O Coveiro - Parte II

Você pode ler a parte I clicando AQUI 

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O que? Não faz sentido. Não pode ser. É sério?
Destiny estava mais que confusa. Estava assustada. Lucius, o coveiro não podia ser o seu antigo amor. Não havia explicação científica para tal feito. Ele ... ele não podia simplesmente se transformar em outra pessoa de uma hora para outra. Ela correu de volta para casa. Sim, correu. Não caminhou, não andou mais depressa se desviando das pessoas. Destiny correu como fazia no ensino médio. Tirou as chaves da bolsa e tremendo tentou abrir a porta. Não funcionava. Nenhuma chave queria abrir. Droga! Murmurou antes de finalmente acertar a chave.
Entrou. Trancou. Encostou-se na porta. Escorregou até o chão recém encerado e ali ficou por cerca de dez minutos. As mãos impedindo os cabelos de caírem nos olhos, os braços apoiados nos joelhos encurvados. As lágrimas pingando no piso brilhante.
Por alguns minutos Destiny chegou a cogitar a possibilidade de ser apenas coisa da sua cabeça. Afinal, ela ficara horas conversando com Lucius, o coveiro e não apenas com Lucius seu antigo namorado. Aliás, depois da primeira meia hora, ela parou de se dirigir à lápide e vez por outra encontrava os olhos brilhantes e serenos do jovem coveiro, há apenas alguns centímetros de distância de onde ela se encontrava. Era normal ver coisas depois disso, certo? Murmurou a si mesma depois de limpar o rosto, colocar o cabelo para trás e prendê-lo com um lacinho que encontrara no bolso. Forçou um sorriso e forçou o corpo a levantar. Um banho. Quente e demorado. Era tudo o que precisaria para colocar as ideias no lugar.
Cerca de meia hora na banheira, com um bom e velho rock clássico no celular e uma garrafa de vinho do lado, Destiny sentiu-se mais revigorada e ainda mais, sentiu que poderia sair dali, trocar de roupa e dormir em paz. Depois de secar o corpo, escolher uma camisola de seda, passar seu creme favorito - algo que não fazia há um certo tempo - , borrifar um perfume no pescoço e nos braços, outra coisa que não fazia, isto é, com aquele perfume. Um perfume que só era encontrado em Paris e que Lucius lhe dera de presente dias antes de partir para a missão que resultaria em sua morte prematura.
Toda vez que exalava aquele perfume, a imagem bela de Lucius sorrindo, tentando esconder as lágrimas, surgia em sua cabeça e ela desabava em um choro incontrolável. No entanto, naquele dia e naquele momento ela sentiu uma vontade súbita de cheirá-lo novamente, e uma vez que borrifou o líquido na pele sedosa não foi Lucius seu ex que lhe veio à mente, e sim Lucius, o coveiro. Minutos antes de dizer adeus. Por alguns segundos Destiny assustou-se, mas o sorriso do rapaz pairava em sua mente e logo Destiny também sorria. Estranho.
Destiny estaria dormindo bem pela primeira vez em muito tempo não fosse o som ensurdecedor da campainha de sua casa. Ding, dong, ding, dong, ding, dong. Interruptamente. Depois de despertar, às três e meia da madrugada, Destiny se levantou e através do olho mágico viu que uma senhora, com roupas esfarrapadas e sujas, com o auxílio de uma bengala velha e carcomida, estava à espera. Com muita dificuldade ela apertava o botão da campainha. Finalmente, Destiny abriu a porta.
- Olá.
- Ah, olá, Destiny. Desculpe-me acordar você, mas aconteceu que fui chamada e não poderia esperar.
- Desculpa, mas como sabe meu nome? E como assim foi chamada?
- Se eu puder entrar poderei explicar tudo. Eu andei até aqui nos últimos três dias e minhas pernas já não são tão jovens como as suas.
- Olha, sinto muito que tenha andando tanto, mas não acha melhor ir para o hospital? Eles podem cuidar da senhora.
- Não preciso de hospital, minha filha. Preciso conversar com você a respeito de algo que muito lhe interessa.
- Jura?
- Vi que conheceu o jovem Lucius.
- Como... como sabe disso?
- Eu sei de muita coisa, minha querida. Agora, acha que poderia dar um copo de água a essa velha aqui?
Receosa, Destiny permitiu a entrada da idosa. Ajudou-a nos degraus frente à casa e mostrou-lhe onde se sentar. Depois, com o copo na mão voltou para a sala e sentou-se no sofá à frente de onde a idosa estava. A mulher bebeu a água como alguém que ficara no deserto por dias. Depois colocou em cima da mesa, ajeitou um pouco as roupas e disse:
- Então, como eu disse. Conheceu Lucius.
- Sim, e como a senhora sabe?
- Eu sei de muitas coisas. Como eu disse. E venho observado você há muito tempo, jovem Destiny.
- Há muito tempo quanto?
- Desde que seu amor faleceu.
- E posso saber por qual motivo?
- Pelo simples motivo de que é isso que faço. Sempre que há uma morte significativa para minha já idosa pessoa há setenta por cento de chance de eu ficar sabendo e logo moldo minhas ações e escolhas em direção a essa morte bem como as pessoas relacionadas a ela, e quando vi o seu estado, minha pequena, achei que não poderia lhe ajudar nunca.
- Me ajudar? Como você ou qualquer pessoa poderia me ajudar? Lucius se foi e não ... pretende voltar. - disse, baixando o olhar e segurando as lágrimas nos olhos. Brincava com os dedos nas mãos até então, pois no segundo que disse as palavras 'se foi', fechou com raiva o punho e socou a própria perna... Como se sentisse raiva de si mesma por permitir que o antigo amor partisse sem ela.
- E se eu te dissesse que agora, mais que nunca, há uma chance de ele voltar? - disse a idosa, exibindo um sorriso amarelado, mas feliz e confiante. Segurando-se na bengala velha ajeitou-se melhor no sofá menor da casa de Destiny e em seguida olhou nos olhos da moça que os arregalou no minuto seguinte ao termino da fala da mulher.
- O quê? Co-mo assim? Ele ... ele, morreu, minha senhora e pode ser que esteja um pouco atrasada, mas a ciência ainda não evoluiu para a categoria ressurreição. - disse Destiny começando a ficar furiosa, pois abriu a porta para a idosa achando que ela precisava de algo, mas concluiu que era uma maluca querendo brincar com seus sentimentos.
- E por acaso eu mencionei ciência, Destiny?
***

