O Coveiro - Parte III - O Final

Você pode ler as partes I e II clicando AQUI e AQUI

***

- Matar o Lucius ?
- Exatamente.
- Mas eu não posso fazer isso. Quer dizer... não seria correto.

***


- Olá, Destiny.
- Oi, Lucius. Como passou a semana ?
- Bem pra quem teve que cavar dez covas em menos de uma semana.
- Eu fiquei sabendo mesmo.
- E você ?
- Bem pra quem teve que trabalhar todos os dias além do horário para pagar o aluguel atrasado.
- Isso eu não fiquei sabendo. - disse o rapaz, sorrindo.

Pela primeira vez em anos Destiny foi ao cemitério para uma razão diferente. Ela havia ido simplesmente pelo prazer da companhia de seu mais novo amigo, Lucius, o coveiro. Insistia em negar que jamais se esqueceria de seu amor, porém, há semanas que ela não mais se sentava ao lado de sua lápide até aquele dia.

- Destiny, se importa se eu fizer uma pergunta... é bom... pessoal ?
- Não, pode dizer.
- É que tem um tempo que você vem aqui e nós nos sentamos aqui e não lá. - disse ele apontando para o banco que ficava à cerca de cinquenta passos da lápide de Lucius, o ex de Destiny. Ao lado deles uma bela estátua no estilo barroco de um anjo louvando os céus fazia sombra, pois naquele estranho dia, Destiny fora ao cemitério bem mais cedo que o costume;
- É que ... bom, eu tenho conversado com Lucius em casa.
- E o que ele acha de você vir aqui e não conversar diretamente com ele ?
- Ele não acha nada, pois me abandonou há três anos. Desde então ele não me responde! - esbravejou Destiny cruzando os braços depois de enxugar uma lágrima.
- Estamos falando da mesma moça que vinha aqui toda semana e sentava-se ali - apontou para a lápide - e eu a observei conversar com alguém toda animada e agindo como se esse alguém realmente respondesse ?
- É bom ... Lucius, é que... Não sei. Algo mudou. É como se ...
- Desculpa.
- O que ?
- Eu não devia ter feito esse tipo de pergunta. Você não precisa responder,tá ? Vamos mudar de assunto. - disse Lucius dando tapinhas de leve na mão direita de Destiny, que ele havia puxado e colocado em cima de sua própria mão que estava na sua perna.
- Não, está tudo bem. É só que ... Eu não sei, quando converso com você é como se a dor da perda do Lucius ficasse menor, mas então eu volto pra casa e parece que volto para a escuridão também. - disse Destiny puxando de volta a mão e gesticulando como que para explicar o sentimento estranho que forçava para sair de seu coração. - Mas você de alguma forma me trás luz, algo que até então somente o Lucius, meu namorado conseguia fazer. - disse, olhando para ele e sorrindo, fazendo com que algumas lágrimas escorressem pelo seu rosto.

***

- O correto não é importante agora, minha querida. Preciso saber se fará o que estou pedindo, caso contrário partirei e você não precisará mais se preocupar comigo.
- É que tirar uma vida não é a coisa mais normal do mundo, Faye.
- Pode não ser normal, mas é necessário se quiser reaver seu antigo amor.
Meu antigo amor.
- Tudo bem. Eu faço.
- Absoluta certeza ?
- Sim.
- Ótimo. Faça com que ele nos encontre no cemitério, a uma distância de cem metros da lápide de seu ex-namorado. Leve com você uma vela branca e uma vermelha. Intactas, nunca acesas. O resto deixe comigo.
- Ok, mas como ... como eu devo matá-lo ?
- Não se preocupe com isso. Na hora você saberá.

Em seguida Faye deixou a casa de Destiny enquanto a garota forçava a mente a ficar quieta. Tentou dormir e nada. Queria seu antigo amor,  mas estaria disposta a tirar uma vida para conseguir? O que Lucius, um fuzileiro treinado antes para salvar vidas, pensaria disso? Ele faria algo assim? Depois de ponderar certas questões, Destiny finalmente caiu no sono, porém, pouco descansou,pois algumas horas depois seu celular despertou anunciando a chegada de um novo dia. Uma nova sexta-feira.

