Blut - Parte I

Alessa caminhava à noite, de madrugada. O brilho da lua cheia refletido nos seus olhos negros. Vestia preto como de costume, um batom vermelho na boca carnuda e lápis preto, claro. Seus passos eram tão silenciosos, as botas de salto fino tocavam o chão como se fossem apenas nuvens.  Nem mesmo o mais astuto animal notaria sua presença, até mesmo porque sangue quente não corria em seu corpo... gélido.
No beco da rua ela parou de súbito, pois de longe ouviu um singelo ruído. Muito baixo, mas seus instintos e audição aguçados não a deixavam na mão, jamais. Encostou na parede e ouviu:
- Kira, você não devia estar aqui. ( sussurou a menina ) - Alessa caminhou mais um pouco para ver quem eram.
- Eu sei,mas eu precisava saber se você estava bem. ( sussurrou ainda mais baixo o rapaz )
Nesse momento, Alessa estava próxima o bastante para fitar o casal, claro que sua visão ajudava, uma pessoa normal jamais enxergaria qualquer coisa àquela distância.
- Eu sei, mas eu estou bem e você precisa ir embora. Não devia ter me chamado. ( disse a garota um tom mais  alto )
- Eu ainda me preocupo.
- Mas você não deve... Terminamos há um mês. Você precisa seguir em frente.
- Eu não quero seguir em frente.
- Mas você deve. ( ela gritou )
Ele ficou em silêncio, olhando para baixo. Alessa sorria. Ele era bonito demais para estar correndo atrás de qualquer mulher. E se estava fazendo isso era porque se importava. A vítima perfeita na sua opinião.
Kira não disse nada. Apenas olhou uma última vez nos olhos castanhos de sua ex namorada, Sam e virou as costas. Não permitiu que a lágrima presa em seu olho esquerdo caísse. Foi firme. Sam voltou para casa, em frente, e fechou a porta sem hesitar. Alessa sabia o que tinha que fazer.
***
Kira ia embora quando ouviu algo. Era Alessa, mas é claro que ele não sabia disso. Ele se virou para tentar descobrir de onde o som atrás de si podia ter vindo e nada viu, mas quando piscou por breves segundos uma mulher, morena de longos cabelos negros como a noite sem lua, olhos pretos como o rio que não reflete nada, e sua boca colorida de vermelho. Ela sorriu e foi o sorriso mais belo que ele havia visto em toda a sua vida. Seu coração bateu um pouco mais rápido, mas ele tentou não demonstrar nada. Alessa estava com os braços cruzados e apoiava a perna direita na parede.
- Olá, Kira. - disse ela com a voz mais sensual que um ser não humano poderia ter.
- Como sabe meu nome?
Alessa caminhou devagar na direção de Kira e depois de descruzar os braços disse:
- Por acaso ouvi o final da conversa entre você e a ruiva do lado.
- E posso saber por qual motivo estava ouvindo conversa alheia?
- Foi um deslize. - ela disse, aproximando-se mais - não pude evitar depois de olhar você. Precisava saber... - virou-se para esconder um sorriso.
- Saber o que? - disse Kira, agora mais calmo e curioso.
- Se ainda estavam juntos.
- Como sabia que havíamos ficado juntos?
- Eu sei de muita coisa, Kira.
- Como o que?
- Como que você não a ama, e que sua corrida até aqui atrás dela, foi apenas um momento de fraqueza. Sei também que está à procura de um novo alguém na sua vida. Você sabia que ela estava bem, mas precisava dizer um adeus verdadeiro.
- Ok, agora estou assustado. Você está me espionando?
- Não. Li sua mente, apenas.
- Hahaha, tudo bem. Acredito.
- Pois devia. Caso contrário, como saberia que pensou nesse exato momento que gostaria de me beijar?

Kira não respondeu. O sorriso sumiu de seus lábios de súbito. Ele olhou para Alessa que também estava séria. Ele mal teve tempo de raciocinar. Alessa o prendeu contra a parede. Uma mão no pescoço e a outra prendendo uma das mãos. A outra estava livre, mas Kira não se atreveu a move-la. Quando fitou os olhos escuros, mas sem vida de Alessa ele soube o que ela era de verdade, porém, percebeu tarde demais.
Segundos depois de ela o olhar também nos olhos e sorrir,  cravou-lhe os dentes no pescoço livre que apesar de exalar um perfume tão intrigante que por átimos de segundo ela hesitou em seu movimento, não foi o bastante para impedi-la. Ele gritou, baixo, mas gritou. No entanto, a dor era mais prazer que agonia, logo, ele permitiu que a nem tão jovem vampira continuasse. Seu pescoço marcado por desenhos, bem como grande parte de seu corpo foram mais que atrativos para Alessa. Seu corpo desenhado e trabalhado deram a ela mais que motivos. Deram razões certeiras para que ela o tivesse.
Ele fechou os olhos e pressupôs que agora e ali no beco da rua de sua antiga namorada ele morreria atacado por um ser das Trevas. Mas Alessa parou. Com a boca suja de sangue limpou-a com as costas da mão. Sorriu e mostrou os dentes vermelhos para Kira que cambaleou, mas ficou de pé. Ela segurou a outra mão dele contra a parede. A respiração entrecortada de Kira e seu coração disparado, não de medo, mas de desejo revelaram a Alessa o que ele, de fato, queria: ela. Mal sabia ele que ela queria mais que seu sangue, sua boca ou seu corpo...
Ela não se importou com o gosto que ele sentiria de sua boca e o beijou. E ali ficaram por várias horas. Até que os primeiros raios de sol iriam nascer e Alessa foi forçada a deixar Kira.
***
- Por que não me matou? - perguntou Kira após um longo tempo.
- Porque ainda não está na hora.
- Quer dizer que irei morrer?
- Provavalmente.
Kira ficou em silêncio
- Algum problema, Kira?
- Não. Ser morto por você seria uma honra.







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