O coração de Destiny disparou diante da loucura que estava ouvindo.
- Magia ? Magia, minha senhora? É isso mesmo que estou ouvindo ? A senhora bate em minha casa às três e meia da madrugada para vir com esse papo de maluco?
- Papo de maluco é quem diz que magia não existe, minha cara! Pois digo a você: sou uma bruxa! E das boas, hein, apesar de minha idade já fiz grandiosas coisas nessa vida e estou aqui para lhe oferecer uma saída dessa sua vida de solidão e angústia!
- Saída é o que  vou oferecer a senhora. Vem, a saída para rua é por aqui. - disse Destiny se levantando e mostrando a saída para a senhora, que nem fez menção de se levantar apenas ergueu o braço coberto de cicatrizes, agora expostas visto que o manto que o cobria caiu para o lado com a ação. A mão enrugada dela estava aberta e posicionada em cima da mesa que estava cheia de papeis. A mulher murmurou algumas palavras em latim que Destiny não conseguiu ouvir e segundos depois os papeis estavam se movendo, sozinhos, e formaram um grande coração branco.
- Mas...
- Pois eu disse a verdade. Gostaria de mais uma demonstração?
- Isso não faz o menor sentido! - disse Destiny depois de finalmente conseguir articular algumas palavras. Encaminhou-se de voltar para o sofá, dessa vez ficou mais perto da senhora.
- Não é pra fazer sentido e sim pra fazer funcionar. Vem, sente-se aqui e lhe explicarei algumas coisas, sim? - disse a idosa batendo no local onde Destiny deveria se sentar, o que fez a moça mover-se alguns centímetros a mais. - Primeiro preciso saber se você gostaria de ter seu amado Lucius de volta.
- Mas que pergunta boba, minha senhora. - disse Destiny rindo ironicamente. - É claro que gostaria. Seria a melhor coisa do Universo pra mim.
- E você estaria disposta a fazer um grande sacrifício para tê-lo a seu lado ?
- Que tipo de sacrífico? Eu faço qualquer coisa, não importa.
- Tudo bem. - e se levantou. Dirigiu-se para a porta.
- Ei, ei, ei. Onde a senhora vai?
- Vou embora, oras.
- Como assim, vai embora? Está doida? A senhora não pode fazer essas magias de doido e falar essas coisas de maluco e ir embora.
- Claro que posso.
- Claro que não.
- Claro que posso e vou. Volto amanhã. Preciso providenciar algumas coisas.
- Que coisas? Só me diz o que fazer para trazer Lucius de volta, minha senhora.
- Meu nome é Faye.
- Faye. Me diz, por favor.
- Eu direi, minha criança. - disse Faye, acariciando os cabelos de Destiny.- Mas agora preciso ir. Se quer ter seu amor de voltar terá de esperar meu retorno. Adeus, Destiny. Se cuida.- e saiu pela porta que entrara. Segundos depois havia desaparecido em meio à escuridão da madrugada que se preparava para receber a luz do sol.
Enquanto isso, Destiny se esforçava para dormir. Antes, eram os pensamentos de Lucius, o coveiro que a impediam de repousar, agora a possibilidade de rever seu amor a deixam eufórica e ansiosa. Tudo o que queria saber era quando Faye voltaria e o que ela precisaria fazer para trazer seu amor de volta. Do mundo dos Mortos. Não importa. Eu farei. Faço qualquer coisa por ele.
No dia seguinte, Faye voltou à casa de Destiny no mesmo horário. Não que tivesse dormido, mas Destiny levantou-se sonolenta para abrir a porta. No trabalho, mal conseguira se concentrar e pediu ao chefe que a deixasse ir para casa mais cedo, alegando que estava com um mal-estar.
- Oi, Faye.
- Olá, Destiny. Como passou?
- Péssima e boa. Vem, gostaria de beber alguma coisa?
- Não, minha querida. Vamos depressa, sim?
- Claro.
-Então. Preciso saber de uma coisa.
- Qualquer coisa.
- Você tem algum sentimento por Lucius, o coveiro?
- Sentimento? Que tipo de sentimento, Faye  Está mais doida que ontem, é?Eu só amo uma pessoa. Um Lucius. - disse Destiny, sem encarar Faye. Afastou-se dela um pouco.
- Entendo. Tudo bem. Era exatamente o que eu precisava ouvir.
- Ótimo. Me diga então o que fazer para trazê-lo de volta, Faye. Por favor. - exclamou Destiny e tocando o braço de Faye.
- Ora, na verdade não é preciso muito de minha parte, quem fará tudo praticamente é você. Eu apenas farei a intermediação entre o nosso mundo e o mundo em que Lucius está repousando. Há muito esperando por você.
-Esperando por mim? Como isso é possível?
- Acho que ele poderá responder com maior precisão.
- E como ele fará isso?
- Você só precisará fazer uma coisa para mim, antes da próxima Lua Cheia. E então terá seu Lucius de volta. - disse, sorrindo com os lábios e baixando o olhar para enxergar melhor Destiny que deixara de olhar para ela e passara a encarar as próprias mão.
- Me diz o que fazer, Faye! - disse Destiny agora, com os olhos arregalados e cheios de lágrimas.

