaus. Foi tudo muito rápido. Os presentes quase não puderam ver nada. Bastava piscar e era mais um que caía no chão. Quanto uma das bruxas fez menção de falar algo contra Phoebe ela, rapidamente, quebrou um dos bancos de madeira e fez duas lanças, uma para cada bruxa. Menos duas. Os lobisomens restantes investiram contra ela assim que tiveram a chance, mas eles eram apenas lobos. Ela uma híbrida. Era vampira e lobisomem. Em segundos estava em cima de uma árvore, e um segundo à frente com um pedaço de madeira na mão. Dois segundos depois a madeira estaria cravada no peito de um dos lobos. Norton ainda estava no chão, morrendo. Margot se preparou para atacar.
- Não tão rápido, bruxinha. – era a voz de Klaus.
Phoebe sorriu. Desceu da árvore e foi para o lado dele. Ele não mais estava preso às cordas ou às correntes.
- Como? – ela perguntou, com os olhos arregalados.
Margot estava ainda mais surpresa. Se achou surpreendente Phoebe estar viva não podia acreditar que Klaus foi capaz de sair das correntes de prata – material fatal para os lobisomens -, ou das cordas com verbena – planta mortífera contra os vampiros. Todos pararam para olhar para ele. Não fazia sentido. Se ele era capaz de se livrar das amarras por que não fizera isso antes? Por que se deixou ser torturado daquela forma? Por que permitiu que Margot chegasse tão perto de terminar o Ritual?
- Como isso é possível? – perguntou a feiticeira, aproximando-se dos híbridos.
- Margot. – Klaus sorriu, sarcasticamente. – Meu nome é Klaus!
Ele deu alguns passos.
- Isso deveria significar alguma coisa pra você. E para vocês, cães sarnentos!!! Eu não andei milênios nessa Terra fazendo cada ser vivo tremer diante de meu nome à toa. Eu não fui o vampiro mais temido por séculos à toa!!! – ele caminhava. Olhando cada um dos lobos e das bruxas que restaram depois que Phoebe agiu. – MEU NOME É KLAUS! E eu não posso ser morto.
Depois de dizer isso Klaus terminou o que Phoebe começou. Nenhuma bruxa, exceto Margot ficou viva. Norton afastou-se do campo de batalha e ficou quieto em um canto qualquer, próximo de uma lápide. Os lobos tentaram lutar contra Klaus, pois viram que seu Alfa ainda não cedera, mas eles eram fracos demais, ao menos contra um híbrido. Contra O Híbrido. Phoebe fez parte da matança, é claro. Os amantes mataram juntos. Sorriam a cada mordida, a cada investida. Margot apenas olhava. Assustada. Estava com medo pela primeira vez na vida.
Depois do banho de sangue Klaus e Phoebe se viraram juntos para Margot. As bocas escorrendo sangue. Os olhos brilhantes e amarelos, sedentos por mais morte.
- Acho que é sua vez. – disse Klaus.
Margot não disse nada, apenas ergueu a mão direita e murmurou um feitiço. Klaus e Phoebe se ajoelharam de dor, mas levantaram-se em seguida. Juntos eles podiam vencer Margot. Juntos eles tinham força. Era algo jamais presenciado pela feiticeira. Nunca acreditou que híbridos pudessem existir, mas dois deles era demais. E dois com poderes quando juntos? Ela não podia ficar ali. Fez um movimento rápido com as duas mãos e uma sombra surgiu à frente dela. Klaus e Phoebe fizeram menção de correr até ela, mas já era tarde demais. Margot havia fugido.
***
Klaus e Phoebe se entreolharam. As respirações se acalmando. Uma vez que se deram conta de que estavam sozinhos se abraçaram. Se beijaram. E se amaram ali mesmo, no Cemitério.
A noite perfeita teria sido não fosse o pensamento constante na cabeça de Phoebe de que Margot havia fugido. Nada revelou a Klaus a respeito de sua preocupação, e mais tarde, quando o sol nasceu e decidiram sair do Cemitério para descansar em um lugar apropriado, uma cama quem sabe, Phoebe despiu-se diante de Klaus e ele idolatrou a visão do novo corpo de Phoebe. Não que houvesse muita diferença agora que ela era uma híbrida, no entanto, os olhos da garota brilharam como os dele na primeira transformação. Ela o mordeu e ele sorriu. O amor que fizeram fez com que Phoebe esquece, temporariamente, Margot. Trocando não apenas carícias, mas também sangue eram dois imortais felizes, em uma cama de um hotel qualquer. Até quando a felicidade poderia durar era uma questão que não estavam ansiosos para fazer;








