Pills

"Por que obrigam-me a cobrir o rosto com falsos adornos, com pós e cremes que julgam ser capazes de melhorar aquilo que sou forçada a olhar todos os dias frente ao espelho? Mas talvez tenha eu usado a forma gramatical errada, uma vez que ninguém obriga-me a nada e sim eu mesma. A razão de tal ato desconheço, o que sei apenas é que um reflexo horrendo é o suficiente no dia, olhar-me mais de uma vez seria tortura. Portanto, esforço-me [ em vão ] para encontrar a melhor forma de sair de casa e poupar aqueles que me rodeiam de tal imagem distorcida. 

Por que obrigo-me a comer de menos ou outras coisas demais na esperança de fazer deste envoltório algo belo de se olhar e quem sabe algo divino de se tocar? Mais uma vez, a razão de tal ato desconheço, o que sei apenas é que um reflexo horrendo é o suficiente no dia, olhar-me mais de uma vez seria tortura. 

Por que obrigo-me a passar os olhos em livros e textos que julgam ser capazes de fazer-nos mais próximos de seres humanos importantes e inteligentes quando na verdade mal entendo o que meus olhos leem e levam a meu cérebro cansado e mal formado, logo, incapaz da compreensão de tais palavras e conceitos?

Quando canso-me de tantas dores, de olhar os outros, de ver a vida correndo, de ver sorrisos que não são meus, de ouvir vozes que não são para mim, forço garganta abaixo um choro alinhado de alguma pilula, mas não se preocupe, não é nada perigoso, mas é o suficiente para manter-me na cama o bastante para que minha mente seja capaz de descansar... ou talvez não, mas é o bastante para que eu não chore solitariamente em meu quarto desprovido da luz do sol... de luz da vida. 

Há pouco tempo aprendi que pequenos cadernos são melhores ouvintes que as pessoas... uma velha amiga me disse, e decidi ouvir. De fato, muitas vezes um bloco de notas parece entender-me melhor que aqueles que uma vez disseram se preocupar. Acontece que a angústia é algo que ou você sente ou você não sabe o que é, logo, tudo o que dizem é que vai passar. Mas há anos que estou esperando passar e ate hoje ela permanece comigo, quase como uma segunda pele, uma sombra... como se fossemos uma só pessoa. 

Queria eu ser capaz de exumar toda essa dor que me impede de caminhar pelas ruas, como a maioria das pessoas, ou mesmo pelos cômodos de minha própria casa. Como um espírito solitário e sombrio em busca de descanso é como me sinto. Mesmo ao lado daqueles que dizem amar-me é como se houvesse uma barreira que me impedisse de acreditar em tais palavras, afinal, como um ser deplorável digno de pena e não de amor poderia receber tal atenção? 

O que querem saber é quanto tempo falta para sucumbir ao abismo negro que consome-me um pouco mais a cada nascer no sol. Perguntam, mas por dentro há aquele sorriso doentio à espera da resposta que não é: está tudo bem. E sim, não ela não existe mais. Cada falso olhar que é dirigido a mim, a nós, a todos eles mas nunca diretamente para minha alma que pede, que grita, naquele quarto, que busca no fundo da gargante ferida pelo próprio choro um auxílio. Mas ele nunca chega. Não há propósito. Não há como ele chegar. São questões sem solução, não há matemática suficiente para resolvê-las. 

A decadência é tão grande que nem mesmo naquilo que um dia, erroneamente é claro, julguei ser capaz de fazer corretamente, hoje percebo que nunca soube. Era tudo uma grande ilusão, uma insistência fútil de tentar vencer, mas tantos outros já haviam vencido, portanto, não haveria lugar para um verme miserável que acreditou ser capaz de ultrapassa-los. 

A felicidade é um conceito relativo. Ela pode estar em todo lugar e em lugar  nenhum. Mas a felicidade de verdade se resume há uma cápsula, um pozinho mágico envolto por um plástico que se desfaz dentro de nós. "

- Harriet A. Croft



Mais uma vez essa mulher expressa os sentimentos melhor que eu, rs