15 de outubro de 2018

A Pianista (e a) Sereia - Parte II

Camni estava em sua casa antes abandonada e malcuidada, pois a maioria dos moradores do bairro não ousaram entrar na casa após a saída dos antigos moradores.

Era uma manhã fria e Camni se encolhia no sofá junto de seu café quente e um livro de bolso. O vento lá fora fez com que um dos galhos caísse e atingisse sua janela, mas a mesma não quebrou apenas fez com que Camni olhasse furtivamente, pois temeu ser algum curioso tentando infiltrar um olhar dentro de sua casa.

Os resquícios do jovem de olhos azuis ainda poderiam ser vistos pelos olhares mais atentos. Algumas poucas gotas de sangue próximas do piano de cauda que dava vida à monótona e sem vitalidade sala da casa até então esquecida e abandonada.

Mas não mais que poucas gotas, pois até mesmo as roupas que ele estava usando tiveram um fim bastante conhecido pelas casas de cremação. No fundo de sua casa Camni tratou de construir o que até então, supostamente, deveria ser espaço próprio para churrasco. Uma casinha toda de tijolos com espaço para fogo e carvão no fundo. Todavia, ela jamais queimou carne de algum animal ali... a menos que estejamos falando do animal homem. Claro que ela sempre preferiu suas vítimas ainda com as veias e órgãos pulsando, portanto, a suposta churrasqueira tinha mais utilidades para as roupas e sapatos daqueles que tinham a má sorte de ouvir sua música.

Exatamente. Era com as notas chorosas e melancólicas que ela atraía suas vítimas. Camni era uma espécie de feiticeira... não há muitas delas no mundo, portanto, pouco se sabe sobre tais criaturas. O que nos importa no momento é que mais um garoto foi vítima dela. Ela se mudava de tempos em tempos quando achava que poderia começar a levantar suspeitas. Afinal, uma jovem de beleza descomunal e voz e talento ainda mais incomuns que se muda para qualquer cidade e de repente jovens até então saudáveis e com a vida toda pela frente começam a morrer. é algo que muitas pessoas poderiam achar, de fato, estranho.

***

Conforme os dias se passaram as pessoas continuavam a comentar a morte do garoto. Quer dizer, desaparecimento, já que corpo algum fora encontrado. Camni era ainda menos vista. Não se importou em levantar suspeitas, pois sabia que iria embora antes que qualquer tipo de investigação pudesse ser feita. Ela só precisava de mais duas vítimas.

Os dias se passaram e ao que pareceu ninguém deu realmente parte do desaparecimento do garoto, logo, Camni ficou mais tranquila a respeito de sua futura mudança e isso lhe deu mais tempo para trabalhar em outra música que pudesse encantar algum jovem perdido às proximidades de sua casa.

Naquela tarde de quinta-feira, Camni entoava tons menores, melancólicos como somente Chopin sabia fazer... sua favorita, Notucturno em D menor. Seu corpo se permia embalar, seus olhos fechados, sua mente em qualquer outro lugar que não fosse a Alemanha.

Abriu os grandes olhos azuis quando ouviu alguém se aproximar de sua casa. Era um  jovem muito bem aparentado, como a grande maioria, os cabelos loiros caíam sob os olhos da cor do céu limpo. Os braços eram fortes, visto que pareciam querer saltar à camisa. Ele tinha nas mãos alguns panfletos, mas da distância de Camni era impossível ver sobre o que se tratavam. O rapaz chamou novamente e Camni pareceu sair do transe ao qual se encontrava, visto que não se mexia enquanto o rapaz pairava em frente sua bela casa.

Assim que voltou a si, Camni rumou para a porta e em então para o portão onde o jovem se encontrava. Ela trajava não mais que uma camisola nada adequada para a situação, todavia, nada explítcito... era tão perfeita a situação que poderíamos pensar que fora tudo combinado. Mas não. Por mais incrível que pareça esse evento Camni não pode prever, e foi então que ao aproximar-se o suficiente para sentir o cheiro do perfume do jovem alto e forte que a esperava no seu portão que ela soube que o impossível... finalmente aconteceu.

Fitou-lhe os olhos uma única vez. Seu coração pela primeira vez ficou quente. E então, a Sereia se apaixonou.


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Evoluir dói

não sei ao certo como começar esse texto. espero que um dia acorde como eu. é doloroso, parece que seus olhos vão se afogar nas próprias lá...