Rebels - Parte I


Dave entrou no seu Porshe 911 preto e depois de ligar o carro aumentou o volume do rádio a um nível quase ensurdecedor, em especial, se você não aprecia o estilo de música heavy metal pesado. Pisou na embreagem e colocou a primeira. Saiu do lugar e passou a segunda. Sorrindo maliciosamente já estava na terceira. As ruas de Seattle estavam vazias àquela hora da noite. Mal iluminadas pela Lua Cheia e parcialmente pelas luminárias, mas Dave não prestava atenção em nada. Seu pé no acelerador pressionando cada vez mais forte era tudo o que importava. A bateria da música soava forte. A guitarra gritava enquanto o jovem dançava sob as rodas do carro. Um sinal vermelho. Não havia ninguém a cruzar a rua. Ele não parou. Passou a quarta marcha. Estava correndo demais. Mas era exatamente aquilo que ele queria. Seu cabelo liso mal podia captar a luz, permaneceu tão preto quanto o era naturalmente. Jogado com força para trás pelo vento. Seus olhos azuis fitavam o nada à frente. Ele não via nada a não ser velocidade.  Seu sorriso branco à mostra deixavam transparecer o prazer que sentia em correr. Minutos depois já estava fora dos limites da cidade. Rodeado de árvores que pareciam meros pedaços de madeira presos ao chão diante da velocidade que ele estava. Não poderiam acompanha-lo nem se quisessem. Foi então que passou a quinta marcha. O barulho do motor ainda que inaudível devido à música podia ser sentido. Ele sentia o poder que aquele carro lhe proporcionava. Ele adorava aquela sensação. Não iria parar por nada. Não iria parar tão cedo. Até que ...
Ela surgiu do nada. Simplesmente assim. Embrenhando-se na estrada depois de simplesmente sair do meio dos pinheiros do lado esquerdo da estrada. Tinha nas costas uma bolsa grande, no formato de um violão. Na mão uma bolsa de lado que ia até a cintura. Preta assim como o restante das roupas o que dificultou a visão de Dave. Não que roupas coloridas e brilhantes fariam diferença, uma vez que o garoto parecia um piloto de corrida querendo vencer a todo custo. Mas o estrago não fora pequeno.
A garota ficou bem. Foi esperta o bastante para desviar do Porshe, mas caiu em cima do violão e esse sim sofreu um estrago grande. Partiu-se ao meio. Dave pisou no freio ao mesmo tempo que tentava fazer uma curva. Não deu muito certo. O carro capotou de uma forma que qualquer um o teria condenado na mesma hora. Foram duas viradas dignas de filme de Hollywood e o carro só parou depois de dois metros, bem próximo a uma árvore. A garota depois  de se levantar e limpar as roupas foi correndo em direção a ele. Assustada, tremendo, mas firme na decisão de ajudar o rapaz abaixou-se para olhar dentro do carro que estava virado, de ponta cabeça e Dave lá dentro, todo torto e com algumas manchas de sangue na blusa, um leve corte da cabeça... Mas vivo. Respirando.
A garota conseguiu puxar a porta e removeu o cinto dele. Puxou-o para fora do carro.
- Cara! Como você tá? – perguntou enquanto o ajeitava em seu colo. Ela estava sentada em cima das próprias pernas, de joelhos no chão. Colocou a cabeça de Dave nas coxas e tirou o cabelo do rosto dele. Em nenhum momento ouviu-se a voz dele. Tudo o que ele fez foi gemer, sem abrir os olhos. – Cara! Acorda. Preciso saber se você tá bem.
