A nadificação da vida

O deterioramento do corpo, da casca que envolve a alma. A aproximação da nadificação da vida. O esquecimento do nome dado ao ser. O não para o último suspiro. O que foi e o que é, jamais será de novo.

A essência do ser que veio depois de sua existência está mais perto de se extinguir. Todas as palavras serão deixadas para trás e talvez nem seus escritos sejam capaz de salvar sua memória. O caminhar seco e vagaroso quando chegar na mais triste das idades deixará evidente o que o corpo é diante da vida sem nexo que somos obrigados a viver. Em busca da felicidade caminhamos, mas ela não é uma busca suficiente para nos manter vivos para sempre. Nem com um um estrondo nem com um suspiro, o mundo acaba em desilusão. 

Descobre-se homem quando encontra algo pelo qual vale a pena morrer, já dizia sábio Sartre, mas quando de fato a morte se aproxima descobrimos que mais teria valido a pena viver uma vida plena ao lado daquilo estimado ao contrário de morrer por determinada coisa. Um suspiro e nada mais, nem um sorriso de gratidão. São as lágrimas que preenchem teu caixão.

As mãos decrépitas não tocam mais o piano, não fazem rabiscos ou caligrafias no papel. Papeis manchados de lágrimas e coloridos pelas dores da vida. Os dentes estão amarelos, logo, nunca mais se viu um sorriso naquele rosto enrugado, naquele rosto pintado pelo tempo. Os olhos somem dentro da face marcada pela flacidez, os cílios caíram junto do espírito do ser que agora se encontra no chão.  A magreza antes tanto estimada agora é vista como uma praga, pois faz do envoltório da alma algo horrendo de se olhar. Tanto pelo que cai e tanto desagrado que se faz. 

A nadificação da vida. 

Ônix.

O tempo.

O dia.

É só mais um dia, afinal.


Happy Birthday, Thays!


Klaus - Parte IV

Você pode ler as partes I AQUI, II AQUI e III  AQUI  !


- Isso não é possível! - disse uma voz feminina que não pertencia a Phoebe. Margot caminhou alguns passos para frente, as mãos tremendo, mas ela se manteve firme. - Saia da frente, lobo. - disse para Norton que estava tão assustado quanto ela. - Preciso ver isso de perto. - Com os olhos arregalados e a mão estendida ela caminhou devagar até Klaus como quando tememos a mordida de um cão, porém, a beleza dele é chamativa demais, logo, nos aproximamos devagar para mostrar que ele não precisa temer nada.
Não era o caso de Klaus, é claro. Ele nunca temera nada na vida e não seria uma feiticeira a primeira a causar-lhe medo. Sabendo disso quando Margot aproximou-se o suficiente Klaus rosnou ainda mais alto e ela recuou. Olhou bem em seus olhos azuis e disse:
- Acho que por essa nem você esperava, Margot. Vou acabar com sua matilha de cães sarnentos e depois farei com você o que fiz com sua família. - e terminando essa frase Klaus fez uma investida. Saltou em direção à Margot, mas a bruxa foi mais rápida. Desviou rapidamente, mas não antes de erguer a mão direita e murmurar algo em latim. Um feitiço. E Klaus caiu para o lado.
Não foi forte o bastante para faze-lo permanecer no chão, mas foi o suficiente para Margot se esconder atrás de Norton.
- Acabe com ele, lobo.
- Como espera que eu acabe com um híbrido? - Norton estava claramente assustado. Toda a pose de durão que fizera há alguns minutos pareceu desaparecer diante de Klaus, um hibrido e o primeiro que ele vira na vida.
- Você tem um exército de lobisomens, Norton. Use-o.
- Esse exército de cães não será o suficiente, Margot. Acredite. - disse Klaus, calmo.
- Você não é o primeiro híbrido da história, Klaus. - ela retorquiu.
- Mas com certeza sou o melhor. - em seguida Klaus partiu para cima do lobo mais próximo. O lobisomem não teve nem chance de pensar no que fazer. Em segundos, seu pescoço estava sangrando consideravelmente. Ele urrava de dor, mas Klaus foi misericordioso e quebrou o pescoço do lobisomem. Limpou a boca com as costas da mão e olhou para o seguinte. Dois lobisomens se prontificaram a ataca-lo. Klaus sorriu.
Margot estava se preparando para correr. Mas Klaus percebeu seus movimentos ínfimos e desviou a atenção dos dois lobisomens. Com sua velocidade de vampiro ele seria rápido, mas o poder de ser um híbrido era muito maior e ele tirou proveito disso. Em instantes estava bem na frente de Margot. A mulher, uma poderosa feiticeira que nada temia nem nunca temeu, estava aterrorizada.
- O que vai fazer, Klaus?
- O que acha que vou fazer, Margot? Você tem feito da minha vida um inferno e agora se alia aos lobos para me destruir? O mínimo que posso fazer por você é dar-lhe uma morte rápida.
- Você não entende mesmo, não é?
- O que tem para entender? Você me odeia, eu te odeio. Eu matei sua família, você me perseguiu desde então. Mas está na hora de colocar um fim nisso.
- Você não entende que eu sempre te amei?!
***

