Sobre a Maldição do Tempo

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E de repente o objeto refletor parece estar distorcido. Quebrado. Manchado.
Espero. Não é o objeto que está estragado.
É o que ele reflete. Como os anos podem ser cruéis. Como o tempo pode machucar um corpo. Uma mente. Um ser.
Que coisa.

Suas pernas se cansam mais rapidamente. Correr para brincar de ''pega pega'' com o amigo não é tão divertido, mas se tivesse que correr de lobo em segundos estaria morto. A fadiga está sempre presente. Em muitas partes desse par de membros que você força e lhe levar para o trabalho todos os dias aos poucos surgem erupções feias que lhe forçam a estar sempre de calça. Os pés estão estranhamente feios, logo, um tênis é usado até que seus dedos apareçam na ponta. Suas mãos  são tortas. Cheias de pelos nos dedos e dedos com unhas mal feitas. Quebradas. Não resistem nem mesmo a uma semana. Mãos amassadas. Pequenas demais. Mutantes demais. A letra cursiva um dia tão bela hoje é semelhante aos escritos dos médicos que visita com tanta frequência.

É tudo flácido e mole. Você poderia ser um brinquedo. Daqueles em que as crianças tanto gostam de pular em cima. No seu rosto decrépito, coberto por produtos diversos, outras manchas, outras pústulas. Os produtos são em vão. Nem o que foi feito especialmente para tornar belo é capaz de lhe consertar.

Suas costas são finas e pequenas. Seu quadril é largo, mas é vasto de modo que as calças mais bonitas ficam estranhas e seu traseiro puxa-as para baixo. Que frustrante! Logo está andando de cabeça baixa, pois teme encontrar um olhar que julga. Um olhar mal olhado. Um olhar risonho. Pois aqueles que olham sabem o que veem. E o que veem não é belo.

Seu pobre cabelo, antes tão belo e cheiroso, hoje decidiu que seu lugar não é sua cabeça. Cada vez que suas mãos pequenas resolvem brincar com ele, grandes e muitos fios se desprendem com facilidade e pairam no chão. Um lugar melhor. O pente por maior que seja puxa muitos fios, que insólitos não resistem à força e logo estão em outro lugar, exceto onde deveriam estar.

Entre seus seios e seu quadril há uma protuberância, grande demais e torta demais, que sai para os lados quando encontra uma calça que não cede à força do seu traseiro amolecido, logo, busca no guarda-roupa uma camiseta larga que cubra tal deficiência do corpo. Sorri para si diante do objeto refletor, mas logo fecha a boca, pois os dentes estão torcidos e amarelados. Que coisa! Tenta sorrir com os olhos,  mas eles são tão grandes quanto os de um lêmure que o sorriso do olhar chega a ser assustador, portanto, tenta ( em vão ) os diminuir e percebendo a inutilidade de tal ação força-se a sair do quarto com os olhos amaldiçoados.

Em cada parte do seu tecido maior há uma mancha estranha. Onde foi que bateu aqui? Oras, o que te feriu ali? E esse machucado aqui? Parece antigo, não deveria ter curado?

Sim, acredito que tudo deveria ter curado.


Ah, vinte anos!


Demons

Mas alguns demônios simplesmente 
se recusam 
a sair daqui, dali 
de dentro de mim

O exorcismo que executo todos os dias
à noite torna-se em vão; Minto
Ao longo do dia já enxergo a queda de meu
coração

A cada palavra que minha boca seca diz 
cada olhar que meus olhos mortos 
veem
a cada toque que eu, tolo, insisto em dar
é um passo do demônio que estou de me tornar

- Eu cortei o fio que me ligava à Salvação
Destruí a esperança capaz de me dar Redenção -

É estranho reconhecer 
que no final o ruim é você
é triste olhar no espelho e ver
O monstro que por tanto tempo 
Recusou crer, e agora admite ser

Quanta maldade pode caber em um corpo tão pequeno?
Quantas mentiras pode um cérebro processar
e ainda se dizer humano?
Quanto amor alguém pode sugar sem nada retornar?
Ó, mestre! Quanto de mim restou para amar?



Queria ter escrito mais versos, mas simplesmente não consegui.




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