Lupus - Parte IV

Você pode ler as Partes I, II e III e AQUI, AQUI e AQUI

Depois de se recuperar do soco bem levado no lado esquerdo da face, Henry ajeitou as roupas, limpou-as e parou para sentir o cheiro de Jonas.  Nada. Tentou sentir o cheiro de um dos lobisomens da Grande Matilha. Nada. Tentou sentir o cheiro de Nina.
Nada.
Droga!
 O único lugar para onde Jonas poderia ter levado Nina era para sua casa. Melhor dizendo, sua mansão. Não ficava muito longe de onde Henry estava, mas ir andando mesmo na condição de lobo seria cansativo demais e ele precisaria de toda a força possível na hora de enfrentar os capangas do Alfa e o Caça, novamente. Procurou pelo chão da casa as chaves do carro que Nina deixara cair quando Jonas a atacou.
Não demorou muito a achar. Do estofamento do sofá tirou duas armas. Uma pistola pequena e um fuzil de assalto. No fuzil colocou balas de prata. Estavam escondidas dentro de um livro que ele guardava na prateleira da sala, perto da televisão. Na pistola colocou balas comuns. Jogou tudo no banco do carona de seu carro e depois de ligar o motor saiu cantando pneu pelas ruas de Massachusetts
Depois de quinze minutos em alta velocidade, uma vez que pegou a estrada ao invés de cortar a cidade, Henry começou a avistar o local. A mansão de Jonas era cercada por grandes muros que impediam a visão da casa propriamente dita se você estivesse muito longe. Antes de entrar na propriedade, de fato, ainda havia muita coisa. Era quase como se ele tivesse a própria floresta, projetada especialmente para ele se transformar quando bem quisesse. Mas o grande portão estava aberto.
Jonas sabia que Henry iria atrás dele.
O cara não brinca mesmo, hein. Pensou Henry. Saiu do carro. Pegou as duas armas e passou pelo portão.
Entrou na propriedade dando tiros para o alto com a pistola e as balas comuns.
- JONAS! Apareça, seu desgraçado!
Não obteve resposta.
- JOOOOONAS!
Henry estava furioso. Tão furioso que poderia se transformar ali mesmo, rapidamente, e ainda teria forças para brigar com Caça e Jonas ao mesmo tempo. Mas esperou. Quando estava de frente para a porta gigantesca da Mansão, Jonas saiu:
- Ora, mas que barulheira é essa, Henry?
- Cadê ela, Jonas?
- Quem?
- Não banque o idiota comigo, desgraçado! – e atirou em direção ao Alfa, mas errou de propósito e Jonas sabia disso, tanto que nem se mexeu.
Alguns lobisomens começaram a sair de dentro da Mansão e quando Henry menos esperou um deles saiu com Nina nos braços. A garota amordaçada e com lágrimas nos olhos. Seus lindos olhos verdes marejados de dor, mas uma dor não pertencente a ela. Nina temia por Henry.
- Deixa-a ir, Jonas. Sua briga é comigo, cara!!!
- Tudo bem. Vou deixa-la ir. Se parar com as gracinhas e voltar para a Matilha.
- Qual o seu problema? Você tem dinheiro suficiente para três vidas. Não precisa mais de mim.
Jonas deu sinal para os outros lobisomens irem, inclusive o que segurava Nina. Henry ficou ainda mais furioso e fez menção de ir atrás dele, mas Jonas apenas levantou a mão em sinal para que ele ficasse onde estava. Obedeceu.
- O lance é o seguinte, Henry. – começou Jonas, caminhando em direção a Henry agora mais próximo da porta, mas ainda fora de casa. – Que se você sair assim, depois de tudo que eu lhe dei os meus caras vão começar a pensar que bastam entrar na Matilha, conseguir uns trocados e pronto! Eles podem sair também.
- Claro que não vão pensar assim!
- Vão sim. Inclusive, nosso coleguinha Charlie já está querendo fazer o mesmo e você sabe que não posso libera-lo, né.
