O Coveiro - Parte III - O Final

Você pode ler as partes I e II clicando AQUI e AQUI


- Olá, Destiny.
- Oi, Lucius. Como passou a semana ?
- Bem pra quem teve que cavar dez covas em menos de uma semana.
- Eu fiquei sabendo mesmo.
- E você?
- Bem pra quem teve que trabalhar todos os dias além do horário para pagar o aluguel atrasado.
- Isso eu não fiquei sabendo. - disse o rapaz, sorrindo.
Pela primeira vez em anos Destiny foi ao cemitério para uma razão diferente. Ela havia ido simplesmente pelo prazer da companhia de seu mais novo amigo, Lucius, o coveiro. Insistia em negar que jamais se esqueceria de seu amor, porém, há semanas que ela não mais se sentava ao lado de sua lápide até aquele dia.
- Destiny, se importa se eu fizer uma pergunta... é bom... pessoal?
- Não, pode dizer.
- É que tem um tempo que você vem aqui e nós nos sentamos aqui e não lá. - disse ele apontando para o banco que ficava à cerca de cinquenta passos da lápide de Lucius, o ex de Destiny. Ao lado deles uma bela estátua no estilo barroco de um anjo louvando os céus fazia sombra, pois naquele estranho dia, Destiny fora ao cemitério bem mais cedo que o costume;
- É que ... bom, eu tenho conversado com Lucius em casa.
- E o que ele acha de você vir aqui e não conversar diretamente com ele?
- Ele não acha nada, pois me abandonou há três anos. Desde então ele não me responde! - esbravejou Destiny cruzando os braços depois de enxugar uma lágrima.
- Estamos falando da mesma moça que vinha aqui toda semana e sentava-se ali - apontou para a lápide - e eu a observei conversar com alguém toda animada e agindo como se esse alguém realmente respondesse?
- É bom ... Lucius, é que... Não sei. Algo mudou. É como se ...
- Desculpa.
- O que?
- Eu não devia ter feito esse tipo de pergunta. Você não precisa responder,  tá? Vamos mudar de assunto. - disse Lucius dando tapinhas de leve na mão direita de Destiny, que ele havia puxado e colocado em cima de sua própria mão que estava na sua perna.
- Não, está tudo bem. É só que ...  Eu não sei, quando converso com você é como se a dor da perda do Lucius ficasse menor, mas então eu volto pra casa e parece que volto para a escuridão também. - disse Destiny puxando de volta a mão e gesticulando como que para explicar o sentimento estranho que forçava para sair de seu coração. - Mas você de alguma forma me traz luz, algo que até então somente o Lucius, meu namorado conseguia fazer. - disse, olhando para ele e sorrindo, fazendo com que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto.
***
- O correto não é importante agora, minha querida. Preciso saber se fará o que estou pedindo, caso contrário partirei e você não precisará mais se preocupar comigo.
- É que tirar uma vida não é a coisa mais normal do mundo, Faye.
- Pode não ser normal, mas é necessário se quiser reaver seu antigo amor.
Meu antigo amor.
Tudo bem. Eu faço.
- Absoluta certeza?
- Sim.
- Ótimo. Faça com que ele nos encontre no cemitério, a uma distância de cem metros da lápide de seu ex-namorado. Leve com você uma vela branca e uma vermelha. Intactas, nunca acesas. O resto deixe comigo.
- Ok, mas como ... Como eu devo matá-lo?
- Não se preocupe com isso. Na hora você saberá.
Em seguida Faye deixou a casa de Destiny enquanto a garota forçava a mente a ficar quieta. Tentou dormir e nada. Queria seu antigo amor, mas estaria disposta a tirar uma vida para conseguir? O que Lucius, um fuzileiro treinado antes para salvar vidas, pensaria disso? Ele faria algo assim? Depois de ponderar certas questões, Destiny finalmente caiu no sono, porém, pouco descansou, pois algumas horas depois seu celular despertou anunciando a chegada de um novo dia. Uma nova sexta-feira.
