O Pessoal da Escola - Parte III

Você pode ler as partes I e II AQUI   e AQUI


Durante alguns minutos a escuridão era tudo o que eu conhecia. Eu estava encolhida em um canto qualquer, e não soube dizer onde ao certo, pois como disse eu nada enxergava.
De repente, um brilho surgiu da janela ao lado da cama.


E eu encarava a mim mesma de diversos ângulos. Não, não eram espelhos. Eram fotos minhas. Centenas, milhares delas. Por todo o quarto de Rick. Levantei-me sem saber para onde me dirigir,pois imaginei que a porta estaria trancada. Eu estava com medo do que pudesse acontecer, mas ao mesmo tempo queria saber o motivo de tudo aquilo. Rick era obcecado por mim  ? É sério isso ? E se ele era obcecado por que nunca disse nada e por que só agora decidiu me prender no seu quarto ? E sei lá, pode ser obcecado, mas não precisa me fazer de prisioneira.

Eu nada compreendia. Caminhei pelo quarto dele, e apesar de ele fumar o quarto não cheirava a cigarro. Tinha o cheiro do perfume dele. Tinha cheiro de Rick.

Sentei-me na cama e tentei me acalmar para pensar direito e figurar uma saída dali. Ele havia me empurrado pra dentro do quarto e desde então não voltou. Ou fora buscar o que quer que fosse usar para me matar ou poderia estar arrependido e poderia estar  pensando em uma forma de falar comigo. No entanto, por mais que eu gostasse dele ou achava que gostava nada do que ele dissesse ou fizesse seria capaz de mudar o que acabou de fazer ou têm feito sabe-se lá há quanto tempo. Eram fotos demais, algumas delas de meses atrás se bem me lembro. E outras tantas que eu não conseguia imaginar como ele conseguiu tirar. Era praticamente impossível. O ângulo de muitas delas indicavam que ele estava escondido... muito próximo de minha casa.

Acendi a luz para enxergar melhor já que a luz da janela pouco iluminava o restante do enorme quarto. Havia um computador ligado na escrivaninha ao lado da cama e eu fui até ele para tentar descobrir algo. Apesar de estar ligado era necessário uma senha para entrar no sistema então logo desisti. A janela tinha grades o que me impediria de pular mesmo se a altura não fosse tão grande. Eu não sabia o que fazer e o medo e ansiedade começaram a voltar. O que ele estava fazendo ? Esmurrei a porta e gritei seu nome pedindo para que me deixasse sair. Eu não chorei, mas estava pronta para deixar as gotas caírem no meu rosto.

De repente, comecei a ouvir alguns passos. Pesados. Imaginei que seria ele. Encolhi-me ao lado da cama. Abaixei a cabeça e esperei. Pensei em pular em cima dele assim que abrisse a porta e com o susto que ele levaria eu correria, mas aí lembrei que ele era bem maior, mais forte e mais rápido que eu, logo, eu poderia morrer mais rápido fazendo isso. Esperei. Esperei mais. Os passos cessaram. A maçaneta da porta girou e ...

Rick entrou no quarto. Trancou a porta atrás de si e olhou pra mim. Eu estava com os olhos arregalados e a respiração ofegante, pois em sua mão estavam uma grossa corda e uma fita adesiva. Estou morta, pensei. Nem tentei correr se quer saber.
- Como está a minha garota ? - ele perguntou em tom irônico. E eu não respondi.  - Eu fiz uma pergunta, Mariah . - ele insistiu.
- Como você acha que estou ?
- Espero que esteja bem.
- Bem ? Olha só pra isso ! -levantei e apontei para as fotos .-E agora você aparece com isso e isso ? - apontei para os objetos na mão dele. - Como espera que eu esteja bem ?
- Verdade. Vem aqui! - ele se aproximou de mim e eu tentei fugir, mas foi em vão é claro. Rapidamente ele me agarrou. Me jogou na cama e eu temi algo pior que a morte.

Fechei os olhos e me encolhi em posição fetal Mas ele não fez nada a não ser abrir a fita adesiva, cortar um pedaço e colocar na minha boca.
- Não quero que você faça barulho, ok. - Ele perguntou sarcasticamente olhando pra mim , pois sabia que eu não poderia responder mais que um gemido. Em seguida ele começou a me amarrar. Primeiro as mãos e depois os pés. Vendou meus olhos com um pano que ele tirou do bolso de trás. Pegou-me no colo, mas não no colo, me colocou nas costas como quando você está levando uma carga pesada. É claro que eu lutei, esmurrei as costas largas dele com as duas mãos presas, chutei, tentei berrar e pedir socorro, mas é claro que não adiantou. Por fim, desisti quando ele chegou na sala, abriu a porta e saiu da casa. Eu sabia que ele estava na sala,pois ele havia descido a escada. Ao que parece, os anos de academia e trabalho pesado serviram de alguma coisa, pois ele desceu com cerca de 52 quilos nas costas e ao final do trajeto nem pareceu ofegante. A porta da sala fez um rangido e eu senti o vento pairar em meu rosto em seguida. Ele fechou a porta. Ele sabia que eu não me mexeria. Estava tarde e ninguém poderia me ver ou ouvir.