- Eer – Dave murmurou. – Es-estou bem. Acho que não quebrei nada.
- Ah isso é bom.
- Também acho.
- Não! É bom que não tenha quebrado nada, pois agora eu posso quebrar pra você, seu maluco idiota!
E levantou deixando Dave caído no lugar onde antes estava sentada. A garota estava furiosa. Qualquer um que visse seu estado de espírito naquele momento seria incapaz de dizer que ela estava toda preocupada minutos antes, inclusive, ajudou Dave a sair do carro e até o acolheu no colo.
- Como assim, garota? Você tá louca? – perguntou Dave à medida que se esforçava para levantar e em seguida ajeitar as roupas, agora mais que rasgadas e sujas.
- CARA! Você quase me matou. Pra que correr assim? Não olha por onde passa? E meu violão! MEU VIOLÃO! Ele já era.
- Você toca?
- Não. Toco não. Eu fico furiosa quando um lunático quebra meu violão que eu por acaso estava levando no meio da noite, mas eu não toco, tá?
- Tudo bem. Saquei o sarcasmo.
- Você vai sacar a minha mão na tua cara. – e avançou alguns passou, mas parou antes de chegar próxima o bastante para acertar Dave. Forçou-se a respirar fundo.
- Olha, me desculpa, tá? Vou te levar pra casa e arranjar um novo violão.
- Ah que ótimo! E como vai fazer isso, espertinho? Seu carro virou farofa caso não tenha notado.
- Só torcer para meu celular ter sobrevivido. Vou ligar para meu pai.
- Torce pra ele não te matar também. Tem que ser muito burro pra estragar um Porshe lindo desses. – e caminhou para mais perto do carro. Arregaçou as mangas e colocou o cabelo para trás. Fez um rabo de cavalo. Limpou um pouco de suor na testa e ficou encarando Dave.
Dave não falou nada. Estava admirado com aquela garota toda nervosa e revoltada. Que tocava violão e entendia de carros. Usava roupa preta e maquiagem pesada ao estilo heavy metal. Que o enfrentou. Provavelmente não sabia quem ele era. Ele estava fascinado.
- Pai? Então... Tô com problema. É que bem... – Dave respirou fundo. – Eu bati o carro e tem uma menina... – foi interrompido. – Calma, pai. Ninguém se feriu. Eu só preciso voltar pra casa. Dá pra mandar alguém? – esperou. – A gente tá na estrada, aquela que dá saída da cidade. É, aquela mesmo. Tá bem. Tchau.
Dave olhou para a garota que brincava de chutar um cascalho qualquer. Quando notou que ele parou de falar ao telefone foi em direção a ele.
- E aí, ligou pro papaizinho vir buscar a gente?
- Eeeh, qual é, garota?
- Eu já saquei seu tipo, garoto. E quero meu violão, tá bem? Não é como se você não tivesse dinheiro, então ... Enfim quando ele chega? Já estava atrasada. Agora então.
- Atrasada para que posso saber?
- Pra tocar, oras.
- Então você tem uma banda? – interessou-se Dave. Se ela tocasse bem até que  poderia se juntar aos Rebels of the Night , afinal, seria a única menina da banda e uma menina bonita. Seria fácil chamar a atenção.
- Não. Não tenho banda. Mas pratico, e esse – disse apontando para o relógio preto de pulseira com pinos – é o meu horário de prática.
- Huum, garota dedicada. Eu tenho uma banda, sabe. – disse Dave com olhar baixo para ela.