A campainha tocava e Destiny pensou que poderia ser Faye, mas a bruxa deixara claro que somente se veriam à noite naquele dia. Destiny faltara ao trabalho para poder se preparar mentalmente para o que poderia ser o ato mais sujo de sua vida, além é claro de sair à procura das velas pedidas por Faye.  Foi em direção à porta e quando a abriu ficou surpresa ao encontrar ninguém menos que o carteiro, alguém que ela não via há tanto tempo, uma vez que não tinha familiares preocupados em mandar qualquer sinal de vida pelas redes sociais quem diria por correio convencional. No entanto, o homem tinha nas mãos um maravilhoso buquê de rosas vermelhas que exalavam um aroma tão doce e forte que Destiny pode sentir estando a alguns passos do homem que as carregavam. Logo ela enxergou um pequenino bilhete cor de rosa cuidadosamente colocado entre às flores e o sorriso do homem ao vê-la foi o necessário para tirá-la do transe de receber algo tão lindo e inesperado.
- Olá, senhor Clayde. Quanto tempo.
- Pois é, minha jovem. Mas não posso me demorar. Cartas e mais cartas. Assine aqui, por favor. - disse o homem de meia idade, indicando um lugar em sua prancheta depois que entregou à Destiny suas rosas.
- Obrigada, tenha um bom dia!
- A você também, minha querida. - e logo virou a esquina saindo da vista de Destiny que agora tinha a atenção para o buquê. No rosto um sorriso mais que verdadeiro, um sorriso feliz e surpreso. Aos poucos se permitiu tocar as flores e cheirá-las antes de pegar o bilhete e lê-lo com calma, depois de se sentar no sofá da casa.
" Querida Destiny,
Tomei a liberdade de lhe comprar essas flores. Espero poder contar com sua companhia em mais uma sexta-feira.
Até mais
Lucius"
Por poucos segundos Destiny vislumbrou Lucius seu antigo amor escrevendo aquele bilhete. A caligrafia era quase a mesma e o modo de se expressar também. Assustou-se. Estaria mesmo disposta a tirar uma vida? Não sei.
Tratou de colocar as flores em um jarro grande com água. Guardou o bilhete em sua gaveta da cabeceira do seu quarto. Trocou de roupa, borrifou um pouco do perfume que ganhara de Lucius anos atrás, ajeitou o cabelo e antes de sair colocou um leve batom cor de rosa nos lábios. Sorriu para si mesma numa tentativa de se animar e de ser corajosa. Havia decidido seguir com a ação de matar Lucius, o coveiro. Era sua única chance de ter seu antigo namorado de volta.
A vida não fazia mais sentido sem ele. Chegando ao cemitério encontrou Lucius no lugar de sempre: ao lado de um casebre que ficava na área mais afastada do cemitério, naquela área reservada para novas covas. Ele sorriu ao vê-la, um sorriso verdadeiro. Correu em sua direção e a abraçou, e quase que inconscientemente Destiny devolveu o abraço caloroso dele e uma vez que seus olhos se encontraram ela sentiu uma tensão, mas uma tensão boa. Uma aflição. Um nervosismo. Daqueles que só ocorrem em filmes de romance.
- Que bom que veio, Destiny. Eu ... senti muito a sua falta.
- E-eu também, Lucius. - ela gaguejou. Não podia mais negar o que sentia. Ela, de fato, tinha sentimentos para com Lucius.
- Vamos. Preparei algo que acho que irá gostar.
- Tudo bem. - disse Destiny pegando na mão que Lucius oferecera.
O vento estava calmo e as árvores vez por outra se balançavam. A grama estava bem verde e o sol já morria no horizonte. O coração de Destiny começou a bater mais rápido. O que quer que fosse que Lucius tivesse preparado para ela não poderia ser comparado ao que ela tinha preparado para ele. Ela o seguia em silêncio, mas a todo mundo olhava para os lados à procura de Faye. Quem sabe ela desistiu da ideia. Mas não, Faye estava firme com sua missão, pois em um certo momento Destiny parou subitamente, assustando um pouco Lucius que se virou imediatamente para verificar o que aconteceu e em seguida virou-se para a direção que Destiny olhava e encontrou uma idosa, parada, sorrindo. As roupas rasgadas e na mão uma vela vermelha. Na outra, uma adaga de cabo de madeira.
- Minha senhora, está tudo bem? - ele perguntou, soltando da mão de Destiny e encaminhando-se na direção de Faye
- Vai ficar. - disse Faye levantando a mão com a vela na direção de Lucius e murmurando um feitiço em latim. Ele caiu de imediato no chão, contorcendo-se. Já estava escuro e o cemitério era iluminado por alguns poucos postes de luz distribuídos entre um caminho e outro.
- Faye.
- Não se preocupe, minha querida. A dor é necessária.
- Des-destiny! O que está acontecendo?
