Lupus - Parte II

Você pode ler a parte I AQUI  


— Co-mo... Como você... Digo, por que não está assustada ou mesmo me colocando pra fora da sua casa? — gaguejou Henry.
— Eu deveria estar assustada? — continuou Nina, acariciando de leve o cabelo molhado de suor dele.
— Mas é claro!
— Por que você é um lobisomem?
— Óbvio! Você já sabia?
— Descobri há poucos minutos. Quando você entrou no banheiro e se trancou eu fiquei com medo que tivesse alergia ou algo do tipo. A cães, sabe, e não me falou nada, pois enchi tanto você sobre o Bible que pensei você ter ficado sem graça em me dizer. Mas aí eu ouvi. Seus gritos. Digo, uivos. Logo, eu deduzi.
— Ok, ok. — disse ele, se ajeitando em uma posição melhor entre o vaso sanitário e a pia. O banheiro era pequeno. — Mas é que não faz sentido. A maioria das pessoas normais que descobrem sobre nós morre medo, foge, grita, nos expulsa... Nos caça até a morte.
— Aí é que está. Eu não sou uma pessoa normal.
— Se você me dizer que é uma vampira eu vou concluir que estou ficando louco. — disse Henry escondendo um sorriso.
— Não sou, seu bobo. Você me viu todos os dias, de manhã e à tarde. Vampiros morrem se expostos ao sol, lembra? — disse sorrindo calmamente.
— Tem razão. Mas então... Como soube e aceitou tão depressa?
— Na verdade, estou assustada.
— Não fique... Eu , sei o que já deve ter ouvido so...— foi cortado por Nina que pousou gentilmente dois dedos nos lábios dele e sorriu.
— Já ouvi muita coisa, mas não estou assustada com o fato de você ser um lobisomem e sim com o fato de eu não ter percebido antes.
— Mas como poderia?
— Eu sou uma bruxa, Henry.
***
Naquela tarde fria Henry corria solitário, como sempre. Na sua majestosa forma de lobo cinzento prateado, pela floresta negra conhecida simplesmente como Darkness, ele nem se dera ao trabalho de avisar à matilha ou mesmo ao Grande Alfa que sairia mais cedo. Há semanas que parara de seguir as ordens diretas dele e há dias que não visitava a Sala de Reunião dos lobos. Suas roupas tratou de esconder em uma árvore, daquelas que têm pequenos buracos próximos à raiz, e em seguida, transformou-se no grande lobo que era. Suportou a dor como sempre fazia.
Demorou-se um pouco mais, pois seus pensamentos não estavam voltados para a transformação como era o correto, mas sim em Nina. A jovem que conhecera há alguns dias, mas dias gloriosos que foram capazes de fazê-lo sorrir — algo que não fazia desde que se rendera à tentação da Lua Cheia — , e mais, os dias que conversou com Nina ele conseguiu esquecer algo que até então julgara ser impossível: sua própria essência e personalidade malignas.
— O Alfa já ordenou que não saísse assim, Henry. — disse Charlie que estava parado em uma árvore alguns metros à frente de Henry que agora caminhava lentamente. Levemente cansado. — Quando é que vai entender de uma vez por todas que nós o fizemos assim, logo, você nos deve lealdade.
Henry foi para trás de uma enorme sequoia e começou a transformação de volta a ser humano. Charlie tapou os ouvidos algumas vezes, pois Henry berrou em certos momentos. De fato, a volta para ser humano era ainda pior que para a de lobo, talvez porque o corpo sente que o ser não está voltando para algo bom, mas sim para o verdadeiro animal, logo ele inflige mais dor ao corpo em uma última tentativa de dizê-lo que se mantenha como lobo, uma condição melhor.
— O que você quer, Charlie? Já não deixei claro que não faço mais parte dessa matilha de ladrões?
— Não faça bico doce, Henry. Você adorava isso, até conhecer essa vadiazinha aí.
Charlie disse a única coisa que não deveria. Insultou Nina na frente de Henry que não hesitou um segundo sequer e agarrou Charlie pelo pescoço magrelo e cheio de cicatrizes emparelhando-o na árvore grande.
—Quem você está chamando de vadiazinha, pequeno Charlie? — disse, mostrando os dentes e a expressão cheia de raiva e vontade de bater.
— Ni-niguém, Henry, quer dizer... Aquelas garotas com quem você costumava sair, lembra? E-e elas não prestam.
— Que bom que soube sair dessa, Charlie, mas da próxima vez não se dê ao trabalho, terá seus dentes podres no chão antes que possa articular o final da palavra, está bem?
—C-claro, Henry, você quem manda. – disse Charlie já acuado em um canto.
— Agora vá dizer ao Alfa que é pra parar de me encher o saco, e que eu deixei a matilha de vocês. Pra sempre.
— Tu-tudo bem. — disse Charlie com dificuldade. O aperto que recebera no pescoço foi forte demais e ele tossia.
Em seguida, Charlie correu com suas perninhas finas, mas velozes. Seus braços gigantes como palitos tentavam dar um impulso maior, uma vez que ele estava com muito medo de Henry desistir da ideia de mata-lo depois e fazê-lo naquela instante. Henry, porém, já até esquecera de Charlie. Vestiu sua camiseta e encostou-se na árvore. Apoiando o braço em uma das pernas que estava dobrada e a cabeça levemente inclinada para o céu azul que aos poucos se permitia colorir pelo pôr do sol, Henry pensou consigo mesmo:
Droga! Esse pessoal não me deixa em paz! Mas em parte a culpa foi minha. Quem mandou ser o melhor na hora de roubar bancos? Se bem que... Se eu fosse ruim demais eles poderiam ter me banido do grupo antes de me transformarem e hoje eu estaria estudando para ganhar pouco mais que um salário e ainda não ter prazer nenhum nisso. Que droga! O que eu preciso fazer pra esses idiotas me deixarem em paz? E se eles se aproximarem de Nina? Não irão revelar que somos lobisomens, mas podem muito bem contar todo o meu passado antes dela e garota nenhuma gostaria de ouvir as coisas que fiz. Disso tenho certeza. Droga, droga, droga!
Com muita força de vontade Henry se levantou e até então tinha intenção de ir à casa do Grande Alfa. Jonas. Porém, Henry desistiu da ideia no segundo seguinte. Ajeitou os cabelos negros, alongou-se e decidiu visitar Nina. Ela disse que poderia aparecer quando quiser, certo? Desde que ela estivesse em casa e não na faculdade. Jonas teria de esperar mais um pouco.