A campainha tocava e Destiny pensou que poderia ser Faye,  mas a bruxa deixara claro que somente se veriam à noite naquele dia. Destiny faltara ao trabalho para poder se preparar mentalmente para o que poderia ser o ato mais sujo de sua vida, além é claro de sair à procura das velas pedidas por Faye.  Foi em direção à porta e quando a abriu ficou surpresa ao encontrar ninguém menos que o carteiro, alguém que ela não via há tanto tempo, uma vez que não tinha familiares preocupados em mandar qualquer sinal de vida pelas redes sociais quem diria por correio convencional. No entanto, o homem tinha nas mãos um maravilhoso buquê de rosas vermelhas que exalavam um aroma tão doce e forte que Destiny pode sentir estando a alguns passos do homem que as carregavam. Logo ela enxergou um pequenino bilhete cor de rosa cuidadosamente colocado entre às flores e o sorriso do homem ao vê-la foi o necessário para tirá-la do transe de receber algo tão lindo e inesperado.
- Olá, senhor Clayde. Quanto tempo.
- Pois é, minha jovem. Mas não posso me demorar. Cartas e mais cartas. Assine aqui, por favor. - disse o homem de meia idade, indicando um lugar em sua prancheta depois que entregou à Destiny suas rosas.
- Obrigada, tenha um bom dia!
- A você também, minha querida. - e logo virou a esquina saindo da vista de Destiny que agora tinha a atenção para o buquê. No rosto um sorriso mais que verdadeiro, um sorriso feliz e surpreso. Aos poucos se permitiu tocar as flores e cheirá-las antes de pegar o bilhete e lê-lo com calma, depois de se sentar no sofá da casa.

" Querida Destiny,
Tomei a liberdade de lhe comprar essas flores. Espero poder contar com sua companhia em mais uma sexta-feira.
Até mais
Lucius "

Por poucos segundos Destiny vislumbrou Lucius seu antigo amor escrevendo aquele bilhete. A caligrafia era quase a mesma e o modo de se expressar também. Assustou-se. Estaria mesmo disposta a tirar uma vida ? Não sei.
Tratou de colocar as flores em um jarro grande com água. Guardou o bilhete em sua gaveta da cabeceira do seu quarto. Trocou de roupa, borrifou um pouco do perfume que ganhara de Lucius anos atrás, ajeitou o cabelo e antes de sair colocou um level batom cor de rosa nos lábios. Sorriu para si mesma numa tentativa de se animar e de ser corajosa. Havia decidido seguir com a ação de matar Lucius, o coveiro. Era sua única chance de ter seu antigo namorado de volta. A vida não fazia mais sentido sem ele. Chegando ao cemitério encontrou Lucius no lugar de sempre: ao lado de um casebre que ficava na área mais afastada do cemitério, naquela área reservada para novas covas. Ele sorriu ao vê-la, um sorriso verdadeiro. Correu em sua direção e a abraçou, e quase que inconscientemente Destiny devolveu o abraço caloroso dele e uma vez que seus olhos se encontraram ela sentiu uma tensão, mas uma tensão boa. Uma aflição. Um nervosismo. Daqueles que só ocorrem em filmes de romance.
- Que bom que veio, Destiny. Eu ... senti muito a sua falta.
- E-eu também, Lucius. - ela gaguejou. Não podia mais negar o que sentia. Ela, de fato, tinha sentimentos para com Lucius.
- Vamos. Preparei algo que acho que irá gostar.
- Tudo bem. - disse Destiny pegando na mão que Lucius oferecera.

O vento estava calmo e as árvores vez por outra se balançavam. A grama estava bem verde e o sol já morria no horizonte. O coração de Destiny começou a bater mais rápido. O que quer que fosse que Lucius tivesse preparado para ela não poderia ser comparado ao que ela tinha preparado para ele. Ela o seguia em silêncio, mas a todo mundo olhava para os lados à procura de Faye. Quem sabe ela desistiu da ideia. Mas não, Faye estava firme com sua missão, pois em um certo momento Destiny parou subitamente, assustando um pouco Lucius que se virou imediatamente para verificar o que aconteceu e em seguida virou-se para a direção que Destiny olhava e encontrou uma idosa, parada, sorrindo. As roupas rasgadas e na mão uma vela vermelha. Na outra, uma adaga de cabo de madeira.