- Me desculpe, Lucius.
- O que? - ele dizia, se virando para um lado e outro, com as mãos na barriga e no peito.
- Venha, minha querida. Essa parte tem que ser feita por você. Vamos, pegue a adaga.
- Adaga? Destiny, o que você vai fazer?
- Me desculpe, mas eu... eu preciso fazer isso, Lucius. Não posso mais viver assim.
***
Com a adaga de madeira na mão, as velas vermelhas dispostas a formar um círculo. Próximo à cabeça de Lucius uma vela preta. Ele estava amarrado. Posição de Estrela. Teve a camisa cortada e a boca tapada segundos depois de Destiny lhe mostrar, através do olhar, o que estava prestes a fazer. Um sacrífico humano.
- A morte não devolve nada sem que lhe seja oferecido. - disse Faye, com um sorriso no rosto olhando calmamente para Destiny e quando essa fitou-a, triste, soube que a mulher já havia feito aquilo antes.
- Tudo bem. Vamos logo com isso. - em seguida Destiny desenhou com a adaga no peito de Lucius uma estrela de cinco pontas, um pentagrama. E murmurou o feitiço. De olhos fechados antes de olhar para o céu escuro, pintado de nuvens densas e preparadas para liberar a água que se misturariam às lágrimas de Destiny... e de Lucius, o coveiro. O rapaz tentou gritar como pode à medida que Destiny lhe feria o corpo. Tentava se mexer, mas seus braços e pernas foram atados à grandes pedras.
Por fim, Faye deu o sinal de que estava pronta para receber o espírito que levaria a alma de Lucius e traria de volta a alma do antigo amor de Destiny quando ela, segundos antes de cravar com força a adaga no peito de Lucius, bem onde ficava o coração... hesitou. Por breves segundos, apenas, mas sim hesitou na ação e essa pequena hesitação foi o bastante para colocar tudo a perder.
Lucius morreu no instante seguinte que a adaga lhe penetrou o peito. De alguma forma ele urrou sua dor, mas ninguém ouviu, é claro. Pouco antes de matar o jovem, Destiny olhou em seus olhos negros e brilhantes e mais uma vez viu neles seu antigo amor. Mal sabia ela, porém, que o sacrifício tinha apenas uma condição: a pessoa a ser sacrificada não pode ser ''objeto'' de qualquer tipo de afeição daquele que o sacrificará.
E foi por isso que Faye havia perguntado se ela amava o coveiro. Destiny, na ânsia de trazer de volta seu antigo namorado respondeu que não, mas no fundo... bem no fundo sabia que sentimentos pelo jovem coveiro começavam a brotar em seu coração há tanto tempo amargo. Ela não teve seu antigo amor de volta.
Faye foi consumida pelo espírito que exigiu uma alma, uma vez que ele foi chamado. A idosa bruxa olhou para Destiny, e sorriu antes de erguer a mãos para o céu e se deixar queimar pelas chamas negras que dançaram ao seu redor depois de surgirem do chão do cemitério.
Destiny foi condenada à uma vida de sofrimento. Jamais seria capaz de se apaixonar de novo por qualquer pessoa que fosse, porém, nunca morreria de modo que jamais se juntaria a Lucius, seu ex-namorado. Seria obrigada a vivenciar a alegria de outros casais felizes sempre que saísse na rua, e sempre que seu olhar parasse em pessoas portadoras do amor verdadeiro, seu coração sentiria uma dor lancinante, quase como um infarto, de modo que o órgão dissesse que ele sente agora. E sente dor.

Esse foi o preço que ela teve de pagar por escolher tirar uma vida inocente em benefício próprio, no entanto, seu maior pecado foi matar alguém que ela amava, pois pior que perder alguém amado, é causar a morte dessa pessoa.
[ crédito da imagem: http://itsopendoor.blogspot.com.br/2012/11/a-humanizacao-e-romantizacao-do-grotesco.html ]





Lupus - Parte II

Você pode ler a parte I AQUI  


— Co-mo... Como você... Digo, por que não está assustada ou mesmo me colocando pra fora da sua casa? — gaguejou Henry.
— Eu deveria estar assustada? — continuou Nina, acariciando de leve o cabelo molhado de suor dele.
— Mas é claro!
— Por que você é um lobisomem?
— Óbvio! Você já sabia?