- O que aquele cabeça de alga do Charlie lhe disse?
- Nada. Só que como você estava saindo ele também iria. Simples, Henry. Você é o nosso melhor. Se você sai a credibilidade cai e eu não posso fazer isso.
- Por que se importa tanto com dinheiro?
- A questão não é mais o dinheiro, Henry e sim o poder.
- Típico. Mas enfim. Cadê a Nina?
- Acho que você ainda não sacou, Henry. Não tem Nina se não tiver Henry na Matilha.
- Que droga, Jonas!
Em seguida, Henry pegou o fuzil que estava estrategicamente guardado nas suas costas, escondido pela jaqueta de couro e mirou em Jonas. O Alfa riu, mas não se moveu.
- O que vai fazer, Henry? Vai matar seu Alfa? Vai reclamar o direito de ser o novo líder?
- Se isso me trazer Nina de volta eu mato o bando todo!
E atirou. Acertou Jonas que não acreditou que Henry seria capaz de matar seu criador na licantropia. Jonas caiu. Henry se transformou. Nina, dentro da casa, gritou. A batalha iria começar.

 [http://viergacht.deviantart.com/art/Werewolf-Fight-452052423]

Rebels - Parte I


Dave entrou no seu Porshe 911 preto e depois de ligar o carro aumentou o volume do rádio a um nível quase ensurdecedor, em especial, se você não aprecia o estilo de música heavy metal pesado. Pisou na embreagem e colocou a primeira. Saiu do lugar e passou a segunda. Sorrindo maliciosamente já estava na terceira. As ruas de Seattle estavam vazias àquela hora da noite. Mal iluminadas pela Lua Cheia e parcialmente pelas luminárias, mas Dave não prestava atenção em nada. Seu pé no acelerador pressionando cada vez mais forte era tudo o que importava. A bateria da música soava forte. A guitarra gritava enquanto o jovem dançava sob as rodas do carro. Um sinal vermelho. Não havia ninguém a cruzar a rua. Ele não parou. Passou a quarta marcha. Estava correndo demais. Mas era exatamente aquilo que ele queria. Seu cabelo liso mal podia captar a luz, permaneceu tão preto quanto o era naturalmente. Jogado com força para trás pelo vento. Seus olhos azuis fitavam o nada à frente. Ele não via nada a não ser velocidade.  Seu sorriso branco à mostra deixavam transparecer o prazer que sentia em correr. Minutos depois já estava fora dos limites da cidade. Rodeado de árvores que pareciam meros pedaços de madeira presos ao chão diante da velocidade que ele estava. Não poderiam acompanha-lo nem se quisessem. Foi então que passou a quinta marcha. O barulho do motor ainda que inaudível devido à música podia ser sentido. Ele sentia o poder que aquele carro lhe proporcionava. Ele adorava aquela sensação. Não iria parar por nada. Não iria parar tão cedo. Até que ...
Ela surgiu do nada. Simplesmente assim. Embrenhando-se na estrada depois de simplesmente sair do meio dos pinheiros do lado esquerdo da estrada. Tinha nas costas uma bolsa grande, no formato de um violão. Na mão uma bolsa de lado que ia até a cintura. Preta assim como o restante das roupas o que dificultou a visão de Dave. Não que roupas coloridas e brilhantes fariam diferença, uma vez que o garoto parecia um piloto de corrida querendo vencer a todo custo. Mas o estrago não fora pequeno.
A garota ficou bem. Foi esperta o bastante para desviar do Porshe, mas caiu em cima do violão e esse sim sofreu um estrago grande. Partiu-se ao meio. Dave pisou no freio ao mesmo tempo que tentava fazer uma curva. Não deu muito certo. O carro capotou de uma forma que qualquer um o teria condenado na mesma hora. Foram duas viradas dignas de filme de Hollywood e o carro só parou depois de dois metros, bem próximo a uma árvore. A garota depois  de se levantar e limpar as roupas foi correndo em direção a ele. Assustada, tremendo, mas firme na decisão de ajudar o rapaz abaixou-se para olhar dentro do carro que estava virado, de ponta cabeça e Dave lá dentro, todo torto e com algumas manchas de sangue na blusa, um leve corte da cabeça... Mas vivo. Respirando.