Ouvi o alarme de carro ser desligado, e em seguida ele abriu a porta e me jogou no banco de trás. Eu não enxergava nada, mas por sorte consegui me esquivar de algo duro que bateu de leve na minha cabeça quando eu me espatifei no banco traseiro. Ele fechou e trancou a porta. Entrou no banco do motorista e deu a partida. O ronco do motor foi alto e torci para alguém ouvir e desconfiar de qualquer coisa, mas supus que os vidros deveriam ser escuros e, que os vizinhos, mesmo que se importasse o suficiente para levantar do sofá da sala nada veriam.

Ele dirigiu por cerca de vinte minutos, creio eu, e eu senti as lágrimas escorrendo pelos meus olhos e molhando a faixa que os cobria. Eu vou morrer, é isso. A única vez em que decidi fazer algo diferente e acabo me matando. Ótimo. Sou  a pessoa mais inteligente do Universo.

Por fim, o barulho do carro parou. Ouvi a porta se abrir e depois a outra. Ele puxou-me pelos pés, me sentou no banco e tirou a venda. Olhou pra mim feliz e sorriu. Por um segundo pensei que aquilo tudo poderia ser apenas uma brincadeira de mal gosto, de muito mal gosto. Ele secou as lágrimas das minhas bochechas, desamarrou meus pés e me colocou de pé. Me puxou pelo braço com força, pois percebeu que não fiz menção de me mover.

Estávamos num grande nada maior ainda do que aquele que ele me levara para ver o pôr do sol. Quem diria que um cara que há algumas horas mostrou-me algo lindo e se mostrou lindo por dentro também agora era um verdadeiro psicopata. Eu já devia saber. Ele era um maluco serial killer psicopata e sem coração. E eu estava para descobrir o quão grande sua insanidade era.

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O corpo de Mariah foi encontrado alguns metros à frente da grande floresta que circulava a cidade. Seu corpo estava praticamente mutilado. Inteiro, mas cheio de cortes. Seu rosto estava tombado para o lado e sua boca levemente entreaberta formando um sorriso. Nunca se soube o motivo. Da morte, do sorriso mal feito. Em seus pulsos marcas da corda revelaram que fora amordaçada e em seu pescoço hematomas mostraram que possivelmente fora sufocada, então por que os cortes ao longo do corpo ? Nunca se soube. Rick nunca mais foi visto. 

O pessoal da escola não pareceu tão surpreso com a notícia. Digo, os colegas de Mariah.Tanto as meninas que olhavam com desprezo para ela quanto os meninos que nunca foram falara com ela ficaram chocados, mas não tanto quanto era esperado de alguém que fica sabendo da notícia que seu colega de sala foi assassinado.

Alguns anos depois descobriu-se que alguns alunos da sala de Mariah planejaram parte da coisa toda. Sabiam que ela, assim como toda menina da cidade, haveria de ter uma queda por Rick e decidiram que seria legal pregar uma peça nela. Pura maldade, se quer saber. Não haveriam de ter mais nada para fazer, é claro. O plano era que Rick deveria a sequestrar e pregar-lhe um susto. Deixá-la em um lugar distante e ligar avisando o local antes de ele sair. Ninguém acreditaria nela, eles disseram, uma vez que ela não era muito de se socializar. O que o Pessoal da Escola não sabia era que Rick era de fato um doido, um psicopata frio e cruel que soube aproveitar-se de toda a situação. Os inquéritos revelaram que ele não fizera nada com Mariah a não ser sufocá-la até a morte e depois, sabe-se lá porque, fez vários cortes em seu corpo. Não a tocou. Não a torturou. Não fez nada além de tirar-lhe a vida.

Afinal, as aparências nem sempre enganam. 




 [ Foto: Capa do livro Cretino Irresistível ]


4 comentários:

  1. Demais, gostei.Parabéns.(Mamasita)

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  2. Perfeito, maravailha.Um tanto trágico, mas perfeito.(Mamasita)

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  3. Trágico e Inesperado! causa grande impacto e reflexão nos leitores.

    Gostei muito, lendo esperava pela normalidade de um conto como esse,
    mas esse final muda totalmente o rumo da historia, um tanto quando surpreendente para quem o lê.
    Situação perfeita para um psicopata!
    Muito fera e bem elaborado.
    - Leno

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    1. Gostei do trágico rs Pois é, Leno na parte dois já começamos a revelar um pouquinho do que tava pra acontecer, mas tentei não dizer muito até o final mesmo. Psicopatas gostariam mesmo dessa situação. Obrigada, amor!

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