— Descobri há poucos minutos. Quando você entrou no banheiro e se trancou eu fiquei com medo que tivesse alergia ou algo do tipo. A cães, sabe, e não me falou nada, pois enchi tanto você sobre o Bible que pensei você ter ficado sem graça em me dizer. Mas aí eu ouvi. Seus gritos. Digo, uivos. Logo, eu deduzi.
— Ok, ok. — disse ele, se ajeitando em uma posição melhor entre o vaso sanitário e a pia. O banheiro era pequeno. — Mas é que não faz sentido. A maioria das pessoas normais que descobrem sobre nós morre medo, foge, grita, nos expulsa... Nos caça até a morte.
— Aí é que está. Eu não sou uma pessoa normal.
— Se você me dizer que é uma vampira eu vou concluir que estou ficando louco. — disse Henry escondendo um sorriso.
— Não sou, seu bobo. Você me viu todos os dias, de manhã e à tarde. Vampiros morrem se expostos ao sol, lembra? — disse sorrindo calmamente.
— Tem razão. Mas então... Como soube e aceitou tão depressa?
— Na verdade, estou assustada.
— Não fique... Eu , sei o que já deve ter ouvido so...— foi cortado por Nina que pousou gentilmente dois dedos nos lábios dele e sorriu.
— Já ouvi muita coisa, mas não estou assustada com o fato de você ser um lobisomem e sim com o fato de eu não ter percebido antes.
— Mas como poderia?
— Eu sou uma bruxa, Henry.
***
Naquela tarde fria Henry corria solitário, como sempre. Na sua majestosa forma de lobo cinzento prateado, pela floresta negra conhecida simplesmente como Darkness, ele nem se dera ao trabalho de avisar à matilha ou mesmo ao Grande Alfa que sairia mais cedo. Há semanas que parara de seguir as ordens diretas dele e há dias que não visitava a Sala de Reunião dos lobos. Suas roupas tratou de esconder em uma árvore, daquelas que têm pequenos buracos próximos à raiz, e em seguida, transformou-se no grande lobo que era. Suportou a dor como sempre fazia.
Demorou-se um pouco mais, pois seus pensamentos não estavam voltados para a transformação como era o correto, mas sim em Nina. A jovem que conhecera há alguns dias, mas dias gloriosos que foram capazes de fazê-lo sorrir — algo que não fazia desde que se rendera à tentação da Lua Cheia — , e mais, os dias que conversou com Nina ele conseguiu esquecer algo que até então julgara ser impossível: sua própria essência e personalidade malignas.
— O Alfa já ordenou que não saísse assim, Henry. — disse Charlie que estava parado em uma árvore alguns metros à frente de Henry que agora caminhava lentamente. Levemente cansado. — Quando é que vai entender de uma vez por todas que nós o fizemos assim, logo, você nos deve lealdade.
Henry foi para trás de uma enorme sequoia e começou a transformação de volta a ser humano. Charlie tapou os ouvidos algumas vezes, pois Henry berrou em certos momentos. De fato, a volta para ser humano era ainda pior que para a de lobo, talvez porque o corpo sente que o ser não está voltando para algo bom, mas sim para o verdadeiro animal, logo ele inflige mais dor ao corpo em uma última tentativa de dizê-lo que se mantenha como lobo, uma condição melhor.
— O que você quer, Charlie? Já não deixei claro que não faço mais parte dessa matilha de ladrões?
— Não faça bico doce, Henry. Você adorava isso, até conhecer essa vadiazinha aí.
Charlie disse a única coisa que não deveria. Insultou Nina na frente de Henry que não hesitou um segundo sequer e agarrou Charlie pelo pescoço magrelo e cheio de cicatrizes emparelhando-o na árvore grande.
—Quem você está chamando de vadiazinha, pequeno Charlie? — disse, mostrando os dentes e a expressão cheia de raiva e vontade de bater.
— Ni-niguém, Henry, quer dizer... Aquelas garotas com quem você costumava sair, lembra? E-e elas não prestam.
— Que bom que soube sair dessa, Charlie, mas da próxima vez não se dê ao trabalho, terá seus dentes podres no chão antes que possa articular o final da palavra, está bem?
—C-claro, Henry, você quem manda. – disse Charlie já acuado em um canto.
— Agora vá dizer ao Alfa que é pra parar de me encher o saco, e que eu deixei a matilha de vocês. Pra sempre.
— Tu-tudo bem. — disse Charlie com dificuldade. O aperto que recebera no pescoço foi forte demais e ele tossia.