- Interessante. – disse, sem demonstrar interesse de verdade. Voltou a chutar cascalhos.
- Você não tem a menor ideia de quem eu sou, né?
Ela olhou para ele com seus olhos grandes e verdes. Colocou uma mexa do cabelo ruivo e longo para trás da orelha. Sorriu somente com os lábios, aquele sorriso forçado e disse:
- Além de que você é um lunático filhinho de papai que se acha no direito de quase atropelar as pessoas... Não faço a menor ideia.
- Eu não acho que posso atropelar ninguém. Você só estava no caminho.
- Aham, claro. – disse ela revirando os olhos.
- Tá. Me desculpa.
- Ok.
- É sério. Até quando vai manter essa pose?
- Que pose, garoto?
- Essa de que não tá nem um pouco interessada em como vou fazer com o Porshe ou mesmo de saber se tenho outros carros semelhantes. – disse Dave sorrindo de leve e ajeitando os cabelos lisos e negros. Foi se aproximando devagar da garota, pois sabia que não poderia abusar da sorte, uma vez que quando ele falou do Porshe ela olhou para ele com mais interesse.
- E você tem?
- Chega aqui. – disse Dave abrindo o aplicativo de fotos no celular. Mostrou as várias fotos dos diversos carros que o pai guardava na garagem da Mansão em que viviam em um bairro isolado de Seattle. A cada nova foto a garota sorria e vez por outra fazia um comentário a respeito do modelo do carro. Coisas simples como “acho demais esse Dogde” ou “ esse Nissan, hein “ . Por fim, ela cedeu e passou a tratar Dave com menos brutalidade. Estavam mais próximos um do outro, e ela até removeu, com tapinhas de leve, um resquício de poeira que ficara na jaqueta de couro dele. Estavam se entendendo finalmente, em especial, depois que ele mencionou a banda novamente e como tudo começou. Até então nomes não haviam sido trocados.
- Mas então. Qual seu nome? – perguntou Dave quando se cansaram e resolveram se sentar no limite da estrada e a floresta.
- É Katherine. Mas pode me chamar de Kat. Katherine é muito grande.
- Kat. Ok. Gostei.
E ficaram ali. Apenas esperando. O tempo começou a fechar e ambos temeram a chuva, que não veio, mas deu lugar ao vento frio e gélido.  Dave notou que Katherine se encolheu um pouco mais e nem se deu ao trabalho de perguntar se ela queria sua jaqueta. Foi logo tirando e colocando por cima dela.
- Obrigada.
- Que isso. Te devo muito mais. Lembra? Quase te matei.
- Ah é. Vou cobrar.
Riram. Estavam próximos. Próximos demais. O frio os aproximara. Ela sorriu quando ele contou que fizeram um grande show num bar no último sábado. Colocou uma música para tocar ela adorou o ritmo pesado, a letra apelativa e as batidas fortes. Quando a música cessou eles estavam se encarando. Ele encantado com o sorriso dela que demorou a aparecer,  mas uma vez que ali estava ele notou que era, de fato, maravilhoso. Ela abismada com o olhar cafajeste dele, mas ao mesmo tempo carinhoso. Aquele olhar penetrante que consegue conversar com você. Por trás dos olhos azuis do rebelde sem causa ela viu que havia mais nele. Que sua vontade de transformar o mundo através da música era mais forte que sua vontade de desafia o pai.
Eles estavam a um passo de um beijo. Separados pela respiração um do outro. Pelo vento. Por um telefonema.
- Droga!
- Quem é?
- Minha namorada.