Jonas havia se tornado um dos lobisomens mais poderoso de todas as Américas graças a um único fator: sua incapacidade de sentir qualquer coisa por qualquer criatura além dele mesmo. Nem sua filha tinha chance. Ele a matara pouco antes de ela ter vindo ao mundo. Aos poucos, Jonas começou a perceber o poder que tinha nas mãos. E assim também começou a transformar adolescentes delinquentes em lobisomens para que pudessem ajuda-lo na sua primeira missão de vida: enriquecer. Mas antes fosse apenas esse seu objetivo, com o tempo Jonas tornou-se mais frio e não media esforços para atingir suas metas. Logo, pessoas começaram a morrer.
Os primeiros adolescentes hoje são velhos lobisomens, mas velhos experientes e fortes. Fazem parte de sua guarda pessoal, a famosa Trilha. Esses eram os lobisomens mais experientes, fortes, velozes e frios que alguém poderia encontrar, não que alguém gostaria de encontra-los por aí, em especial se eles estivessem em uma missão e essa pessoa fosse motivo de atraso para eles. Morte. Era nisso que resultava.
Grandes lobisomens com bocas sedentas por sangue humano, babando saliva quase efervescente e com dentes brancos e grandes, mas que logo ficariam sujos de vermelho e encrostados de carne fresca. Quem quer que tivesse coragem para se meter com a Trilha teria de ser muito esperto, veloz e inteligente, além de tudo ter muita coragem ou pouco amor à vida. Henry era tudo isso e mais pouco, exceto que ele adorava sua vida em especial depois que Nina começou a fazer parte dela, no entanto, ele não esperava encontrar O Caça.
O Caça pra quem não sabe é simplesmente o braço direito de Jonas. Se alguém merecesse a afeição dele seria O Caça. Um homem de quase dois metros de altura, braços e pernas tão grossos quanto grandes toras de madeira. No rosto nunca se encontra um sorriso de alegria, mas somente aqueles que os filmes de psicopata gostam de mostrar para assustar os telespectadores. Força. Se Sansão estivesse vivo ele perderia rapidamente para o Caça tamanha era a força encontrada em seus braços, e não o espere se transformar para correr, pois a velocidade dele é equiparável a um guepardo, isso se ele estiver calmo, pois basta colocar uma gota de raiva no corpo deste homem e objeto nenhum inventado pelo homem é páreo para sua força e agilidade. Jonas cansado das ausências de Henry mandou O Caça atrás dele.
Henry pela primeira vez na vida corria perigo. No entanto, ele não sabia disso e fora ver Nina. Para piorar sua situação o veterinário do cão de Nina decide levar o animal mais cedo e Henry não teve tempo de se preparar para receber o parente de espécie, logo, correu para o banheiro e se transformou para lobo e de lobo a humano em uma velocidade antes nunca presenciada por ele, de modo que seu corpo não aguentou e ele ficou no chão do banheiro de Nina, estatelado até o momento em que teve forças suficientes para abrir a porta e deixa-la entrar.
***
— Mas como assim? Ok, eu acredito que você seja uma bruxa, não é surpresa nenhuma no meu mundo, mas o que isso tem a ver com o fato de você saber que sou um lobisomem? Vocês evoluíram tanto assim, é? — disse sorrindo um pouco.
— Não sei das outras bruxas, mas eu tento ao máximo poder identificar os outros seres diferentes que vivem no mundo. Sabe como é, não é ... para evitar situações como as de agora. — disse Nina se prontificando a levantar e pegar uma toalha maior em seu armário. Pegou e entregou a Henry que colocou na cintura rapidamente depois de se levantar.
— Se quiser pode tomar um banho, vou dar um jeito no Bible, tipo, colocá-lo em sua casa lá no quintal.
— Tudo bem. Mas creio que temos muito mais o que conversar agora, não é?
— Com certeza, Henry. Ainda bem que temos tempo hoje, não é?
— Sim. Muito tempo.
Enquanto Nina ajeitava Bible em sua casa no jardim no fundo da casa, Henry tomava um banho quente e demorado. Alguns minutos depois Nina estava de volta à cozinha e tratou de preparar o jantar. Um jantar bem reforçado, pensou ela. Lobisomens costumam sentir muita fome logo depois da transformação . Não havia muita coisa na dispensa, afinal a última vez que fora ao mercado fazer uma compra grande fazia mais de trinta dias, no entanto, tinha um pacote grande de macarrão e molho de tomate. Preparou tudo. Jogou umas poucas azeitonas e cozinhou ovos. Deveria bastar. Muito carboidrato. 
Henry desceu e sorriu ao ver a mesa de jantar toda pronta. Colocou sua comida no prato e sentou-se ao lado de Nina que também colocara a comida, porém, em uma quantidade bem menor. No meio da mesa, uma garrafa do melhor vinho que ela tinha na casa e juntos se deliciavam com a comida e com mais conversas sobre o mundo sobrenatural ao qual pertenciam. Seriam tudo flores e alegria até o momento que a campainha tocou. O coração de Henry disparou. Nina levantou-se, mas não pode seguir, pois a mão de Henry segurou seu pulso rapidamente e a impediu de continuar.
— Fique aqui, está bem?
— Mas...
— Só fica, Nina. Não vai querer presenciar isso.
Nina não o contrariou. Ficou sentada na cadeira enquanto Henry seguia para a sala, deixando na cozinha apenas seu cheiro doce e forte, e sua presença que agora Nina conseguia identificar claramente, e sabia que ele de fato era um lobisomem. E dos bons.
Henry caminhava lentamente tentando identificar o cheiro que estava do lado de fora. Sabia que era um lobisomem só precisava de mais um pouco de tempo para saber qual deles. Qual capanga Jonas mandara dessa vez?  Antes fosse apenas mais um.
Henry mal chegou à porta e ela se espatifou bem na frente dele fazendo com que ele fosse jogado para trás com força e caísse direto na mesinha de centro da casa de Nina. Quebrou o porta-retrato. Destruíra a mesa.
Quando se levantou encarou O Caça. Com dentes grandes querendo sair da boca, seu queixo retorcido e seus olhos pegando fogo de raiva. Dois passos largos e ele estava dentro da casa. Nina assustada ao fundo gritou e levou a mão à boca. O Caça não se importou com ela. Sua presa era maior. Foi em direção a Henry que mal teve tempo de se levantar, pois seu corpo ainda se recuperava da transformação brusca, logo, as mãos grandes e fortes do Caça conseguiram segurar a camisa de Henry e o suspendeu, no ar. Com um soco brutal, forte e certeiro no rosto de Henry, ele caiu.