A garota conseguiu puxar a porta e removeu o cinto dele. Puxou-o para fora do carro.
- Cara! Como você tá? – perguntou enquanto o ajeitava em seu colo. Ela estava sentada em cima das próprias pernas, de joelhos no chão. Colocou a cabeça de Dave nas coxas e tirou o cabelo do rosto dele. Em nenhum momento ouviu-se a voz dele. Tudo o que ele fez foi gemer, sem abrir os olhos. – Cara! Acorda. Preciso saber se você tá bem.
- Eer – Dave murmurou. – Es-estou bem. Acho que não quebrei nada.
- Ah isso é bom.
- Também acho.
- Não! É bom que não tenha quebrado nada, pois agora eu posso quebrar pra você, seu maluco idiota!
E levantou deixando Dave caído no lugar onde antes estava sentada. A garota estava furiosa. Qualquer um que visse seu estado de espírito naquele momento seria incapaz de dizer que ela estava toda preocupada minutos antes, inclusive, ajudou Dave a sair do carro e até o acolheu no colo.
- Como assim, garota? Você tá louca? – perguntou Dave à medida que se esforçava para levantar e em seguida ajeitar as roupas, agora mais que rasgadas e sujas.
- CARA! Você quase me matou. Pra que correr assim? Não olha por onde passa? E meu violão! MEU VIOLÃO! Ele já era.
- Você toca?
- Não. Toco não. Eu fico furiosa quando um lunático quebra meu violão que eu por acaso estava levando no meio da noite, mas eu não toco, tá?
- Tudo bem. Saquei o sarcasmo.
- Você vai sacar a minha mão na tua cara. – e avançou alguns passou, mas parou antes de chegar próxima o bastante para acertar Dave. Forçou-se a respirar fundo.
- Olha, me desculpa, tá? Vou te levar pra casa e arranjar um novo violão.
- Ah que ótimo! E como vai fazer isso, espertinho? Seu carro virou farofa caso não tenha notado.
- Só torcer para meu celular ter sobrevivido. Vou ligar para meu pai.
- Torce pra ele não te matar também. Tem que ser muito burro pra estragar um Porshe lindo desses. – e caminhou para mais perto do carro. Arregaçou as mangas e colocou o cabelo para trás. Fez um rabo de cavalo. Limpou um pouco de suor na testa e ficou encarando Dave.
Dave não falou nada. Estava admirado com aquela garota toda nervosa e revoltada. Que tocava violão e entendia de carros. Usava roupa preta e maquiagem pesada ao estilo heavy metal. Que o enfrentou. Provavelmente não sabia quem ele era. Ele estava fascinado.
- Pai? Então... Tô com problema. É que bem... – Dave respirou fundo. – Eu bati o carro e tem uma menina... – foi interrompido. – Calma, pai. Ninguém se feriu. Eu só preciso voltar pra casa. Dá pra mandar alguém? – esperou. – A gente tá na estrada, aquela que dá saída da cidade. É, aquela mesmo. Tá bem. Tchau.
Dave olhou para a garota que brincava de chutar um cascalho qualquer. Quando notou que ele parou de falar ao telefone foi em direção a ele.
- E aí, ligou pro papaizinho vir buscar a gente?
- Eeeh, qual é, garota?
- Eu já saquei seu tipo, garoto. E quero meu violão, tá bem? Não é como se você não tivesse dinheiro, então ... Enfim quando ele chega? Já estava atrasada. Agora então.
- Atrasada para que posso saber?
- Pra tocar, oras.
- Então você tem uma banda? – interessou-se Dave. Se ela tocasse bem até que  poderia se juntar aos Rebels of the Night , afinal, seria a única menina da banda e uma menina bonita. Seria fácil chamar a atenção.