- Simples: Terá de matar Lucius, o coveiro.
Isso aí, povo! Desculpa a demora milenar em entregar essa parte! Espero que tenham gostado e sintam-se motivados a ler a parte final que tentarei entregar semana que vem! Beijos e até mais.


Lupus- Parte I


O céu estava coberto de uma camada de azul tão escuro que preto seria uma denominação melhor. Não havia estrela alguma. A lua, cheia da luz do Sol era o que ele precisava para que seu caminho até a velha casa fosse iluminado. É claro que se ele assumisse sua verdadeira forma luz alguma seria necessária, no entanto, ele não queria chamar a atenção.
Não havia ninguém na rua. Claro, às duas da madrugada a maioria das pessoas está dormindo, porém, ele sabia que ela o estaria esperando. Como havia feito nos últimos dias desde o momento em que ele a abordou na estação de metrô naquela manhã sombria, fria, todavia, muito surpreendente.
***
— Engraçado é que eu pego esse mesmo metrô há anos e nunca vi você aqui. Acho que a senhorita me deve uma explicação. — disse ele aproximando-se e com um sorriso desdenhoso olhou fixo nos grandes olhos verdes dela.
— É que eu me mudei para cidade há uma semana. — disse, envergonhada e um pouco ameaça pela beleza dele, ela notou. Trocava os pés de lugar como que para disfarçar as batidas aceleradas de seu pequeno coração. Ela não entendeu o que acontecia dentro de seu peito, sabia apenas que estava com um leve receio da aproximação do rapaz.
— Essa é uma ótima explicação. E mudou-se para estudar?
— Sim. Faço Psicologia.
— Em qual faculdade?
— Harvard.
Hum, garota inteligente. — disse ele, sorrindo. Não parava de sorrir.
— Obrigada. — disse , um pouco constrangida. —  E você... Faz o que?
— Eu trabalho. Formei-me ano passado. Supostamente deveria ser advogado, mas não quis seguir carreira.
— E por qual motivo?
— Ainda estou tentando descobrir. — disse. — E para onde a moça vai?
— Agora volto para casa. E o senhor?
— Casa. O seu metrô é qual?
— Éeer... Esse . — disse, rindo ao apontar para o metrô que aproximava.
— Posso saber o nome da senhorita?
— É ... Pode. Claro. É Nina. — colocou uma mecha do cabelo loiro atrás da orelha. Não conseguia o encarar, estava envergonhada, mas não sabia com que.
— Muito prazer, Nina. Sou o Henry.
— A gente se vê então, Henry. Até mais. — Nina entrou no metrô e olhou de esguelha para Henry que a observava, agora sério.
— Até mais. — ele disse, com as mãos no bolso da calça jeans rasgada em algumas partes. A corrente do lado direito tilintou com o vento depois que o metrô deu a partida. No bolso esquerdo da calça seu celular vibrou, mas ele não se importou em atender, pois estava ocupado demais olhando Nina entrar no metrô e depois partir. Ele sorria demais agora, com aqueles sorrisos bobos de quem se apaixona, mas ele não estava apaixonado. Caras como Henry não se apaixonavam nunca. Passou a mão no cabelo preto escuro, sedoso e liso que caía de leve atrás da orelha gravada com uma tatuagem pequenina de dragão na parte trás e um brinco prata no lóbulo. Seus olhos cinzentos pairaram naquele que o esperava há alguns metros da estação de trem.