* A imagem é da série Victourious, personagens Jade e Beck. Inicialmente, Dave deveria ser Daniel Sharman, mas não consegui pensar em uma garota tão bad girl quanto ele e que poderia ser representada por outra pessoa. Então, ficou a Liz Gillies *-*

Cicatriz

Eu sou a ferida não curada
a arma branca sacada
o corte (mal)feito
eu sou o risco no espelho

Eu era a glória do defunto
o martírio no quarto escuro
a água suja e sem vida
eu era a causa da ferida

eu era o caminho torto
o corredor da morte
eu era as entranhas do morto
aquele que nunca foi forte

Sou o mar enfurecido na noite
aquele que não vai, mas foi-se
sou a dor do ferimento do infeliz
eu sou a sua, a nossa
a minha eterna cicatriz.




Nobody wins

De repente todas as decisões passadas não fazem sentido.
Todas as ações são socos no estômago.
Todas as atitudes são facadas no peito.
Todos os passos foram em direção ao escuro.

De repente tudo o que você fez está jogado no mais fundo abismo, um breu de solidão faz parte da sua visão. Nada faz sentido, pois você está perdido. Hoje. Amanhã. Bastou uma descoberta e seu mundo caiu. As migalhas que recebeu de si mesmo hoje alimentam sua casca morta. Seus planos foram esmagados pelo futuro, pela vida, pelos próprios planos. Você fez sua cama e apesar de não querer deitar nela é obrigado a fazer isso, no entanto, você não se levanta no dia seguinte. Fica ali. Caído, em uma posição fetal ridícula pedindo aos céus uma solução. 

De repente todas as decisões são socos no rosto.
Todas as atitudes são facadas na barriga.
Todos os passos foram em direção ao grande nada.

As coisas simplesmente não fazem sentido. Você não faz sentido. Não há perspectivas ou razão. Mais vale morrer e aguardar a próxima encarnação. A dor que sente agora não é nada comparada àquela que será obrigado a passar quando seus sonhos forem definitivamente estraçalhados. Dizem que o ser humano é movido por metas, mas o que move o homem é a angústia. Metas não tiram do sofá. Aquela agulha no seu olho, aquela dor singular no peito, a mente prestes a explodir. O estresse de pensar demais e não achar saída. Isso é o que te faz levantar.


E cair em seguida, é claro. Ninguém é tão forte que seja capaz de suportar o tiro da vida na própria cabeça. Em algum momento todos caem. Todos são forçados a ficarem no chão. E é nesse momento que a vida olha pra você e diz: eu venci. 


Nós não vencemos. A vida sempre ganha. Os outros sempre são os outros.
Melhores.


Resultado do Sorteio livro Cidades de Papel

O resultado do sorteio do livro Cidades de Papel do John Green é :


Juliana Malheiros!




Já entrei em contato com ela e ficarei no aguardo, por até dois dias, pela resposta. 

Beijos, galerinha. Até o próximo sorteio!!
Obrigada a todos que participaram e divulgaram o blog!!!

Aquele que foi sem nunca ir

Uma vez conheci um demônio.

***

Sou a folha morta da primavera
Não sou o que fui, e nunca o que era
Sou a desgraça dos fortes com amor
Eu sou aquele que causa dor

A nadificação da vida

O deterioramento do corpo, da casca que envolve a alma. A aproximação da nadificação da vida. O esquecimento do nome dado ao ser. O não para o último suspiro. O que foi e o que é, jamais será de novo.

A essência do ser que veio depois de sua existência está mais perto de se extinguir. Todas as palavras serão deixadas para trás e talvez nem seus escritos sejam capaz de salvar sua memória. O caminhar seco e vagaroso quando chegar na mais triste das idades deixará evidente o que o corpo é diante da vida sem nexo que somos obrigados a viver. Em busca da felicidade caminhamos, mas ela não é uma busca suficiente para nos manter vivos para sempre. Nem com um um estrondo nem com um suspiro, o mundo acaba em desilusão. 

Descobre-se homem quando encontra algo pelo qual vale a pena morrer, já dizia sábio Sartre, mas quando de fato a morte se aproxima descobrimos que mais teria valido a pena viver uma vida plena ao lado daquilo estimado ao contrário de morrer por determinada coisa. Um suspiro e nada mais, nem um sorriso de gratidão. São as lágrimas que preenchem teu caixão.