Phoebe ficou enfurecida ao ouvir aquela declaração de Margot. Queria sair daquele arbusto e bater na feiticeira, porém, ela era apenas uma humana e sabia que os poderes de Margot precisavam ser levados em consideração. Phoebe socou o chão. Limpou-se como pode na água do lago, mas era noite e ela pouco enxergava. Socou o chão de novo.
- Droga! Droga, droga e droga! - disse, baixinho. Estava realmente com raiva, e quase gritou que Klaus era dela e não de Margot.
No entanto, o que foi baixo para Margot era alto suficiente para os lobos. E eles ouviram. E como.
Em instantes Norton estava ao lado de Phoebe. Olhando de cima. Sorrindo. Ela fez menção de correr. Afinal era o que Klaus lhe mandara fazer, mas ela não conseguiu, é claro. Nem que tivesse alguma vantagem, Norton era um lobisomem. Um lobisomem forte e poderoso. E um lobisomem que estava bem ao lado dela.
- Olha só o que eu achei. Esse bichinho estava escondido naquele arbusto!
- Me solta, seu cachorro pulguento! - disse Phoebe tentando sair do abraço rude de Norton.
- Parece que essa aqui passa tempo demais com o Klaus, Margot. - disse Norton depois de ouvir o xingamento normalmente usado por Klaus.
- Ora, ora, ora! - disse Margot, quando ouviu o Norton dissera e virou-se para ver Phoebe. - Finalmente posso conhecer você, minha jovem.
- Queria me conhecer? - perguntou Phoebe um pouco surpresa.
- Mas é claro! É uma honra poder estar na presença daquela que conseguiu fazer esse aqui - apontou para Klaus - mostrar algo que até então eu achei que não existia nele: o coração. - Ela cruzou as mãos e caminhou na direção de Phoebe.
Klaus colocou a mão no ombro de Margot tentando faze-la parar de andar, mas na mesma hora Margot levantou a mão e Norton soube o que ela quis dizer. O homem apertou os ombros de Phoebe que gritou de dor e Klaus entendeu o recado. Soltou Margot.
- Acalme-se, criança. Não vou matar você. Não agora, é claro. - Margot riu. - Está um pouco suja, não? Fez isso para disfarçar o cheiro na presença dos lobos?
 Phoebe apenas meneou a cabeça. Estava massageando um dos ombros.
- Muito inteligente, mas não foi o bastante. Como eles te descobriram?
- Eu a ouvi, Margot. Ela murmurou algo. Bem baixo, mas eu pude ouvir. - disse Norton, rapidamente.
- Ah, sim. Entendo. Ficou com raiva de alguma coisa, eu suponho?
- Ora, sua bruxa! Fica longe do Klaus! - esbravejou Phoebe. A dor em seu ombro era grande, Norton poderia tê-lo quebrado, mas a raiva pulsante em seu peito era maior.
- Mas é claro. O ciúme.
- Deixa-a em paz, bruxa! - Klaus aproximou-se.
- Calma, Klaus. Ela não é minha prioridade, você sabe. Mas podemos negociar.
- Diga-me o que quer.
- Tudo bem. - ela descruzou os braços e colocou as mãos na cintura. Olhou para Phoebe e depois para Klaus.
- Klaus! Não faça nenhuma loucura, eu lhe imploro.
- Nada de loucura, criança. Na verdade, o acordo é bem simples. - a mulher sorriu ainda mais. Aqueles sorrisos maldosos que os vilões costumam usar nos filmes.
- Klaus. Você vem conosco e a garota vive. É com você. - Margot cruzou os braços novamente e continuou sorrindo para ele.
Nesse momento Phoebe se descontrolou. Estava enfurecida, mas ao mesmo tempo seu corpo estava cheio de adrenalina. O medo de perder Klaus para sempre era grande demais. Deu um soco no rosto de Norton que desprevenido sentiu o punho dela e a soltou. Phoebe partiu para cima de Margot, mas a bruxa era esperta e rápida, desviou-se com elegância. Klaus bateu em uns dois lobisomens que estavam perto dele e correu para Phoebe. A abraçou e a levou para a árvore mais próxima. Em seguida, a acalmou. Disse algo baixinho no ouvido dela e então...
Seus dentes largos e grandes ele cravou no pescoço dela. Ela gritou, mas logo o som foi abafado pelos gritos de Margot que dizia "não e não", no entanto, ela foi mantida em seu lugar por Norton. Uma das mãos no pescoço de Klaus e a outra na cintura, ambas o arranhando com força, Phoebe estava sendo atacada pelo Demônio. O sangue escorria em seu pescoço. Ela se deleitava com a sensação já experimentada tantas vezes, porém, ela sabia que ele não iria parar até o momento que uma única gota de sangue restasse em seu corpo. Dessa forma ela morreria e poderia retornar como vampira.

Klaus olhava para todos a sua volta com seus olhos amarelos e brilhantes. Quando terminou de beber o sangue de sua amada a colocou gentilmente no chão. Sem que ninguém notasse colocou um tubo negro no bolso da calça de Phoebe. Cruzou os braços da moça na barriga dela. Ajeitou o cabelo e beijou sua testa.
Virou-se para a matilha e para a feiticeira.
- Vamos.
Margot sorriu e pegou na mão de Klaus. Norton de princípio não entendeu o que vira. Se Klaus a amava tanto por que a matou?
Naquele momento Klaus fez o que nunca pensou que faria: deu a sua vida pela vida de outra pessoa. Naquele momento, também, ele abandonou sua amada e foi embora com os lobisomens e com a bruxa mais poderosa que conhecera. Ele sabia o que lhe aguardava. Uma morte cruel e dolorosa.
Mas ele salvara Phoebe, certo? Logo, sua consciência estava em paz.