—  O que você quer, Charlie? — perguntou Henry já com a expressão fechada, estava com raiva de encontrar Charlie ali, naquela hora... minutos antes de Nina ir embora. Ele podia tê-la visto. Sentido seu cheiro.
— Calminha aí, Henry. Só estou cumprindo ordens. O Alfa está chamando você. Agora. Ele mandou perguntar se você sabe qual é a função de um celular.
— Charlie. Escuta bem o que vou te falar, está bem?  — disse indo em direção a Charlie que percebeu que o colega estava com raiva.
— Manda, parceiro. — disse o cara magrelo, loiro com uma cicatriz na bochecha esquerda. Suas mãos grandes estava em seus bolsos de uma calça suja de barro. O barro estava seco.
— Eu sou meu Alfa, ok? Agora vê se volta pro seu dono e me deixa em paz ou eu faço você voltar... Mas quero ver como fará isso sem suas pernas. — Henry estava irritado. Era possível ver a ira emanar de seus olhos e seus punhos fechando-se. Mas ele manteve a calma. Não podia causar uma cena ali... Não com tantas pessoas. O que ele queria no momento era ir atrás de Nina. Era estranha a sensação que teve quando ela estava ao seu lado, no entanto, ele não podia evitar. Estava obcecado. Precisava saber mais sobre ela. E Charlie só estava atrasando seu progresso de busca.
— Tudo bem, Henry. Vou falar isso pro chefe. Quem sabe ele manda o pessoal da Trilha pra dar uma lição em você.
No momento em que Charlie fechou a boca para finalizar a última palavra a mão esquerda de Henry parou em seu pescoço recentemente marcado por ferro e o empurrou forte contra a parede. Henry apontou o dedo para a face de Charlie e sentiu a respiração ofegante temerosa do homem.
— Charlie. Último aviso. Sai da minha cola. Você não me quer como inimigo, ok?
—Calma, amigo. Calma! — disse Charlie dando batidinhas de leve na mão de Henry que aos poucos afrouxava o aperto no seu pescoço. — Eu vou tentar falar com o chefe pra ele sair do seu pé, tá? Mas a culpa não é minha se você costumava ser um dos melhores dele, oras. Devia ter pensado nisso antes de sair da Matilha Grande. Afinal, o que você quer, hein? Faz uma semana que você vem pra essa mesma estação e você e eu sabemos que você não precisa de merda de metrô nenhum.
— Charlie. Se manda daqui! O que eu faço é problema meu, tá! Tchau. — em seguida Henry se virou para a direção leste e caminhou graciosamente. O vento fez sua jaqueta jeans abrir-se de leve e por baixo sua camiseta regata preta delineava seu corpo. Algumas meninas olharam, tentaram disfarçar, mas ele percebeu o batimento acelerado delas e mais tarde pode ouvir os comentários baixinhos. Coisas como: ele é tão bonito. Quem será que é? Será que eu tenho chance?
Ele sorriu. E antes de subir as escadas olhou para trás. Olhou paras meninas, mas estranhamente não teve vontade de flertar com elas. Algo tão comum há tanto tempo em sua vida. Ele sorriu para elas de modo que elas soubessem que ele sabia... Mas continuou seu caminho. Precisava encontrar Nina.
***