As mãos decrépitas não tocam mais o piano, não fazem rabiscos ou caligrafias no papel. Papeis manchados de lágrimas e coloridos pelas dores da vida. Os dentes estão amarelos, logo, nunca mais se viu um sorriso naquele rosto enrugado, naquele rosto pintado pelo tempo. Os olhos somem dentro da face marcada pela flacidez, os cílios caíram junto do espírito do ser que agora se encontra no chão.  A magreza antes tanto estimada agora é vista como uma praga, pois faz do envoltório da alma algo horrendo de se olhar. Tanto pelo que cai e tanto desagrado que se faz. 

A nadificação da vida. 

Ônix.

O tempo.

O dia.

É só mais um dia, afinal.


Happy Birthday, Thays!


My Name is Klaus - Parte IV

Você pode ler as partes I AQUI, II AQUI e III  AQUI  !

- Isso não é possível! - disse uma voz feminina que não pertencia a Phoebe. Margot caminhou alguns passos para frente, as mãos tremendo, mas ela se manteve firme. - Saia da frente, lobo. - disse para Norton que estava tão assustado quanto ela. - Preciso ver isso de perto. - Com os olhos arregalados e a mão estendida ela caminhou devagar até Klaus como quando tememos a mordida de um cão, porém, a beleza dele é chamativa demais, logo, nos aproximamos devagar para mostrar que ele não precisa temer nada.

Feliz Aniversário, J.K Rowling e Harry Potter !


É claro que hoje teria post! O texto não será longo, prometo.

É que eu não poderia deixar de parabenizar, primeiramente, essa mulher incrível que é J.K Rowling. Tudo nela é motivo de inspiração pra mim, e eu só tenho a agradecer por ela ter criado o que criou. Harry Potter me salvou diversas formas, e continua fazendo isso hoje, pois sempre que ficou triste eu sei que tenho Hogwarts me esperando. Sempre que estou confusa e com medo do futuro e com receio da carreira - escritor - que tanto quero pra mim não dê certo eu olho para meus livros Harry Potter e penso em tudo o que J.K Rowling passou para chegar onde ela está hoje e me sinto revigorada e inspirada, novamente. Contudo, sempre que estou feliz sei que posso olhar para as fotos dela e para o mundo do Harry e sentir que de alguma forma ele faz parte dessa felicidade, uma vez que durante muito tempo eu só conseguia ser feliz ao lado dos livros e filmes Harry Potter.

Cólera

O miocárdio bate mais forte, pois a cólera percorre o casco que cobre a vida morta desse ser. Esse horror que o faz caminhar todos os dias não é o bastante para faze-lo cair no sono à noite. Cansado ele está, porém, não vê saída desse mundo.

Ele não compreende como conseguiu chegar onde está sendo rodeado de tanto ódio. Ele exala a morte, pois seu corpo tomou banho da cólera sangrenta que o faz sangrar. Seu foco está distorcido, seu âmago está manchado.

Ônix.

My Name is Klaus - Parte III


Você pode ler a Parte I AQUI e a Parte dois AQUI


- E por que eles não deveriam entrar?
- Porque essa porta está totalmente protegida. A pintei com tinta banhada em prata e troquei a maçaneta. Com certeza tiveram ajuda das bruxas. Droga! Vamos, Phoebe. Precisamos sair daqui.
- Mas como? A janela fica há mais dez metros do chão.
- Acho que se esqueceu de com quem está. - disse Klaus, sorrindo.
- Verdade. - ela concordou com um sorriso e se agarrou a ele, uma vez que os braços do vampiro estavam abertos mostrando que ela deveria abraçá-lo.

