1 de março de 2018

05h00



"Deve chamar-se tristeza 
Isto que não sei que seja 
Que me inquieta sem surpresa 
Saudade que não deseja." 
PESSOA, Fernando

Agora tudo faz sentido em minha mente
e não o culpo pelo que não sente
compreendo como não fui a escolhida
jamais poderia contra ela ser a favorita

eu já devia estar acostumada a tais escolhas
jamais fico dentre as primeiras coisas
e por mais que me esforce, a beleza alheia
sempre vence, e eu sou sempre a que anseia

Estou repleta de ódio em meu corpo pequeno
mas ao mesmo tempo dou gargalhas ao extremo
pois foi algo que previ, algo que eu sabia
era questão de tempo, era algo que aconteceria

"Nós somos sempre demais, mas nunca o bastante"
ainda sem compreender como em seu peito palpitante
houve espaço ainda que por pouco tempo
para um ser como eu, um ser tão errante e lento

[Eu nada alcanço, eu nada sou
Nada nunca serei,
Nada não posso querer ser
à parte disso, tenho em mim todas as derrotas do mundo]

minhas mãos decadentes que tocam o piano sem lhe tocar
meu corpo torto e malformado que se arrasta sem nunca mudar
meu rosto falho e minhas decisões errôneas que insisto em tomar
e meu propósito que não é nenhum e eu não deixo nunca acabar

" Então se você me perguntar eu quero que saiba, quando minha hora chegar, esqueça todos os erros que cometi"

Mal fecho os olhos e a imagem de seu belo rosto me vem à cabeça
e então entristeço-me, pois sei que você não quer que o mesmo lhe aconteça
uma vez meu sorriso foi capaz de acalmar-lhe a tempestuosa alma
mas agora busca refúgio em outras cores de madeixas, com outro tipo de calma

a única pergunta que faço ao meu deus Odin é onde foi que errei
como fui tola o bastante, para não saber que não lhe conquistei?
eu sempre sou assim, e só percebo exatamente no fim
que não fui o bastante e que o outro quis assim

meu envoltório rabiscado não chama mais a atenção
como faz meu puro e quebrado coração
e eu tento, chorando, e caída no solo seco, aceitar minha mais bela maldição
que é amar e nunca ser amada, de fato, pelo Anjo enviado para livrar-me da Escuridão

mas ele jamais livra, ele jamais fica
nada (em mim) insiste, nada resta
são tantos nada que todo e nenhum me completa

cravo em meu pulso as unhas quebradas
cravo no meu pescoço o colar enferrujado
cravo no meu peito a adaga mal formada
mas não cravo no órgão pulsante sua decisão
que desde o início foi tomada

ainda não sei porque perco meu tempo escrevendo tais futilidades
ninguém nunca lê, ninguém nunca se importa
e para que haveriam de fazer isso, de que lhes vale se continuo morta?

(...)

Um dia eu termino esse... talvez



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