Durante as semanas seguintes Henry fazia questão de chegar mais cedo à estação de modo a dar entender que ele estava, de fato, esperando um metrô que chegaria depois do de Nina. Todos os dias os dois conversavam. Ela sabia que não deveria dividir sua vida com um estranho que conhecera há poucos dias, porém, Henry passava uma confiança sobrenatural, e em poucos segundos ela estava rindo e conversando como se o conhecesse há anos. Em menos de duas semanas os dois se consideravam grandes amigos, tão amigos que ele lhe ofereceu o ombro quando Nina lembrou do trágico fim que teve seu último relacionamento. Ela não chorava pelo rapaz, mas sim pelo fato de ter chorado tantas vezes por ele, e o rapaz agora ... sabia-se lá onde estava, mas sabia que estava com outra. Vez por outra Henry se zangava, interiormente, mas sim, ficava furioso sempre que Nina lhe contava a respeito do ex. Henry sentia ciúme de tempos passados e de situações que ele não viveu. Estranho.
Mas ele se controlava, pois jamais poderia perder a cabeça perto de Nina. Ela poderia fugir e nunca mais falar com ele. Mas até quando ele conseguiria manter em segredo sua real identidade e forma? Há anos que suas emoções e sentimentos não eram bagunçados dessa forma. Aliás, Henry não conseguia se lembrar de uma única vez na vida em que sentira tal sensação diante de uma mulher.
Nina era bonita, de fato. Seu cabelo loiro e liso caía nas costas e seus olhos grandes e verdes brilhavam quando ela falava de animais e de como tinha vontade de ajudar as pessoas depois que se formasse. Seu corpo era esculpido e ela já havia dito que não abria mão da academia por nada. Como não se apaixonar por uma garota assim, em especial depois de algumas horas de conversa e chegar à conclusão de que ela era bela não apenas por fora, mas por dentro? E era tão doce e amável que Henry estava confuso. Como uma garota tão diferente poderia querer conversar tanto com ele? Claro que ele não estava duvidando de suas capacidades, afinal, se ele colocava na cabeça que queria uma garota ele ia até conseguir... E  quase sempre conseguia. Porém, a maioria das garotas já haveria de ter cedido a seus encantos nos primeiros dias.
Mas Nina não. Há dias e mais dias que ambos apenas conversavam, riam e uma vez ou outra tomavam um café na padaria próxima à estação, e uma ou duas vezes no mês dividiam uma bebida em um bar da esquina da rua de Henry. E a cada dia ele sentia que algo estranho acontecia com seu corpo e mente. Ele sentia que não mais podia ficar longe de Nina e passou a acompanha-la no caminho de casa. Dividam os quarenta minutos de viagem de metrô até a parada dela até que um dia ... Ela o chamou para entrar.
— Você não quer entrar?
— Não sei. Acho que está tarde, não? — o sol se punha no horizonte ele notou, mas queria ficar.
— Não muito. Você quem sabe. — disse ela, sorrindo de leve com os lábios apenas.
— Está bem. Acho que... Para quem se atrasou meia hora, alguns minutos a mais não farão diferença, certo?
— Acredito que não. Vem. — e fez o gesto com a mão direita para que ele a seguisse depois de passar pelo pequeno portão de ferro.
Nina destrancou a porta da frente e entrou, logo atrás seguiu Henry que parou para observar a sala. Uma mesa de centro pequena com uma toalha bordada em cima e do lado um porta retrato do primeiro gatinho que Nina teve. Ele sabia, pois ela lhe contara que ele era bem pequeno e todo branco, sem nenhuma mancha, com os olhos verdinhos e gostava de dormir deitado de barriga para cima. Fora morto por um cão enraivecido quando ele completara três anos. Nina nunca o esquecera. Os sofás estavam cobertos por um lençol delicado e havia algumas almofadas combinando. A televisão de tela plana era embutida na parede e em baixo dela havia uma lareira recentemente apagada.