Em seguida, Charlie correu com suas perninhas finas, mas velozes. Seus braços gigantes como palitos tentavam dar um impulso maior, uma vez que ele estava com muito medo de Henry desistir da ideia de mata-lo depois e fazê-lo naquela instante. Henry, porém, já até esquecera de Charlie. Vestiu sua camiseta e encostou-se na árvore. Apoiando o braço em uma das pernas que estava dobrada e a cabeça levemente inclinada para o céu azul que aos poucos se permitia colorir pelo pôr do sol, Henry pensou consigo mesmo:
Droga! Esse pessoal não me deixa em paz! Mas em parte a culpa foi minha. Quem mandou ser o melhor na hora de roubar bancos? Se bem que... Se eu fosse ruim demais eles poderiam ter me banido do grupo antes de me transformarem e hoje eu estaria estudando para ganhar pouco mais que um salário e ainda não ter prazer nenhum nisso. Que droga! O que eu preciso fazer pra esses idiotas me deixarem em paz? E se eles se aproximarem de Nina? Não irão revelar que somos lobisomens, mas podem muito bem contar todo o meu passado antes dela e garota nenhuma gostaria de ouvir as coisas que fiz. Disso tenho certeza. Droga, droga, droga!
Com muita força de vontade Henry se levantou e até então tinha intenção de ir à casa do Grande Alfa. Jonas. Porém, Henry desistiu da ideia no segundo seguinte. Ajeitou os cabelos negros, alongou-se e decidiu visitar Nina. Ela disse que poderia aparecer quando quiser, certo? Desde que ela estivesse em casa e não na faculdade. Jonas teria de esperar mais um pouco.
Jonas havia se tornado um dos lobisomens mais poderoso de todas as Américas graças a um único fator: sua incapacidade de sentir qualquer coisa por qualquer criatura além dele mesmo. Nem sua filha tinha chance. Ele a matara pouco antes de ela ter vindo ao mundo. Aos poucos, Jonas começou a perceber o poder que tinha nas mãos. E assim também começou a transformar adolescentes delinquentes em lobisomens para que pudessem ajuda-lo na sua primeira missão de vida: enriquecer. Mas antes fosse apenas esse seu objetivo, com o tempo Jonas tornou-se mais frio e não media esforços para atingir suas metas. Logo, pessoas começaram a morrer.
Os primeiros adolescentes hoje são velhos lobisomens, mas velhos experientes e fortes. Fazem parte de sua guarda pessoal, a famosa Trilha. Esses eram os lobisomens mais experientes, fortes, velozes e frios que alguém poderia encontrar, não que alguém gostaria de encontra-los por aí, em especial se eles estivessem em uma missão e essa pessoa fosse motivo de atraso para eles. Morte. Era nisso que resultava.
Grandes lobisomens com bocas sedentas por sangue humano, babando saliva quase efervescente e com dentes brancos e grandes, mas que logo ficariam sujos de vermelho e encrostados de carne fresca. Quem quer que tivesse coragem para se meter com a Trilha teria de ser muito esperto, veloz e inteligente, além de tudo ter muita coragem ou pouco amor à vida. Henry era tudo isso e mais pouco, exceto que ele adorava sua vida em especial depois que Nina começou a fazer parte dela, no entanto, ele não esperava encontrar O Caça.
O Caça pra quem não sabe é simplesmente o braço direito de Jonas. Se alguém merecesse a afeição dele seria O Caça. Um homem de quase dois metros de altura, braços e pernas tão grossos quanto grandes toras de madeira. No rosto nunca se encontra um sorriso de alegria, mas somente aqueles que os filmes de psicopata gostam de mostrar para assustar os telespectadores. Força. Se Sansão estivesse vivo ele perderia rapidamente para o Caça tamanha era a força encontrada em seus braços, e não o espere se transformar para correr, pois a velocidade dele é equiparável a um guepardo, isso se ele estiver calmo, pois basta colocar uma gota de raiva no corpo deste homem e objeto nenhum inventado pelo homem é páreo para sua força e agilidade. Jonas cansado das ausências de Henry mandou O Caça atrás dele.
Henry pela primeira vez na vida corria perigo. No entanto, ele não sabia disso e fora ver Nina. Para piorar sua situação o veterinário do cão de Nina decide levar o animal mais cedo e Henry não teve tempo de se preparar para receber o parente de espécie, logo, correu para o banheiro e se transformou para lobo e de lobo a humano em uma velocidade antes nunca presenciada por ele, de modo que seu corpo não aguentou e ele ficou no chão do banheiro de Nina, estatelado até o momento em que teve forças suficientes para abrir a porta e deixa-la entrar.
