Aquele que foi sem nunca ir

Uma vez conheci um demônio.

***

Sou a folha morta da primavera
Não sou o que fui, e nunca o que era
Sou a desgraça dos fortes com amor
Eu sou aquele que causa dor


Eu sou aquele que não pede perdão
Pois sabe que não é digno, não
Eu sou aquele que pede misericórdia
Por causar agonia, por ser a discórdia

Sou o fruto gerado do caos, e da desonra
Eu sou o caminho mal feito, a caminhada mais longa
Sou a ferida que não curou
Sou aquele que mata sem pudor

- Eu sou o Monstro desejoso de ferir
Eu sou aquele que foi sem nunca ir
Eu sou o aborto da natureza
Sou o vinho sem álcool posto na mesa -

Sou a flor sem fruto
O nada sem tudo
Eu sou o abismo escuro
Sou as entranhas sem fundo



Eu sou o Inverno mais frio
O vidro trincado
Não! Eu sou a rachadura
Eu sou aquele sem estrutura

O odor de fracasso e o olhar do medo
O trinco no espelho
O reflexo sem jeito
Eu sou aquele abandonado
Sozinho no próprio leito

Mas com razão
Não há coração
Sem sorriso
Discreto e solícito

Eu sou o Monstro que desperta
Aquele que machuca e aquele que leva
Minha função é prover agonia
Deixar-te louco

Eu sou aquele que foi sem nunca ir
Eu sou o enviado para te ferir !

***
10.09.15

Eu sou a dor da ferida não curada
A rachadura da pedra que foi lançada
O rasgo no peito que foi ferido
Eu sou aquele que pode ser esquecido

O poema nunca acabado
O corpo não morto que foi ao fogo
lançado
Eu sou aquele que jamais será lembrado

O pedaço de papel amassado
A mão do pianista que não toca
A música que não foi tocada
Eu sou a pintura que foi apagada






Um comentário:

  1. Perfeito, muito filosósfico, como sempre.(Mamasita)

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