— Onde está o Bible? — perguntou, Henry. Quando aceitou o convite para entrar havia se esquecido de completamente de Bible, o pastor alemão de Nina. E encontra-lo ali, naquele momento, quando sua pulsação estava tão elevada por estar tão próximo de Nina em um ambiente tão reservado como aquele não seria uma boa ideia. Cães. Gostaria de poder ficar perto da maioria deles sempre que quisesse, mas quase sempre ele dependia de seu corpo estar ou não propenso à presença de tais animais... Algo que ele ainda estava aprendendo a controlar.
— Eu o levei para um check up, digamos assim. Ele passou o dia no veterinário hoje e vai dormir lá para o monitorarem porque ele estava com alguns problemas. Esqueci de mencionar isso hoje mais cedo. — disse Nina em um tom um tanto melancólico.
— Mas está tudo bem com ele, certo?
— Assim espero, Henry. Venha, vou fazer um café pra gente. – disse ela escondendo o olhar levemente tristonho.
—Hum, parece que finalmente irei provar seu famoso café.
— E depois não irá querer nenhum outro mais! — disse Nina rindo.
— Acredito em você. — concordou, sorrindo.
Nina mal percebeu que pegara na mão dele e o conduzira através da sala, passando pelo corredor. Henry não soltou a mão dela, é claro. Estava ansioso por aquele toque desde o dia em pusera os olhos nela.
— Pode se sentar se quiser. – disse Nina mostrando as cadeiras brancas que estavam sob a mesa.
— Ok.
Henry puxou uma cadeira e sentou-se enquanto Nina preparava o café. Colocou o pó no coador e esperou a água ferver enquanto conversavam. Mas depois de alguns minutos de conversa sobre Bible eles ficaram em silêncio. Apenas encarando um ao outro. Os grandes olhos verdes dela pairavam nos cinzentos e pequeninos olhos de Henry. Eles estavam muito próximos um do outro tão próximos que Henry não resistiu e devagar puxou o queixo de Nina para sua boca e a beijou. Simples assim. Nina não hesitou. Devolveu o beijo como nunca havia feito. Com paixão e amor ao mesmo tempo.
Mas foram despertados pela água que chegara ao ponto de fervura e com um salto rápido Nina moveu-se em direção ao fogão. Estava constrangida. Mas não teve tempo de pensar nisso, pois no segundo seguinte Henry estava a pressionando contra o balcão. Os braços dele ao redor da cintura dela, mas sem encostar em Nina, ele estava a prendendo no móvel, logo seus braços estavam ao redor apenas, as mãos dela segurando-se no balcão antes que ela se permitisse sentir a atração ao invés do medo e as pousasse na cintura dele. Seus olhos caíram no sorriso um tanto cretino de Henry e ela temeu a intenção dele, no entanto, ele nada fez. Apenas a beijou novamente. Com doçura. Com amor. Com graça. Não era assim que ele abordava as mulheres que queria.
Nina enquanto se beijavam. Ela sentiu que ele queria mais que aquilo, mas aquela não era hora. Ela não poderia. Então fez menção de parar o ato e ele aceitou, sem se zangar ou coisa do tipo.
— Está tudo bem? — ele perguntou.
— Sim, é só que ... Bom.
— Tá tudo bem. — ele a interrompeu, e sorriu para mostrar a ela que compreendia exatamente o que acontecia.
— É que bom ... você sabe.
— Eu sei e por mim tudo bem, ok? Mas tem um problema...
— Qual? — Nina perguntou assustada. Temeu que ele fosse deixa-la. Não, fica. Por favor.
— Teremos de ferver a água de novo.
— Ah sim. É verdade. — ela esquivou-se dele e ligou novamente o fogão.
A campainha tocou em seguida. Henry sentiu um cheiro diferente. Não era o Alfa tão pouco Charlie. Era cheio de cachorro mesmo. Era... Bible. Mas o que ele está fazendo aqui agora? Droga!
— Vou ver quem é.
— Está bem. — disse, temeroso, pois sabia exatamente quem era. Mas não poderia sair sem mais nem menos e agora Nina iria querer que ele conhecesse o cão.
Alguns minutos depois Nina entra com Bible ao seu lado. Preso na coleira. Uma vez que o cão colocou os olhos em Henry, rosnou. Bravamente. Feroz. Latiu. Avançou. Nina o segurou, mas a moça não tinha forças suficientes e logo o cão se soltou. Henry não moveu um músculo sequer e quando Bible estava para lhe  morder o braço esquerdo ele fixou os olhos nos olhos castanhos do animal. Um olhar furtivo, penetrante e como se pudesse falar com ele telepaticamente o cão sentou-se na frente de Henry e ali ficou. Imóvel até que Henry se moveu.

