26 de março de 2018

Quando coloco em pauta o demônio que sou


Quando coloco em pauta o demônio que sou
compreendo todas as razões 
pelas quais você me deixou

Nunca entendi o que talvez teria visto em mim
agora sei que você nunca viu nada
o que enxergou foi um meio para seu fim

E nem foi como Maquiavel
foi muito mais cruel
você forjou meu banho em fel

Quando coloco em pauta o demônio que sou
eu entendo todos os sonhos que abandonou
ao meu lado todas as juras que me jurou

Deteriorada estou e assim sempre serei
O medo toma conta e não sei para onde irei
ansiosa pelo seu sorriso, mas sei que não terei

Como pode um ser tão pequeno sentir tanto?
Como pode um ser tão belo me matar e deixar em pranto?
Como pode um demônio amar aquilo que deus fez com encanto?

Tento todos os dias ao me levantar
aceitar minha sina de jamais me amar
ser amada e querida, jamais passível de tentar

falho miseravelmente quando encontro-me de frente
ao espelho trincado pelo brilho manchado
de meus olhos cansados e de meu sorriso marcado

pela dor de esconder a agonia que é viver
em vão, sem razão, sem um bom coração
pois o que havia de bom você levou
e me deixou
à mercê da sorte
mas esqueceu que só conheço
a morte

tento nos livros encontrar consolo
e então encontro na garrafa um gosto absorto
forço a entrada para que minha mente encontre a saída
e quando acordo desse estado entendo que jamais fui querida

e então, em vão, tento retornar ao meu estado letárgico
falho
fecho os olhos e me encontro com seu sorriso mágico

abro os olhos e você não está ao meu lado
Quando coloco em pauta o demônio que sou
sei porque me deixou e porque já estava acabado
eu nunca haveria de ser o suficiente para um Anjo 
que por mim passou

não diante de tantas maravilhosas opções
o ego escolhe o que lhe convém
mas esquece que ele já havia dito um amém
e então me isolo em meu quarto escuro
choro sem som
grito em silêncio
a lágrimas não escorre
mas a angústia
ela surge e me consome

"Sua dor se foi, suas mãos estão desamarradas"

e eu me pergunto, de que me valem tais versos?
são tão inúteis quanto meus futuros incertos
como minha vida desprovida de validade
como minha mente sem sanidade
e agora entendo por quê me pediu para ficar
quando você já tinha sua data marcada para acabar









2 comentários:

  1. Nossa, maravilhoso. Intenso, denso e profundo. Parabéns.

    ResponderExcluir
  2. Uau! Tem uma profundidade única, é realmente possível perceber a angústia do eu lírico quando ele reconhece que dentro dele há um demônio e sabe que não foi por causa disso que o anjo se separou dele, já que ele não enxergava tal demônio. Isso ajuda a passar ao leitor a profundidade do eu lírico. Parabéns!

    ResponderExcluir

Fale comigo, estranho!

Joy

faço um exorcismo todos os dias (...) respiro e encaro meus demônios eles me sorriem como a morte e então, vez ou outra me en...