Antologia Viagens de Papel

Oi, oi gente!
Isso aí. Mais uma obra da Thays foi aceita para publicação. Pela Andross, novamente. A Antologia Viagens de Papel - Contos e Crônicas de Temática Livre!

Minha crônica O Fracasso do Tempo foi aceita e está lá, bonitinha *-*

Essas coisas me motivam demais, além de me deixar muito feliz, é claro. Poder ver meu nome em um livro físico de verdade, ainda que não seja inteiramente meu.

Mas a gente começa de algum lugar, Ainda não tenho uma história de vida como da Rainha J.K Rowling, mas estou caminhando para ser reconhecida como escritora como ela!



Os livros saem por 25,00 cada e podem ser retirados pessoalmente comigo em BH ou enviados por correio!


Sobre a Maldição do Tempo

[http://singularidadedalua.blogspot.com.br/]

E de repente o objeto refletor parece estar distorcido. Quebrado. Manchado.
Espero. Não é o objeto que está estragado.
É o que ele reflete. Como os anos podem ser cruéis. Como o tempo pode machucar um corpo. Uma mente. Um ser.
Que coisa.

Suas pernas se cansam mais rapidamente. Correr para brincar de ''pega pega'' com o amigo não é tão divertido, mas se tivesse que correr de lobo em segundos estaria morto. A fadiga está sempre presente. Em muitas partes desse par de membros que você força e lhe levar para o trabalho todos os dias aos poucos surgem erupções feias que lhe forçam a estar sempre de calça. Os pés estão estranhamente feios, logo, um tênis é usado até que seus dedos apareçam na ponta. Suas mãos  são tortas. Cheias de pelos nos dedos e dedos com unhas mal feitas. Quebradas. Não resistem nem mesmo a uma semana. Mãos amassadas. Pequenas demais. Mutantes demais. A letra cursiva um dia tão bela hoje é semelhante aos escritos dos médicos que visita com tanta frequência.

É tudo flácido e mole. Você poderia ser um brinquedo. Daqueles em que as crianças tanto gostam de pular em cima. No seu rosto decrépito, coberto por produtos diversos, outras manchas, outras pústulas. Os produtos são em vão. Nem o que foi feito especialmente para tornar belo é capaz de lhe consertar.

Suas costas são finas e pequenas. Seu quadril é largo, mas é vasto de modo que as calças mais bonitas ficam estranhas e seu traseiro puxa-as para baixo. Que frustrante! Logo está andando de cabeça baixa, pois teme encontrar um olhar que julga. Um olhar mal olhado. Um olhar risonho. Pois aqueles que olham sabem o que veem. E o que veem não é belo.

Seu pobre cabelo, antes tão belo e cheiroso, hoje decidiu que seu lugar não é sua cabeça. Cada vez que suas mãos pequenas resolvem brincar com ele, grandes e muitos fios se desprendem com facilidade e pairam no chão. Um lugar melhor. O pente por maior que seja puxa muitos fios, que insólitos não resistem à força e logo estão em outro lugar, exceto onde deveriam estar.

Entre seus seios e seu quadril há uma protuberância, grande demais e torta demais, que sai para os lados quando encontra uma calça que não cede à força do seu traseiro amolecido, logo, busca no guarda-roupa uma camiseta larga que cubra tal deficiência do corpo. Sorri para si diante do objeto refletor, mas logo fecha a boca, pois os dentes estão torcidos e amarelados. Que coisa! Tenta sorrir com os olhos,  mas eles são tão grandes quanto os de um lêmure que o sorriso do olhar chega a ser assustador, portanto, tenta ( em vão ) os diminuir e percebendo a inutilidade de tal ação força-se a sair do quarto com os olhos amaldiçoados.

Em cada parte do seu tecido maior há uma mancha estranha. Onde foi que bateu aqui? Oras, o que te feriu ali? E esse machucado aqui? Parece antigo, não deveria ter curado?

Sim, acredito que tudo deveria ter curado.


Ah, vinte anos!