25 de julho de 2018

Pianista (e a ) Sereia - Parte I

O relógio batia quase meia-noite e as ruas de Wuppertal, na Alemanha já estavam iluminadas pelos postes de luz. Os habitantes em suas casas... mais especificamente alguns complexos que poderíamos chamar de prédios, mas naquele estilo europeu antigo. Vários apartamentos juntinhos uns dos outros, mas com design impecável em suas janelas desenhadas e pintadas pelos melhores arquitetos e pintores da época.

Naquele bairro específico, as corujas saíam da floresta um pouco distante das casas e pousavam nas árvores que estavam distribuídas pelas ruas. Ali, entoavam seus sons e se comunicavam entre si, permitindo certo barulho à noite. Nada muito pertubador, é claro. Outros animais eram ouvidos uma noite ou outra, no entanto, há certo tempo que um som bastante diferente passou a ser ouvido por aqueles acometidos pelo mal da insônia.



Eram tons menores e soturnos, de fato, que caíam em seus ouvidos sempre que o relógio batia exatamente à meia-noite. Os ouvidos mais atentos logo notaram que se tratava de um piano... e alguns dias depois os olhares mais curiosos se certificaram que a casa que se encontrava no final da rua, quase abandonada e esquecida pelos vizinhos guardava em sua magestosa sala central um lindo e triste piano de cauda preto. 

Qualquer pessoa que visitasse Wuppertal precisava visitar a Universidade de Wuppertal. A velha casa abandonada e triste, mas agora colorida pelas notas daquele estranho músico, passou a chamar a atenção das pessoas que moravam perto da Universidade. 

Depois de uma semana entoando a mesma música, todos as noites à meia-noite, o fato não podia mais ser ignorado. Ninguém se atrevia, todavia, a bater à porta e questionar tal atitude de quem quer que fosse. Os mais velhos cogitaram falar com algum responsável ou mesmo autoridade... quem sabe a própria polícia para averiguar o que poderia estar acontecendo. 

Por mais compreensíveis que os habitatantes de Wuppertal fossem, a música e seu horário começaram a render boatos. 

Será que é algum ritual novo e macabro? Será que é alguém doente? Será que é alguma brincadeira?

Os sussurros começavam às sete da noite quando o sol começava a morrer no horizonte. Os moradores sabiam que em breve uma triste música seria tocada no piano esquecido em uma casa abandonada no fim da rua de seu bairro antes sempre calmo e simplório.

Até que uma bela noite no mês de agosto, quase duas semanas do fato estranho, um rapaz decidiu se aproximar da velha casa. Abriu o portão de ferro que impedia uma maior aproximação das pessoas. Caminhou devagar até a janela já com a tinta descascando, as folhas e flores do antigo jardim já mortas, e a vida que talvez um dia pudesse ter pairado naquele estabelecimento... também morta.

O rapaz trajava uma roupa comum, calça jeans e camiseta. Nos pés um all-star preto. Seu cabelo loiro não lhe permitia negar a nacionalidade, e seus olhos azuis também não. Olhos agora curiosos, bem como seus ouvidos treinados para tocar um violão, não um piano. Uma vez que estava próximo o sufiente não somente para ver quem quer que estivesse na casa, mas também para ouvir melhor a música que saía do belo instrumento ele foi tomado por uma sensação de topor possivelmente explicada somente por aqueles que já fizeram uso de substâncias ilícitas e não bem vistas pela grande maioria da cidade.

O rapaz não conseguia se mexer. Apenas ficou parado diante da janela, ouvindo e sorrindo como se toda a serotonina do mundo tivesse sido injetada em seu cérebro naquele momento. A música que antes por ele não podia ser compreendida agora tocava dentro de sua cabeça apenas. Ninguém mais no bairro ouvia. Se mais alguém tivesse sabido que o garoto decidiu por contra própria adentrar nos recantos da casa abandonada com certeza iria concluir que ele fizera algo para a pessoa que tocava parar com o ato.

Mas não. A moça - pois agora ele se atreveu a olhar mais de perto pela janela - não parou de tocar. Aliás, parecia tocar com ainda mais vontade e desejo... e talvez um pouco de lascívia e sedução. Estava nua, o rapaz notou. Seus olhos brilharam ainda mais. Tirou da testa algumas mechas de cabelo e encostou o rosto na janela marcando o vidro com sua respiração.

As mãos da garota sob o piano dançavam como bailarinas experientes, e seu corpo movia-se junto do ritmo lento e doloroso da música. O rapaz sorria ainda que a música lhe cortasse o coração... o motivo ele não soube dizer ao certo. Ajoelhou-se no montante de terra que havia sobre a janela e atreveu-se, com medo, a abrir a mesma. 

Nesse momento, a garota virou-se de súbito e o garoto nada pode fazer antes que ela o olhasse fundo nos brilhantes olhos azuis e o convidasse para entrar. Ele não hesitou... mas antes tivesse. No momento que seus pés tocaram o chão de tacos velhos e podres da casa sua vida cessou... E seu espírito, sua alma a garota levou.

"Afinal, mais um tolo cedeu aos encantos de meu piano" - ela pensou, antes de terminar sua tarefa: devorar o garoto de modo que nenhum rastro fosse deixado. 


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