- Não. Não tenho banda. Mas pratico, e esse – disse apontando para o relógio preto de pulseira com pinos – é o meu horário de prática.
- Huum, garota dedicada. Eu tenho uma banda, sabe. – disse Dave com olhar baixo para ela.
- Interessante. – disse, sem demonstrar interesse de verdade. Voltou a chutar cascalhos.
- Você não tem a menor ideia de quem eu sou, né?
Ela olhou para ele com seus olhos grandes e verdes. Colocou uma mexa do cabelo ruivo e longo para trás da orelha. Sorriu somente com os lábios, aquele sorriso forçado e disse:
- Além de que você é um lunático filhinho de papai que se acha no direito de quase atropelar as pessoas... Não faço a menor ideia.
- Eu não acho que posso atropelar ninguém. Você só estava no caminho.
- Aham, claro. – disse ela revirando os olhos.
- Tá. Me desculpa.
- Ok.
- É sério. Até quando vai manter essa pose?
- Que pose, garoto?
- Essa de que não tá nem um pouco interessada em como vou fazer com o Porshe ou mesmo de saber se tenho outros carros semelhantes. – disse Dave sorrindo de leve e ajeitando os cabelos lisos e negros. Foi se aproximando devagar da garota, pois sabia que não poderia abusar da sorte, uma vez que quando ele falou do Porshe ela olhou para ele com mais interesse.
- E você tem?
- Chega aqui. – disse Dave abrindo o aplicativo de fotos no celular. Mostrou as várias fotos dos diversos carros que o pai guardava na garagem da Mansão em que viviam em um bairro isolado de Seattle. A cada nova foto a garota sorria e vez por outra fazia um comentário a respeito do modelo do carro. Coisas simples como “acho demais esse Dogde” ou “ esse Nissan, hein “ . Por fim, ela cedeu e passou a tratar Dave com menos brutalidade. Estavam mais próximos um do outro, e ela até removeu, com tapinhas de leve, um resquício de poeira que ficara na jaqueta de couro dele. Estavam se entendendo finalmente, em especial, depois que ele mencionou a banda novamente e como tudo começou. Até então nomes não haviam sido trocados.
- Mas então. Qual seu nome? – perguntou Dave quando se cansaram e resolveram se sentar no limite da estrada e a floresta.
- É Katherine. Mas pode me chamar de Kat. Katherine é muito grande.
- Kat. Ok. Gostei.
E ficaram ali. Apenas esperando. O tempo começou a fechar e ambos temeram a chuva, que não veio, mas deu lugar ao vento frio e gélido.  Dave notou que Katherine se encolheu um pouco mais e nem se deu ao trabalho de perguntar se ela queria sua jaqueta. Foi logo tirando e colocando por cima dela.
- Obrigada.
- Que isso. Te devo muito mais. Lembra? Quase te matei.
- Ah é. Vou cobrar.
Riram. Estavam próximos. Próximos demais. O frio os aproximara. Ela sorriu quando ele contou que fizeram um grande show num bar no último sábado. Colocou uma música para tocar ela adorou o ritmo pesado, a letra apelativa e as batidas fortes. Quando a música cessou eles estavam se encarando. Ele encantado com o sorriso dela que demorou a aparecer,  mas uma vez que ali estava ele notou que era, de fato, maravilhoso. Ela abismada com o olhar cafajeste dele, mas ao mesmo tempo carinhoso. Aquele olhar penetrante que consegue conversar com você. Por trás dos olhos azuis do rebelde sem causa ela viu que havia mais nele. Que sua vontade de transformar o mundo através da música era mais forte que sua vontade de desafia o pai.
Eles estavam a um passo de um beijo. Separados pela respiração um do outro. Pelo vento. Por um telefonema.
- Droga!
- Quem é?
- Minha namorada.



* A imagem é da série Victourious, personagens Jade e Beck. Inicialmente, Dave deveria ser Daniel Sharman, mas não consegui pensar em uma garota tão bad girl quanto ele e que poderia ser representada por outra pessoa. Então, ficou a Liz Gillies *-*