Nina assustada, pegou novamente na coleira de Bible e o levou para fora. Mas Henry estava alterado. Há tempos que não tinha problemas com cães e toda a excitação anterior mais os fatores Nina, Bible e Henry escondendo sua forma não o permitiram esconder-se mais dentro do próprio corpo. Ele correu para o banheiro.
Fechou a porta. Trancou. Estava começando. Não, não, não! Não agora!Vamos! Controle-se! Vamos!
Mas controle algum surgiria. Rapidamente removeu as roupas. Nu, curvou-se no chão e sentiu seus ossos sendo quebrados. Os pelos de seu corpo humano sendo transformados numa grande pelugem branca acinzentada. Seu nariz logo seria um focinho molhado e seus caninos logo seriam grandes e bem mais fortes. Fortes o suficiente para rasgar a pele e quebrar os ossos de qualquer um. As suas mãos pisariam com mais força, pois o peso de um lobo de mais de um metro e meio de altura estaria sob elas. Mas antes disso tudo, muita dor seria necessária.
A natureza não dá presentes sem pedir algo em troca, logo, ele haveria de transformar-se. Fazer real a antiga lenda do homem que vira lobo. Ele haveria de trazer à tona os poderes da Lua Maior e haveria de urrar a sua agonia para todos os deuses ouvirem. Todos os deuses e Nina.
— Henry? — bateu na porta. — Henry, você está bem? — bateu novamente. — Henry, o Bible deve ter estranhado, mas depois ele pareceu gostar de você. Foi estranho, mas não se preocupe, o veterinário o trouxe aqui, pois ele está bem. Era só uma infecção e não há necessidade de deixa-lo lá.
Henry ia responder, mas nesse exato momento sua transformação estava finalizada. Um lobo de dois metros, branco meio cinza estava atrás da porta, e Nina do outro lado. Ele estava com muita raiva, pois não queria que as coisas saíssem daquela forma. Arranhou a porta. Ele estava com tanta raiva que não conseguiu e.. latiu. Forte. E uivou. Alto.
Nina assustou-se tanto que se afastou da porta.
—Henry?
Henry percebeu o tom de voz dela e uivou baixinho, como se para mostrar que a entendesse. Tentou se acalmar para poder voltar à forma humana. Não fazia efeito seu esforço.
Dez minutos depois sentiu que tinha forças para forçar a transformação de volta. Mais dor. Mas devia uma explicação à Nina.
Alguns minutos depois ele estava lá. Estirado no chão. Nu. As roupas do lado, mas ele não tinha forças para pegá-las. O único movimento que fez foi destrancar a porta. Nunca havia forçado uma transformação assim, indo de lobo a humano e de humano a lobo tão rápido. Exigiu muito dele.
Nina abriu a porta e o encontrou de bruços. Suando, com a respiração ofegante.
— Henry... Você é... não pode ser. Isso... não faz sentido. Você... está bem? Eu ouvi latidos e um uivo forte e ... — ela estava tremendo, mas acalmou-se quando viu a expressão de medo nos olhos de Henry.
— Nina, me ...Desculpe.
— Você é um ... — disse, aproximando—se dele. Não estava mais assustada. O alívio de vê-lo bem foi maior que qualquer medo.
— Isso. Pode dizer. Eu sei que você sabe — disse Henry sentando-se e colocando a jaqueta de couro para cobrir-se, olhando fixamente nos olhos arregalados dela, mas ele sentia a respiração de Nina e podia dizer que ela não estava apavorada, em especial depois que ela limpou o suor da testa dele com a toalha e colocou o cabelo dele para trás.