- Minha senhora, está tudo bem ? - ele perguntou, soltando da mão de Destiny e encaminhando-se na direção de Faye
- Vai ficar. - disse Faye levantando a mão com a vela na direção de Lucius e murmurando um feitiço em latim. Ele caiu de imediato no chão, contorcendo-se. Já estava escuro e o cemitério era iluminado por alguns poucos postes de luz distribuídos entre um caminho e outro.
- Faye.
- Não se preocupe, minha querida. A dor é necessária.
- Des-destiny! O que está acontecendo ?
- Me desculpe, Lucius.
- O que ? - ele dizia, se virando para um lado e outro, com as mãos na barriga e no peito.
- Venha, minha querida. Essa parte tem que ser feita por você. Vamos, pegue a adaga.
- Adaga ? Destiny, o que você vai fazer?
- Me desculpe, mas eu...eu preciso fazer isso, Lucius. Não posso mais viver assim.

***

Com a adaga de madeira na mão, as velas vermelhas dispostas a formar um círculo. Próximo à cabeça de Lucius uma vela preta. Ele estava amarrado. Posição de Estrela. Teve a camisa cortada e a boca tapada segundos depois de Destiny lhe mostrar, através do olhar, o que estava prestes a fazer. Um sacrífico humano.

- A morte não devolve nada sem que lhe seja oferecido. - disse Faye, com um sorriso no rosto olhando calmamente para Destiny e quando essa fitou-a, triste, soube que a mulher já havia feito aquilo antes.
- Tudo bem. Vamos logo com isso. - em seguida Destiny desenhou com a adaga no peito de Lucius uma estrela de cinco pontas, um pentagrama. E murmurou o feitiço. De olhos fechados antes de olhar para o céu escuro, pintado de nuvens densas e preparadas para liberar a água que se misturariam às lágrimas de Destiny... e de Lucius, o coveiro. O rapaz gritou como pode à medida que Destiny lhe feria o corpo. Tentava se mexer, mas seus braços e pernas foram atados à grandes pedras.
Por fim, Faye deu o sinal de que estava pronta para receber o espírito que levaria a alma de Lucius e traria de volta a alma do antigo amor de Destiny quando ela, segundos antes de cravar com força a adaga no peito de Lucius, o coveiro, bem onde ficava o coração....hesitou. Por breves segundos, apenas, mas sim hesitou na ação e essa pequena hesitação foi o bastante para colocar tudo a perder.

Lucius, o coveiro morreu no instante seguinte que a adaga lhe penetrou o peito. De alguma forma ele urrou sua dor, mas ninguém ouviu, é claro. Pouco antes de matar o jovem, Destiny olhou em seus olhos negros e brilhantes e mais uma vez viu neles seu antigo amor. Mal sabia ela, porém, que o sacrifício tinha apenas uma condição: a pessoa a ser sacrificada não pode ser ''objeto'' de qualquer tipo de afeição daquele que o sacrificará.

E foi por isso que Faye havia perguntado se ela amava o coveiro. Destiny, na ânsia de trazer de volta seu antigo namorado respondeu que não, mas no fundo... bem no fundo sabia que sentimentos pelo jovem coveiro começavam a brotar em seu coração há tanto tempo amargo. Ela não teve seu antigo amor de volta.
Faye foi consumida pelo espírito que exigiu uma alma, uma vez que ele foi chamado. A idosa bruxa olhou para Destiny, e sorriu antes de erguer a mãos para o céu e se deixar queimar pelas chamas negras que dançaram ao seu redor depois de surgirem do chão do cemitério.
Destiny foi condenada à uma vida de sofrimento. Jamais seria capaz de se apaixonar de novo por qualquer pessoa que fosse, porém, nunca morreria de modo que jamais se juntaria a Lucius, seu ex-namorado. Seria obrigada a vivenciar a alegria de outros casais felizes sempre que saísse na rua, e sempre que seu olhar parasse em pessoas portadoras do amor verdadeiro, seu coração sentiria uma dor lancinante, quase como um infarto, de modo que o órgão dissesse que ele sente agora. E sente dor.

Esse foi o preço que ela teve de pagar por escolher tirar uma vida inocente em benefício próprio, no entanto, seu maior pecado foi matar alguém que ela amava, pois pior que perder alguém amado, é ser  a causa da morte dessa pessoa.

[ crédito da imagem: http://itsopendoor.blogspot.com.br/2012/11/a-humanizacao-e-romantizacao-do-grotesco.html ]





Um comentário:

  1. Te enviei um convite no diHITT! Seguindo teu Blog! Um abraço!
    http://www.luceliamuniz.blogspot.com.br/

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