E ali permaneceu.
[ Créditos da imagem: http://exileden.deviantart.com/art/White-Werewolf-126170165 ]



Ei, povo! A parte II finalmente, e tenho novidades!!! Depois de postar pra vocês a parte três estou pensamento seriamente em fazer deste conto um romance '---' é que acabou que eu tive mais ideias e tem mais personagens e mais história, então, sei lá, quem sabe vocês verão Lupus, a história de Nina e Henry no wattpad haha
beijos

4 comentários:

  1. Muito interessante, cada dia fico mais curiosa. Parabéns.(Mamsita)

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  2. Huum .... Bruxa né?! haha, errei e feio no meu palpite, mas mesmo assim, meu surpreendeu! A historia está ficando bem mais envolvente, já está começando fazer com que leitores criem laços com os personagens. Eu mesmo estou ansioso para ver Henry dar uma porrada no Caça! Bom, assim espero eu (kk).
    Queria falar também sobre as descrições, que estão ficando bem mais elaboradas e detalhadas. Curti muito a descrição do Caça, digna de um Best Seller! Foi legal também criar um nome para a matilha, deixa as pessoas mais interagidas com a historia.
    Sobre o romance; Não tenho duvidas de que o conto tenha capacidade de se estender sem perder a qualidade, ainda mais para você que deve estar cheia de novas ideias fascinantes!
    Parabéns meu amor, ficou show! Esperando para ver do que Nina, Henry e Caça são capazes no próximo capitulo!

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    1. hahaha logo que terminei a primeira parte eu já sabia o que ela seria, Leno. Que bom que já tem laços com os personagens, significa que estou fazendo certo '--'
      Gostei do Best Seller *-* Pois é, depois que eu postar a parte três já começo a focar no romance. Obrigada, amor ! E vai esperar um pouquinho haha mas posto já !

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