— Lobisomem.


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[Imagem do Google ]
Você pode ler a parte II AQUI

Tcharãaam! Essa é a primeira parte, galerinha e já vou avisar que as partes seguintes serão um tanto diferentes, pois terá um foco na vida do Henry antes da Nina, mas é clarooooo que não deixarei de falar dos dois juntos, né !

Espero que tenham gostado, beijos e até mais!


O Pessoal da Escola - Parte III

Você pode ler as partes I e II AQUI   e AQUI


Durante alguns minutos a escuridão era tudo o que eu conhecia. Eu estava encolhida em um canto qualquer, e não soube dizer onde ao certo, pois como disse eu nada enxergava.
De repente, um brilho surgiu da janela ao lado da cama.

Eterna Prisão

A tristeza é algo inerente ao meu simplório ser.

Deveras minha pessoa já deveria estar a par deste angustioso fato. Pois o fato é: não importa a passagem do tempo, tão pouco a mudança no final do numeral maior do ano. Sempre posso esperar um sorriso forçado e uma  mente perturbada na hora de dormir.

São tantos os motivos, mas aos mesmo tempo são tão poucos. Digo, os motivos são variados, mas as razões dos mesmos são ínfimas ... o que é suficiente para causar-me uma grande confusão na mente cansada. Se os motivos não são tão justificáveis por que insisto em martirizar-me dessa forma vez por outra ?

Não basta o outro sorrir-me, querer-me, olhar-me. O meu reflexo todos os dias deveria mostrar um semblante cuja felicidade fosse verdadeira, no entanto, o pedaço de vidro com a capacidade de reflexão mostra-me um ser deplorável, desprovido da competência de buscar um motivo real para a satisfação completa do ser. O fato de o ser humano ser um ser faltante, logo e portanto, vive em busca de seus motivos, sempre os renovando não basta para deixar-me satisfeita ou mesmo para consolar-me nas horas sombrias de meu fracasso.

A compreensão de tais sentimentos que pairam dentro de mim é outra meta de minha vida tão próxima do fim. Tantas palavras foram colocadas para dentro da cabeça, mas nenhuma foi suficiente para fazer-me crer que minha pessoa tem uma razão verdadeira nesse mundo insano e cruel. Com tantos outros fazendo melhor e sendo diferentes de uma forma soberana, pergunto-me qual a desculpa para tanto esforço de uma única pessoa que logo, na iminência da efemeridade de si mesma, será esquecida.

Entendes o ponto que quero fazer-te enxergar ? São pequenas coisas que me tiram o sono sempre e sempre, no entanto, o nunca - oposto desta palavra amarga e eterna -, é a resposta para as ações de tais 'coisas' . Elas nunca têm solução, pois se tivessem eu já teria resolvido esse dilema e teria poupado-me de tanto sofrimento de tempos em tempos. Cada passo que dou ao invés de aproximar meu ser da plenitude dele mesmo, afastam-me daquilo que um dia pensei que seria. Desejei ser. Almejei conquistar. E não é questão de pensamento ou força de vontade. É a simples luta de uma força maior que insiste em empurrar-me contra a parede sempre que essas sensações desejam fazer parte da minha rotina. Não entendo.

As palavras datilografadas em um objeto eletrônico ou naquele caderno mágico sem pautas embutido de uma caneta azul parecem ser a única salvação. O escritor salva a si mesmo toda vez que decide louvar o mundo com sua capacidade de escrita. Mas agora pergunto-me, leitor, que tipo de escritor sou eu se as palavras que passeiam pelos meus dedos nada falam além de dor ?

Pode um poeta amar e mesmo assim nunca falar de amor ?