***
— Mas como assim? Ok, eu acredito que você seja uma bruxa, não é surpresa nenhuma no meu mundo, mas o que isso tem a ver com o fato de você saber que sou um lobisomem? Vocês evoluíram tanto assim, é? — disse sorrindo um pouco.
— Não sei das outras bruxas, mas eu tento ao máximo poder identificar os outros seres diferentes que vivem no mundo. Sabe como é, não é ... para evitar situações como as de agora. — disse Nina se prontificando a levantar e pegar uma toalha maior em seu armário. Pegou e entregou a Henry que colocou na cintura rapidamente depois de se levantar.
— Se quiser pode tomar um banho, vou dar um jeito no Bible, tipo, colocá-lo em sua casa lá no quintal.
— Tudo bem. Mas creio que temos muito mais o que conversar agora, não é?
— Com certeza, Henry. Ainda bem que temos tempo hoje, não é?
— Sim. Muito tempo.
Enquanto Nina ajeitava Bible em sua casa no jardim no fundo da casa, Henry tomava um banho quente e demorado. Alguns minutos depois Nina estava de volta à cozinha e tratou de preparar o jantar. Um jantar bem reforçado, pensou ela. Lobisomens costumam sentir muita fome logo depois da transformação . Não havia muita coisa na dispensa, afinal a última vez que fora ao mercado fazer uma compra grande fazia mais de trinta dias, no entanto, tinha um pacote grande de macarrão e molho de tomate. Preparou tudo. Jogou umas poucas azeitonas e cozinhou ovos. Deveria bastar. Muito carboidrato. 
Henry desceu e sorriu ao ver a mesa de jantar toda pronta. Colocou sua comida no prato e sentou-se ao lado de Nina que também colocara a comida, porém, em uma quantidade bem menor. No meio da mesa, uma garrafa do melhor vinho que ela tinha na casa e juntos se deliciavam com a comida e com mais conversas sobre o mundo sobrenatural ao qual pertenciam. Seriam tudo flores e alegria até o momento que a campainha tocou. O coração de Henry disparou. Nina levantou-se, mas não pode seguir, pois a mão de Henry segurou seu pulso rapidamente e a impediu de continuar.
— Fique aqui, está bem?
— Mas...
— Só fica, Nina. Não vai querer presenciar isso.
Nina não o contrariou. Ficou sentada na cadeira enquanto Henry seguia para a sala, deixando na cozinha apenas seu cheiro doce e forte, e sua presença que agora Nina conseguia identificar claramente, e sabia que ele de fato era um lobisomem. E dos bons.
Henry caminhava lentamente tentando identificar o cheiro que estava do lado de fora. Sabia que era um lobisomem só precisava de mais um pouco de tempo para saber qual deles. Qual capanga Jonas mandara dessa vez?  Antes fosse apenas mais um.
Henry mal chegou à porta e ela se espatifou bem na frente dele fazendo com que ele fosse jogado para trás com força e caísse direto na mesinha de centro da casa de Nina. Quebrou o porta-retrato. Destruíra a mesa.
Quando se levantou encarou O Caça. Com dentes grandes querendo sair da boca, seu queixo retorcido e seus olhos pegando fogo de raiva. Dois passos largos e ele estava dentro da casa. Nina assustada ao fundo gritou e levou a mão à boca. O Caça não se importou com ela. Sua presa era maior. Foi em direção a Henry que mal teve tempo de se levantar, pois seu corpo ainda se recuperava da transformação brusca, logo, as mãos grandes e fortes do Caça conseguiram segurar a camisa de Henry e o suspendeu, no ar. Com um soco brutal, forte e certeiro no rosto de Henry, ele caiu.

E ali permaneceu.
[ Créditos da imagem: http://exileden.deviantart.com/art/White-Werewolf-126170165 ]



Ei, povo! A parte II finalmente, e tenho novidades!!! Depois de postar pra vocês a parte três estou pensamento seriamente em fazer deste conto um romance '---' é que acabou que eu tive mais ideias e tem mais personagens e mais história, então, sei lá, quem sabe vocês verão Lupus, a história de Nina e Henry no wattpad haha
beijos